Carolina Caetano

Carolina Caetano

n. 1989 BR BR

Eu sou todas as coisas que podem existir. Tudo que pode haver em aí. Eu sou tudo que vejo, e tudo que toco parece alheio demais a mim. Eu sou alheia a mim: uma seta apontando meu rosto. Eu sou a seta, não o rosto.

n. 1989-09-08, Minas Gerais

Perfil
9 782 Visualizações

Outra vez que envelheces

(Aos que envelhecem)

O grande objeto comove-se ao chão
e por sobre seu imoto redor, o chão
e a procedência calma deste tempo
o grande objeto comove-se pela calçada
intacto e grande, e passa-se, como passa
o hálito desmedido das horas
Vê como és frágil, a este ponto, às horas
as que iças junto aos corpos desta terra
se há em ti a permissão de vê-los
aos objetos de menor contenença
iça-os ao comovido chão do grande objeto
se estás ainda a estas horas, quando iças
ao chão e aos redores, e dirige-te
donde estiveres em caudas, ao comovido céu
e à dele várzea tão de mesmo comovente
abaixo do grande objeto
Vê como és frágil a este ponto, ao objeto
grande por sobre erguido em tua nuca
e que a teu imoto redor comove-te
se deparas umas flores miúdas, quais te parecem
fortes, que te parecem homens.
Ler poema completo

Poemas

13

São mediterrâneos quaisquer olhos como os meus

São mediterrâneos quaisquer olhos
como os meus
Entre as porções de terra do meu rosto
Estão molhados onde escorrem
como o Deus
Quanto guturais desde a margem primeira
dessa face rústica e os corpos bruscos
e os céus sustentados por meu dorso
quão molhado por meus olhos o meu dorso.

Havia tempo desde meu corpo:
há quanto meus olhos estão físicos
numa fita pendurada do meu osso.

Devem ser essas instâncias tal estado
surtou-se uma alegria gorda
pelas paredes da minha boca
está eterna esta tarde tão pequena
pode o mundo envelhecer antes da tarde

Que só tenho essa vida miúda
e não anoiteço
que só tenho esse peito miúdo
e a tarde larga
que só conheço este estado poente
e desconheço.
705

A Ponte

Para Gerana Damulakis e seu livro O Rio e a Ponte.

Eu sou a ponte
suspensa e inevitável
eu sou essa coisa descontinuada e dura
afixada nas pontas com a barriga tocando o vão
O Rio são meus olhos
ou como meus olhos o são
disperso e inevitável
como os filhos.
a concentração do Rio em seu ofício me apavora
como as coisas ininterruptas
e as que menos se movem
O Rio é uma série de coisas sem rotação
sem que deixe tempo e tato
ou mesmo o vão imoto onde me atravessou.
Em verdade o Rio está dizível
e cada vez mais claro em meu arco
enquanto corre e se vai enjambrado
está ainda voltado para dentro
como meus olhos
como os filhos
ou como o Rio os são.
702

Da hora em que o dia está só

A casca do dia enrubesceu
acerca das providências ordinais

Meu peito alvorece os pensamentos, errôneo
por causa da hora
(a que o próprio do meu peito transpassa)
O meu peito ensurdece e sabe
pois onde não se diz se cabe
tudo em peito cabe quando calo
os olhos
O meu peito cabe na caixa do corpo
e alegra-se mudo
O meu peito descabe esta hora do enrubescer
(o precaver):
ou se estilhaça ele
ou se extrai todo vermelho
endireita-se o mundo.
A esta hora a crista das minhas pétalas
estilhaça o mundo
não havendo sossego maior que o deste zumbido
e extrai-me o vermelho.

A casca do dia enrubesceu
acerca de meu peito.
727

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Malu Silva

Li alguns de seus poemas e o que me tocou, talvez por estar passando uma situação complicada, aqui, foi o envelhecer...