Ataraxia
Acordo
Antes de ver a luz solar,
Clareia a minha cara a luz do celular
Imediatamente sou inundado
Submerso nessa realidade
Sem saber o que é falso ou verdade
Com tanta tecnologia
A vida foi perdendo a magia
O que antes aproximava
Agora distancia
vicia
Hoje, todavia
Não quero saber de nada
Nada além do que não posso tocar
Fico com o concreto, o tangível
Por mais que pareça impossível
Cansei
de me preocupar
de tentar me antecipar
ao que não posso alterar
A vida é o aqui e o agora
Mas o dispositivo me transporta
Faz com que o tempo eu não perceba
Rouba minhas horas
E ainda tenho de lidar com o fato
de ser, ao mesmo tempo,
a vítima e o autor
Quem será o júri?
A pena já cumpro
Tivera eu nascido
Algumas décadas atrás
Quando amigos eram encontrados,
e não adicionados
E notícias vinham em folhas de jornais
Quando pessoas eram mais
que a mera ideia delas
E abraços não eram virtuais
Hoje, no entanto, não vou acelerar
O trem veloz pode passar
Permaneço nesta estação
Resistirei a essa maldição
Torna-te humano
O homem não nasce humano
Humanidade não vem de nascença
Tampouco depende de crença
É uma conquista, mais que uma bença
Se careces de quem o convença
Talvez morra na pendença
Ela se aprende é na vivença.
É no contato com teu semelhante
Na lágrima do imigrante
Num comentário deselegante
No orgulho do doutor arrogante
Na simplicidade do ignorante
Na beleza de uma tela inebriante
Na sinceridade do infante
No soar de uma música contagiante.
Não ignores, da criação és coautor
Tens o poder de criar e de destruir
De limpar e de poluir
De acolher ou de excluir
De, como uma fera, atacar
Ou, de como um deus, cerzir.
Mas se ao Olimpo pretendes subir
Humano antes hás de devenir.
Bandeira branca
Aliei-me a meu mais letal inimigo
Sei que os termos não são os melhores
Ele vai tirar pessoas amadas de mim
Enfraquecer-me os músculos e articulações
Vai me matar também no final, eu sei
O que pode se dar a qualquer momento.
Por ser superior e imbatível
Vai fazer de mim de gato e sapato
Às vezes, numa solitária vai me por
Só para me lembrar que sozinho estou
Mas sempre vai me enviar bons visitantes
Pra que eu me sinta só apenas por poucos instantes.
Ele não é traiçoeiro, segue o combinado
Se eu souber jogar e minha parte cumprir
Tornar-me-ei mais poderoso a cada dia
A nenhum outro irei sucumbir
Menos diante dele.
Prometeu-me, só se eu fizer minha parte,
Beleza, Bondade e Justiça
Prometeu-me o poder de curar
De espantar o mal aonde eu chegar
De fazer lágrimas converterem-se
Em belos e sinceros sorrisos.
Nos termos do acordo, devo ser honesto
Pra ele e pra ninguém jamais devo mentir
Ficou proibido dizer coisas só pra agradar
Em troca, jurou-me não deixar dúvidas
De quem do meu lado realmente está.
Ele é o temível e piedoso Tempo.
Não o vencerei
Mas está a me ajudar.
Tanatofobia
Morre-se
Cada minuto me faz lembrar
Me dá calafrios imaginar
Meu corpo coberto pela terra
No escuro, no silêncio
Imobilizado
A ideia de adormecer
De nunca mais acordar
A vida em minha fronte crepuscular
O mergulho no abismo
O pensamento fixo
Quem vai primeiro?
Eu, você ou ele?
Se o dilaceramento cruel é certo
Para que nos unimos?
Medo que antecipa o luto
Convivo com esse vazio
Que atravessa toda alegria
E com essa vergonha secreta
Que não ouso confessar
Seu nome é obsceno
Ninguém quer dela falar
Se o inverno chegar
Preparo-me para o inverno
Busco o que dure Ad Eternum
Valho-me da força da estação
Ainda gozo da plenitude do verão.
Cândidas memórias da primavera
Quando nem a chuva mais severa
Podia ser óbice para a felicidade
Os olhos eram cegos à maldade
Mas a verde folha seca e cai
A flecha do bravo caçador retrai
O que era forte perde seu vigor
O belo não exibe mais fulgor
Agora sopra o vento do outono
Alerta que o tempo não tem dono
Na bagagem o estrito necessário
Lembra que viver é ato temerário
Haverá quem dirá que este sujeito
Da vida tirou nenhum proveito
Julgues, mas nem tudo te contei
Aprendi com as quedas que levei
Fiz o que tinha de ser feito
Não serei pretérito imperfeito.
Mal crônico
Não sou fotogênico
Sinto-me anacrônico
Um tanto irônico
Em poema lacônico
E também cacofônico
Posso parecer antagônico
Pois sofro de mal crônico:
Penso demais.
Fim da linha
Não me toca mais nossa trilha sonora
Enquanto assisto à torta assar no forno
Sinto asco do beijo, do sexo morno
E falta do frio no ventre de outrora
Pra te ver, já não conto mais as horas
Tento chamar tua atenção, sem retorno
Calo para evitar qualquer transtorno
Quando vens, incomoda se te demoras
O brilho do olhar há muito se foi
Não me fazes mais sentir-me importante
Insistir já não é mais uma opção
Não carece pedir que eu te perdoe
A tua incúria é totalmente aviltante
Vai embora! A chave deixa no balcão
Constatação
Deve ser dura a tarefa de ser ateu
Ver o belo e não saber quem o verteu
Ver cada ser desempenhar uma função
E, apesar de tudo, duvidar da Criação
É certo que há muita dor e sofrimento
Que ainda impera o desentendimento
A escuridão às vezes parece cobrir a luz
O vazio no peito que não se traduz
É um erro querer explicação pra tudo
Trilhar sempre caminho reto e plano
Olhando mas não enxergando, sisudo
Repara o sublime no teu cotidiano
No mais grande e no mais miúdo
Como acordes celestes de um piano.
Por que leio
Na leitura eu me acho e eu me perco
Eu aprendo a desaprender
Eu desaprendo para aprender
Eu me isolo para me misturar
E me misturo para me humanizar
Ler é meu refúgio, meu arrimo
Remédio pra curar a cegueira
Vacina contra o fanatismo
É meu pé no chão
Com a cabeça nas nuvens.