Poemas
48Sonho de uma noite de verão
Noite nua
lua em prata
fui à rua
das acácia
de bermuda
e de regata
pra afogar
minha ressaca
(meu jesus me dai cachaça!)
Joguei carta
ri à toa
abracei
todas comparsa
e gritei
a vida é boa
cara cheia
as bunda farta
(essa rodada é pras parça!)
Comi
linguiça e batata
tirei
um choro de lata
e fiz samba
pra mulata
com remolejo
de gata
(já tinha dona, a sapata!)
Me engracei
c‘uma coroa
tinha pinta
de patroa
eu pensei
a velha é boa
a noitada
hoje
é de graça
(cheirei um pó co‘a ricaça!)
Só não sei
me deu nas teia
um rebuliço
escangalho
chamei a velha
de feia
e mandei
ir pro
caralho
(virou poeira a velhaca!)
Me ferveu
sangue nas veia
tomei
golão
de gargalo
virei
chave de cadeia
e xinguei
tudo
de otário
(que vão à merda as bruaca!)
E passei já
pro sopapo
chutei mesa
quebrei prato
quando
bebo
viro macho
faço
as muié
de capacho
(me tiraram ali nos tapa!)
Fui pra praça
paulo arruda
e catei uma polaca
era gostosa
a bunduda
uns peito grande
qual jaca
(mas tinha um pinto, a desgraça!)
Sai fazendo
arruaça
atirei pedra
em vidraça
e mijei
até na estátua
da
santa
rita de cássia
(todas muié são devassa!)
Um milico
me bateu
me jogou
atrás de grade
infernizei
fiz alarde:
tu é
corno
seu covarde
(ainda acabo co‘a tua raça!)
Quando foi
amanheceu
vi meu corpo
na valeta
boca cheia
terra preta
com
dois tiro
na cabeça
(e os urubu na carcaça!)
Acordei
toda moída
co‘a cachola
dolorida
boca aberta
ressequida
de cigarro
e de bebida
(senti um bafão de cloaca!)
Credo em cruz
ave maria
pomba gira
e bom jesus
deus me livre
dessa sina
sete vez
sinal da cruz
(eita vidinha sem graça!)
Virgem mãe
aparecida
pela luz
de tua graça
eu te juro
mudo a vida
nunca mais
tomo cachaça
(me aperdoe a carne fraca!)
68
À Jeniffer Lopez
Jennifer Lopez
foi uma grande artista portuguesa
A internet inteira se tarjou de preto
quando a Jennifer Lopez morreu
Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres
Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas
O porta-voz do governo disse
que o Presidente da República
tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez
Até as gentes da África e das Américas
enviaram pomposas coroas de flores
- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -
Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão
Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais
(mas só se feitas à mão)
E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa
pois ninguém soube o caminho
do túmulo da Jennifer Lopez
Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo
O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez
É que na lápide doada pelo Estado francês
(O francês em si adora doar lápides)
o escultor desleixado
ou gravemente dislexado
escrevera o nome errado
Nunca se descobriu até hoje
se o túmulo da Jennifer Lopez
é o túmulo da Maria da Silva ou
o túmulo do José da Silva ou
o túmulo da Viana Fidalgo ou
o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou
o túmulo da Adília Lopes ou…
53
Só pra feira dos poetas
Eu tenho inveja de quem
tem amigo poeta
Se eu tivesse um só
amigo poeta
doava a ele toda minha
amargura
Ele faria doces
e os venderia em feiras
de poetas,
pois poetas, esses sabem,
pôr candura
na amargura
Não há poeta
que não curta
um doce amargo de mel. Vão à feira
e compram quilos
das mais amargas doçuras
Como não tenho a quem dar
eu a guardo na gaveta
(pois quem sabe
chegue o dia
que me promovam
a poeta?)
Tivesse a mão
mais soltura
eu até que me arriscava
criar doces
de amargura
52
Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa
Queria tanto saber cantar
disse a pomba que arrulhava
catando os restos de pão
na beira de uma calçada
Já eu o que mais queria
é poder planar no ar
disse o homem que passava
varrendo o lixo da estrada
Pois não quero incomodar
disse a poeta que ouvia
debruçada na janela
do terceiro ou quarto andar
Já que a mim o que me resta
é só cantar e voar
E baixou as persianas
retornou a sua mesa
e se pôs a rabiscar
68
Late, coração!
Enquanto meu pai
enfartava
quem mais chorava
era um cão
Este uivava
como bicho
maltratado
pelos chutes
de um senhor
sem coração
O mesmo bicho
que em vida
seguidas vezes
chutou
O mesmo bicho
que em vida
aos gestos bruscos
enxotou
Vai saber se o cão
chorava
pela partida
do dono
ou ressentia
os maltratos
que o fedor
da morte brusca
lhe impingia
ao coração
56
Alma bêbada
Flores Flores Flores Flores
Eu a vejo em mim chorando mares e marés
Vejo-a colhendo cascalhos cinzas me apedreja
Eu simplesmente a vejo beijando grãos, doce ela
Ela está caçoando das nuvens e dançando tempestades
Ela é tão docemente... humilde como o ouro das flores
Ela come loucuras domésticas na praia sua
Saboreia água que a molha nua
Só isso nua santa
Sonho com ela sonhando comigo
Vejo-a tentando, tentando ter compaixão
Oh, ter compaixão de si mesma!
Ela, só ela, seca lágrimas suas
E eu a vejo, a vejo cantarolando poemias
Bêbada, com carícia conforta suas amargas
Ela entra na água some
Ela salgamolha-se no próprio pranto próprio
Amaldiçoando pássaros que não colhem
E lírios que não fiam
E deuses que só dormem, só
Eu a vejo... vejo... eu a vejo
Encosta seus molhados em mim ri
Sacra-me da areia amarezada da noite
E me cobre de si mesma
... De flores e dores
Cuida de solar, brilha no mar
É em mim, é ela que é
Molhada de seu gástrico
Suada de límpidos confessos
...De flores e dores
Ela me há
Ela me em, esquecida
Só
Flores... Flores...
60
Sono de pedra
Eu tudo daria
para poder dormir
o sono da pedra
em meio ao deserto
O sono grande
sem ronco
sem intenção de acordar
Sono embalado
por um só sonho:
de luzes extintas
e fóssil esplendor
Daria tudo
daria
plantações
meus cavalos
as refeições
os retratos,
a quem quisesse
eu daria
para dormir no deserto
sob o teto negro e mudo
onde miríades de estrelas
piscam sem nem mais ser
Que
de solidão de pedra
só entende mesmo o vento
Só não pergunte
o porquê
com certeza já esqueceu
como a estrela lá piscante
que não sabe
a magnífica
que há muito
feneceu
Quero só
sono de pedra
que nunca jamais acorda
para revelar os seus sonhos
Ou não acorda jamais nunca
para não esquecer o que sonhou?
Só quero o sono de pedra
Quero sonhar não ser eu
57
Breve sonho de fama
Sonhei que da noite para o dia
meu nome tinha ficado famoso
em todas redes sociais
E me nomearam para um prêmio
concorrido e de caráter nacional
Me convidaram a dar entrevistas em
podcasts de abrangência mundial
E eu falava verdades filosóficas:
que tudo me vinha qual sonho
e que eu temia acordar de repente
etcetera e tal, etcetera e tal, etcetera e tal
Me desconvidaram de todos podcasts
Me desnomearam do prêmio nacional
E do dia para noite meu nome foi cancelado
em todas as redes sociais
67
O Jasmim ressuscitado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar sagrado
um copo na cabeceira
zolpidem dormindo ao lado
Na casa da minha amiga
reina um ar empoeirado
não se areja lá faz tempo
nunca passa um namorado
Na casa da minha amiga
reina um ar meio encantado
tudo tem seu pouso certo
e o tempo corre arrastado
Na casa da minha amiga
há cortinas com plissado
me arrepio quando o vento
vem ondear o cortinado
Na casa da minha amiga
toda a mesa tem rendado
e no vaso verde em vidro
um jasmim sonha o passado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar honrado
não se troca não se tira
nem se mexe no estofado
Certo dia a minha amiga
me pregou susto danado
se piscando qual mocinha
com o olhinho rebocado
Na casa dessa minha amiga
já não vou nem correntado
se desfez das tralharias
tomou dinheiro emprestado
e comprou roupa e cortina
em tom vermelho encarnado!
65
Terezinha
Mamãezinha quando bebe
adormece pelo chão
Papaizinho quando fuma
sente dor no coração
Meu amor quando entorpece
só desboca palavrão
E eu que sou tão miudinha
do tamanho de um fogão
carrego a mamãe pra cama
e o papai para o plantão
O bolso furou
o dinheiro escapou
você se azedou
E o amor que tu me tinhas
era pouco, muito pouco, de tão pouco
se acabou
Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...
Lá quem manda e que desmanda é o Salvador
Que ladrilha e maravilha a rua inteira
Con piedritas cristalinas, muy preciosas
Pra acalmar e acabar com toda a dor...
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