O riso e as lágrimas
Sem dúvida que gostamos
De quem ri connosco
Mas só amamos
Quem na nossa companhia
Partilha as lágrimas verdadeiras
Que sente e chora
E das nossas lágrimas as faz suas.
Tu e eu
Não estares aqui
É apenas a tua ausência
E eu...estou ausente de ti.
Eu deixo de ser eu
Hoje é dia de me entregar aos outros
Hoje deixo de existir como eu
Visto a roupa deles
E caminho como eles
Faço o que eles fazem
Não vão ouvir minhas palavras de lamento
Acreditem em mim
Hoje não vou seguir as nuvens
Nem o Sol, nem a Lua
Hoje vou no caminho certo
Ao lado de quem conhece
Os passos contados.
Deixo de ser eu por instantes
Todos os dias e noites
Esqueço a vida sincera
Recheada de tempo perdido
Em pensamentos e divagações
Fecho todas as janelas entreabertas
E sigo para onde os outros vão
Rumo ao encanto entorpecido.
Ao longe ecoam canções de embalar
Meus ouvidos encontram o arrependimento
Não prometo amar o que não sou
Não me condenem se caminhar meio adormecido.
Está tudo em ti
Porque o tempo passa por ti
E tu não sentes.
Aprendeste a não sentir
É a tua forma de escapar ao resto do Universo
Sendo inocente
Amando as coisas sem perguntar se elas
Querem ser amadas
Mesmo não sabendo, se é certo ou errado.
Se não sentes o tempo, então não sentes nada
Mas vives forte na esperança
Depositas nela todo o corpo
Que julgas ser teu
Tens um perfeito domínio da realidade
E o desejo de nunca acabar
O tempo é um pormenor no teu destino.
É impossível que sintas o que não está em ti
Mas recusas
O tempo e o ar que nos permitem viver
Não vês neles uma oportunidade
De te encontrares
Eles não têm sabor, nem valor
Estão afastados do momento e da satisfação.
Para ti
O tempo é infortúnio
Na imensa e soberba existência
Do teu aclamado ser
É isso que a memória te diz
Enquanto absorves os gestos nos sorrisos
Ou num morder de lábio
E observas as mãos apenas um dia por ano
Enquanto decides o ideal de alguma coisa
O ideal de ti.
Tu sentes
O facto
De as coisas inanimadas serem virtudes
E o pouco ter obrigação de chegar a muito
Assim dormes
Iluminado por dentro
Dominado por pensamentos concretos
Enquanto tudo se desfaz no resto do Universo
Em terríveis pedaços disformes
De areia e terra, lama, pó e vento
Ao meu lado e ao teu lado
Está tudo em ti
Longe no tempo
A verter.
Saudades no peito
São pessoas que já não estão
E eu tenho saudades delas
No meu peito batem todos os seus corações
Nas minhas lágrimas corre o seu sangue.
Mais triste não podia ser ter de lhes dizer adeus
Sem saber para onde vão
Sem saber o que cantam agora
E como é o mundo onde estão.
O desejo de as ver no novo destino é maior que viver
Sinto por elas todas as saudades possíveis
Ou todas as saudades que penso existirem
Com a minha força desejo o mais que posso
Sentir essas saudades sem magoar ninguém.
Nas suas vozes ouço palavras e canções
Como é estranho ouvir aqueles que já não existem
Amigos são por terem criado este feitiço
De conquistar alguém pelo coração
E colorir silenciosamente as nossas vidas.
Eles deixaram através da vida sua magia interior
Demarcaram nada mais que pegadas fundas
Nos caminhos do presente e do futuro
Tornaram o mundo melhor e mais sábio
Fizeram da vida uma honra e uma glória .
Por quem choro sinto no bater do coração
Considero-mo mesmo assim filho da sorte
Por ter a noite e o dia para os lembrar
E viver a dimensão das minha saudades
Sem me esconder do mundo inteiro.
Um dia serão antigas recordações esquecidas
Por quem ao seu coração não os viu chegar
Mas no meu estão as palavras e as imagens
Das figuras vivas que um dia descobri
E sei que existiram para dar sentido ao mundo.
A minha chama
Arde como arde
Fala quando fala
Desse fogo interno
Dizem que o amor está bom de ser escrito
Quem o diz vive acorrentado
E não é igual, não sabe
Somos todos iguais mas uns são mais animais
Todo o homem tem a sua história
Todos são donos do seu passado
Tudo será rapidamente esquecido
Escrito em páginas brancas sem tinta
E o futuro abraçado sem mágoas
Adorado e glorificado.
Em frente dos olhos todas as imagens possíveis
A vida que me empurram garganta abaixo
Só desilude quem não a espera
Surpreende quem não a pensa
O que tu sabes é um fio de cabelo
O que tens por saber é o mundo inteiro
Eu, respondo seriamente a cada pergunta sobre a vida.
100 anos a viver
Todos temos cem anos de vida
O tempo em que estamos vivos
E o tempo em que se vão lembrar de nós
Depois da vida e de vivermos
De estarmos e prestarmos
Os serviços que a vida exige
Morremos no corpo e perduramos na memória
Sendo sempre quem fomos por uma vez
No nosso corpo, na nossa mente
Na vida, no coração dos outros
Na verdadeira alma, na memória deles.
A vida não existe sem a garantia da memória
Vive no corpo sem a razão compreendida
Deem uma alma à memória e ela vos dará vida
Uma centena de anos para todos
Como medida ilógica para justificar a importância
De sentir o pulsar da sua força
E nunca a deixar desistir de nós.
A força do corpo presente
Deixa que nos lembrem e nos esqueçam
Nas vias e caminhos desagregados
A força da memória mantém vivos
Os laços firmes da terra sábia
Diz-nos a vida que viver é saber
Se te lembras das respostas ensinadas
E de te dizerem quem és sem descanso
Insiste em viver com alento
Esses nossos breves cem anos.
Espantalho
O espantalho corria pela planície, ou julgava eu vê-lo correr
Nos meus olhos de pequena semente deitada ao sol despida
Vestido corria como podia, rasgado e empalhado
Tropeçando e rebolando nos trapos que se desfaziam
Camisa sem mangas, calça sem costura, chapéu de palha queimada.
Como homem de plantio que gosta de liberdade
Vive feliz no rés infinito do campo aplanado de manto dourado
Em correrias de pé descalço que o fazem sentir vivo
Mais vivo que o trigo que nasce na seara onde descansa
De braços estendidos para receber os raios de sol quente
Alegram-se os olhos de pano ao ver onde as sementes crescem
Brotam do chão, soltam-se para a vida arrumá-las numa colheita
Tudo acontece no silêncio entre o cantar dos pássaros
E a noite que vem esfriar o mar de cereais guardados com evidência.
Corre o espantalho cheio de vida perseguindo os pássaros
Monte acima, monte abaixo, num infrutífero esforço sem sorte
Frustrado por não ter asas, vai dando pequenos saltos
Sem conseguir alcançar por si mesmo um voo desejado
O universo esqueceu-se de lhe incutir o bom senso de não voar
Galopa imprudente sem cansaço procurando vencer as aves
Ou corre pela alegria de sentir o vento na palha e nos trapos.
Eu, e meus olhos de semente encostados à terra
Crescemos junto dele aferrados na paisagem e abraço cada momento
Em que me deixa existir e ser mais uma das filhas do seu reino
Onde debaixo do céu azul nasce todas as manhãs um pouco de vida
Na seara gloriosa abraçada pelo corpo hirto de palha ressequida
Testemunha do ritual ajustado, cheio de esperança na chuva e no sol
Abrem as sementes os pequenos olhos aos raios dourados
Quando nada mais lhes resta crescem rumo ao azul do céu
Serve a seara a sua glória, serve a terra o repouso das sementes.