Claudio de Jesus

Claudio de Jesus

n. 1971 BR BR

n. 1971-06-24, Novo Hamburgo

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As nuvens de agosto

 

Lambi a nuvem

pendida

fofa inocente no céu

quem diria

nada doce

nenhum gostinho 

de mel:

 

Nuvens pairam no horizonte

qual espumas do passado

quem provou de sua fonte

sabe o que é sabor salgado

 

O meu amor

me dizia

Nuvem é como

algodão doce...

 

Bem desconfiei que não fosse!

Que era branquinha

é de sal

 

Pois a nuvem, sim senhor

nuvem é feita de vapor

não de mar, de rio, de lago

mas de lágrimas de dor:

 

...chuva chora

lava o rosto

cai ao chão

e se evapora...

 

E lá se vai todo desgosto

flutuando céu afora

formar as nuvens de agosto

com nossos prantos de agora

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Poemas

48

As nuvens de agosto

 

Lambi a nuvem

pendida

fofa inocente no céu

quem diria

nada doce

nenhum gostinho 

de mel:

 

Nuvens pairam no horizonte

qual espumas do passado

quem provou de sua fonte

sabe o que é sabor salgado

 

O meu amor

me dizia

Nuvem é como

algodão doce...

 

Bem desconfiei que não fosse!

Que era branquinha

é de sal

 

Pois a nuvem, sim senhor

nuvem é feita de vapor

não de mar, de rio, de lago

mas de lágrimas de dor:

 

...chuva chora

lava o rosto

cai ao chão

e se evapora...

 

E lá se vai todo desgosto

flutuando céu afora

formar as nuvens de agosto

com nossos prantos de agora

92

As nuvens de agosto


Lambi a nuvem

pendida

fofa inocente no céu

Quem diria

nada doce

nenhum gostinho 

de mel:

 

Nuvens pairam no horizonte

como espumas do passado

quem provou da sua fonte

sabe o que é sabor salgado

 

O meu amor

me dizia

Nuvem é qual

algodão doce...

 

Bem desconfiei que não fosse!

Que era branquinha

é de sal

 

Pois a nuvem, sim senhor

nuvem é feita de vapor

não de mar, de rio, de lago

mas de lágrimas de dor:

 

...chuva chora

lava o rosto

cai ao chão

e se evapora...

 

E lá se vai todo desgosto

flutuando céu afora

formar as nuvens de agosto

com nossos prantos de agora

118

Amor degradável

 

Nosso amor

tem um cheiro de comida

bem gostosa, bem cozida

temperada com primor

Só que há meses esquecida

no fundo da geladeira:

azedou, gerou bolor

 

Ninguém mais nega

que só serve 

para fartar

a barriga da lixeira

 

Ou serviria 

um banquete

para os germes

invisíveis

que pululam 

aos milhões

as terras 

de algum jardim?

43

São Flores de Sangue & Osso

 

Flores brotam de mim

as flores de sangue e osso

 

Nem sempre,

às vezes só de sangue

às vezes só de osso

 

As flores de osso

eu sirvo aos cachorros

ou fervo sopas

que ofereço a convidados

 

As flores de sangue

essas seco com papel

e as escondo 

entre as folhas de um livro

aquele com o título:

Dos Perigos ao Regar Flores de Sangue & Osso

 

(ou as uso para escrever

cartas a Deus, mas isso

não conta, isso é segredo)

 

Já a flor de osso e sangue

essa vendo, essa doo, essa exponho no meu vaso

 

Flores brotam de mim

não só quando me corto

mas também

quando entro num cinema

ou viajo com o ônibus Nº 7

catando de canto a canto

meus cachos pela cidade

 

Não suporto mais 

flor no pé

flor na mão

flores no rosto e pescoço

(e a cara dos passageiros

fingindo desinteresse

como se fosse a coisa mais

natural desse mundo

um homem brotar flores de sangue e osso 

dentro de um ônibus)

 

Vão dizer 

a culpa é minha:

És que te adubas demais!

56

Cada macaco no seu galho

 

Eu, no meu quarto

o Daniel, na cova dos leões

a Alice, no país das maravilhas

o relógio, no crocodilo

 

Eu, no meu quarto

o gênio, na lâmpada

o Minotauro, no labirinto

o Jonas e o Pinóquio

cada um em sua baleia

 

Eu, no meu quarto

o Senna, em sua Williams

o Santo Antão, no deserto

a Rapunzel e o Hölderlin

cada um em sua torre

 

Eu, no meu quarto

a Emily, em Amherst

a Eurídice, no Hades 

o grão de feijão, 

na panela de pressão

 

A gente é fraco

cai no buraco

o buraco é fundo

acabou-se o mundo:

Eu no meu quarto

157

Confissão

 

Hoje fui pedir perdão a Deus

por algum grave pecado cometido

Mal me olhou e já pediu

Mas que esporte tu praticas?

E me aplicou uma injeção 

no ombro esquerdo

Serei salvo? – Perguntei

Dessa vez. – Respondeu

Graças a…

Passar bem. Até mais ver.

E se foi

Deus cobra horrores por consulta

61

Sorte do cão

 

as pernas na Paraíso

só tem gosto de sabão

 

todo mundo aposta em bicho

Macaco, Porco ou Leão 

 

Por que não?

Por que não?

 

eu tinha a maior ciumeira

das canelas do Rufião

 

dia foi ganhei um chute

com cheirinho de sabão

 

Por que não? 

Por que não?

 

a gurizada da vila

só vive na aperreação

 

quando brincam de esconder

todo mundo passa a mão

 

Por que não? 

Por que não?

 

tua mãe é lavadeira

nem pisou nunca em avião!

 

mas mamãe tem geladeira

do sorteio do Faustão!

 

Por que não? 

Por que não?

 

dona Mercedez ganhou 

três vezes com o Pavão

 

e quase morreu um dia

de ataque do coração

 

(se eu botasse fé no bicho

apostava era no Cão!)

 

Por que não?

Por que não?

 

lá na vila Paraíso

só se lava roupa à mão

 

e a cachorra da Mercedez

era a amiga do Rufião

 

(ainda trago nas ventas

seu cheirinho de sabão)

 

Por que não? 

Por que não?

 

um dia o Rufião se foi

trepado num caminhão

 

a Mercedez fez chacota

é melhor que em camburão

 

(se eu botasse fé no bicho

te levava é de avião!)

 

Por que não? 

Por que não?

 

me toquei correndo atrás

latindo com emoção

 

e as rodas da Mercedes

faziam um baita poeirão

 

(dia vem me acabo embaixo 

dos pneus dum caminhão!)

 

Por que não? 

Por que não?

 

se eu botasse fé no bicho

ia embora com o Rufião

 

me enroscava em sua canela

com cheirinho de sabão

 

Por que não?

Porque não?

 

72

Ave migratória

 

Hoje de manhã, bem cedinho,

um bando de pássaros

negros

passou por sobre mim

feito nuvem em retirada

Acho que dentre eles

nenhum sequer atinou

que um alguém troteava embaixo

as gramas brancas do parque

Mas também eu, veja só,

mal ou menos os pressenti

enevoado que andava

por gelados pensamentos

Foi só agora, nesse instante,

sobre a tela-teto escura

que os repintei

revoando,

em cores vivas

partindo

56

Onda de frio

 

A queda da bolsa de valores

me deixa frio

As pernas do Cristiano Ronaldo

me deixam frio

Os 200 reféns do grupo terrorista

me deixam frio

A nevasca em Nebrasca

me deixa frio

A ressurreição do Tiranossauro rex

me deixa frio

Os cartazes com a Gisele semi-nua

me deixam frio

A prisão do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho

me deixa frio

Os 828 metros do Burj Khalifa

me deixam frio

O aquecimento global 

me deixa frio

Até a alta da bolsa de valores

me deixa frio

 

Meu Deus! 

Alguém podia chamar um

eletricista para consertar 

a porra desse aquecedor?

62

Ponto de fuga

 

Em frente à janela se estende 

uma rua 

lavrada de puro asfalto

ladeada de altas paredes 

armadas de cimento liso

Listras de janelas

sobem

descem

abaixo

acima

 

No cabo da rua, 

um paredão 

branco 

duro

põe ponto às paralelas

que bem se sabe,

noutro caso,

se cruzariam nem mesmo 

no oceano 

do infinito

 

E além dos muros?

Aí já não sei

O que sei é que

que entre eles 

isso sim

se vem morrer

se vem sofrer

e se curar. É hospital

 

Mas às vezes 

me pego na crença

que além do beco

pisca um recomeço 

ou

que atrás da fria

pálpebra

da esfinge adormecida

um tenso olhar

sonha

e espreita

 

E não de raro

me peço

que dos confins

deste sono

a sã pergunta

decifre

todas vãs

servis respostas

que me amiúde

devoram

a graça infinda

de ver

72

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