Betina

Betina

n. 1974 PT PT

Dou aulas. Escrevo. Leio e releio, às vezes também fotografo. Tenho tentado juntar aos pouquinhos o que fui plantando aqui e ali.

n. 1974-09-27, Guimarães

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Poemas

12

Sublimar?

É dia, é duro.

Dizer pouco,

os dentes cerrados.

Quantas vezes terei tentado?

Quantas vezes dentes cerrados?

 

Linha por linha

esmiuçar,

ler,

sublimar.

Linha após linha

alinha, alinha, alinha…

 

Vento frio,

menos a luz do sol –

a mãe ri, já não chora.

 

Crucifixo e labor.

Um rosário desfila.

Labor e cama.

Rosário desfiado.

 

A noite? É dura.

 

515

Ultra eu

Você instila anestésico.

E eu aceito.

Na saliva, nos lábios, na língua.

E eu aceito.

Penetra meu pensamento

E esparrama-se ao redor das palavras.

Até que, 

por nós, 

eu conheço o fundo do poço.

Separo em passivo e ativo,

em chiado e discurso,

sorriso e desdém

e fabrico bebida mais pura,

Supra ilusão, 

ultra eu,

servida em bandeja de prata

a convidados ilustres.

512

Dia de escola

Volto ao portão de casa,

para reencontrar a luz,

enquanto este ar, que ar,

põe-me a memória em suspensão.

 

Já está,

encosto folha com folha.

 

Corro pois ouço trovões e,

mais uma vez,

apertam-me o casaco até ao pescoço,

e eu seguro a lancheira colada ao corpo.

 

Pronta ao portão da escola,

sou a menina à espera

sem bola,

sem namorado.

521

Elo

Laço que não alarga

elo de uma corrente,

que é feito desta alma

presente-ausente?

475

A vida é uma coisa ou duas

A vida é uma coisa ou duas?

Ou trama complexa demais,

teia que se recompõe,

tecido de muitas estampas,

unidade:

a minha vida trançada à sua, seja você quem for.

Ou retas que por acaso se cruzam,

planos muito próximos,

pontos de profundidade incomensurável,

porém ímpares neste universo:

a minha e outra mais além.

Não preferir esta àquela possibilidade.

Apenas perguntar como isto funciona.

Afinal, o vento sopra por isto.

Animais obedecem aos delicados sinais.

Cada arbusto, toda a floresta sabe de cor a canção.

Nós, nem o solfejo…

484

Vetores

Vento frio puxe tudo mesmo para baixo,

poeira dos escombros feche-me os olhos,

continuarei seta a percorrer o caminho estreito

sem olhar os grandes buracos escavados,

linear, leve, aérea e também interessada,

como se pela espinha um fio

estivesse esticado, bem teso,

ao lado de uma infinitude

de traços verticais transparentes.

Nem o maior vão do mundo, o horizonte,

conseguirá arrastar-me tanto que

eu perca a capacidade de desenhar curvas,

vetores obedientes a dois eixos.

463

Nódoa e nada

Da nódoa aos nós, 
circula neste corpo 
sangue raro.
541

Forma

Estou a enamorar-me da forma que meu corpo tem.

Até aqui os acordos foram parcos, assim tenho sido.

Mas agora explico-o, explico-me..

Escolhi algumas palavras para nós.

- Eu? Não, eu não estou grávida, minha senhora!

Mas não eram essas as palavras que eu queria dizer!

Essas saíram entre risos, numa pronúncia apressada,

Com recurso a palmadinha no ombro e uma finta,

Mais um afago nas costas da testemunha amarela.

Arre!

Somos sérios? 

Carne?

Osso?

Sozinha, ocorre-me que nunca tivesse acontecido.

É a falta de tato, de contenção que me constrange.

Apetecia-me era ser tratada por menina,

lady,

sweet.

Assim levar-me-iam pela mão:

ouvir, aquiescer e ir.

Tudo em nome da suave ternura não disfarçada.

Algumas fórmulas soam realmente bem,

meu bem.

Mas eu sou mãe, por vezes sou pai,

meu filho diz “Minha maluca”, 

eu estendo as mãos, curvo-me.

Modulo a voz, finalmente tudo cai em si,

caio em mim.

Se trouxesse para a rua um corpo maduro e enxuto,

maduro e de bronze, maduro sem minhas marcas,

diriam que já sou eu, menos desiludidos comigo?

Teria direito a outras falas e a outros gestos?

Em cada ombro, entretanto, dorme um sulco fino.

É um corpo que pende, chora e por isso dá-me paz.

Choro quase todos os dias, gotejando o que pesa.

A forma que este corpo tem cabe no abraço que chorar suscita.

511

Chão

Sombra rasa, sombra que afunda, 
assombração. 
Sobra de vida que arrasa 
o que é devido ao chão.
463

Chuvisco

Podia rabiscar o mundo inteiro
que ainda sobrava chuvisco no pensamento.
447

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Michel Gailard

UM NOTÁVEL TEXTO DE SUA AUTORIA BOA TARDE, BETINA Li seu texto “DIA DE ESCOLA” publicado no site “ESCRITAS.ORG” e gostei bastante de sua forma de se expressar. Você é uma pessoa que sabe o que, e do que está falando. E olhe que esta arte de fazer versos é competência para uns poucos privilegiados. Mesmo sendo agente literário, e prestando serviços para várias editoras, recentemente publiquei alguns de meus escritos em uma antologia produzida pela Editora Palavra é Arte. O sistema que eles utilizam para o edição de livros é algo inédito. Nós autores não gastamos nada com produção da obra. Os exemplares nos são disponibilizados no sistema de venda consignada. Isto quer dizer que se alguns exemplares não forem vendidos, podemos devolvê-los, e estes serão doados a bibliotecas públicas e presídios, inclusive das cidades onde moramos. Como gostei muito da forma como você escreve, pedi permissão à editora para convidar você e mais oito outros autores, para participarem de uma das próximas edições. Se um de seus objetivos quanto à Literatura é ter seus textos publicados em forma de livro impresso, acredito que esta seja uma boa oportunidade. Por isto peço permissão para que façam contato com você e lhe enviem o material referente à publicação. Espero que desta forma, eu esteja retribuindo a sua amizade. Se for dar resposta a esta minha mensagem, gostaria de pedir-lhe que, por gentileza, envie sua resposta para o meu e-mail pessoal que é este: [email protected] Um abraço fraterno, Marc Burnier