Lista de Poemas

As nuvens de agosto


Lambi a nuvem

pendida

fofa inocente no céu

Quem diria

nada doce

nenhum gostinho 

de mel:

 

Nuvens pairam no horizonte

como espumas do passado

quem provou da sua fonte

sabe o que é sabor salgado

 

O meu amor

me dizia

Nuvem é qual

algodão doce...

 

Bem desconfiei que não fosse!

Que era branquinha

é de sal

 

Pois a nuvem, sim senhor

nuvem é feita de vapor

não de mar, de rio, de lago

mas de lágrimas de dor:

 

...chuva chora

lava o rosto

cai ao chão

e se evapora...

 

E lá se vai todo desgosto

flutuando céu afora

formar as nuvens de agosto

com nossos prantos de agora

102

Confissão

 

Hoje fui pedir perdão a Deus

por algum grave pecado cometido

Mal me olhou e já pediu

Mas que esporte tu praticas?

E me aplicou uma injeção 

no ombro esquerdo

Serei salvo? – Perguntei

Dessa vez. – Respondeu

Graças a…

Passar bem. Até mais ver.

E se foi

Deus cobra horrores por consulta

47

Quero aprender a morrer

 

Quero morrer

por morrer

Quero morrer

pra nascer

 

Quero morrer

para sempre

Quero brotar

da semente

 

Quero morrer

masculino

E despertar

feminino

 

Quero tentar

sabor morte

Quero provar

nova sorte

 

Quero cair

de maduro

Ressuscitar

mais futuro

 

Quero morrer

sol poente

E despontar

lua ardente 

 

Quero morrer 

passarinho

Para eclodir 

em teu ninho

 

Quero morrer

na penúria 

E ressurgir

na luxúria

 

Quero

aprender

fenecer

 

Quero

aprender

florescer

 

Quero

aprender

a morrer

68

Ave migratória

 

Hoje de manhã, bem cedinho,

um bando de pássaros

negros

passou por sobre mim

feito nuvem em retirada

Acho que dentre eles

nenhum sequer atinou

que um alguém troteava embaixo

as gramas brancas do parque

Mas também eu, veja só,

mal ou menos os pressenti

enevoado que andava

por gelados pensamentos

Foi só agora, nesse instante,

sobre a tela-teto escura

que os repintei

revoando,

em cores vivas

partindo

43

As nuvens de agosto

 

Lambi a nuvem

pendida

fofa inocente no céu

quem diria

nada doce

nenhum gostinho 

de mel:

 

Nuvens pairam no horizonte

qual espumas do passado

quem provou de sua fonte

sabe o que é sabor salgado

 

O meu amor

me dizia

Nuvem é como

algodão doce...

 

Bem desconfiei que não fosse!

Que era branquinha

é de sal

 

Pois a nuvem, sim senhor

nuvem é feita de vapor

não de mar, de rio, de lago

mas de lágrimas de dor:

 

...chuva chora

lava o rosto

cai ao chão

e se evapora...

 

E lá se vai todo desgosto

flutuando céu afora

formar as nuvens de agosto

com nossos prantos de agora

71

Fantasia de uma noite de verão

 

Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:

Um pesadelo, algum boato ou se existia

Nos dias antes do brotar da primavera,

Só solidão, longo fastio, tarde sombria?

 

O sol chegou já revogando o que houvera

Com um gesto quente acalentou a noite fria 

Lambeu da terra sua geada mais severa

E a fecundou com mil sementes de alegria

 

E hoje há dálias, há alecrins e há violetas

A brisa morna é a terna mão que acaricia

Nesse jardim canta um coral de borboletas:

A dor da noite converteu-se em ardor do dia!

 

Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores 

E que me lembre sempre foi essa harmonia:

A noite avança em serenata de cantores

E o dia escorre em galopante sinfonia

34

Programa dos dias livres

Eu te aguardo para os sábados

Eu te aguardo nos domingos

Sempre te espero em feriados:

 

Tu virás no dia 1º de maio?

Ou passarás só no 7 de setembro?

 

Que seja em 2 de novembro!!

Em dias vagos te aguardo

 

(E se vem, quando vem, bem me tem?)

 

Pareces o papai Noel!

És meu coelhinho da Páscoa?

Rasga o teu Corpo a Paixão?

 

Mas não nasces no Natal,

não ressuscitas ao Domingo,

nem sequer morres na Sexta!

 

Te aguardo pro Ano-novo.

Te espero no Tiradentes.

Nos vemos na Aparecida.

Venha pular o Carnaval!

 

(Mas não vem, nunca vem, mal me tem?)

 

Ontem foi meu aniversário

Tomei dos vinhos mais caros 

para alegrar tua chegada

Acabou que me esqueci 

qual dos anos eu contava

e acordei rouco e enrugado

 

Ah, se eu soubesse, neném,

o dia exato da morte

certeza te aguardaria

confiante na minha sorte!

 

(Certo vem, sem porém, mais além...)

101

Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa


Queria tanto saber cantar

disse a pomba que arrulhava

catando os restos de pão

na beira de uma calçada

 

Já eu o que mais queria

é poder planar no ar

disse o homem que passava

varrendo o lixo da estrada

 

Pois não quero incomodar

disse a poeta que ouvia

debruçada na janela

do terceiro ou quarto andar

Já que a mim o que me resta

é só cantar e voar

 

E baixou as persianas

retornou a sua mesa

e se pôs a rabiscar

56

Quarta-Feira de Sangue

 

Duas coisas me restaram 

do ensaio de uma vida:

que o sabão Piraquitiba

tudo lava, tudo enxagua,

e, conforme a voz no rádio,

Até mancha de sangue ele apaga!

E também que só o sábio, 

o sabido, o verdadeiro,

é quem sabe o que é perdão

...essa eu colhi, se me lembro,

de um novo samba-canção...

Só de sábia eu tive é nada, 

muito pouco de sabida,

e desfilei de madrugada

meu rancor pela avenida

camisa e saia manchadas

com os respingos da tua vida

62

Cada macaco no seu galho

 

Eu, no meu quarto

o Daniel, na cova dos leões

a Alice, no país das maravilhas

o relógio, no crocodilo

 

Eu, no meu quarto

o gênio, na lâmpada

o Minotauro, no labirinto

o Jonas e o Pinóquio

cada um em sua baleia

 

Eu, no meu quarto

o Senna, em sua Williams

o Santo Antão, no deserto

a Rapunzel e o Hölderlin

cada um em sua torre

 

Eu, no meu quarto

a Emily, em Amherst

a Eurídice, no Hades 

o grão de feijão, 

na panela de pressão

 

A gente é fraco

cai no buraco

o buraco é fundo

acabou-se o mundo:

Eu no meu quarto

141

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments