Levantem uma bandeira à vida
Levantem uma bandeia à vida
É isso que os dias precisam
Quem levante bandeiras e as agite
Em toda a glória que a vida tem
Não precisamos de mais flores na mão erguida
Só a bandeira nos pode salvar agora
Porque as flores não salvaram
Morreram sem glória em nossas mãos
E apodreceram entretanto ao sol
Sem que as suas vidas tivessem
O significado pretendido
Estamos portanto, fartos de flores
Queremos bandeiras com cores
As cores que dão sentido à vida.
Afastem os poetas, não queremos mais palavras
É necessário repetir aos que não entendem
Queremos as bandeiras, lembrem-se, as bandeiras
As mais pesadas e difíceis de agitar
As que exigem o maior dos esforços
Para ficarem de uma vez presas na memória
As flores não, as flores são leves e lindas
Deixem as flores na sua vida de campo
Façam bandeiras com desenhos de flores
Ou estrelas brilhantes sobre fundo escuro
Melhor de se verem ao longe
Onde estarão pessoas ainda sem bandeiras
Para que elas entendam também
Como as devem fazer e erguer ao vento.
Sejamos amigos por agora
Imaginários receptores da boa vontade
E levantemos essa tal de bandeira
Que na verdade tem um imenso peso
É difícil de bem agitar sem sentir dor
Não lamentem, uma bandeira não é indecifrável
É toda ela previsível, vai balançar ao vento
O mesmo que não consegue varrer vossos defeitos
Ele que varre tudo o que está fora de vós
Vê-se perante a impossibilidade de entrar
E levar com ele tudo o que poderia encontrar
As ideias gastas, as vontades exageradas
Os egos corrompidos inflamados e doentes
As palavras que nunca encontram a consciência.
A vida é levantada ao esquecimento
Por quem planta bandeiras aos ideais
Felizes por saber tudo sobre essas certezas
Esquecem que os sorrisos bizantinos
São feridas infligidas na própria alma
Ela, já tanto necessitada de cuidados
Levantem as bandeiras da verdadeira vida
Deixem os sonhos vãos para outro dia
Homens fortes que seguram a bandeira da sua cor
Cuidado com as dores nos vossos braços
Cuidado com as dores causadas nos outros
Agitem as bandeiras da vida sem pesar
E todas as dores serão suportadas
Pois a ajuda virá sobre todas as formas.
Não serei
Não sei ser poeta
Não sei ser nada
Não sei o que escrevo
Nem o que quero dizer
Não sei ser homem
Nem o que esperam de mim
Não sei ser o inverso de ninguém.
Não sei como conversar
Não digo palavras belas
Para deixar ouvidos felizes
Não sei escutar parvoíces
Nem sei estar no meio delas.
Não sei como outros conseguem
Ser o que lhes mandam
Não sei como se encontram
Entre tontos que bradejam
Na profunda multidão os vejo
Filosofando bocejos
Não sei ver quem sejam.
Não sei ver com os olhos de outro
Não sei ver pouco
Não sei como as pessoas
Não conseguem ser
Não compreendo como esquecer
As bofetadas loucas
Saídas das mãos esvoaçantes.
Não sei ser o começo
De um caminho destinado a não ter fim
Procurado por quem se perdeu
E não teve onde se encontrar
Não sei ser feliz
Se soubesse, o que faria eu com a felicidade
Nem comigo sei o que fazer
Se a felicidade me invadisse
Seria eu o homem mais triste do mundo
Por saber que estava desperdiçada em mim.
Não sei fingir estar louco
Nem dominar a voz da loucura
Não sei como arrumar
A minha vida em outro lugar
Não sei como viver
Não sei o que ser
Definitivamente não sei existir.
Caminhando pela rua só
Sei que quero sair pela rua
E caminhar sem parar
Ouvindo a minha voz
Pesada e sem vontade
Mas caminhando sei como sou
E sinto meu corpo movimentar-se
Esqueço a idade e de onde venho
Onde nasci e o que me tornei.
Dá-me a sede e pergunto porque saí
Deixando o amor para trás
E caminhei sem parar e sem rumo
Mas pergunto sempre, qual amor?
Estou só, penso só, caminho só
Onde está o amor que deveria sentir?
Onde estão os que deveria amar?
Ao meu lado não estão, caminho só
Ficaram no mesmo plano que o Sol
Adorando a luz e seu conforto
E os raios que dizem ele ter
Mas o Sol já passou por aqui
E deixou um vazio que se tornou escuro
É por onde eu caminho, por esse tempo ido
Remoendo o que ainda tenho por remoer.
Saí pela rua
Caminhando só, com a alma fechada
Rindo de mim próprio
E de todas as parvoíces pensadas
Demasiado bem pensadas e bastante profundas
Caminho pela rua para gastar os sapatos
E espero, tal como faço com eles
Desgastar também meus pensamentos
Pisá-los como se fossem as pedras
Irregulares, pequenas e quebradiças
Gosto de pisar e voltar a pisar
As pequenas pedras
Esmagando-as e vê-las tornarem-se pó
Como os meus pensamentos
Todo eles são quebradiços, desmembráveis
Estáticos debaixo dos sapatos duros
Choro pelos meus pensamentos
Estão agora noutra rua
E eu… eu continuo caminhando
Só e pesado, por uma rua nova
E outros pensamentos nascem
E outras pedras se desfazem
Debaixo dos meus sapatos
Esta é uma rua como a outra, penso eu
Cheia de pedras e pensamentos
Não consigo sair das ruas semelhantes.
Como os pensamentos aprisionados
As pedras se prendem nos sapatos
E desgastam a dor que se vai sentindo
Nos nervos distendidos pelo corpo
E é quando a mente pergunta tudo
E define as dúvidas como certezas
Afirmando aos pensamentos
Que a consciência é uma rua desconhecida
Vai-se caminhando por ela
Esperando encontrar quem nos diga
Estarmos no sítio certo
Sem a segurança de o saber
Na direcção vamos de olhos fechados
De pés firmes sigo rumo ao tempo
Procuro gente com capacidade para caminhar
Que compreenda minha vontade de os conhecer
No dia, na noite, entre as estrelas
Sobre as pequenas pedras desgastantes.
A vida vem por bem
A vida vem por bem
Mas o homem tem desdém
De tamanha liberdade
Agarrou-se então ao mal
Pois não lhe parece natural
O que diz a vida ser verdade.
A vida sei meu bem
Não tem sonhos nem ninguém
Que sonhe com ela
O sonho é triste
O sonho é eterno
Tudo o que é belo está perto
Do coração de quem quer bem
O sonho sabes também
Foge de quem não tem
Nem vida nem vontade.
Toda a gente chora
Porque o sonho demora
Em chegar nesta hora
A vida chora também
Mesmo quando não tem
Vontade de chorar.
A vida saiu agora
Passeia só lá fora
Sem a companhia de ninguém
A vida resiste a tudo o que dela se espera
E a tudo o que por aí vem.
A chave da alma e suas palavras
Está escrito que a dor são palavras
E o coração a chave da alma
Suas palavras dão sentido a tudo
Mesmo ao que retiramos o sentido.
Algumas palavras são minhas outras não
Muitas simplesmente esqueço
Outras são grandes demais
Para as guardar em mim
Se todas me conhecessem
O mundo inteiro seria escrito
E eu seria a única frase
Com todas as palavras esquecidas.
Água sobre papel
Papel branco que se molhou
Papel caído em meus braços
Deixei a verter água
Fugiu louca
Molhado ficou
E depois veio a tinta
Preta
O papel em duas cores
Não tem palavras
Não se sabe bem
Como me deixou
Água nas mãos
Correndo em fio turvo
Abandona o corpo
Caem as gotas solitárias
Sobre os pés
Descalços pisam
O papel em restos
Rasgado e impregnado
Pedaços descoloridos
Embebidos e mal tratados
Absorve as palavras dissolvidas
O chão molhado.
Palavra
As palavras afastam
As palavras unem
Palavra do homem
Sentida ou desmentida
Tanto verdade
Tanto mentira.
Ao vento são jogadas
No calor são queimadas
Ao frio são geladas
Quando despidas
São palavras nuas.
Palavras houve um dia
Que morreram dentro de mim
Palavras que nunca mais direi
Esquecidas para sempre na alma
Do homem que nunca serei
Brisas salgadas
São ouro na vida do homem certo
Tristezas são golpes de faca
Amores perdidos são desgraças
O silêncio é esperto
A vida… são águas passadas.
Palavras que disse
No vento as vi voar
Para longe, para o mar
Não voltam mais
Por vezes, ouço-as murmurar
O que dizem são lamentos tais
Falam senão… em voltar.
A possível verdade do poeta
O melhor poeta é aquele que se vê a si por dentro
E tudo questiona para o poder escrever
O melhor homem é aquele que se tornou poeta
E deixou para os outros a normalidade
O melhor poeta é aquele que não sabe ser homem
E pergunta todos os dias, o que é ser poeta
O melhor homem descobre outra vida na poesia
A verdade torna-se finalmente um reino possível.
A saudade é apenas um vento
A saudade é apenas um vento
Deixada nos lugares de casa
Os cantos recolhidos sem sombra.
Uma vez ... e ela ficou
Como uma história
Na memória
Para exercitar o corpo
Quando chora
E entristece
Nos seus próprios cantos.
Lembro-me
Quando findou
A ausência de vento
E surgiu a saudade
Ventosa
Dissipou tudo o que foi.
A vida é só uma rapariga que eu conheci
A vida é só uma rapariga que eu conheci
E com quem bebi uns copos num bar
Enquanto esperava por outras mais acessíveis,
Sossegado num canto escuro e esquecido da sala.
Chegou vagarosa, mostrando as suas formas
Num desfile de quem se insinua a um desconhecido
Sem qualquer respeito pela presença
Do próximo homem humilde a ser testado.
No meio daquela escuridão apenas vi um vulto
Sem face distinta que me aquecesse o coração
E tudo me pareceu uma maldita encenação
Da qual eu não poderia fugir consciente,
Nem que o meu fim inesperado se aproximasse
Trazido pelo braço daquela estranha figura.
Ofereci-lhe um copo da melhor bebida disponível
Como um cavalheiro rendido a uma nova atracção
Mas que não procurou tenra companhia
Por não lhe ver os olhos nem as intenções,
Também não lhe ouvi agradecimentos
Nem satisfação por beber na minha companhia.
Tinha uma presença amarga e distante
E parecia procurar um refúgio seguro
No canto mais escuro e insignificante da sala
Onde poderia repousar o corpo cansado
Na escolha de um silêncio melancólico,
E quem seria eu para lhe dizer como estar
Num canto escuro de uma sala desinteressante.
Depois de algumas bebidas e sem temas de conversa
Entregou-me uma certa esperança com palavras
Sobre a sua existência para os homens que conhecera
E de como no fundo a julgavam desinteressante,
Nasceu nela um profundo desalento nos homens.
Sem temor, disse coisas cheias de meia verdade
Não chorar, e nunca se arrepender de nada
Não sentir dor nem alegria, assim se definiu ela
E então vislumbrei um leve sorriso de malícia,
Disse que para ela os homens são todos iguais
E bebe a malícia deles dentro de um copo cheio
De uma bebida sem qualquer gosto ou satisfação,
Dissolve dentro desse copo uma solução de eternidade
Para que os homens não a tenham, não da boca dela.
Não pude deixar de sentir pena da rapariga
Nem dos seus olhos tristes, que finalmente pude ver
Através do brilho que emanava do copo
Onde ela tinha acabado de dissolver a solução
Parecia verter pequenas lágrimas irregulares
Cada vez que bebia um pouco desse líquido,
A sua expressão revelava dor, os lábios mudavam a cor
De vermelho sangue para um negro morte preocupante
Quem a teria tratado tão mal, pensei eu
Olhando para o meu copo gasto e desamparado
Sem qualquer ponta de eternidade dentro dele.
Surgiram alguns sorrisos nos lábios dela
Mas continuava sem explicar porque estava ali
Sentada na mesma mesa que um homem inútil
Sem destino fácil, perdido para a história
Pensei que me pretendia levar a algum lado
Um sítio ainda mais escuro que aquele bar
De onde nunca ninguém volta nem se ouve falar.
Deixei que fosse ela a proferir as poucas palavras
Testemunhadas por aquela mesa e seus companheiros
Os copos de vidro, com mais marcas de sacrifício
Que o meu corpo e pensamentos nos anos de solidão
Essa sim, uma eternidade cravada em mim.
Estávamos destinados a ser companheiros de mesa
Por um dia, ou apenas algumas horas perdidas
Qualquer das circunstâncias seria aceite por ambos
Eu não ia a lugar nenhum e a vida também não
Vi isso escrito nos seus olhos descrentes.
Estava a sentir-me fraco, como que consumido
Pela vida e a intensidade da escuridão no seu corpo
Esta estranha rapariga sem desejos na alma
Perpetuava o descanso sentada à mesa de um bar
Esperando o tempo passar por ela em silêncio
Sentia-se no débil respirar a sua essência doente.
Certamente viu em mim uma falta de coragem
Para aceitar o mundo e a respectiva existência
Por compaixão, sentou-se e compreendeu o silêncio
A tenebrosidade estabelecida no canto da sala
E a necessidade urgente de entorpecer os pensamentos
Antes de perder a consciência num infinito de ilusões.
A vida é só uma rapariga com quem eu acabei por sonhar
E manter viva na memória durante anos seguidos
Sem lamentar o momento em que a vi sair
E não desejar sorte nas restantes noites sem ela
Sem suspirar por uma saudade eterna, esteja eu onde estiver
Rendido aos temerosos pensamentos inúteis e inconstantes
Em que a mente cedeu mais uma vez.