Bertardo Fajolini

Bertardo Fajolini

n. 1956 BR BR

n. 1956-08-09, Minas Gerais

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Prece

Oh Deus todo poderoso, com cheiro de goiaba! Como os homens se matam e as vacas pastam! Que alegria, Senhor, nao entender de nada! Beber vinho, comer queijo, à mesa com Jean-Jacques Rosseau e dormir à tarde com a gata. Isto é que é civilidade! O resto é a selva do mercado, chaga aberta, nunca sara. Deixa que se estraçalhem, como hienas, o clero, os politicos, os empresarios,os juizes, os escravos, os militares. Oh minha goiabada cascão! Oh meu doce de leite em pasta!
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Poemas

9

Prece

Oh Deus todo poderoso, com cheiro de goiaba! Como os homens se matam e as vacas pastam! Que alegria, Senhor, nao entender de nada! Beber vinho, comer queijo, à mesa com Jean-Jacques Rosseau e dormir à tarde com a gata. Isto é que é civilidade! O resto é a selva do mercado, chaga aberta, nunca sara. Deixa que se estraçalhem, como hienas, o clero, os politicos, os empresarios,os juizes, os escravos, os militares. Oh minha goiabada cascão! Oh meu doce de leite em pasta!
274

Terra media

O boi que puxa o arado sou eu. Enorme, robusto, solido e lentamente sou eu. No ceu a chuva novamente prepara-se com estrondos e chicotadas. Ao largo os passaros chilream agitados batendo as asas. O Homem com a vara que me guia sabe mais de mim do que eu mesmo.
283

Essencia

Meu amigo, passou por mim e nao me viu. Eu o vi encantado como um bruxo invisivel, um animal sobre uma arvore, outro ser humano com outro rosto, outra mascara. Meu amigo passou por mim e nao me viu, mas nao importa. Eu o vi tao intensamente que eternamente nada nos separa.
288

Ordenha

Hoje pela manhã,
faltaram duas
de minhas cabras.

Sei que com o tempo
todas desaparecerão.

Não posso vigiá-las
armado
com ódio no coraçao.

Devo me desfazer
de todas.

Mas ficarei
com a elizabete,
a mais velha, mansa
e de pouco leite
de todas.
253

Itabirano

O gado deixou em mim sua geografia. Seu cheiro forte impregnado. Nada existo senao o pasto, a gravidez dos anos, o leite dos dias. O gado deixou em mim sua memoria como uma cerca de nervos e musculos sem historia. E´ minha patria um chao fertil de fraude. Um milho vigoroso de revolta.
291

Falta

Tudo que nao fizemos e´que tem valor. O abraço forte, o beijo rosto a rosto nos que deixamos no passado. Nosso sentimento em suas almas, em silencio, sem palavras. Nossas maos dadas , o peito cheio de pensamentos e o vazio do tempo que se esgota. Porque fomos fazer outras coisas solitarias e tudo que nao fizemos, hoje falta.
276

Catedral

Em nenhum palácio editado ao Senhor sou tão feliz a orar, orando aqui como estou, debaixo desta grande árvore, em cima desta verde relva. O perfume das flores, incensário de palavras, evola-se. A sombra de seus braços traz a brisa fresca da paz!A luz transpassa a água e brilha como prata, cálices de orvalho! Pende de seus ramos frutos, doces frutos, que alimenta o corpo muito alem da alma.
262

A gaiola

Um pássaro canta
dentro de mim!

Rouco, louco, embriagado.

Não tem penas,
está inchado.

Estranho e faminto
já não é pássaro
mas relutante e trágico
insiste em ser.

Já não dorme,
pensa sem parar
por esclarecer a todos:
"posso voar, posso voar, posso voar"

Não pode.

E até mesmo a árvore, sua ancestral,
onde deitávamos ao luar
e jurávamos,
declinou as vestes
e nua, descabelada,
tem os pés queimados.

Pobre pássaro,
pobre de mim seu confidente,
(secreto amante)
oculto nossa triste imagem
e não declaro nosso amor
amargo, doente, aprisionado.

Mas ele segue dentro de mim,
cantando,
rouco, louco, embriagado.
297

Separaçao e pedido

Eu sou o morto enterrado, durando uma geraçao de visitas, mas eternamente me consumindo nas vigas de agua e barro.   Oh meu filho encantado! Reune as puras criaturinhas da floresta. Reune os gravetos magicos e traga-os em feixes para mim! As flores despetaladas, os frutos bicados pelos passarinhos! Reune tudo que sobra da austera exigencia humana e traga em seus braços para mim!
261

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