Caíam bolotas e folhas dos carvalhos Dos carrascos e, também, das azinheiras. As rubras azeitonas das oliveiras, Batidas pelo vento, secas dos orvalhos.
Despencavam dos ouriços as castanhas. Gemiam os zimbros, bramiam os lobos Que, em dias de neve, desciam aos povos Famintos. Abandonavam as montanhas.
A noite, numa escuridão sepulcral, Entrecortada, pelos raios dos trovões. Mostrava as copas das árvores, nos clarões, E, os penedos recortados vertical.
O musgo e a hera, trepando em rochas quedas E, os galhos secos das figueiras nuas, Homens andando por veredas e ruas De velhos muros, repletos de azedas.
Os campos desertos, arroteados Onde, crescem os carvalhos e sobreiros, As montanhas, as colinas e outeiros Têm no sulco a rabiça dos arados.
São Paulo 18/05/1964 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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A Candura
A Candura
No murmurejar incessante da fonte Corre água pura, branca, cristalina A brancura dessa água nos ensina Que turva, se for cair fora da fonte.
Como ela é a candura feminina Precisa de muito viço e cuidado Não misturar a candura ao pecado Para não turvar a pureza angelina
Teu ego, na limpidez alabastrina Envolvido por ternuras blandiciosas Não deixará perceber quão mentirosas As carícias recebidas em surdina
Para não seres tua própria vítima Nunca deixes cair tua moral Que a carícia jamais te arraste ao mal Par obteres a vitória legítima.
São Paulo, 07/05/64 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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A Fome
A Fome
Negra! Negra é a fome, A miséria que mata Que aniquila Que desespera Que inanima Que debilita Negra é a fome Negra, Negra Cruel Que mata Corroendo Ressequindo. Negra é a fome, Que não perdoa Pobres orfãos Pequeninos Abandonados, Corpos ao léu, De bocas abertas Pedindo ao céu!... Clamando! Mas tu não perdoas Não te condóis. Os pobrezinhos Trêmulos, Mal alimentados Caminham, quase arrastados. Quase impelidos Por força invisível Tu os persegues Os atacas, De pedra deve ser teu coração Que não te condóis, Não tens compaixão De um pequenino, De um infeliz, Desventurado, Que veio ao mundo Amargurado, Para pagar, Para ressarcir O seu pecado Que em outras era Praticou. Mas tão pequenino, Ainda, Como podes tu, não perdoar! Mas tu és pedra, Pedra, Pedra, Pedra, Negra, Negra, Sem coração. Que não perdoas Ante as bocas famintas Escancaradas, Tu não perdoas, Não perdoas. Assim vais matando, Sacrificando, Em holocausto. Matas a vida da vida, Tiras a seiva vital, Desses pequeninos, Miseráveis... Deixas morrer à míngua Sem dó, Sem piedade, Tantos corpos sadios, Com que tens saciado tua gula, Tua gula hiulca, Sagaz! Como podes tu, oh! fome! Continuar impune? Monstro, Monstro negro! Monstro sem coração. De hoje em diante, Regenera-te, Tem compaixão Se dás ao rico, Não deixes faltar ao pobre o mesmo pão. Regenera-te, Regenera-te, Serás um monstro de coração.
São Paulo, 08/04/1964 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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O Sol
O Sol
Nos pináculos do zênite o sol dourado Resplandece orbívago alcandorado Projetando em catadupas a luz do dia Rompendo as trevas na amplidão da utopia.
E nas pulquérrimas asas do Empíreo Vives alado na imensidão do sidéreo Por miríades de anos enamorado Tens sido até pelo homem idolatrado
Na amplidão cerúlea, cercado de estrelas Tu és o Rei perene entre as coisas belas Habitas entre Deus, as estrelas e os céus Os páramos celestiais, domínios de Deus!
Lídima é porém, essa tua morada Pois foi Deus que te colocou na sua alçada Para dares calor, luz e vida ao mundo Demonstrando que até tu és oriundo.
São Paulo, 18/04/1964 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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Fomentação ao mal
Fomentação ao mal
As grandes fortunas investem pesado Nas bandeiras escarlate que se agitam Prescindem da apostasia do legado No apoio àqueles que mais gritam,
Subvertendo com esse entendimento As ideologias diferentes de sua situação; E com esse abjeto comportamento Alimentam a torpeza da dominação
Abandonam a fé, triunfa o mal O homem passa a ser escravo da facção E é tratado como produto estatal Sufocando a liberdade e a reação
É o declínio geral do ser humano Subvertem os princípios legais Aviltam a fé, apóiam o profano Não há amor, são insentimentais.
Porque assim agem as grandes fortunas Ironicamente contrarias à sua formação, Do capital, amealhado em oportunas Torpezas mil, de sua negociação
E é sempre o capital o gerador do mal. Vejam o caso do bin Laden; Das empreiteiras brasileiras, e o pior, É que esse capital... produz o semên !
Porangaba, 12/03/2016 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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L á g r i m a s
L á g r i m a s
Lágrimas, Caindo, caindo uma a uma De faces veludíneas, Rolando, Rolando, Olhos vermelhos, Cansados, vão ficando ressequidos. E as lágrimas, Rolando, caindo! Esperanças, Quimeras, Sonhos, Ilusões, Caindo, Caindo, Caindo! Perdem-se, Confundem-se, Entrechocam-se, Misturam-se com o pó. As lágrimas, Vão sulcando as faces, Prateando os cabelos, Sempre rolando, Rolando sempre... Ora de alegria, Mais de tristeza. Caindo, Caindo! Vão tombando, Como tombando Vamos tu e eu!
São Paulo, 08/04/1964 Armando A. C. Garcia
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Chegada Da Cegonha
Chegada Da Cegonha
A cegonha anunciou... E, logo às primeiras dores, De alvoroço e alegria! Nervosa fica a titia. A futura mamãe aflita, Já chora, blasfêmia e grita. A titia cheia de pavor... Corre a chamar o doutor. No seu entender o parto, Deve ser lento, sem dor!... A vovó mais experiente, Sorri, satisfeita, contente Mais um neto, uma flor! Que importa vir o doutor!... ............................ Mais uns minutos passados Chega o médico atarefado Logo em mangas de camisa Vai fazer cesariana, Mas constata! não precisa... Pois naquela guerra ufana, Nasceu uma bela menina. ........................ Pega a nenê pelos pés, Na nádega da uma palmada E num choro se desfaz... Nhé-é-é...nhé...é...é, nhé-é-é... Nhé-é-é...nhé...é...é, nhé-é-é... .......................... Nervoso no corredor, O pai anda apavorado De ouvir o choro lânguido, Permanece angustiado, Rói as unhas e se agita Por todo canto da casa. Sua mulher já não grita Ele sente os nervos em brasa, Nem a rezar se compraza Pedindo pela mulher. Teme que ela bata a bota Sem saber o que fazer Chega ao quarto, abre a porta! Não encontra a mulher morta... Pervagueia seu olhar, Vê uma linda garota. E, sua mulher absorta, Mal sabe, se viva ou morta, Assiste a tudo calada, Pois a infeliz a coitada, Não sente forças p'ra nada. .......................... A casa num alvoroço, Com visitas a chegar Mais parece um nosocômio Com crianças a berrar...
Nhé-é-é...nhé...é...é, nhé-é-é... Nhé-é-é...nhé...é...é, nhé-é-é... Em tamanha confusão, O pai vai à garrafeira Na pipa põe a torneira, Trás presunto e salpicão E... É tamanha a bebedeira Que o médico tomba ao chão, Bem aos pés da cabeceira. Só no outro dia desperta E então relembra a festa... Põe o chapéu, cobre a testa... E até logo meus senhores!...
São Paulo, 04/04/1964 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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Ingratidão
Ingratidão
Cheia de cansaço a velha caminhava Banhada de suor ao esforço que fazia Arrastando carro de mão onde trazia Armarinhos, que na feira negociava.
Um dia, o carro dum rico industrial Cruzou com ela na rua e se deteve E sem um cumprimento, ou um gesto leve Pós nas suas mãos uma nota de cabral!
Após breve conversa, encabulado Num gesto mudo, em seu carro se afastou. Foi então, que a boa velhinha me contou: Que é seu filho e vive dela envergonhado!
Mas se hoje é rico, poderoso, estudado, Foi o seu suor e daquele humilde carro... Que lançaram a semente que o tirou do barro Onde não fosse por ela, ele estaria enterrado!
São Paulo, 30/03/1964 (data da criação) Armando A.C. Garcia
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A Aldeia
A Aldeia
Nasce uma estrela, é noite, e a seguir a lua cheia Já começa a despontar, tocando a linha do horizonte. Os grandes carros de bois vêm chiando pelo caminho Grupos de moços e moçoilas, tão frescos como arminho Vão cantando à desgarrada pelas quebradas do monte E na aldeia sossegada, vê-se o luzir da candeia. Já nos beirais do telhado repousa a andorinha dormente Pia o mocho arrepiado, naquele seu choro dolente E já de regresso à aldeia, o pastor trás seu rebanho O cabreiro desce a serra.; do prado vindo é o boieiro, Já na capoeira o galo, tem subido ao seu poleiro. Só de vigia estão só cães a um movimento estranho. E na aldeia sossegada, vê-se o luzir da candeia. Rompe o dia, é manhã cedo, de novo começa a vida Já a cotovia do prado é distraída e contente Da chaminé do telhado, sai o fumo espessamente No sino do campanário a badalada é repetida E é este todo o fadário de uma aldeia adormecida...
Portugal 21/09/1959 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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A Natureza
A Natureza
Cruzas o mar, a terra, os céus e os montes Em tudo que passas vês novos horizontes Nos céus os planetas e o brilho das estrelas, Na terra os horrores e as coisas mais belas No mar, o azul dos céus e as águas a brilhar Nos montes a natureza, a despontar
Em tudo tens um enigma a decifrar Em cada coisa uma beleza, ou um pesar No mar tem a água, o sal e as tempestades Nos céus trovões e, também, as potestades Nos montes, as feras, os rios e as flores Na terra, os homens, os ódios e os amores
Se existem oásis no cálido deserto E pequenas ilhas no grande mar aberto E brotam gotas d água da rocha dura Se abre o dia, se fecha a sepultura É porque existe algo sobrenatural É porque o mundo não é nosso, é divinal.
São Paulo, 27/02/1964 (data da criação) Armando A. C. Garcia
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