Poemas
48Aviões
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre nuvens
Os aprecio minúsculos
pairando quase no azul
Aprecio-os de ficar tonto
e sentir que voo ao chão
Um avião traçou no céu
longas linhas retas
por onde Deus rabiscou
uns textos breves e turvos
Aviões são aves humanas
que sempre insistem em pousar
Embora eu saiba de pássaros que
jamais cessam seu voo
justamente
por não terem
mais pernas em que confiar
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre estrelas
Os aprecio minúsculos
a se piscar no negrume
Aprecio-os de ficar zonzo
e cair em sono fundo
99
Cada macaco no seu galho
Eu, no meu quarto
o Daniel, na cova dos leões
a Alice, no país das maravilhas
o relógio, no crocodilo
Eu, no meu quarto
o gênio, na lâmpada
o Minotauro, no labirinto
o Jonas e o Pinóquio
cada um em sua baleia
Eu, no meu quarto
o Senna, em sua Williams
o Santo Antão, no deserto
a Rapunzel e o Hölderlin
cada um em sua torre
Eu, no meu quarto
a Emily, em Amherst
a Eurídice, no Hades
o grão de feijão,
na panela de pressão
A gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo:
Eu no meu quarto
154
Narciso
Agora é assim:
mal eu ponho o pé no parque
que o coral de mil narcisos
rosto radiante em sorrisos
já me entoa um oi sonoro
Muito obrigado, digo, amigos,
me inclino em vênias e coro
71
O touro de Minos
Este mundo, um labirinto,
em que, desnudo, percorro
mil corredores, faminto
Essas grossas amplas veias
pulsam o sangue da nobreza
inflamado por centelhas
de vaidade e de tristeza
Deixo pegadas de homem
sob o jugo de um instinto
e em cadência meus passos
ressoam sem som distinto
Bifurcam-se galerias
e espelham-se encruzilhadas
curvadas paredes frias
se giram entorno de um nada
Nos becos deste recinto
ouço o eco de sussurros
sei que há mais labirintos
por detrás dos altos muros
Persigo a linha da vida
que se enovela a um centro
onde a morte, uma saída,
retoma o fio do tormento
Todo o fogo que devoro
não renova o meu vigor
tanto mais devoro o fogo
mais flameja a minha dor
Passam sóis e passam luas,
nuvens tornam o céu finito
sobre a pele nua e crua
pesa o pó de um gasto mito
Só o fim desta quimera
quiçá me salve da sina
vencido por outra fera
mais ardilosa e assassina
67
Saudades da minha Terra
Hoje sonhei
que tinha ido morar na Lua
Não a Lua dos poetas,
não a Lua das toadas,
sempre cheia e iluminada,
despertando amor febril
Não.
Era uma terra habitada
por casinhas e ruelas
por nuvens e nevoeiros
em sombras de eterno frio
E sonhei que tu moravas
numa casa ali comigo
Mas o amor era pouco,
de tão pouco, não bastou
pra esfriar essa saudade
de uma Terra ensolarada
bola branca e azulada
que pairava na distância
entre um céu negro e hostil
62
O quê da coisa
Nem todo o poema
é Sistina
Nem todo o verso
um Titã
Nem toda a rima
é Alpina
Nem todo o poeta
um Rodin
Só a poesia
essa sina
é sempre Febre Terçã
60
papel pega mosca
minha boca
tem ternuras
que se ditas
geram cores,
toldam vistas
com cândura,
ressuscitam
secas flores.
pena minha
estarem presas
em papel
de luz diodo,
como moscas
iludidas
por um doce
feromônio:
viram
múmias
ressequidas
grudadas
no estéril
hormônio.
90
Quarta-Feira de Sangue
Duas coisas me restaram
do ensaio de uma vida:
que o sabão Piraquitiba
tudo lava, tudo enxagua,
e, conforme a voz no rádio,
Até mancha de sangue ele apaga!
E também que só o sábio,
o sabido, o verdadeiro,
é quem sabe o que é perdão
...essa eu colhi, se me lembro,
de um novo samba-canção...
Só de sábia eu tive é nada,
muito pouco de sabida,
e desfilei de madrugada
meu rancor pela avenida
camisa e saia manchadas
com os respingos da tua vida
71
Sonho de uma noite de verão
Noite nua
lua em prata
fui à rua
das acácia
de bermuda
e de regata
pra afogar
minha ressaca
(meu jesus me dai cachaça!)
Joguei carta
ri à toa
abracei
todas comparsa
e gritei
a vida é boa
cara cheia
as bunda farta
(essa rodada é pras parça!)
Comi
linguiça e batata
tirei
um choro de lata
e fiz samba
pra mulata
com remolejo
de gata
(já tinha dona, a sapata!)
Me engracei
c‘uma coroa
tinha pinta
de patroa
eu pensei
a velha é boa
a noitada
hoje
é de graça
(cheirei um pó co‘a ricaça!)
Só não sei
me deu nas teia
um rebuliço
escangalho
chamei a velha
de feia
e mandei
ir pro
caralho
(virou poeira a velhaca!)
Me ferveu
sangue nas veia
tomei
golão
de gargalo
virei
chave de cadeia
e xinguei
tudo
de otário
(que vão à merda as bruaca!)
E passei já
pro sopapo
chutei mesa
quebrei prato
quando
bebo
viro macho
faço
as muié
de capacho
(me tiraram ali nos tapa!)
Fui pra praça
paulo arruda
e catei uma polaca
era gostosa
a bunduda
uns peito grande
qual jaca
(mas tinha um pinto, a desgraça!)
Sai fazendo
arruaça
atirei pedra
em vidraça
e mijei
até na estátua
da
santa
rita de cássia
(todas muié são devassa!)
Um milico
me bateu
me jogou
atrás de grade
infernizei
fiz alarde:
tu é
corno
seu covarde
(ainda acabo co‘a tua raça!)
Quando foi
amanheceu
vi meu corpo
na valeta
boca cheia
terra preta
com
dois tiro
na cabeça
(e os urubu na carcaça!)
Acordei
toda moída
co‘a cachola
dolorida
boca aberta
ressequida
de cigarro
e de bebida
(senti um bafão de cloaca!)
Credo em cruz
ave maria
pomba gira
e bom jesus
deus me livre
dessa sina
sete vez
sinal da cruz
(eita vidinha sem graça!)
Virgem mãe
aparecida
pela luz
de tua graça
eu te juro
mudo a vida
nunca mais
tomo cachaça
(me aperdoe a carne fraca!)
68
Quem foi que matou o poeta
Lá tá ele no meio da rua
gordo, coitado, corpanzil estirado
todo, sobre o asfalto
sirenes inda ouço
focos vermelhos
e azuis
ta ti ta ta
ta ti
tata
Seu policial,
só uma pergunta
falou o repórter
Nada a declarar disse o polícia
circulando, circulando
Não, seu doutor, desculpa aí,
foi tão do nada, né
Não vi não
assim falou seu José
De pedreiro
cheio a mão
Um milagre que o carro sobreviveu!
deu de comento a vendedora
de pé de moleque
apontando pra coisa
carnuda redonda
ceifada esfolada
estirada na rua
bloqueando o fluxo
em plena contramão
Nem sangue saia do morto
Poeta
Consternação?
Ah, isso sim,
mas sem choro
que era poeta de pouca extensão
Sabe o nome?
Não sei não, disse o ladrão
apalpando no bolso da calça
a magra carteira
surrupiada
do chão
Eu vi tu-tudo, eu vi tu-tudo
disse o moleque
que fedia a jornal
e vivia enrolado
em velha notícia
abaixo do viaduto
Teixeira Amaral
Ah, foi pouco o interesse
notícia de segunda mão
Te citou aqui foi quem?
disse o polícia
e roçou o cacetete
no coro
do sabichão
Não parece um soldado
o poeta
abatido e surpreso
em meio à batalha
por bala perdida
tombado ao chão?
Suspirou num repente
Maria da Silva e João
a dona da carrocinha
balançando na direita
churro quente
e na esquerda
pastelão
Mas só se for,
pensou o gari
no ele com ele
e os devidos botões,
bala calibre canhão
Ah era poeta o pançudo?
E de alcunha?
Hmm. Aí não sei. Nunca ouvi.
Mas todo dia morre gente aqui,
meu patrão,
é jornaleiro e jornalista
é engraxate e sapateiro
é biscateiro e professor...
E poeta?
Até hoje?
Que eu saiba
ainda não
Assim falou Mascarenhas
e entornou um martelinho
dando depois três batidas
na madeira do balcão
Mas si-sim, gritou o moleque
com catinga de notícia
que faz dois ou mais de mês
que se atirou ali da ponte
da-da-da
da-da-da
da-da-da
- A da Cruz!
berrou o povo
Isso, Cruz
aquele tal compunista
ô-ô-ô
ô-ô-ô
O Gonzaga de Jesus!
Ah, mas pra que tanta indiscrição!
Sai daí moleque gago
que ninguem te perguntô
quem que morreu
quem se matô
Circulando, circulando!
Saiu noutro dia
larga manchete
no jornal
A Sensação:
Faleceu o senhor
Felisberto dos Santos
Souza Silva
Neto e Cunha
poeta de puro nome
professor de profissão
Nome da rua
Almeida Quevedo
esquina com
a Siqueira Alemão
atropelado
ou morto
por
anônimo
caminhão
Ninguém deu muita atenção
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