O riso e as lágrimas
Sem dúvida que gostamos
De quem ri connosco
Mas só amamos
Quem na nossa companhia
Partilha as lágrimas verdadeiras
Que sente e chora
E das nossas lágrimas as faz suas.
A vida é só uma rapariga que eu conheci
A vida é só uma rapariga que eu conheci
E com quem bebi uns copos num bar
Enquanto esperava por outras mais acessíveis,
Sossegado num canto escuro e esquecido da sala.
Chegou vagarosa, mostrando as suas formas
Num desfile de quem se insinua a um desconhecido
Sem qualquer respeito pela presença
Do próximo homem humilde a ser testado.
No meio daquela escuridão apenas vi um vulto
Sem face distinta que me aquecesse o coração
E tudo me pareceu uma maldita encenação
Da qual eu não poderia fugir consciente,
Nem que o meu fim inesperado se aproximasse
Trazido pelo braço daquela estranha figura.
Ofereci-lhe um copo da melhor bebida disponível
Como um cavalheiro rendido a uma nova atracção
Mas que não procurou tenra companhia
Por não lhe ver os olhos nem as intenções,
Também não lhe ouvi agradecimentos
Nem satisfação por beber na minha companhia.
Tinha uma presença amarga e distante
E parecia procurar um refúgio seguro
No canto mais escuro e insignificante da sala
Onde poderia repousar o corpo cansado
Na escolha de um silêncio melancólico,
E quem seria eu para lhe dizer como estar
Num canto escuro de uma sala desinteressante.
Depois de algumas bebidas e sem temas de conversa
Entregou-me uma certa esperança com palavras
Sobre a sua existência para os homens que conhecera
E de como no fundo a julgavam desinteressante,
Nasceu nela um profundo desalento nos homens.
Sem temor, disse coisas cheias de meia verdade
Não chorar, e nunca se arrepender de nada
Não sentir dor nem alegria, assim se definiu ela
E então vislumbrei um leve sorriso de malícia,
Disse que para ela os homens são todos iguais
E bebe a malícia deles dentro de um copo cheio
De uma bebida sem qualquer gosto ou satisfação,
Dissolve dentro desse copo uma solução de eternidade
Para que os homens não a tenham, não da boca dela.
Não pude deixar de sentir pena da rapariga
Nem dos seus olhos tristes, que finalmente pude ver
Através do brilho que emanava do copo
Onde ela tinha acabado de dissolver a solução
Parecia verter pequenas lágrimas irregulares
Cada vez que bebia um pouco desse líquido,
A sua expressão revelava dor, os lábios mudavam a cor
De vermelho sangue para um negro morte preocupante
Quem a teria tratado tão mal, pensei eu
Olhando para o meu copo gasto e desamparado
Sem qualquer ponta de eternidade dentro dele.
Surgiram alguns sorrisos nos lábios dela
Mas continuava sem explicar porque estava ali
Sentada na mesma mesa que um homem inútil
Sem destino fácil, perdido para a história
Pensei que me pretendia levar a algum lado
Um sítio ainda mais escuro que aquele bar
De onde nunca ninguém volta nem se ouve falar.
Deixei que fosse ela a proferir as poucas palavras
Testemunhadas por aquela mesa e seus companheiros
Os copos de vidro, com mais marcas de sacrifício
Que o meu corpo e pensamentos nos anos de solidão
Essa sim, uma eternidade cravada em mim.
Estávamos destinados a ser companheiros de mesa
Por um dia, ou apenas algumas horas perdidas
Qualquer das circunstâncias seria aceite por ambos
Eu não ia a lugar nenhum e a vida também não
Vi isso escrito nos seus olhos descrentes.
Estava a sentir-me fraco, como que consumido
Pela vida e a intensidade da escuridão no seu corpo
Esta estranha rapariga sem desejos na alma
Perpetuava o descanso sentada à mesa de um bar
Esperando o tempo passar por ela em silêncio
Sentia-se no débil respirar a sua essência doente.
Certamente viu em mim uma falta de coragem
Para aceitar o mundo e a respectiva existência
Por compaixão, sentou-se e compreendeu o silêncio
A tenebrosidade estabelecida no canto da sala
E a necessidade urgente de entorpecer os pensamentos
Antes de perder a consciência num infinito de ilusões.
A vida é só uma rapariga com quem eu acabei por sonhar
E manter viva na memória durante anos seguidos
Sem lamentar o momento em que a vi sair
E não desejar sorte nas restantes noites sem ela
Sem suspirar por uma saudade eterna, esteja eu onde estiver
Rendido aos temerosos pensamentos inúteis e inconstantes
Em que a mente cedeu mais uma vez.
Eu deixo de ser eu
Hoje é dia de me entregar aos outros
Hoje deixo de existir como eu
Visto a roupa deles
E caminho como eles
Faço o que eles fazem
Não vão ouvir minhas palavras de lamento
Acreditem em mim
Hoje não vou seguir as nuvens
Nem o Sol, nem a Lua
Hoje vou no caminho certo
Ao lado de quem conhece
Os passos contados.
Deixo de ser eu por instantes
Todos os dias e noites
Esqueço a vida sincera
Recheada de tempo perdido
Em pensamentos e divagações
Fecho todas as janelas entreabertas
E sigo para onde os outros vão
Rumo ao encanto entorpecido.
Ao longe ecoam canções de embalar
Meus ouvidos encontram o arrependimento
Não prometo amar o que não sou
Não me condenem se caminhar meio adormecido.
Saudades no peito
São pessoas que já não estão
E eu tenho saudades delas
No meu peito batem todos os seus corações
Nas minhas lágrimas corre o seu sangue.
Mais triste não podia ser ter de lhes dizer adeus
Sem saber para onde vão
Sem saber o que cantam agora
E como é o mundo onde estão.
O desejo de as ver no novo destino é maior que viver
Sinto por elas todas as saudades possíveis
Ou todas as saudades que penso existirem
Com a minha força desejo o mais que posso
Sentir essas saudades sem magoar ninguém.
Nas suas vozes ouço palavras e canções
Como é estranho ouvir aqueles que já não existem
Amigos são por terem criado este feitiço
De conquistar alguém pelo coração
E colorir silenciosamente as nossas vidas.
Eles deixaram através da vida sua magia interior
Demarcaram nada mais que pegadas fundas
Nos caminhos do presente e do futuro
Tornaram o mundo melhor e mais sábio
Fizeram da vida uma honra e uma glória .
Por quem choro sinto no bater do coração
Considero-mo mesmo assim filho da sorte
Por ter a noite e o dia para os lembrar
E viver a dimensão das minha saudades
Sem me esconder do mundo inteiro.
Um dia serão antigas recordações esquecidas
Por quem ao seu coração não os viu chegar
Mas no meu estão as palavras e as imagens
Das figuras vivas que um dia descobri
E sei que existiram para dar sentido ao mundo.
A minha chama
Arde como arde
Fala quando fala
Desse fogo interno
Dizem que o amor está bom de ser escrito
Quem o diz vive acorrentado
E não é igual, não sabe
Somos todos iguais mas uns são mais animais
Todo o homem tem a sua história
Todos são donos do seu passado
Tudo será rapidamente esquecido
Escrito em páginas brancas sem tinta
E o futuro abraçado sem mágoas
Adorado e glorificado.
Em frente dos olhos todas as imagens possíveis
A vida que me empurram garganta abaixo
Só desilude quem não a espera
Surpreende quem não a pensa
O que tu sabes é um fio de cabelo
O que tens por saber é o mundo inteiro
Eu, respondo seriamente a cada pergunta sobre a vida.
100 anos a viver
Todos temos cem anos de vida
O tempo em que estamos vivos
E o tempo em que se vão lembrar de nós
Depois da vida e de vivermos
De estarmos e prestarmos
Os serviços que a vida exige
Morremos no corpo e perduramos na memória
Sendo sempre quem fomos por uma vez
No nosso corpo, na nossa mente
Na vida, no coração dos outros
Na verdadeira alma, na memória deles.
A vida não existe sem a garantia da memória
Vive no corpo sem a razão compreendida
Deem uma alma à memória e ela vos dará vida
Uma centena de anos para todos
Como medida ilógica para justificar a importância
De sentir o pulsar da sua força
E nunca a deixar desistir de nós.
A força do corpo presente
Deixa que nos lembrem e nos esqueçam
Nas vias e caminhos desagregados
A força da memória mantém vivos
Os laços firmes da terra sábia
Diz-nos a vida que viver é saber
Se te lembras das respostas ensinadas
E de te dizerem quem és sem descanso
Insiste em viver com alento
Esses nossos breves cem anos.
Está tudo em ti
Porque o tempo passa por ti
E tu não sentes.
Aprendeste a não sentir
É a tua forma de escapar ao resto do Universo
Sendo inocente
Amando as coisas sem perguntar se elas
Querem ser amadas
Mesmo não sabendo, se é certo ou errado.
Se não sentes o tempo, então não sentes nada
Mas vives forte na esperança
Depositas nela todo o corpo
Que julgas ser teu
Tens um perfeito domínio da realidade
E o desejo de nunca acabar
O tempo é um pormenor no teu destino.
É impossível que sintas o que não está em ti
Mas recusas
O tempo e o ar que nos permitem viver
Não vês neles uma oportunidade
De te encontrares
Eles não têm sabor, nem valor
Estão afastados do momento e da satisfação.
Para ti
O tempo é infortúnio
Na imensa e soberba existência
Do teu aclamado ser
É isso que a memória te diz
Enquanto absorves os gestos nos sorrisos
Ou num morder de lábio
E observas as mãos apenas um dia por ano
Enquanto decides o ideal de alguma coisa
O ideal de ti.
Tu sentes
O facto
De as coisas inanimadas serem virtudes
E o pouco ter obrigação de chegar a muito
Assim dormes
Iluminado por dentro
Dominado por pensamentos concretos
Enquanto tudo se desfaz no resto do Universo
Em terríveis pedaços disformes
De areia e terra, lama, pó e vento
Ao meu lado e ao teu lado
Está tudo em ti
Longe no tempo
A verter.
Espantalho
O espantalho corria pela planície, ou julgava eu vê-lo correr
Nos meus olhos de pequena semente deitada ao sol despida
Vestido corria como podia, rasgado e empalhado
Tropeçando e rebolando nos trapos que se desfaziam
Camisa sem mangas, calça sem costura, chapéu de palha queimada.
Como homem de plantio que gosta de liberdade
Vive feliz no rés infinito do campo aplanado de manto dourado
Em correrias de pé descalço que o fazem sentir vivo
Mais vivo que o trigo que nasce na seara onde descansa
De braços estendidos para receber os raios de sol quente
Alegram-se os olhos de pano ao ver onde as sementes crescem
Brotam do chão, soltam-se para a vida arrumá-las numa colheita
Tudo acontece no silêncio entre o cantar dos pássaros
E a noite que vem esfriar o mar de cereais guardados com evidência.
Corre o espantalho cheio de vida perseguindo os pássaros
Monte acima, monte abaixo, num infrutífero esforço sem sorte
Frustrado por não ter asas, vai dando pequenos saltos
Sem conseguir alcançar por si mesmo um voo desejado
O universo esqueceu-se de lhe incutir o bom senso de não voar
Galopa imprudente sem cansaço procurando vencer as aves
Ou corre pela alegria de sentir o vento na palha e nos trapos.
Eu, e meus olhos de semente encostados à terra
Crescemos junto dele aferrados na paisagem e abraço cada momento
Em que me deixa existir e ser mais uma das filhas do seu reino
Onde debaixo do céu azul nasce todas as manhãs um pouco de vida
Na seara gloriosa abraçada pelo corpo hirto de palha ressequida
Testemunha do ritual ajustado, cheio de esperança na chuva e no sol
Abrem as sementes os pequenos olhos aos raios dourados
Quando nada mais lhes resta crescem rumo ao azul do céu
Serve a seara a sua glória, serve a terra o repouso das sementes.