Vem sorrateira Sob a bruma Espuma Do mar fronteira
Sem eira Sem saber Pra onde ruma Vazia A algibeira
Não coaduna Não tem lei Que puna A dama do rei
Venta na vela Na veia Vira caveira Caída da teia Solteira
Sem aprume Exala pela sala O perfume Traje de gala
Fora do ninho Pétala E espinho Dói agora Dói baixinho
Desapercebida De saída De chegada Lua dourada
Pelo céu Sombra serena Segue ao léu Pequena No seu tropel
175
Toda cara é linda
Toda cara é linda Toda segunda É domingo Criou corcunda Espiando o mundo
187
Uma ária
Entoava uma canção Uma ária – Calei Bateu solidão A cantiga Ordinária Antiga via de expiação Soou solidária Ao pesar do coração
Melodia liga Traz o sonho pela mão Dia desliga Vai a vida num escorregão
Poesia não tem alvo Vejo no espelho Calvo São e salvo Ressalvo Você De salto alto Novo sobressalto Assalto no teu cachê
Letra formiga Respinga outra canção Sineta que intriga Lateja sem ter vazão
188
Bruxinha
Caiu da vassoura A bruxinha Que voava baixinho
201
Elogio ao verbo agudar
1. O ar – agudo Cortava a carne À lâmina fina 2. Um poema didático Falta sal No olhar sistemático 3. Palavra se amola Ou O sentimento não cola 4. Fome lacera Desdobra-se É vil espera 5. Verso claro Barriga vazia Gramática e azia
189
Céu violeta
Cândido visitante Na sarjeta No tempo Da seca cruciante
É o que informa O céu violeta
Imagem toma forma Do fundo da luneta
Na norma da letra Miragem Coragem se conforma Na última treta
Transforma a dor Vossa muleta
Seja como for Ouça as trombetas
Sem sentido a rigor Estar no planeta Em rota – perdido Explica nosso pavor
263
Schopenhauer
Subimos cegamente A encosta Do destino que nos arrosta
204
Sonetinho solitário
Há poesia que sai da gente Dando vivas ao regozijo Outras que ficam latentes No fundo do esconderijo
Nenhum verso é inocente Adverte o juízo mais rijo Nas entrelinhas a semente Da canção que lhe dirijo
Da rima triste e evidente Na solidão me corrijo Cego e por vezes crente
Se um ou outro verbo alijo Importante que tente Levar razão ao que redijo