MEU 15 DE SETEMBRO
MEU 15 DE SETEMBRO
Berlim/DDR 15 de setembro de 1974
Hoje são quinze.
Poderia ser onze, sete ou vinte e um,
Ou qualquer data.
Não sei o porquê?
Mas esta data me dói e me fascina.
Talvez sejam quatro depois do onze?
Ou serão seis antes do vinte um?
Não sei?
E não me importa.
Este é o meu quinze de lhe dou nome
Maria, José ou Antonieta?
Não.
O chamarei de SUSI.
O “esse” que me lembra o socialismo.
A sua beleza de amor juvenil,
Visão futuro.
Muitos felizes e sem pobreza.
“U”, símbolo da unidade
União de cantos, amores e vidas.
Nele se sentem todos juntos e de uma só vez
A dor, angústia, delírio e prazeres.
O outro “esse” me recorda o sangue
Sangue de povos que lutam por liberdade
Sangue-operário
Sangue-estudante e camponês.
Sangue de dor de corações cindidos
De folhas mortas que ainda respiram
Sangue de amor, desrespeitado e humilhado.
Vejo sua imagem.
Pernas frágeis por mão sendo amparada.
Cabelos negros ao vendo assoviando
Sorriso largo.
Lábios de seda que beijam com ternura
Mão fortes, as que sabem acariciar e amar.
Quem es tu, SUSI?
Uma Santiago do Chile hoje sofrido e massacrado?
Ou uma Brasília, por verde-oliva ocupada?
Quem es tu?
Talvez um mundo...
Uma mulher...
Uma flor...
Ou apenas o meu sonhar?
Arutãna Cobério
NÃO SEI SE RIMA NÉSCIO.
NÃO SEI SE RIMA NÉSCIO.
Você se lembra daquele garotinho, birrento, burro e mimado?
Um sem cultura, inteligência, o que alguns dizem que passa o dia só drogado?
Aquele pulha, que o acusam de traficante outros de cheirador de pó........-de-arroz?
Se for mau-caráter, eu nem me ligo, mas se for doença, eu sinto dor.
Agora, são vinte e quatro longas e duras acusações, de desvio de verba, furto e corrupção.
Aquele molequinho que na vida nunca trabalhou, sempre viveu montado nas costas do nome do vovô.
Dizem que o cara agora já sumiu!
Estaria se ajeitando para fugir das grades ou provas que o incriminam, estaria destruindo.
Eu m’esqueci, agora, do primeiro nome dele! Mas a memória me faz lembrar da sua personalidade que rimaría com um NÉSCIO.
Arutãna Cobério
O SALTO
O SALTO
Corra,
Corra
Corra.
Do seu passado?
Então salte no vazio do seu
N
Ã
O
Arutana Coberio
RECORDAÇÕES
Belo Horizonte, 13/03/1991
RECORDAÇÕES
Ao te ver sinto
Como é gostoso o recordar dos bons momentos
Do nosso amor.
Tu não te lembras
Quando buscavas, encolhidinha em meus braços,
Calor, carinho e toda proteção.
Eu te beijava a testa, os olhos, a boca e os teus lábios
E o teu umbigo.
Ao ir no teu íntimo de mulher, dizias não.
Corria minha mão afagando os teus cabelos e
Na tua cabeça fazia cafuné.
Massageava a tua nuca
Qual pianista teu corpo dedilhava.
Com a mão forte acendia as tuas chamas e teu calor
Aí caías num sono divagando
E nas ondas da vertigem começavas a surfar
Pouco a pouco nos transformávamos num só ser
A face pálida denunciava o prazer
Nos abraçávamos
Num longo beijo nos púnhamos a descansar
Foi nesta hora
Recordações
Fiquei feliz
Eu te senti mulher.
Arutana Coberio
11 de setembro de 1974
11 de setembro
Berlim/DDR 11 setembro 1974
Eu vi,
Vi rio convertidos em mortos,
Aço debilitado de dor,
Vi a solidão no olhar distante
Corpos rasgados – qual papel solto no terror da noite –
Vi o sol se ocultar de todos, temendo a tudo,
Vida de pedras chorar espinhos,
Corações partidos em linha de metrô.
Esperanças mortas no da lúgubre perfídia,
A paz, justiça fugindo de tudo e todos
Consciência pressionadas
Chispar das chamas de letras indeléveis
Um asqueroso rugido da besta enraivecida
Que dos lábios descarnados víboras escorriam
Vi,
A história trinta anos retroceder
Vi com ânsia devorados.
Eu vi o milhões de sonhos com ânsia devorados.
Eu vi o ódio na sanha violenta
A impotência diante dos fuzis.
Vi a razão sentida e humilhada,
Arfar do vento frio atordoado.
Vi o presente se tornar passado
Vi o futuro já não poder chegar.
Quão triste era.
O vinho azedo com sangue derramado
Mulheres em gritos:
- Seria parto ou decepção?
Fardas outrora cantadas e aplaudidas
Saqueiam o povo, aterrorizam os e matam.
As avenidas entes engalanadas
Abrem-se em chagas
Corpos deformados, sem nãos sem pés
Brotam qual água de sangue das feridas
Evaporaram-se os vivas, cantos e olés que enchiam os estádios
As arquibancadas cedem lugar para fila de torturas.
A morte viva quer se impor a vida viva,
O tétrico e pútrido, ao festivo e são.
Ar irrespirável de múmias putrefatas
Impor-se ao aroma da flor da esperança.
Vi,
O vermelho tingir até aos altos a cordilheira
A valentia de um povo consciente
Não se curvar diante a prepotência.
Eu vi,
A dor correr.... Correr...
Com seus cabelos soltos e vestes desgastadas
Bradar ao mundo:
“Agora vedes aonde chegam os lacaios,
Pregoeiros da fé, justiça e paz?
Que fazei vós
O mundo experiência
De muitas guerras, injustiça e opressão?
Que fazei vos
Donos da riqueza
Poder humano e fonte de poder?
O cobre derretido as entranhas de um povo queima
E o ouro alheio sarcástico dobra-se em gargalhadas
Watergates, Dawsons e Vietnames,
Ilha das Fores, Auschwitz ao mundo oferecem.
Que fazei vós?
Mas...
As sempre mãos amigas erguem-se em vozes.
Os mortos de quarenta, das tumbas levantam-se em coros
O coração do mundo arde, surgem gritos de oposição
Fotos da besta de óculos e lábios contraídos
E a cruz maldita, para os lados contorcida
Uma vez mais mutila a doce
América Latina.
Arutãna Cobério
OCIDENTE
OCIDENTE B. Hte. 07/1981
Em nome da liberdade,
Democracia justa e cristã,
Rasgam minha carne,
Teu corpo.
Ferem minh´alma,
Teu ser,
Também a mim,
A ti.
Baixo o tacão da víbora assassina,
Fantasiada de cores....
Embebidas de sangue.
Em nome da liberdade,
Democracia justa e cristã,
Depõem governos,
Do povo.
Deportam os meus,
Teus filhos,
Com capacetes [enfiados até o pescoço]
Cospem o ódio,
Da múmia
Apodrecida no mar de suas misérias.
Em nome da liberdade,
Democracia justa e cristã,
Deixam a mim,
A ti,
Morrerem de fome,
Filhos, os meus,
Os teus,
Enquanto os do escárnio
Bailam e cantam
Na volúpia dos dólares
Já corrigidos.
Já não respeitam
O teu amor – por eles em séculos decantado –
Invadem tua casa,
Matam tua fé.
Os seus ministros – senhor –
Achincalhados,
Por defenderem a esperança.
E teu lar,
Destroçam com bombas e baionetas
Tudo,
Em nome da liberdade, democracia justa e cristã.
Roubam a pátria e
Vendem o teu sangue.
Me crucificam,
A mim,
A ti,
Os nossos irmãos,
Que uma e uma tão só vez pecaram.
Acreditam em patentes,
Traidoras,
Turíbulos com incenso envenenado.
Em comunistas
Comendo criancinhas
Que lhe tomam tudo,
O que jamais haviam possuído.
Arutãna Cobério
TE FIZ MULHER
Belo Horizonte, 10/03/1991
TE FIZ MULHER
Te conheci criança, frágil, insegura,
Sem amor próprio, pois não sabias conjugar o verbo amar
Num só momento, e tão só, o sexo inconsequente
Mas...
Queiras ou não queiras
Te amei profundo
Eu quis fazer em ti surgir uma Mulher
Acreditavas burra, sem inteligência
Nem um minuto assentada podias lá ficar
Uma só frase três, vezes ou mais devias ler
Mas...
Queiras ou não queiras
Te amei profundo
Eu quis fazer em ti crescer uma Mulher
Roupas estranhas, até inacabadas
Olhar esquivo, talvez sem saber, sem poder olhar
Andar apressado de gente agitada
Mas...
Queiras ou não queiras
Te amei profundo
Eu quis fazer em ti despertar uma Mulher
No ato do amor, do sexo bem amado
Tu não sentias, antes, o gosto do prazer
Envergonhada não sabias sequer pedir
Mas...
Queiras ou não queiras
Te amei profundo
Eu quis fazer em ti ressurgir uma Mulher
Rodando Minas, todo este Brasil
Nossas fronteiras pudestes ultrapassar
Para no intelecto crescer teus horizontes
Mas...
Queiras ou não queiras
Te amei profundo
Eu quis fazer em ti nascer uma Mulher
Mas, até hoje não podes crer
Que o amor é tudo e nele podes confiar
Se entregando inteira, de corpo e alma
Pois...
Te amei profundo
E
Queiras ou não queiras
Não es a mesma
Te fiz
E hoje es uma MULHER
Mas....
Do fundo do seu ego aflorou o mau-caráter.
A culpa não é tua.
Introjetastes as desilusões
As frustrações e mágoas não resolvidas
E, como modelo, só isto aprendeste:
Amor por si só não presta, use as pessoas
Viva sozinha, com seu orgulho, vaidade e
E faça a corte a um fraco, um fracassado
Se rebaixando à antiga submissa e desprezada.
Mas...
Queiras ou não queiras
Te amei profundo
Agora depende de ti e só de ti
Ser uma verdadeira Mulher
Arutana Coberio
E AGORA MANÉS?
E AGORA MANÉS.
Bateram panelas, soaram apitos,
Aclamaram nas ruas, como bloco ignaro
Saudando um nazista, Jair Bolsonaro.
Pediram a cabeça de uma mulher,
Apelidaram-na rainha da corrupção
E chamaram, o de nove dedos, de maldito cão.
Escolheram um homem fingido e sem foro
Deus dos odientos e dos sem causa honesta ou qualquer razão
Que escolheu suas vítimas, de forma nojenta, e vergonhosa conduta de prevaricação.
Trocaram a mulher por um traidor.
E o mordomo da morte do poder se apossou;
E sem qualquer vergonha, pudor ou valor
Escolheu seus lacaios entre os mais de 40 ladrões.
E agora MANÉS?
Arutana Coberio
ROSA FLOR
Belo Horizonte, novembro/1983
ROSA FLOR
Rosa.
Rosa é
Vida
Amor
Sorriso
Alegria.
Floresce e
Na primavera é flor.
Mas seu aroma
Encanto-força infinita,
Suporta o rude verão,
As intempéries do outono,
A solidão do inverno.
Dons que a faz por todos
Amada e admirada
Existe sempre u’a mão para recolhê-la
Neste momento
Es tu
Oh flor das flores
A minha doce rosa.
Arutana Coberio
TE FALTA AMOR
TE FALTA AMOR
Tu não ouviste
O som da pétala que cai
Em ziguezague e pousa suavemente em teu colo?
Tu não viste
O trinar dos pássaros
Que saúdam o chegar d’aurora?
Tu não colheste, com as mãos em concha
O frescor da sombra do arvoredo
Que a todos protege contra o ardor do sol?
Tu não sentiste o vibrar do brilho das estrelas
Pepitas de diamantes belos
Que adornam o firmamento?
Tu não te banhaste nos raios da lua
Que lava a alma, expurga a dor
Trazendo alívio, amor e esperança?
Tu nunca chutaste o traseiro do temor das noites,
Tornando-a palha do seu ninho?
Tu, nunca te cobriste com o lençol do amor,
Que te aquece, a faz dormir e sonhar em paz?
Tu nunca pegaste o aroma das rosas,
Que perfumam as cores do ser amado?
Tu não tocaste o véu da noiva,
Que levitando é arrastado para o sonho de esperanças?
Então......
Não sentes a natureza.
Dentro de ti está faltando tudo,
O AMOR.
Arutana Coberio