Poemas
48As nuvens de agosto
Lambi a nuvem
pendida
fofa inocente no céu
quem diria
nada doce
nenhum gostinho
de mel:
Nuvens pairam no horizonte
qual espumas do passado
quem provou de sua fonte
sabe o que é sabor salgado
O meu amor
me dizia
Nuvem é como
algodão doce...
Bem desconfiei que não fosse!
Que era branquinha
é de sal
Pois a nuvem, sim senhor
nuvem é feita de vapor
não de mar, de rio, de lago
mas de lágrimas de dor:
...chuva chora
lava o rosto
cai ao chão
e se evapora...
E lá se vai todo desgosto
flutuando céu afora
formar as nuvens de agosto
com nossos prantos de agora
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As nuvens de agosto
Lambi a nuvem
pendida
fofa inocente no céu
Quem diria
nada doce
nenhum gostinho
de mel:
Nuvens pairam no horizonte
como espumas do passado
quem provou da sua fonte
sabe o que é sabor salgado
O meu amor
me dizia
Nuvem é qual
algodão doce...
Bem desconfiei que não fosse!
Que era branquinha
é de sal
Pois a nuvem, sim senhor
nuvem é feita de vapor
não de mar, de rio, de lago
mas de lágrimas de dor:
...chuva chora
lava o rosto
cai ao chão
e se evapora...
E lá se vai todo desgosto
flutuando céu afora
formar as nuvens de agosto
com nossos prantos de agora
118
Amor degradável
Nosso amor
tem um cheiro de comida
bem gostosa, bem cozida
temperada com primor
Só que há meses esquecida
no fundo da geladeira:
azedou, gerou bolor
Ninguém mais nega
que só serve
para fartar
a barriga da lixeira
Ou serviria
um banquete
para os germes
invisíveis
que pululam
aos milhões
as terras
de algum jardim?
43
São Flores de Sangue & Osso
Flores brotam de mim
as flores de sangue e osso
Nem sempre,
às vezes só de sangue
às vezes só de osso
As flores de osso
eu sirvo aos cachorros
ou fervo sopas
que ofereço a convidados
As flores de sangue
essas seco com papel
e as escondo
entre as folhas de um livro
aquele com o título:
Dos Perigos ao Regar Flores de Sangue & Osso
(ou as uso para escrever
cartas a Deus, mas isso
não conta, isso é segredo)
Já a flor de osso e sangue
essa vendo, essa doo, essa exponho no meu vaso
Flores brotam de mim
não só quando me corto
mas também
quando entro num cinema
ou viajo com o ônibus Nº 7
catando de canto a canto
meus cachos pela cidade
Não suporto mais
flor no pé
flor na mão
flores no rosto e pescoço
(e a cara dos passageiros
fingindo desinteresse
como se fosse a coisa mais
natural desse mundo
um homem brotar flores de sangue e osso
dentro de um ônibus)
Vão dizer
a culpa é minha:
És que te adubas demais!
56
Cada macaco no seu galho
Eu, no meu quarto
o Daniel, na cova dos leões
a Alice, no país das maravilhas
o relógio, no crocodilo
Eu, no meu quarto
o gênio, na lâmpada
o Minotauro, no labirinto
o Jonas e o Pinóquio
cada um em sua baleia
Eu, no meu quarto
o Senna, em sua Williams
o Santo Antão, no deserto
a Rapunzel e o Hölderlin
cada um em sua torre
Eu, no meu quarto
a Emily, em Amherst
a Eurídice, no Hades
o grão de feijão,
na panela de pressão
A gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo:
Eu no meu quarto
157
Confissão
Hoje fui pedir perdão a Deus
por algum grave pecado cometido
Mal me olhou e já pediu
Mas que esporte tu praticas?
E me aplicou uma injeção
no ombro esquerdo
Serei salvo? – Perguntei
Dessa vez. – Respondeu
Graças a…
Passar bem. Até mais ver.
E se foi
Deus cobra horrores por consulta
61
Sorte do cão
as pernas na Paraíso
só tem gosto de sabão
todo mundo aposta em bicho
Macaco, Porco ou Leão
Por que não?
Por que não?
eu tinha a maior ciumeira
das canelas do Rufião
dia foi ganhei um chute
com cheirinho de sabão
Por que não?
Por que não?
a gurizada da vila
só vive na aperreação
quando brincam de esconder
todo mundo passa a mão
Por que não?
Por que não?
tua mãe é lavadeira
nem pisou nunca em avião!
mas mamãe tem geladeira
do sorteio do Faustão!
Por que não?
Por que não?
dona Mercedez ganhou
três vezes com o Pavão
e quase morreu um dia
de ataque do coração
(se eu botasse fé no bicho
apostava era no Cão!)
Por que não?
Por que não?
lá na vila Paraíso
só se lava roupa à mão
e a cachorra da Mercedez
era a amiga do Rufião
(ainda trago nas ventas
seu cheirinho de sabão)
Por que não?
Por que não?
um dia o Rufião se foi
trepado num caminhão
a Mercedez fez chacota
é melhor que em camburão
(se eu botasse fé no bicho
te levava é de avião!)
Por que não?
Por que não?
me toquei correndo atrás
latindo com emoção
e as rodas da Mercedes
faziam um baita poeirão
(dia vem me acabo embaixo
dos pneus dum caminhão!)
Por que não?
Por que não?
se eu botasse fé no bicho
ia embora com o Rufião
me enroscava em sua canela
com cheirinho de sabão
Por que não?
Porque não?
72
Ave migratória
Hoje de manhã, bem cedinho,
um bando de pássaros
negros
passou por sobre mim
feito nuvem em retirada
Acho que dentre eles
nenhum sequer atinou
que um alguém troteava embaixo
as gramas brancas do parque
Mas também eu, veja só,
mal ou menos os pressenti
enevoado que andava
por gelados pensamentos
Foi só agora, nesse instante,
sobre a tela-teto escura
que os repintei
revoando,
em cores vivas
partindo
56
Onda de frio
A queda da bolsa de valores
me deixa frio
As pernas do Cristiano Ronaldo
me deixam frio
Os 200 reféns do grupo terrorista
me deixam frio
A nevasca em Nebrasca
me deixa frio
A ressurreição do Tiranossauro rex
me deixa frio
Os cartazes com a Gisele semi-nua
me deixam frio
A prisão do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho
me deixa frio
Os 828 metros do Burj Khalifa
me deixam frio
O aquecimento global
me deixa frio
Até a alta da bolsa de valores
me deixa frio
Meu Deus!
Alguém podia chamar um
eletricista para consertar
a porra desse aquecedor?
62
Ponto de fuga
Em frente à janela se estende
uma rua
lavrada de puro asfalto
ladeada de altas paredes
armadas de cimento liso
Listras de janelas
sobem
descem
abaixo
acima
No cabo da rua,
um paredão
branco
duro
põe ponto às paralelas
que bem se sabe,
noutro caso,
se cruzariam nem mesmo
no oceano
do infinito
E além dos muros?
Aí já não sei
O que sei é que
que entre eles
isso sim
se vem morrer
se vem sofrer
e se curar. É hospital
Mas às vezes
me pego na crença
que além do beco
pisca um recomeço
ou
que atrás da fria
pálpebra
da esfinge adormecida
um tenso olhar
sonha
e espreita
E não de raro
me peço
que dos confins
deste sono
a sã pergunta
decifre
todas vãs
servis respostas
que me amiúde
devoram
a graça infinda
de ver
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