Poemas
48Fui pro ar perdi o lugar
Não gosto de me expandir
sempre que me retorno
está faltando um pedaço:
vai ficando dia a dia
largo o rasgo, grande o espaço
onde não cabe mais nada
que se ajeitar no escasso
E, no entanto, não encontro
das proporções, a devida
que costure em leves traços
os retalhos de uma vida,
quem conserte o estilhaço
e que me lamba a ferida,
quem me contorne um abraço
e me devolva à medida
Tudo aquilo que não toco
vaga pra sempre perdido
como um desejo moído
pela pedra do cansaço
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Aizinhos
Ah, meu amigo,
minhas dores
são sem sal
Não sabem o nome
da rosa
nem colhem as flores
do mal
São dorzinhas
pequeninhas,
imaginárias
reais,
sobem descem
pela espinha
queimando febres
locais
Essas dores,
meu amigo,
tem caráter
intestinal
não enxergam
além do umbigo
nem acusam
o mal social
Bem quisera
as minhas dores
fossem mágoas
mais morais
que abraçassem
o mundo inteiro
me irmanassem
aos marginais
Ou quem dera
a dor, amigo,
não fosse
apenas carnal
e esta mera
dor de ouvido
me elevasse
ao celestial
Me dói tanto,
caro amigo,
doer dores
tão banais
essas penas
chinfrinzinhas
puramente
corporais
Tantas vezes
fantasio
sofrer moléstia
abissal
ou tormento
tão pungente
que me turve
a luz da mente
e me ascenda
ao surreal!
Chega o dia,
mano velho,
que algum achaque
fatal
(talvez desgosto
mais sério)
me traga a cura
afinal
soprando o pó
do mistério
dessa indolência
animal
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Fantasia de uma noite de verão
Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:
Um pesadelo, algum boato ou se existia
Nos dias antes do brotar da primavera,
Só solidão, longo fastio, tarde sombria?
O sol chegou já revogando o que houvera
Com um gesto quente acalentou a noite fria
Lambeu da terra sua geada mais severa
E a fecundou com mil sementes de alegria
E hoje há dálias, há alecrins e há violetas
A brisa morna é a terna mão que acaricia
Nesse jardim canta um coral de borboletas:
A dor da noite converteu-se em ardor do dia!
Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores
E que me lembre sempre foi essa harmonia:
A noite avança em serenata de cantores
E o dia escorre em galopante sinfonia
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Terezinha
Mamãezinha quando bebe
adormece pelo chão
Papaizinho quando fuma
sente dor no coração
Meu amor quando entorpece
só desboca palavrão
E eu que sou tão miudinha
do tamanho de um fogão
carrego a mamãe pra cama
e o papai para o plantão
O bolso furou
o dinheiro escapou
você se azedou
E o amor que tu me tinhas
era pouco, muito pouco, de tão pouco
se acabou
Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...
Lá quem manda e que desmanda é o Salvador
Que ladrilha e maravilha a rua inteira
Con piedritas cristalinas, muy preciosas
Pra acalmar e acabar com toda a dor...
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Sonho de uma noite de verão
Noite nua
lua em prata
fui à rua
das acácia
de bermuda
e de regata
pra afogar
minha ressaca
(meu jesus me dai cachaça!)
Joguei carta
ri à toa
abracei
todas comparsa
e gritei
a vida é boa
cara cheia
as bunda farta
(essa rodada é pras parça!)
Comi
linguiça e batata
tirei
um choro de lata
e fiz samba
pra mulata
com remolejo
de gata
(já tinha dona, a sapata!)
Me engracei
c‘uma coroa
tinha pinta
de patroa
eu pensei
a velha é boa
a noitada
hoje
é de graça
(cheirei um pó co‘a ricaça!)
Só não sei
me deu nas teia
um rebuliço
escangalho
chamei a velha
de feia
e mandei
ir pro
caralho
(virou poeira a velhaca!)
Me ferveu
sangue nas veia
tomei
golão
de gargalo
virei
chave de cadeia
e xinguei
tudo
de otário
(que vão à merda as bruaca!)
E passei já
pro sopapo
chutei mesa
quebrei prato
quando
bebo
viro macho
faço
as muié
de capacho
(me tiraram ali nos tapa!)
Fui pra praça
paulo arruda
e catei uma polaca
era gostosa
a bunduda
uns peito grande
qual jaca
(mas tinha um pinto, a desgraça!)
Sai fazendo
arruaça
atirei pedra
em vidraça
e mijei
até na estátua
da
santa
rita de cássia
(todas muié são devassa!)
Um milico
me bateu
me jogou
atrás de grade
infernizei
fiz alarde:
tu é
corno
seu covarde
(ainda acabo co‘a tua raça!)
Quando foi
amanheceu
vi meu corpo
na valeta
boca cheia
terra preta
com
dois tiro
na cabeça
(e os urubu na carcaça!)
Acordei
toda moída
co‘a cachola
dolorida
boca aberta
ressequida
de cigarro
e de bebida
(senti um bafão de cloaca!)
Credo em cruz
ave maria
pomba gira
e bom jesus
deus me livre
dessa sina
sete vez
sinal da cruz
(eita vidinha sem graça!)
Virgem mãe
aparecida
pela luz
de tua graça
eu te juro
mudo a vida
nunca mais
tomo cachaça
(me aperdoe a carne fraca!)
69
Mais um conto de fada
Lá nas lonjuras dos tempos
houve uma mãe
das mais severas
que de filhos
tinha três:
João, Joaquim, José, e o Adão
que era o seu marido então
Uns guris fortes que eram
bem formados, dedos grossos,
mas viviam maltratados
pela mãe, uma megera,
que adorava uma maçã,
mas odiava gente sã
Certo dia
a mãe se foi
deixando sós o marido,
o muito honrado Adão
mais José, mais Joaquim
e um outro seu irmão
Como o pai sempre fora
gente da boa, decente,
tudo aceita, nunca mente,
viveram quase felizes
o pai manso e os descendentes
até o findar dessa história
Com exceção do João
que migrou
para o tablado
pra purgar um crime à toa
de algum fruto
envenenado
89
Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa
Queria tanto saber cantar
disse a pomba que arrulhava
catando os restos de pão
na beira de uma calçada
Já eu o que mais queria
é poder planar no ar
disse o homem que passava
varrendo o lixo da estrada
Pois não quero incomodar
disse a poeta que ouvia
debruçada na janela
do terceiro ou quarto andar
Já que a mim o que me resta
é só cantar e voar
E baixou as persianas
retornou a sua mesa
e se pôs a rabiscar
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Ponto de fuga
Em frente à janela se estende
uma rua
lavrada de puro asfalto
ladeada de altas paredes
armadas de cimento liso
Listras de janelas
sobem
descem
abaixo
acima
No cabo da rua,
um paredão
branco
duro
põe ponto às paralelas
que bem se sabe,
noutro caso,
se cruzariam nem mesmo
no oceano
do infinito
E além dos muros?
Aí já não sei
O que sei é que
que entre eles
isso sim
se vem morrer
se vem sofrer
e se curar. É hospital
Mas às vezes
me pego na crença
que além do beco
pisca um recomeço
ou
que atrás da fria
pálpebra
da esfinge adormecida
um tenso olhar
sonha
e espreita
E não de raro
me peço
que dos confins
deste sono
a sã pergunta
decifre
todas vãs
servis respostas
que me amiúde
devoram
a graça infinda
de ver
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O touro de Minos
Este mundo, um labirinto,
em que, desnudo, percorro
mil corredores, faminto
Essas grossas amplas veias
pulsam o sangue da nobreza
inflamado por centelhas
de vaidade e de tristeza
Deixo pegadas de homem
sob o jugo de um instinto
e em cadência meus passos
ressoam sem som distinto
Bifurcam-se galerias
e espelham-se encruzilhadas
curvadas paredes frias
se giram entorno de um nada
Nos becos deste recinto
ouço o eco de sussurros
sei que há mais labirintos
por detrás dos altos muros
Persigo a linha da vida
que se enovela a um centro
onde a morte, uma saída,
retoma o fio do tormento
Todo o fogo que devoro
não renova o meu vigor
tanto mais devoro o fogo
mais flameja a minha dor
Passam sóis e passam luas,
nuvens tornam o céu finito
sobre a pele nua e crua
pesa o pó de um gasto mito
Só o fim desta quimera
quiçá me salve da sina
vencido por outra fera
mais ardilosa e assassina
69
Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)
De dona Adélia afirmaram
essa não faz poesia
À dona Clarice, atestaram,
falta a crua maestria
E dona Hilda, acusaram
da mais vil pornografia!
Senhora Prado
senhora Lispector
e até a senhora Hilst
se reencaixaram nos vincos
dos mobiliários domésticos
e criaram seus maridos
sem delírios manifestos
(só em caso de um apuro
financeiro ou de família
recorreram em desespero
à uma antiga bruxaria)
Agora, a dona Adília,
de quem bastou um poema
pra negarem a fantasia
enfartou logo de pronto
e foi ontem sepultada
sem discurso ou honraria
numa cova abandonada
da mais rala burguesia
(só seus versinhos
restaram
e definham em afasia
num magazine esgotado
sobre bolo & astrologia)
(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)
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