Bianca Lopes

Bianca Lopes

n. 2002 BR BR

Menina em rascunho. Um dia publico minha edição definitiva.

n. 2002-07-11, Rio de Janeiro

Perfil
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A voz

A voz que hoje se apresenta
Através desses versos sem métrica
É voz já um tanto cansada
Mas atenta

A voz que agora se mostra
Traz consigo alguma coisa de lágrima
Deixa tocar alguma nota de dor
É voz calejada, já sem pudor

Esta voz, que não decide
Entre ser altiva ou ser silenciosa
Transparece anseios de menina, que agride
Que traga a vida, segura e solta

Esta voz, que a duras penas sobrevive
Entre o calento e o abandono
Procura desejos de mulher, que não atingem limite
Que abrem portas e pernas, sem convite

Uso esta voz porque é a única que tenho
Não tem enfeites nem disfarces
Busca tão somente o deleite da coragem
Vive só pela esperança de não ter mais medo.
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Poemas

7

O Amor

O amor muda tudo no mundo. Quer dizer, o amor muda tudo no nosso mundo. A ordem de importância das coisas vira do avesso. A gente descobre que nosso orgulho, nossa soberba, nossa vaidade e mais um montão de outras coisas são pequenas demais para ter lugar à mesa. A gente redescobre o próprio valor da vida. Sente vontade de viver mais para estar ao lado da pessoa amada. Sente vontade de não viver quando está longe. A gente redescobre o significado do tempo. E deseja inutilmente que tempo não passe ou que os minutos do relógio sejam infinitos só para que seja interminável o amor. A gente redescobre o significado do desejo. Quer não possuir, mas se fundir à pessoa amada. Quer sentir cada pedaço do corpo. Tocar cada traço de pele. Sentir o hálito quente próximo à boca. E amar o amor da carne. E quer amar o intocável através do sexo. Quer descobrir o sagrado da alma no sagrado dos homens, na linha dos lábios e no desmanche dos cabelos. O amor muda tudo no mundo. Muda o bom dia ao porteiro e o cafezinho no intervalo do trabalho. Muda o sabor da água e o trago do cigarro depois do almoço. O amor muda o som das notícias do dia e até a gravidade da inflação. É impossível não amar o amor. O amor muda tudo no nosso mundo.
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Amor de domingo

Depois do almoço, deitados na rede
Comendo queijo com goiabada
Sentindo a brisa na cara
Descansam Romeu e Julieta

A vida passa devagar
O sol quente os abraça
A paixão ardente se disfarça
E se contenta com um doce selar de lábios

Esse beijo rápido e jovem
Esse encontro virgem, quase casto
Combina com a paisagem, verde pasto
Que namora o céu azul, natural emplasto

A tarde corre inabalável 
O amor continua sorrindo
As folhas das árvores flutuam, caindo
A Primavera chegou, que belo domingo!
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O Tempo

Paro e penso: o Tempo não consegue mais se decidir se passa rápido ou devagar. Também não sabe mais dizer o que é hoje, o que foi ontem, o que será amanhã. O Tempo é agora esse espectro confuso, mistura difusa, suspenso no ambiente como uma névoa espessa. Há tempos que o Tempo parou de contar.
Sentada aqui, olhando o Tempo nesse seu novo caminhar, resolvo ajudá-lo a quantificar os segundos, minutos, horas. Não tenho sucesso na minha empreitada. O Tempo olha para mim e ri. 
Com a testa franzida e os olhos apertados, o Tempo me diz:
 
— Esta tua reflexão é ridícula e mentirosa. Não sou eu quem está confuso. Quem precisa de norte é tu, que forjou em mim o transcorrer da vida, sem saber que a vida não foi feita para ser contada nos intervalos do meu tic-tac. Quem precisa de ajuda é tu, que agora vaga sem saber para onde porque te tiraram os horários marcados. A culpa desta desordem é tua. É sim, toda tua . Porque vives a correr pela hora de início e término do expediente, mas não sabes dizer a que horas nasce e se põe o Sol.
1 399

Às escondidas

Antes mesmo do cair da noite
Um abraço proibido, açoite
Longe de tudo, fora de vista
Acontece numa atmosfera quente, às escondidas

Quando já as últimas chamas solares
Colorem a cidade, as cabeças, os lares
Um toque explode em surda melodia
E cresce e sacode, enquanto se despede o dia

Sob o até logo das diurnas luzes
Espetáculo tão belo quanto cotidiano
Um entrelaçar de pernas, sem engano
Balança a carne, foge das cruzes

Sob a obviedade incontestável do anoitecer
Evento tão estarrecedor quanto tedioso
Um toque de lábios, encontro fabuloso
Se conhece e se experimenta, sem surpreender.
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Beijo de chegada

Sonho com teu semblante sorridente
Vivo esperando nosso encontro ardente
Vem e me traz um beijo de chegada
Faz desse desejo chama consumada

Traz de presente a melodia mais doce
Quero descobrir que gosto tem esta paixão
Chega de mansinho, na calada da noite
Me convence, domina meu coração

Faz meu corpo vibrar nesta tua batida
Toma-me num abraço apertado
E quando estiver nua, vencida
Me ama num amor desesperado

Dança comigo no escuro do quarto
Percorre as esquinas do meu corpo
E quando cansar, me diz, que eu parto
Com o coração em lágrimas, te levo ao porto.
1 021

A voz

A voz que hoje se apresenta
Através desses versos sem métrica
É voz já um tanto cansada
Mas atenta

A voz que agora se mostra
Traz consigo alguma coisa de lágrima
Deixa tocar alguma nota de dor
É voz calejada, já sem pudor

Esta voz, que não decide
Entre ser altiva ou ser silenciosa
Transparece anseios de menina, que agride
Que traga a vida, segura e solta

Esta voz, que a duras penas sobrevive
Entre o calento e o abandono
Procura desejos de mulher, que não atingem limite
Que abrem portas e pernas, sem convite

Uso esta voz porque é a única que tenho
Não tem enfeites nem disfarces
Busca tão somente o deleite da coragem
Vive só pela esperança de não ter mais medo.
1 133

À espera do Carnaval

Derramo meu coração
Em amores inventados
À espera de beijos, carícias, abraços
Que não têm data ou horário marcado

Derramo meu coração
Sobre poças, piscinas cristalinas
É dessa mistura molhada, líquida
Que nasce minha paixão, tão de menina

Derramo meu coração
Em mares agitados, tão imensos
Em olhares azuis, tão intensos
Que me percorrem o corpo e a alma, sedentos

Derramo meu coração 
Sobre a mesa posta na sala de jantar
É nessa tragédia anunciada, refeição bagunçada
Que encontro a poesia do sentir, razão de ser amada

Derramo meu coração 
Em teus contornos, desenhos, curvas
Em tuas íris, reservas tão profundas
Que guardam as minhas próprias, de águas turvas

Derramo meu coração
Sobre teu corpo, meu querer inteiro
Porque ele não cabe mais em si, tamanho desejo
Que sonha em se fazer real, num eterno Fevereiro.

                            Bianca Lopes
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Comentários (2)

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Flaquiote
Flaquiote

Que bom, gostei galera

Bianca Lopes

Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!