Lista de Poemas

Auto de amor e traição na granja do pai João

 

Cena I

 

A galinha bateu asa

e pediu cocoricó?!

O galo crispou a crista

e berrou cocorocó!!

Coitadinha da galinha

tá tristinha de dar dó

pois o galo, o safadinho,

tá cantando a carijó!

 

Coro:

Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha 

revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!

 

Cena II

 

Um pintinho pequeninho

deu um peido amarelinho

e cantou sou um baita galo!

Piu piu piu piava o pinto

olha o cheiro que eu exalo!

 

Coro:

Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento 

regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!

 

Cena III

 

Noite o galo e uma galinha

foram ao baile da raposa

o seu galo bebeu todas

e flertou com a mariposa

Sá galinha por vingança

dançou já com a tropa toda

e o galinho descornado

foi dormir só co’a esposa

 

Coro:

Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza

viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!

57

Narciso

 

Agora é assim:

mal eu ponho o pé no parque

que o coral de mil narcisos

rosto radiante em sorrisos 

já me entoa um oi sonoro

Muito obrigado, digo, amigos,

me inclino em vênias e coro

59

Quem foi que matou o poeta

 

Lá tá ele no meio da rua 

gordo, coitado, corpanzil estirado 

todo, sobre o asfalto 

sirenes inda ouço 

focos vermelhos 

e azuis 

ta ti ta ta 

ta ti 

tata 

 

Seu policial,

só uma pergunta 

falou o repórter

Nada a declarar disse o polícia 

circulando, circulando

 

Não, seu doutor, desculpa aí,

foi tão do nada, né

Não vi não

assim falou seu José

De pedreiro

cheio a mão

 

Um milagre que o carro sobreviveu! 

deu de comento a vendedora 

de pé de moleque 

apontando pra coisa

carnuda redonda

ceifada esfolada 

estirada na rua

bloqueando o fluxo

em plena contramão

 

Nem sangue saia do morto 

 

Poeta

 

Consternação?

 

Ah, isso sim, 

mas sem choro 

que era poeta de pouca extensão 

 

Sabe o nome? 

Não sei não, disse o ladrão 

apalpando no bolso da calça 

a magra carteira 

surrupiada 

do chão

 

Eu vi tu-tudo, eu vi tu-tudo 

disse o moleque 

que fedia a jornal 

e vivia enrolado 

em velha notícia

abaixo do viaduto 

Teixeira Amaral

 

Ah, foi pouco o interesse 

notícia de segunda mão

 

Te citou aqui foi quem?

disse o polícia

e roçou o cacetete

no coro

do sabichão

 

Não parece um soldado 

o poeta

abatido e surpreso 

em meio à batalha 

por bala perdida

tombado ao chão?

Suspirou num repente

Maria da Silva e João

a dona da carrocinha

balançando na direita 

churro quente

e na esquerda 

pastelão

 

Mas só se for,

pensou o gari

no ele com ele

e os devidos botões,

bala calibre canhão

 

Ah era poeta o pançudo? 

E de alcunha? 

Hmm. Aí não sei. Nunca ouvi. 

Mas todo dia morre gente aqui,

meu patrão,

é jornaleiro e jornalista

é engraxate e sapateiro

é biscateiro e professor...

E poeta? 

Até hoje? 

Que eu saiba 

ainda não 

 

Assim falou Mascarenhas

e entornou um martelinho

dando depois três batidas

na madeira do balcão

 

Mas si-sim, gritou o moleque 

com catinga de notícia

que faz dois ou mais de mês

que se atirou ali da ponte

da-da-da

da-da-da

da-da-da

 

- A da Cruz!

berrou o povo

 

Isso, Cruz

aquele tal compunista

ô-ô-ô

ô-ô-ô

 

O Gonzaga de Jesus! 

 

Ah, mas pra que tanta indiscrição!

 

Sai daí moleque gago

que ninguem te perguntô

quem que morreu

quem se matô

 

Circulando, circulando!

 

Saiu noutro dia 

larga manchete

no jornal 

A Sensação:

Faleceu o senhor 

Felisberto dos Santos

Souza Silva

Neto e Cunha 

poeta de puro nome

professor de profissão

Nome da rua

Almeida Quevedo 

esquina com

a Siqueira Alemão

atropelado 

ou morto 

por 

anônimo

caminhão

 

Ninguém deu muita atenção

48

O orgulho da família


Meu pai fez milhões 

filmando

a vida secreta

dos elfos

dos do ar e dos da terra 

dos do fogo e dos do mar

 

Minha irmã foi a primeira 

a escalar 

todas as sete

montanhas

da lua

 

Meu irmão 

gastou seus dias

estudando

provérbios gregos 

extintos

 

Minha mãe 

a mais premiada

curou males

findou guerras

pondo o rosto

na janela

e semeando

sorrisos

 

Agora eu 

e quanto mim… 

sou o único 

que ainda guarda 

a lembrança

disso tudo

 

81

Sonho de uma noite de verão

 

Noite nua

lua em prata

fui à rua

das acácia

de bermuda

e de regata

pra afogar

minha ressaca

 

(meu jesus me dai cachaça!)

 

Joguei carta

ri à toa

abracei

todas comparsa

e gritei

a vida é boa

cara cheia

as bunda farta

 

(essa rodada é pras parça!)

 

Comi

linguiça e batata

tirei

um choro de lata

e fiz samba

pra mulata

com remolejo

de gata

 

(já tinha dona, a sapata!)

 

Me engracei

c‘uma coroa

tinha pinta

de patroa 

eu pensei

a velha é boa

a noitada

hoje

é de graça

 

(cheirei um pó co‘a ricaça!)

 

Só não sei

me deu nas teia

um rebuliço

escangalho

chamei a velha

de feia

e mandei

ir pro 

caralho

 

(virou poeira a velhaca!)

 

Me ferveu

sangue nas veia

tomei

golão

de gargalo

virei

chave de cadeia

e xinguei

tudo

de otário

 

(que vão à merda as bruaca!)

 

E passei já

pro sopapo

chutei mesa

quebrei prato

quando

bebo

viro macho

faço

as muié

de capacho

 

(me tiraram ali nos tapa!)

 

Fui pra praça

paulo arruda

e catei uma polaca

era gostosa

a bunduda

uns peito grande

qual jaca

 

(mas tinha um pinto, a desgraça!)

 

Sai fazendo 

arruaça

atirei pedra

em vidraça

e mijei

até na estátua 

da

santa

rita de cássia 

 

(todas muié são devassa!)

 

Um milico 

me bateu

me jogou

atrás de grade

infernizei

fiz alarde:

tu é 

corno

seu covarde

 

(ainda acabo co‘a tua raça!)

 

Quando foi

amanheceu

vi meu corpo

na valeta

boca cheia

terra preta

com

dois tiro

na cabeça 


(e os urubu na carcaça!)

 

Acordei

toda moída

co‘a cachola

dolorida

boca aberta

ressequida

de cigarro

e de bebida

 

(senti um bafão de cloaca!)

 

Credo em cruz

ave maria

pomba gira

e bom jesus

deus me livre

dessa sina

sete vez

sinal da cruz

 

(eita vidinha sem graça!)

 

Virgem mãe

aparecida

pela luz

de tua graça

eu te juro

mudo a vida

nunca mais

tomo cachaça

 

(me aperdoe a carne fraca!)

 

58

Saudades da minha Terra

 

Hoje sonhei

que tinha ido morar na Lua

Não a Lua dos poetas,

não a Lua das toadas,

sempre cheia e iluminada,

despertando amor febril

Não.

Era uma terra habitada

por casinhas e ruelas

por nuvens e nevoeiros

em sombras de eterno frio

E sonhei que tu moravas

numa casa ali comigo

Mas o amor era pouco,

de tão pouco, não bastou

pra esfriar essa saudade

de uma Terra ensolarada

bola branca e azulada

que pairava na distância

entre um céu negro e hostil

51

A Pathétique de Tchaikovski

 

As putas do Bukowski

apreciam um bom

Vivaldi

 

Seus bêbados,

seus ladrões e

os suicidas

papeiam sobre cavalos,

proseiam sobre Rimbaud 

e versam sobre Van Gogh

 

E até seus assassinos 

aumentam o volume

do rádio 

quando entoa a 

Pathétique!

 

Agora,

o meu vizinho,

— engenheiro

diplomado pelo MIT,

motorista de um Scénic,

pai de Arthur e

Laura Alice —

reclama que

ler Machado

não passa de uma chatice,

põe no zap

que o Buarque

é veado e

bolchevique,

e arregaça 

o som do áudio

quando escuta um

Zé Henrique...

 

(Queira Deus

que no meu

rádio

jamais toque

a Pathétique!)

74

Amor degradável

 

Nosso amor

tem um cheiro de comida

bem gostosa, bem cozida

temperada com primor

Só que há meses esquecida

no fundo da geladeira:

azedou, gerou bolor

 

Ninguém mais nega

que só serve 

para fartar

a barriga da lixeira

 

Ou serviria 

um banquete

para os germes

invisíveis

que pululam 

aos milhões

as terras 

de algum jardim?

26

O quê da coisa

 

Nem todo o poema

é Sistina

Nem todo o verso

um Titã

Nem toda a rima

é Alpina

Nem todo o poeta

um Rodin

Só a poesia 

essa sina

é sempre Febre Terçã

49

Terezinha

 

Mamãezinha quando bebe

adormece pelo chão

Papaizinho quando fuma

sente dor no coração

 

Meu amor quando entorpece

só desboca palavrão

 

E eu que sou tão miudinha

do tamanho de um fogão

carrego a mamãe pra cama

e o papai para o plantão

 

O bolso furou

o dinheiro escapou

você se azedou

E o amor que tu me tinhas

era pouco, muito pouco, de tão pouco

se acabou

 

Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...

Lá quem manda e que desmanda é o Salvador

Que ladrilha e maravilha a rua inteira

Con piedritas cristalinas, muy preciosas

Pra acalmar e acabar com toda a dor...

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