A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
Lanço meu olhar através da pequena janela ovalada. Ao meu lado acaba de pousar o avião que vai te trazer para casa. Sou atravessada por um pensamento infame, que desmancha meu corpo por inteiro. Sua casa não é a minha. A nossa casa não existe. Eu queria te ter sem metades, num beijo molhado ou num fim de tarde. Lá fora, no céu, um lampejo de saudade. Há algum tempo, resolvi dizer adeus ao pudor e à ciência. Com lágrimas nos olhos, te escrevo um poema. Sem juízo na cabeça. No coração, culpa. Nas mãos, somente a verdade. E eu, que nunca fui de me abrir por completo, sinto a urgência avassaladora de me entregar (de coração aberto). Se eu pudesse te ter (assim como queria), viveria em festa. A semana inteira, inventaria novos rituais (que pudessem ser só nossos). Agradeceria à vida soltando pipa no jardim aos domingos. Jogando confetes na sala de estar às segundas. Dançando forró dentro do quarto às terças. Fazendo carnaval toda quarta-feira. Nas quintas, me derramaria sobre poemas de amor e taças de vinho tinto. E quanto a sexta-feira chegasse, aqueceria meu corpo junto ao teu, celebrando na carne os mistérios da alma. O final de semana seria nosso refúgio. E poderíamos fazer o que bem entendêssemos. De tempos em tempos, abriríamos a nossa casa àqueles que também nos amam. Espalharíamos fotos de viagens pelas paredes. E quando as paredes estivessem cheias, inventaríamos algo inédito para barrar o tédio de nos possuirmos. Talvez pudéssemos escolher entre uma casa maior ou uma vida nova. Poderíamos nos render aos desejos nobres e caretas que envolvem fazer um filho. Aí seríamos nós, meus seios fartos e uma criança curiosa (e gorducha). Iríamos ao teatro e morreríamos de rir das nossas palhaçadas e piadas sem graça. Olharíamos o mundo através de lentes coloridas e tudo seria melhor, maior, mais bonito. As noites de sono seriam bem dormidas e as refeições sempre fartas (mesmo que houvesse poucas coisas postas à mesa). A vida seria enfim, boa. Feliz, simplesmente por ser vivida lado a lado. Plena, porque seria contigo.
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Domingo (de versos soltos)
Escorre lá fora uma chuva fina E molhada No lado de dentro, me vejo sem saídas Encurralada
Entre a cruz e a espada A boca cala, a mente grita No sofá da sala Sem pretensões, com as pernas para cima
Andando de um lado para o outro Fingindo que a casa é infinita Sinto dor de cabeça, mas não tomo remédios Prefiro lançar meus olhos sobre os prédios
Vejo uma menina fazendo manha Chora para não comer brócolis Acho engraçada a reclamação barulhenta De algo feito especialmente para ela: a birrenta
Uma vez tive um amor Que não foi feito para ser meu Esperneava porque queria engoli-lo mesmo assim Daí a minha diferença para a criança do choro-sem-fim
Já fui também uma mosca Que pousava nas sopas alheias Bebia um pouquinho de cada prato Voava incomodando por aí, nunca satisfeita
Me convenço de que a chuva diminuiu E que posso comprar meus cigarros (de filtro vermelho) Fumar faz mal para a saúde E eu só faço mal para a imagem refletida no espelho.
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Aparências
Teu timbre de voz é parecido com muitos outros Teus cabelos grisalhos não te deixam mentir a idade Tuas pernas miúdas não inspiram austeridade Ainda assim, deixo-me levar pelos teus olhos mornos
Quem não te olha de perto, talvez não perceba Que tu carregas um coração pesado, com leveza E nas tuas mãos, conserta o mundo inteiro, tamanha destreza
Quem não te escuta falando baixinho Não sabe como é bom entregar-se completamente (devagarzinho) Ainda mais com um perfume bom (ou um pouco de vinho)
Mas não me leve a mal, não quero nada além Notando esta minha descoberta, paixão por certo alguém Permaneço em silêncio, sinto-me completa Só eu e tu nas esquinas, brincando de poeta.