Carlos M. Francisco

Carlos M. Francisco

n. 0000-00-00, Almada

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A vida vem por bem

A vida vem por bem

Mas o homem tem desdém 

De tamanha liberdade

Agarrou-se então ao mal

Pois não lhe parece natural

O que diz a vida ser verdade.

A vida sei meu bem

Não tem sonhos nem ninguém

Que sonhe com ela 

O sonho é triste

O sonho é eterno

Tudo o que é belo está perto

Do coração de quem quer bem

O sonho sabes também

Foge de quem não tem 

Nem vida nem vontade.

Toda a gente chora 

Porque o sonho demora

Em chegar nesta hora

A vida chora também

Mesmo quando não tem 

Vontade de chorar.

A vida saiu agora 

Passeia só lá fora

Sem a companhia de ninguém

A vida resiste a tudo o que dela se espera

E a tudo o que por aí vem.
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Poemas

18

O riso e as lágrimas

Sem dúvida que gostamos
De quem ri connosco
Mas só amamos
Quem na nossa companhia
Partilha as lágrimas verdadeiras
Que sente e chora
E das nossas lágrimas as faz suas.
29

Tu e eu

Não estares aqui
É apenas a tua ausência
E eu...estou ausente de ti.
29

Eu deixo de ser eu


Hoje é dia de me entregar aos outros

Hoje deixo de existir como eu

Visto a roupa deles 

E caminho como eles

Faço o que eles fazem

Não vão ouvir minhas palavras de lamento

Acreditem em mim

Hoje não vou seguir as nuvens

Nem o Sol, nem a Lua

Hoje vou no caminho certo

Ao lado de quem conhece

Os passos contados.



Deixo de ser eu por instantes

Todos os dias e noites

Esqueço a vida sincera

Recheada de tempo perdido

Em pensamentos e divagações

Fecho todas as janelas entreabertas

E sigo para onde os outros vão

Rumo ao encanto entorpecido.

Ao longe ecoam canções de embalar 

Meus ouvidos encontram o arrependimento

Não prometo amar o que não sou

Não me condenem se caminhar meio adormecido.
37

Está tudo em ti


Porque o tempo passa por ti

E tu não sentes.

Aprendeste a não sentir

É a tua forma de escapar ao resto do Universo

Sendo inocente 

Amando as coisas sem perguntar se elas

Querem ser amadas

Mesmo não sabendo, se é certo ou errado.

Se não sentes o tempo, então não sentes nada

Mas vives forte na esperança 

Depositas nela todo o corpo

Que julgas ser teu 

Tens um perfeito domínio da realidade 

E o desejo de nunca acabar

O tempo é um pormenor no teu destino. 

É impossível que sintas o que não está em ti

Mas recusas 

O tempo e o ar que nos permitem viver

Não vês neles uma oportunidade 

De te encontrares

Eles não têm sabor, nem valor

Estão afastados do momento e da satisfação.

Para ti 

O tempo é infortúnio 

Na imensa e soberba existência 

Do teu aclamado ser 

É isso que a memória te diz 

Enquanto absorves os gestos nos sorrisos

Ou num morder de lábio

E observas as mãos apenas um dia por ano

Enquanto decides o ideal de alguma coisa

O ideal de ti.

Tu sentes

O facto 

De as coisas inanimadas serem virtudes 

E o pouco ter obrigação de chegar a muito

Assim dormes

Iluminado por dentro

Dominado por pensamentos concretos

Enquanto tudo se desfaz no resto do Universo

Em terríveis pedaços disformes

De areia e terra, lama, pó e vento

Ao meu lado e ao teu lado

Está tudo em ti

Longe no tempo

A verter.






30

Saudades no peito


São pessoas que já não estão

E eu tenho saudades delas

No meu peito batem todos os seus corações

Nas minhas lágrimas corre o seu sangue.

Mais triste não podia ser ter de lhes dizer adeus

Sem saber para onde vão

Sem saber o que cantam agora

E como é o mundo onde estão.



O desejo de as ver no novo destino é maior que viver

Sinto por elas todas as saudades possíveis

Ou todas as saudades que penso existirem

Com a minha força desejo o mais que posso

Sentir essas saudades sem magoar ninguém.



Nas suas vozes ouço palavras e canções 

Como é estranho ouvir aqueles que já não existem

Amigos são por terem criado este feitiço

De conquistar alguém pelo coração

E colorir silenciosamente as nossas vidas.



Eles deixaram através da vida sua magia interior

Demarcaram nada mais que pegadas fundas

Nos caminhos do presente e do futuro

Tornaram o mundo melhor e mais sábio

Fizeram da vida uma honra e uma glória .



Por quem choro sinto no bater do coração 

Considero-mo mesmo assim filho da sorte

Por ter a noite e o dia para os lembrar

E viver a dimensão das minha saudades

Sem me esconder do mundo inteiro.



Um dia serão antigas recordações esquecidas

Por quem ao seu coração não os viu chegar

Mas no meu estão as palavras e as imagens

Das figuras vivas que um dia descobri

E sei que existiram para dar sentido ao mundo.









25

A minha chama

Arde como arde

Fala quando fala 

Desse fogo interno

Dizem que o amor está bom de ser escrito

Quem o diz vive acorrentado 

E não é igual, não sabe

Somos todos iguais mas uns são mais animais

Todo o homem tem a sua história

Todos são donos do seu passado

Tudo será rapidamente esquecido

Escrito em páginas brancas sem tinta

E o futuro abraçado sem mágoas

Adorado e glorificado.

Em frente dos olhos todas as imagens possíveis

A vida que me empurram garganta abaixo

Só desilude quem não a espera

Surpreende quem não a pensa

O que tu sabes é um fio de cabelo

O que tens por saber é o mundo inteiro

Eu, respondo seriamente a cada pergunta sobre a vida.
























41

100 anos a viver

Todos temos cem anos de vida

O tempo em que estamos vivos

E o tempo em que se vão lembrar de nós

Depois da vida e de vivermos 

De estarmos e prestarmos

Os serviços que a vida exige

Morremos no corpo e perduramos na memória

Sendo sempre quem fomos por uma vez

No nosso corpo, na nossa mente

Na vida, no coração dos outros

Na verdadeira alma, na memória deles.




A vida não existe sem a garantia da memória

Vive no corpo sem a razão compreendida

Deem uma alma à memória e ela vos dará vida

Uma centena de anos para todos

Como medida ilógica para justificar a importância

De sentir o pulsar da sua força

E nunca a deixar desistir de nós.




A força do corpo presente

Deixa que nos lembrem e nos esqueçam

Nas vias e caminhos desagregados

A força da memória mantém vivos

Os laços firmes da terra sábia

Diz-nos a vida que viver é saber

Se te lembras das respostas ensinadas

E de te dizerem quem és sem descanso

Insiste em viver com alento

Esses nossos breves cem anos.
38

Espantalho


O espantalho corria pela planície, ou julgava eu vê-lo correr

Nos meus olhos de pequena semente deitada ao sol despida

Vestido corria como podia, rasgado e empalhado 

Tropeçando e rebolando nos trapos que se desfaziam

Camisa sem mangas, calça sem costura, chapéu de palha queimada.

Como homem de plantio que gosta de liberdade

Vive feliz no rés infinito do campo aplanado de manto dourado

Em correrias de pé descalço que o fazem sentir vivo

Mais vivo que o trigo que nasce na seara onde descansa

De braços estendidos para receber os raios de sol quente

Alegram-se os olhos de pano ao ver onde as sementes crescem

Brotam do chão, soltam-se para a vida arrumá-las numa colheita

Tudo acontece no silêncio entre o cantar dos pássaros

E a noite que vem esfriar o mar de cereais guardados com evidência.

Corre o espantalho cheio de vida perseguindo os pássaros

Monte acima, monte abaixo, num infrutífero esforço sem sorte

Frustrado por não ter asas, vai dando pequenos saltos

Sem conseguir alcançar por si mesmo um voo desejado

O universo esqueceu-se de lhe incutir o bom senso de não voar

Galopa imprudente sem cansaço procurando vencer as aves

Ou corre pela alegria de sentir o vento na palha e nos trapos.

Eu, e meus olhos de semente encostados à terra 

Crescemos junto dele aferrados na paisagem e abraço cada momento

Em que me deixa existir e ser mais uma das filhas do seu reino

Onde debaixo do céu azul nasce todas as manhãs um pouco de vida

Na seara gloriosa abraçada pelo corpo hirto de palha ressequida

Testemunha do ritual ajustado, cheio de esperança na chuva e no sol

Abrem as sementes os pequenos olhos aos raios dourados

Quando nada mais lhes resta crescem rumo ao azul do céu

Serve a seara a sua glória, serve a terra o repouso das sementes.
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