POEMA
Tive, um dia,
um poema
que falava de alegria
magia, sinfonia,
mas a nostalgia
de tudo que via
brilhava irritantemente
sem saber que a gente
quer muito mais
ANO: 1999
O PIANO (VERSÃO NOVA)
Todos os dias Eugênia sentava ao pinano e ficava horas tocando, até sentir-se pronta para enfrentar mais um dia pela frente.
Era uma moça muito bonita, sonhadora e desligada.Morava,como quase todo estudante, com uma amiga com quem dividia as despesas.
Romeu era um ladrão profissional. Não tinha rotina fixa e sempre viveu grandes aventuras.
Aquela tarde Regina, que morava com Eugênia, saiu mais cedo e foi namorar.
Romeu, sem perder oportunidades, entrou na casa. Estava arrumando seu prêmio quando ouviu uma doce melodia barroca. Seria um anjo sentado ao piano? Era, sem dúvida, a visão mais linda que ele já tinha tido. Em silêncio, ficou ali, ouvindo a música escondido.
Por mais de uma hora Eugênia tocou e por mais de uma hora Romeu esperou. Já não pretendia levar nada, só queria ouvir tudo de novo e se entregar aos sonhos mais secretos que ela despertou nele. Então, por fim, deu conta do tempo que havia ficado ali e se retirou, mergulhando na solidão da cidade grande.
Os dias foram passando e Romeu não queria mais nada.Não comia, não dormia, não roubava, só ficava parado, olhando para o nada.
Todo anoitecer ia para a casa de Eugênia e passava horas escondido, ouvindo a musa tocar.
Ele a observava de longe. Sentia suas dores e alegrias. A conhecia bem, ou pelo menos achava que sim.
Certa noite, ao chegar, encontrou Eugênia sentada com um estranho. ELes riam e pareciam íntimos. Romeu sentiu ciúme e virou-se para ir embora. Entretanto, um grito chamou sua atenção e, ao olhar por entre as cortinas, viu Eugênia sendo atacada pelo homem ao seu lado.
Sem pensar, Romeu pulou a janela e defendeu sua amada agredindo o outro rapaz.
Ao término da luta, o moço constrangido levantou-se com dificuldades e fugiu. Eugênia estava encolhida em um canto da sala. A menina, ainda assustada, voltou-se para Romeu e o ajudou a se levantar. Agradeceu e pediu para ficar sozinha.
Sem perder a oportunidade, ele confessou o que sentia. Ao ouvi-lo, a garota, arrogante, disse que jamais ficaria com um "vagabundo" como ele que, precipitadamente, tinha acabado de surrar o filho do mais nobre político da cidade. Ela queria dinheiro.
Romeu, desapontado, decidiu ser fiel a seus sentimentos. Foi roubar algo de grande valor para sua querida. Conseguiu uma coroa única de diamantes, exposta em uma galeria de artes. Assalto ousado que lhe rendeu um confronto com a polícia.
Romeu foi baleado mas ainda não morreu. Correu até os braços de sua amada e entregou-lhe a joia.
Quando viu sangue, Eugênia o empurrou para a rua e gritou o mais alto que podia. Porém, agarrou-lhe a coroa e a escondeu na sua sala.
Romeu morreu, ali na calçada.
Policiais chegaran e um circo midiático foi montado à sua porta.
"Moça, você está bem?"
"Sim, obrigada. Esse homem tentou me assaltar. Ele chegou ferido, quase arrombou a porta, anunciou o assalto e morreu."
"A senhora encontrou algum objeto com ele?"
"Não"
E ela saiu daquele tumulto com um olhar de terror que foi se desfazendo a cada passada.
ANO: 1993
MUNDO SEM FUNDO
Mundo,
que mundo?
Está invertido
ou lá em cima
está o fundo?
ANO: 1995
IRREAL
Um passo para o adeus
até quando é suportável?
Meu sonhos são deflagrados
e a vida destruída
O que é essa sombra
que rodeia sua cabeça?
O que são essas lágrimas
que cercam seus olhos?
É ver o que a mente esconde?
Uma dica, palavra
surgir de monde de ideias
congeladas numa bica,
lugar irreconhecível
Medo de ficar aqui
é medo da eternidade
nesse vazio,
oco,
vácuo de ser alguém
que será apagado
pelo ciclo da vida
ANO:1998
MENTIRA
Flocos da verdade caindo
enquanto todos estão mentindo
realidade crescente
claustrofobia recorrente
naves espaciais descendo
pânico ausente
atualidades para todos ver
ninguém está interessado em saber
durante o verão
o frio habita a multidão
ANO: 1993
MEU MAR DE HELICÓPTEROS
Olho ao redor
Posso tudo e não posso nada
Está tão abafado
Onde os sonhos correm
A maré está subindo
Um suspiro
Se eu te perguntasse
O que é ilusão?
Você me amaria até um dia
A vida precisa disso
Jogue comigo
Faça uma aposta
Qual é a história?
Existe algo real?
Olhe para a frente
Não tenha medo
Se eu te perguntasse
Qual seria a verdade
Você saberia a resposta?
O mundo é enorme
Nos encontramos
Em alguma esquina do tempo
Voe entre os helicópteros
Onde estamos sonhando
Não há preconceitos
Só nossos sonhos
Você diz a verdade?
Sabe, estou mentindo sobre algo
Todos mentem
Ame-me para sempre
Mas, o sempre é mentira
ANO: 1996
GRAMÁTICA DA VIDA
Rimas são ocultas
e na vida são condutas
Gestos não substantivam
emoções que aterrorizam
reescritas em linhas tortas,
ilusões quase sempre mortas
ou palavras são impostas
quase nunca são dispostas
ANO: 1993
ENGANOS
Queria nascer,
tornar-me humano,
nasci, tornei -me um bebê
todos me amavam,
mas...
algo me faltava
Queria ser criança
fazer amigos
ir à escola
brincar
Fui criança,
tive amigos, aventuras,
mas...
algo me faltava
Queria ser jovem
ter meu carro
namorar, dirigir
Fui jovem,
fui à festas, namorei
mas...
algo me faltava
Queria ser adulto
trabalhar
cosar, comprar minha casa
Fui adulto,
casei, trabalhei, progredi
mas...
algo me faltava
QUeria ter filhos
mudar-me para uma casa maior,
trocar o carro, pagar as contas
Tive filhos, comprei casa,
comprei carro,
mas...
algo me faltava
Queria ampliar os negócios
comprar uma mansão
ser um deus
Ampliei os negócios,
comprei mansão
fui tão importante quanto deus
mas...
algo me faltava
Queria não envelhecer
sentar perto dos meus filhos
refazer meu casamento
rever amigos
não estar sozinho...
...Envelheci e já é tarde
meus amigos, não os vejo
meus filhos voaram
...estou sozinho...
Queria recomeçar
ser criança outra vez
pois nada me faltava
e eu não sabia
ANO: 1995
FERTILIDADE
Cobra da virilidade
ame-a por toda a eternidade
razão de sobrevivência
leito de uma carência
alvoroço de uma paixão
outra vez um coração
ANO: 1993
DESEJO
Há um desejo, um grito interior
explodindo como um vulcão
liberando para o exterior
uma forte erupção
São as fantasias,
alegrias, nostalgias,
agonias, paralisias,
democracias, anemias,
melancolias, dislexias,
da vida
numa eterna terapia
Carência vaga
inocência rara
como uma conversa
honesta, sincera,
incerta...
Computadores dizem o sim e o não
controlando toda a emoção
não vivemos, obedecemos
obcecados pelo que não temos
ANO: 1993
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.