Poemas
48Panapanã
Não têm mãe, nem têm um pai
na brevidade dessa vida
que brotou já colorida
sob o morno sol do ar
Pura seda, finas pétalas
se acenam de par em par
floreiam voltas incertas
pra em nova cor repousar
Beijam flores encantadas
com o sumo deste beijo
e na fome do desejo
querem mil flores beijar
Se de pólen fecundadas
sementes vão semear
sobre folhas como fadas
perolinhas de um colar
Sete noites, sete dias
cumprem a sina de voar
belezas recém-nascidas
para um breve farfalhar
E findada a primavera
se despedem do luar
e com o todo que se altera
vão ao pó do pó voltar
79
O touro de Minos
Este mundo, um labirinto,
em que, desnudo, percorro
mil corredores, faminto
Essas grossas amplas veias
pulsam o sangue da nobreza
inflamado por centelhas
de vaidade e de tristeza
Deixo pegadas de homem
sob o jugo de um instinto
e em cadência meus passos
ressoam sem som distinto
Bifurcam-se galerias
e espelham-se encruzilhadas
curvadas paredes frias
se giram entorno de um nada
Nos becos deste recinto
ouço o eco de sussurros
sei que há mais labirintos
por detrás dos altos muros
Persigo a linha da vida
que se enovela a um centro
onde a morte, uma saída,
retoma o fio do tormento
Todo o fogo que devoro
não renova o meu vigor
tanto mais devoro o fogo
mais flameja a minha dor
Passam sóis e passam luas,
nuvens tornam o céu finito
sobre a pele nua e crua
pesa o pó de um gasto mito
Só o fim desta quimera
quiçá me salve da sina
vencido por outra fera
mais ardilosa e assassina
72
No barco vago do pai
...o meu pai pescava peixe
em rede que entra e sai
no entra e sai dessa rede
pescava peixe o meu pai...
Negra noite um barco vaga
Vaga o barco num balanço
As ondas gemem risadas
E os ventos caçoam prantos!
...e num vai que vem e volta
e num volta que vem e vai
me ensinou meu pai a voga
e a voga aprendi do pai...
Na maré que sobe e desce
Relanço redes ao mar
Num rumorejo de preces
Pedindo pro pai voltar!
...meu pai me ensinou a orar
contando as ondas do mar
contando as ondas do mar
me ensinou meu pai a orar...
Só uma gaivota responde
Bradando um grito de ai:
E teu pai se foi pra onde?!
Onde foi pescar teu pai?!
...ó filho, aprendi pescar
ouvindo o vento chorar
aprenda a temer, ó filho
os risos loucos do mar...
Foi no mar que vem e volta
E em onda que sobe e cai
Que a vaga remou de volta
O barco que foi do pai!
...o pai pescava seu peixe
cantando pra retornar
o filho pesca chorando
me deixem morrer no mar...
73
Auto de amor e traição na granja do pai João
Cena I
A galinha bateu asa
e pediu cocoricó?!
O galo crispou a crista
e berrou cocorocó!!
Coitadinha da galinha
tá tristinha de dar dó
pois o galo, o safadinho,
tá cantando a carijó!
Coro:
Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha
revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!
Cena II
Um pintinho pequeninho
deu um peido amarelinho
e cantou sou um baita galo!
Piu piu piu piava o pinto
olha o cheiro que eu exalo!
Coro:
Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento
regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!
Cena III
Noite o galo e uma galinha
foram ao baile da raposa
o seu galo bebeu todas
e flertou com a mariposa
Sá galinha por vingança
dançou já com a tropa toda
e o galinho descornado
foi dormir só co’a esposa
Coro:
Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza
viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!
69
Saudades da minha Terra
Hoje sonhei
que tinha ido morar na Lua
Não a Lua dos poetas,
não a Lua das toadas,
sempre cheia e iluminada,
despertando amor febril
Não.
Era uma terra habitada
por casinhas e ruelas
por nuvens e nevoeiros
em sombras de eterno frio
E sonhei que tu moravas
numa casa ali comigo
Mas o amor era pouco,
de tão pouco, não bastou
pra esfriar essa saudade
de uma Terra ensolarada
bola branca e azulada
que pairava na distância
entre um céu negro e hostil
66
Quarta-Feira de Sangue
Duas coisas me restaram
do ensaio de uma vida:
que o sabão Piraquitiba
tudo lava, tudo enxagua,
e, conforme a voz no rádio,
Até mancha de sangue ele apaga!
E também que só o sábio,
o sabido, o verdadeiro,
é quem sabe o que é perdão
...essa eu colhi, se me lembro,
de um novo samba-canção...
Só de sábia eu tive é nada,
muito pouco de sabida,
e desfilei de madrugada
meu rancor pela avenida
camisa e saia manchadas
com os respingos da tua vida
75
O quê da coisa
Nem todo o poema
é Sistina
Nem todo o verso
um Titã
Nem toda a rima
é Alpina
Nem todo o poeta
um Rodin
Só a poesia
essa sina
é sempre Febre Terçã
65
O Jasmim ressuscitado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar sagrado
um copo na cabeceira
zolpidem dormindo ao lado
Na casa da minha amiga
reina um ar empoeirado
não se areja lá faz tempo
nunca passa um namorado
Na casa da minha amiga
reina um ar meio encantado
tudo tem seu pouso certo
e o tempo corre arrastado
Na casa da minha amiga
há cortinas com plissado
me arrepio quando o vento
vem ondear o cortinado
Na casa da minha amiga
toda a mesa tem rendado
e no vaso verde em vidro
um jasmim sonha o passado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar honrado
não se troca não se tira
nem se mexe no estofado
Certo dia a minha amiga
me pregou susto danado
se piscando qual mocinha
com o olhinho rebocado
Na casa dessa minha amiga
já não vou nem correntado
se desfez das tralharias
tomou dinheiro emprestado
e comprou roupa e cortina
em tom vermelho encarnado!
69
Alma bêbada
Flores Flores Flores Flores
Eu a vejo em mim chorando mares e marés
Vejo-a colhendo cascalhos cinzas me apedreja
Eu simplesmente a vejo beijando grãos, doce ela
Ela está caçoando das nuvens e dançando tempestades
Ela é tão docemente... humilde como o ouro das flores
Ela come loucuras domésticas na praia sua
Saboreia água que a molha nua
Só isso nua santa
Sonho com ela sonhando comigo
Vejo-a tentando, tentando ter compaixão
Oh, ter compaixão de si mesma!
Ela, só ela, seca lágrimas suas
E eu a vejo, a vejo cantarolando poemias
Bêbada, com carícia conforta suas amargas
Ela entra na água some
Ela salgamolha-se no próprio pranto próprio
Amaldiçoando pássaros que não colhem
E lírios que não fiam
E deuses que só dormem, só
Eu a vejo... vejo... eu a vejo
Encosta seus molhados em mim ri
Sacra-me da areia amarezada da noite
E me cobre de si mesma
... De flores e dores
Cuida de solar, brilha no mar
É em mim, é ela que é
Molhada de seu gástrico
Suada de límpidos confessos
...De flores e dores
Ela me há
Ela me em, esquecida
Só
Flores... Flores...
64
Breve sonho de fama
Sonhei que da noite para o dia
meu nome tinha ficado famoso
em todas redes sociais
E me nomearam para um prêmio
concorrido e de caráter nacional
Me convidaram a dar entrevistas em
podcasts de abrangência mundial
E eu falava verdades filosóficas:
que tudo me vinha qual sonho
e que eu temia acordar de repente
etcetera e tal, etcetera e tal, etcetera e tal
Me desconvidaram de todos podcasts
Me desnomearam do prêmio nacional
E do dia para noite meu nome foi cancelado
em todas as redes sociais
70
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.