A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
O amor muda tudo no mundo. Quer dizer, o amor muda tudo no nosso mundo. A ordem de importância das coisas vira do avesso. A gente descobre que nosso orgulho, nossa soberba, nossa vaidade e mais um montão de outras coisas são pequenas demais para ter lugar à mesa. A gente redescobre o próprio valor da vida. Sente vontade de viver mais para estar ao lado da pessoa amada. Sente vontade de não viver quando está longe. A gente redescobre o significado do tempo. E deseja inutilmente que tempo não passe ou que os minutos do relógio sejam infinitos só para que seja interminável o amor. A gente redescobre o significado do desejo. Quer não possuir, mas se fundir à pessoa amada. Quer sentir cada pedaço do corpo. Tocar cada traço de pele. Sentir o hálito quente próximo à boca. E amar o amor da carne. E quer amar o intocável através do sexo. Quer descobrir o sagrado da alma no sagrado dos homens, na linha dos lábios e no desmanche dos cabelos. O amor muda tudo no mundo. Muda o bom dia ao porteiro e o cafezinho no intervalo do trabalho. Muda o sabor da água e o trago do cigarro depois do almoço. O amor muda o som das notícias do dia e até a gravidade da inflação. É impossível não amar o amor. O amor muda tudo no nosso mundo.
562
Amor de domingo
Depois do almoço, deitados na rede Comendo queijo com goiabada Sentindo a brisa na cara Descansam Romeu e Julieta
A vida passa devagar O sol quente os abraça A paixão ardente se disfarça E se contenta com um doce selar de lábios
Esse beijo rápido e jovem Esse encontro virgem, quase casto Combina com a paisagem, verde pasto Que namora o céu azul, natural emplasto
A tarde corre inabalável O amor continua sorrindo As folhas das árvores flutuam, caindo A Primavera chegou, que belo domingo!
909
O Tempo
Paro e penso: o Tempo não consegue mais se decidir se passa rápido ou devagar. Também não sabe mais dizer o que é hoje, o que foi ontem, o que será amanhã. O Tempo é agora esse espectro confuso, mistura difusa, suspenso no ambiente como uma névoa espessa. Há tempos que o Tempo parou de contar. Sentada aqui, olhando o Tempo nesse seu novo caminhar, resolvo ajudá-lo a quantificar os segundos, minutos, horas. Não tenho sucesso na minha empreitada. O Tempo olha para mim e ri. Com a testa franzida e os olhos apertados, o Tempo me diz:
— Esta tua reflexão é ridícula e mentirosa. Não sou eu quem está confuso. Quem precisa de norte é tu, que forjou em mim o transcorrer da vida, sem saber que a vida não foi feita para ser contada nos intervalos do meu tic-tac. Quem precisa de ajuda é tu, que agora vaga sem saber para onde porque te tiraram os horários marcados. A culpa desta desordem é tua. É sim, toda tua . Porque vives a correr pela hora de início e término do expediente, mas não sabes dizer a que horas nasce e se põe o Sol.
1 399
Às escondidas
Antes mesmo do cair da noite Um abraço proibido, açoite Longe de tudo, fora de vista Acontece numa atmosfera quente, às escondidas
Quando já as últimas chamas solares Colorem a cidade, as cabeças, os lares Um toque explode em surda melodia E cresce e sacode, enquanto se despede o dia
Sob o até logo das diurnas luzes Espetáculo tão belo quanto cotidiano Um entrelaçar de pernas, sem engano Balança a carne, foge das cruzes
Sob a obviedade incontestável do anoitecer Evento tão estarrecedor quanto tedioso Um toque de lábios, encontro fabuloso Se conhece e se experimenta, sem surpreender.
1 001
Beijo de chegada
Sonho com teu semblante sorridente Vivo esperando nosso encontro ardente Vem e me traz um beijo de chegada Faz desse desejo chama consumada
Traz de presente a melodia mais doce Quero descobrir que gosto tem esta paixão Chega de mansinho, na calada da noite Me convence, domina meu coração
Faz meu corpo vibrar nesta tua batida Toma-me num abraço apertado E quando estiver nua, vencida Me ama num amor desesperado
Dança comigo no escuro do quarto Percorre as esquinas do meu corpo E quando cansar, me diz, que eu parto Com o coração em lágrimas, te levo ao porto.
1 021
A voz
A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
1 133
À espera do Carnaval
Derramo meu coração Em amores inventados À espera de beijos, carícias, abraços Que não têm data ou horário marcado
Derramo meu coração Sobre poças, piscinas cristalinas É dessa mistura molhada, líquida Que nasce minha paixão, tão de menina
Derramo meu coração Em mares agitados, tão imensos Em olhares azuis, tão intensos Que me percorrem o corpo e a alma, sedentos
Derramo meu coração Sobre a mesa posta na sala de jantar É nessa tragédia anunciada, refeição bagunçada Que encontro a poesia do sentir, razão de ser amada
Derramo meu coração Em teus contornos, desenhos, curvas Em tuas íris, reservas tão profundas Que guardam as minhas próprias, de águas turvas
Derramo meu coração Sobre teu corpo, meu querer inteiro Porque ele não cabe mais em si, tamanho desejo Que sonha em se fazer real, num eterno Fevereiro.