Poemas
48Late, coração!
Enquanto meu pai
enfartava
quem mais chorava
era um cão
Este uivava
como bicho
maltratado
pelos chutes
de um senhor
sem coração
O mesmo bicho
que em vida
seguidas vezes
chutou
O mesmo bicho
que em vida
aos gestos bruscos
enxotou
Vai saber se o cão
chorava
pela partida
do dono
ou ressentia
os maltratos
que o fedor
da morte brusca
lhe impingia
ao coração
60
Fui pro ar perdi o lugar
Não gosto de me expandir
sempre que me retorno
está faltando um pedaço:
vai ficando dia a dia
largo o rasgo, grande o espaço
onde não cabe mais nada
que se ajeitar no escasso
E, no entanto, não encontro
das proporções, a devida
que costure em leves traços
os retalhos de uma vida,
quem conserte o estilhaço
e que me lamba a ferida,
quem me contorne um abraço
e me devolva à medida
Tudo aquilo que não toco
vaga pra sempre perdido
como um desejo moído
pela pedra do cansaço
47
Narciso
Agora é assim:
mal eu ponho o pé no parque
que o coral de mil narcisos
rosto radiante em sorrisos
já me entoa um oi sonoro
Muito obrigado, digo, amigos,
me inclino em vênias e coro
73
Rilkean heart
Eu, o que mais gosto
é de coraçãozinho assado
Dizem que Rilke comia
só coração cru
Eu não, só como assado
Talvez eu não seja
um bom gourmet
Talvez eu deva aprender
a comer coração cru
(mas é que adoro a farofa!)
Rilke que me perdoe
mas sou velho demais
pra comer coração cru
Minha mãe sempre dizia:
Coração descompassado
só se aquieta no grelhado
69
Quero aprender a morrer
Quero morrer
por morrer
Quero morrer
pra nascer
Quero morrer
para sempre
Quero brotar
da semente
Quero morrer
masculino
E despertar
feminino
Quero tentar
sabor morte
Quero provar
nova sorte
Quero cair
de maduro
Ressuscitar
mais futuro
Quero morrer
sol poente
E despontar
lua ardente
Quero morrer
passarinho
Para eclodir
em teu ninho
Quero morrer
na penúria
E ressurgir
na luxúria
Quero
aprender
fenecer
Quero
aprender
florescer
Quero
aprender
a morrer
85
Ao toque do anoitecer
Os meus amores não passam
de lembranças prematuras
uns toques toscos
tonturas
que esvanecem ao sol nascer
Meus desejos são assim
não ardem poros
orifícios
não me elevam a
precipícios
ou me engasgam de prazer
São imagens desbotadas
de raras cenas
sustadas
que me embotam
os pensamentos
antes de eu adormecer
49
Aizinhos
Ah, meu amigo,
minhas dores
são sem sal
Não sabem o nome
da rosa
nem colhem as flores
do mal
São dorzinhas
pequeninhas,
imaginárias
reais,
sobem descem
pela espinha
queimando febres
locais
Essas dores,
meu amigo,
tem caráter
intestinal
não enxergam
além do umbigo
nem acusam
o mal social
Bem quisera
as minhas dores
fossem mágoas
mais morais
que abraçassem
o mundo inteiro
me irmanassem
aos marginais
Ou quem dera
a dor, amigo,
não fosse
apenas carnal
e esta mera
dor de ouvido
me elevasse
ao celestial
Me dói tanto,
caro amigo,
doer dores
tão banais
essas penas
chinfrinzinhas
puramente
corporais
Tantas vezes
fantasio
sofrer moléstia
abissal
ou tormento
tão pungente
que me turve
a luz da mente
e me ascenda
ao surreal!
Chega o dia,
mano velho,
que algum achaque
fatal
(talvez desgosto
mais sério)
me traga a cura
afinal
soprando o pó
do mistério
dessa indolência
animal
71
Aviões
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre nuvens
Os aprecio minúsculos
pairando quase no azul
Aprecio-os de ficar tonto
e sentir que voo ao chão
Um avião traçou no céu
longas linhas retas
por onde Deus rabiscou
uns textos breves e turvos
Aviões são aves humanas
que sempre insistem em pousar
Embora eu saiba de pássaros que
jamais cessam seu voo
justamente
por não terem
mais pernas em que confiar
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre estrelas
Os aprecio minúsculos
a se piscar no negrume
Aprecio-os de ficar zonzo
e cair em sono fundo
102
Só pra feira dos poetas
Eu tenho inveja de quem
tem amigo poeta
Se eu tivesse um só
amigo poeta
doava a ele toda minha
amargura
Ele faria doces
e os venderia em feiras
de poetas,
pois poetas, esses sabem,
pôr candura
na amargura
Não há poeta
que não curta
um doce amargo de mel. Vão à feira
e compram quilos
das mais amargas doçuras
Como não tenho a quem dar
eu a guardo na gaveta
(pois quem sabe
chegue o dia
que me promovam
a poeta?)
Tivesse a mão
mais soltura
eu até que me arriscava
criar doces
de amargura
58
Fantasia de uma noite de verão
Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:
Um pesadelo, algum boato ou se existia
Nos dias antes do brotar da primavera,
Só solidão, longo fastio, tarde sombria?
O sol chegou já revogando o que houvera
Com um gesto quente acalentou a noite fria
Lambeu da terra sua geada mais severa
E a fecundou com mil sementes de alegria
E hoje há dálias, há alecrins e há violetas
A brisa morna é a terna mão que acaricia
Nesse jardim canta um coral de borboletas:
A dor da noite converteu-se em ardor do dia!
Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores
E que me lembre sempre foi essa harmonia:
A noite avança em serenata de cantores
E o dia escorre em galopante sinfonia
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