Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

5

O FIO DE ARIADNE

Para Ariadne Chaves

...E era a tormenta a estraçalhar meus barcos,
E era o soluço amargo e a agonia,
E eram meus sonhos naufragando sempre
No mesmo mar em que o amor ardia.

Minha alma triste em mais de mil infernos
Jogou seus passos tortos certo dia,
Mas tu me deste a chave perigosa
Que aos dédalos escuros conduzia

A mente heróica que não teme a morte
Voltando a si, na escuridão interna
Desafiar seus próprios minotauros
Depois voltar para uma paz eterna.

Eu hoje posso nesta paz augusta
Deitar-me à sombra do teu vulto enorme
De olhos abertos te encontrar sorrindo
Enquanto o resto da cidade dorme...
315

A FLOR INVOLUNTÁRIA

Ela é o ninho onde cabem minhas asas;
Ela é a luz do firmamento, onde o poeta
Ensaia os vôos siderais;
Ela é o espaço onde as etéreas ilusões se fazem carne;
Ela é o mistério que se oculta na catástrofe da vida;
O sono que me chega no ventre da noite esquartejada;
Ela é o sussurro que me fala quando estou sozinho;
Seus braços são o ardor da flor fecunda
De abraços onde cabe o mundo inteiro;
Ela é lembrança do orvalho no campo imaculado
Antes que o Tempo viesse roer os rochedos
E ela é o segredo do velho alquimista
Que via os dias correndo sem tempo
Sem jamais dar razão aos relógios;
Ela é o medo que projeta a sombra enorme
No corpo do simples mistério de amar;
Ela é um trunfo tirado do acaso, roleta russa,
A flor involuntária dos meus sonhos febris,
O instante de paz e de um lindo abandono
Nesta viagem sem destino que chamamos de vida;
Os olhos do Amor que não vive no escuro,
A lua que passa espalhando saudades,
A forma mais pura de medo e saudade,
Simplesmente Natasha...


270

O PÊNDULO

Quem sou eu nestes passos
Que jogaram na estrada?
Sou o medo de tudo
E a certeza de nada.

Quem roubou meu sorriso
Quando o mar é transposto?
Foi a mão que lhe arranca
A beleza do rosto.

Onde fica a beleza
Da promessa cumprida?
No silêncio das rosas
E nas sombras da vida.

Por que a vida não voa
Como a flecha no espaço?
Porque os homens não cabem
Na ternura do abraço.

O que move estes homens
Que caminham na estrada?
É o medo de tudo
E a certeza de nada.
272

TROIA

É preciso urgentemente um coração
Duro como ferro, mas que saiba amar.
É preciso urgentemente um coração
Que seja terno, mas difícil de quebrar.

Fomos vencidos, mas dos nossos ossos
Levantar-se-á uma vasta legião
De crianças negras, as mãos possantes,
Os olhos transbordando de vingança.

Das nossas cinzas, ó desventurados,
Anjos caídos tecerão estrelas.
Dos nossos gritos, enfrentando o tempo,
Os menestréis celebrarão a Glória.

Ergamos as cabeças sobre os muros
Do dédalo que cresce em nossa volta.
Andemos, semeando terremotos,
Gravando nossos passos no asfalto quente.

Forjemos asas de cimento e vidro,
Lanças perfurando a abóbada celeste,
E tragamos em nossas mãos banhadas em sangue
Tênues raios de sol, filhos bastardos do dia.

Tróia urge um coração, duro como ferro
Que nem Aquiles possa transpassar.
Tróia urge um coração, que seja terno,
Mas duro como aço e grande como o mar.


361

O MARINHEIRO

O marinheiro leva no peito uma chama
Que nem os sete mares podem apagar,
Nem pode enfraquecê-lo o brilho do luar,
Tampouco o tempo, que toda ferida flama.

Ele olha ao redor... Sobre a terra não há
Onde ancorar o coração de alguém que ama.
Come a erva de Glauco e deita sobre a cama
Infinita, profunda e silente do mar.

Deixa no peito a dor que te torna sombrio
Pois não é bom andar de coração vazio...
Leva dentro de ti uma mágoa secreta.

Sente o amor e o mar tornar o espaço raso...
Sente o tempo passando nas rugas do ocaso...
Sente a morte selar teus dias de poeta...


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