Heterônimo de Wilson Costa - Escritor, autor dos livros, O anjo do dia, Olhos ferinos, Compêndio de coisas guardadas, Alma, Oxigênio, Falsas impressões, Causos por acausos, Causos complicados, Ensaios de uma vida toda,
Tinha um bar no inferno, onde serviam absinto e enxofre, e o teu nome escrito no copo, faiscava Então quando me chamas, por que o fazes? Dói-me saber que escolhi ser livre no meio da tempestade A liberdade não tem gravidade, gira solta assim, trança teias sem precisar das moscas, Ri das minhas escolhas, ri de mim É o feto ri do gênio, das loucuras do mar, do fio de seda, do homem que pintou a cara de palhaço Eu perdi o senso de direção, os pingos de chuva me orientam pelo chão, temos fortes laços sim, ligaduras entre flores e raízes Sou um bêbado afogado nas enxurradas, nos litros de sol, com um cordão no pescoço atado a ti, As bandas do céu tocam Everybody's Coming To My House Já bebi muito a tua falta, essa essência sofrida é uma armadilha de amor Mas quem vai limpar o chão depois que tu passas? As abstinências que chutam os baldes, os sopros de desafogos, as pétalas arrancadas ao peito, aos bocados Todo dia rego os canteiros com esse novo sentido de alucinação Estamos cheios um do outro, cheios, no bom ou no mau sentido Prefiro hoje tocar à noite, a minha canção preferida, do que sentir a vida, à dor de arder a noite toda sem solução O cheiro de anis é fatal, apenas o humor é uma ameaça à inteligência, eu sempre fui burro de fato, um animal comendo no teu quintal Sinto o cheiro da dor no final da rua, entre as ervas daninhas Sinto cheiro de ti, Sinto muito
Charles Burck
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os homens não
O coração, também, se entrega à loucura Eu tenho a impressão que os livros sobrevirão ao holocausto, O homem não, Os livros são eternos, o homem não, Escrevi nos livros, àquele que o meu coração ama, eu sou louco Registrei uma citação para a eternidade Lá eu seguirei, minha loucura também, Os homens não
Charles Burck
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Amor e fermento
Minha avó dizia: Que para amar não precisa talento, só açúcar e fermento nas doses certas.
Charles Burck
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Logo Ali
Morrer é como ir dar um passeio, no outro lado do mundo Um lugar desconhecido, de onde viemos antes
Charles Burck
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Acalma o meu coração
Acalma o meu coração, Às portas da cidade há aves comendo as manhãs Quem repousa à sombra da minha face? Quem é você que eu não vejo? Peço e pergunto e você não me responde, apenas sorri O quanto me atrevo a esperar que os seus olhos se ergam para mim Não compreendo a natureza dos homens, mas a dos seus olhos, sim A sutileza de sorrirem enquanto repouso, Porém, sempre me incendeias, e eu esqueço o arbusto impregnado de sossego diurno, e colho ao anoitecer os frutos seus À noite, à paisagem no ventre, a entrega pungente, o meu coração de sal e brandura Não me obedece jamais Ensinar a aprender sobre o corpo das mulheres, sobre os incensos que rompem os meus músculos E ainda me diga por que eu sonho acordado, sobre os telhados das ruas, Já a minha alma me perdoa, o meu coração entoa um cântico de sagrado silêncio, mas os meus instintos, não Eles cantam alto, e não me deixam dormir, nem eu nem a cidade toda
Charles Burck
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Perdidos Oceanos
Sento-me à mesa. Porque é de ti o alimento, a agua e o sal marinho Os gestos da verdade, a erva e a estrela plantadas no mesmo caule O que me vem em ondas Onde tentei dormir na embriagues do coração faminto O navegante de velas sonoras fazendo cantigas de mar e lamentos Sem rotas de fugas, entregue as palavras corroendo a minha língua oceânica Aumentando a capacidade de suportar o sol nas costas, e iludir os ventos E diluir o tempo nas mais puras imagens Eu que apelei à cegueira para ver com mais perfeição Aceno com alguma recordação do tato, à ciência das perdidas coisas, Ao que me entrego, a razão do meu espirito teima em insuflar o fogo com pólvora e resina Sobre o peso lúdico hasteando bandeiras do amor no mar Onde apenas na imensidão do nada se deixa ver, Eu, um único barco a percorrer a linha do destino Sem horizontes, sem timão, só e sem carta de navegar
Charles Burck
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As linhas da tua face
Colhemos sóis nas videiras carmins, O sorriso ardendo e o dorso queimando Beberei na tua boca o sabor dos vinhos das plantas, E dialogarei com as pedras e as curvas mansas dos rios Onde o espirito comece a florir antes de fazer amor E as linhas da tua face se moverão em um sorriso As madeixas incendiadas e o coração que pulsa Açucares e branduras, mas a vida é dura E me fará sentir o peso da tua vida sobre mim, e ainda assim os corpos se ajeitarão aos transtornos E a carne elaborará os sons do amor, A inspiração se distrairá num poema longo E a cama transbordando, se perderá deste mundo
Charles Burck
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Frestas
Tem uma flor nascendo na lua cheia, Numa fresta da rua, Cansada de mim,
Foste tu o escolhido, Disse-me o beija flor, Mas a flor está com raiva de ti
Eu te amo pelas tuas faltas, inexoravelmente eu te amo Pela tua falta de corpo Pelas minhas mãos que não sabem o que dizer, Pelas tuas pétalas que vacilam, Por tudo que me produzes de contraditório e o vazio
Dia e noite, ainda assim, te amo Porque antes de ti, eu nunca me amei
Charles Burck
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Eu livro
Logo que eu aprendi as primeiras letras consegui sozinho formar as primeiras palavras, as primeiras frases, e saber-me um devorador de livros, depois, só bem depois, quando eu já sabia escrever, que me senti escritor. Foi a primeira sensação de ser algo. Vocês já repararam como eu falo do tempo? O tempo dentro das lembranças, poucos sabem das horas, pouco sabem das noites e dos dias Não se pode manipular as lembranças, seria deformar o que somos, instalar um depósito de bugigangas dentro do ser. O que seria dos nossos mitos, dos nossos heróis, de nossos espelhos? O meu pai era um homem cronológico, estabelecia horários para tudo, para eu ler também, determinava à minha mãe o que eu deveria fazer diariamente, depois sumia e só aparecia quando eu já dormia. A minha mãe obedecia, e eu – Bem, eu lia, lia no banheiro, no almoço, na cozinha, lia acordado, dormindo, fazendo xixi, tomando banho e lia tudo, caixinha de fósforos, propaganda de chicletes, anúncios fúnebres e anúncio de bondes. Vejo- me sempre pendurado a um livro, ele preenchendo meus vazios, dialogando com minha solidão de menino e forjando meu caráter. A cronologia das lembranças nem sempre está na ordem certa, acho que antes de ser um leitor, eu fui um livro.
Charles Burck
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Os olhos dela
Aos olhos de ver da alma, o mundo é logo ali Mas eu sempre me perco, Ao que me demoro nos olhos dela