Lista de Poemas

Alma bêbada

 

Flores Flores Flores Flores

Eu a vejo em mim chorando mares e marés

Vejo-a colhendo cascalhos cinzas me apedreja

Eu simplesmente a vejo beijando grãos, doce ela

Ela está caçoando das nuvens e dançando tempestades

 

Ela é tão docemente... humilde como o ouro das flores

Ela come loucuras domésticas na praia sua

Saboreia água que a molha nua

Só isso nua santa

 

Sonho com ela sonhando comigo

 

Vejo-a tentando, tentando ter compaixão

Oh, ter compaixão de si mesma!

Ela, só ela, seca lágrimas suas

E eu a vejo, a vejo cantarolando poemias

Bêbada, com carícia conforta suas amargas

 

Ela entra na água some

Ela salgamolha-se no próprio pranto próprio

Amaldiçoando pássaros que não colhem

E lírios que não fiam

E deuses que só dormem, só

 

Eu a vejo... vejo... eu a vejo

Encosta seus molhados em mim ri

Sacra-me da areia amarezada da noite

E me cobre de si mesma

... De flores e dores

 

Cuida de solar, brilha no mar

É em mim, é ela que é

Molhada de seu gástrico

Suada de límpidos confessos

...De flores e dores

Ela me há

Ela me em, esquecida

Flores... Flores...

49

No barco vago do pai

 

...o meu pai pescava peixe

em rede que entra e sai

no entra e sai dessa rede

pescava peixe o meu pai...

 

Negra noite um barco vaga

Vaga o barco num balanço

As ondas gemem risadas

E os ventos caçoam prantos!

 

...e num vai que vem e volta

e num volta que vem e vai

me ensinou meu pai a voga

e a voga aprendi do pai...

 

Na maré que sobe e desce

Relanço redes ao mar

Num rumorejo de preces

Pedindo pro pai voltar!

 

...meu pai me ensinou a orar

contando as ondas do mar

contando as ondas do mar

me ensinou meu pai a orar...

 

Só uma gaivota responde

Bradando um grito de ai:

E teu pai se foi pra onde?!

Onde foi pescar teu pai?!

 

...ó filho, aprendi pescar

ouvindo o vento chorar

aprenda a temer, ó filho

os risos loucos do mar...

 

Foi no mar que vem e volta

E em onda que sobe e cai

Que a vaga remou de volta

O barco que foi do pai!

 

...o pai pescava seu peixe

cantando pra retornar

o filho pesca chorando 

me deixem morrer no mar...

60

Panapanã

 

Não têm mãe, nem têm um pai

na brevidade dessa vida

que brotou já colorida

sob o morno sol do ar

 

Pura seda, finas pétalas

se acenam de par em par 

floreiam voltas incertas

pra em nova cor repousar

 

Beijam flores encantadas

com o sumo deste beijo

e na fome do desejo

querem mil flores beijar

 

Se de pólen fecundadas

sementes vão semear

sobre folhas como fadas

perolinhas de um colar

 

Sete noites, sete dias

cumprem a sina de voar

belezas recém-nascidas

para um breve farfalhar

 

E findada a primavera

se despedem do luar

e com o todo que se altera

vão ao pó do pó voltar

65

Melhor amigo

 

Um grito gritou prum eco:

Eco é alma penada?

E o eco todo irrequieto:

Nada, nada, nada, nada!

 

E o grito lançou arteiro:

Quer roubar fruta do conde?

E o eco muito parceiro:

Conde, conde, conde, conde!

 

O grito pediu pro eco:

Vam‘ brincar de pegar bonde?

O eco não parou quieto:

Bonde, bonde, bonde, bonde!

O grito lembrou correto:

E ele vai pra muito longe!

E o eco com todo afeto:

Longe, longe, longe, longe!

O grito pensou inquieto:

Mas vai saber até onde...

E o eco também incerto:

Onde, onde, onde, onde...

 

O gritou falou faceiro:

Quer brincar de esconde-esconde?

E o eco sempre ligeiro:

Esconde, esconde, esconde, esconde!

 

O grito soou contente:

Que brincadeira mais boa!

E o eco que nunca mente: 

Boa, boa, boa, boa!

58

Há versos no corpo todo

 

Verso morde, verso expele,

verso fede e verso sua, 

versos pés e versos mãos:

um corpo se faz de versos

 

um verso te enruga a pele

um outro invade o pulmão

 

há verso que mói as costas

já outros turvam a visão

 

vivos versos movem pernas

versos mortos cavam chão

 

há versos pro corpo todo

é o verso que move a mão

 

o verso que ferve a veia

e o verso da indigestão

 

um verso sobe à cabeça 

e ali planteia a ilusão

 

há verso que treme o corpo

e o verso só da razão

 

há versos por todos pelos

tais versos dão comichão

 

tem verso que é ronco à noite

tem versos na solidão

 

há versos pra todo o corpo

vêm versos do coração

 

Mas quando as rimas 

se espalham

da cabeça até o dedão

do corpo ao meio 

se apossam

mil versos de diversão

59

Só pra feira dos poetas

 

Eu tenho inveja de quem

tem amigo poeta

 

Se eu tivesse um só

amigo poeta

doava a ele toda minha

amargura

 

Ele faria doces

e os venderia em feiras

de poetas,

pois poetas, esses sabem,

pôr candura

na amargura

 

Não há poeta

que não curta 

um doce amargo de mel. Vão à feira

e compram quilos

das mais amargas doçuras

 

Como não tenho a quem dar

eu a guardo na gaveta

(pois quem sabe

chegue o dia

que me promovam

a poeta?)

 

Tivesse a mão

mais soltura

eu até que me arriscava

criar doces 

de amargura

43

O Jasmim ressuscitado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar sagrado

um copo na cabeceira

zolpidem dormindo ao lado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar empoeirado

não se areja lá faz tempo

nunca passa um namorado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar meio encantado

tudo tem seu pouso certo

e o tempo corre arrastado

 

Na casa da minha amiga

há cortinas com plissado

me arrepio quando o vento

vem ondear o cortinado

 

Na casa da minha amiga

toda a mesa tem rendado

e no vaso verde em vidro

um jasmim sonha o passado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar honrado

não se troca não se tira

nem se mexe no estofado

 

Certo dia a minha amiga 

me pregou susto danado

se piscando qual mocinha

com o olhinho rebocado

 

Na casa dessa minha amiga

já não vou nem correntado

se desfez das tralharias

tomou dinheiro emprestado

e comprou roupa e cortina

em tom vermelho encarnado!

55

Sono de pedra

 

Eu tudo daria 

para poder dormir

o sono da pedra 

em meio ao deserto

O sono grande

sem ronco

sem intenção de acordar

Sono embalado

por um só sonho:

de luzes extintas

e fóssil esplendor

 

Daria tudo 

daria 

plantações

meus cavalos

as refeições

os retratos,

a quem quisesse

eu daria

para dormir no deserto

sob o teto negro e mudo 

onde miríades de estrelas 

piscam sem nem mais ser

 

Que

de solidão de pedra

só entende mesmo o vento

Só não pergunte 

o porquê

com certeza já esqueceu

como a estrela lá piscante

que não sabe

a magnífica

que há muito

feneceu

 

Quero só

sono de pedra

que nunca jamais acorda

para revelar os seus sonhos

 

Ou não acorda jamais nunca

para não esquecer o que sonhou?

 

Só quero o sono de pedra

Quero sonhar não ser eu

43

papel pega mosca

 

minha boca

       tem ternuras

               que se ditas

                    geram cores,

               toldam vistas

       com cândura,

ressuscitam

        secas flores.

               pena minha

                    estarem presas

               em papel 

        de luz diodo,

como moscas

       iludidas

               por um doce

                    feromônio:

               viram

       múmias

ressequidas

        grudadas

               no estéril

                     hormônio. 

77

Sorte do cão

 

as pernas na Paraíso

só tem gosto de sabão

 

todo mundo aposta em bicho

Macaco, Porco ou Leão 

 

Por que não?

Por que não?

 

eu tinha a maior ciumeira

das canelas do Rufião

 

dia foi ganhei um chute

com cheirinho de sabão

 

Por que não? 

Por que não?

 

a gurizada da vila

só vive na aperreação

 

quando brincam de esconder

todo mundo passa a mão

 

Por que não? 

Por que não?

 

tua mãe é lavadeira

nem pisou nunca em avião!

 

mas mamãe tem geladeira

do sorteio do Faustão!

 

Por que não? 

Por que não?

 

dona Mercedez ganhou 

três vezes com o Pavão

 

e quase morreu um dia

de ataque do coração

 

(se eu botasse fé no bicho

apostava era no Cão!)

 

Por que não?

Por que não?

 

lá na vila Paraíso

só se lava roupa à mão

 

e a cachorra da Mercedez

era a amiga do Rufião

 

(ainda trago nas ventas

seu cheirinho de sabão)

 

Por que não? 

Por que não?

 

um dia o Rufião se foi

trepado num caminhão

 

a Mercedez fez chacota

é melhor que em camburão

 

(se eu botasse fé no bicho

te levava é de avião!)

 

Por que não? 

Por que não?

 

me toquei correndo atrás

latindo com emoção

 

e as rodas da Mercedes

faziam um baita poeirão

 

(dia vem me acabo embaixo 

dos pneus dum caminhão!)

 

Por que não? 

Por que não?

 

se eu botasse fé no bicho

ia embora com o Rufião

 

me enroscava em sua canela

com cheirinho de sabão

 

Por que não?

Porque não?

 

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