Poemas
48No barco vago do pai
...o meu pai pescava peixe
em rede que entra e sai
no entra e sai dessa rede
pescava peixe o meu pai...
Negra noite um barco vaga
Vaga o barco num balanço
As ondas gemem risadas
E os ventos caçoam prantos!
...e num vai que vem e volta
e num volta que vem e vai
me ensinou meu pai a voga
e a voga aprendi do pai...
Na maré que sobe e desce
Relanço redes ao mar
Num rumorejo de preces
Pedindo pro pai voltar!
...meu pai me ensinou a orar
contando as ondas do mar
contando as ondas do mar
me ensinou meu pai a orar...
Só uma gaivota responde
Bradando um grito de ai:
E teu pai se foi pra onde?!
Onde foi pescar teu pai?!
...ó filho, aprendi pescar
ouvindo o vento chorar
aprenda a temer, ó filho
os risos loucos do mar...
Foi no mar que vem e volta
E em onda que sobe e cai
Que a vaga remou de volta
O barco que foi do pai!
...o pai pescava seu peixe
cantando pra retornar
o filho pesca chorando
me deixem morrer no mar...
70
Melhor amigo
Um grito gritou prum eco:
Eco é alma penada?
E o eco todo irrequieto:
Nada, nada, nada, nada!
E o grito lançou arteiro:
Quer roubar fruta do conde?
E o eco muito parceiro:
Conde, conde, conde, conde!
O grito pediu pro eco:
Vam‘ brincar de pegar bonde?
O eco não parou quieto:
Bonde, bonde, bonde, bonde!
O grito lembrou correto:
E ele vai pra muito longe!
E o eco com todo afeto:
Longe, longe, longe, longe!
O grito pensou inquieto:
Mas vai saber até onde...
E o eco também incerto:
Onde, onde, onde, onde...
O gritou falou faceiro:
Quer brincar de esconde-esconde?
E o eco sempre ligeiro:
Esconde, esconde, esconde, esconde!
O grito soou contente:
Que brincadeira mais boa!
E o eco que nunca mente:
Boa, boa, boa, boa!
70
Ladainha do Coração Desmesurado
Terça
Ah fosse eu dona Maria
lavava roupa em tua pia
Se eu fosse o Seu João
te tratava a arroz-feijão
Fosse eu irmão do Zé
te passava um bom café
E se fosse a banda Eva
te compunha moda brega
Quarta
E se me dera ser duque
não aceitava retruque
E se me dera ser princesa
te prendia ao pé da mesa
E se me dera ser eu rei
tu me casavas por lei
E se me dera imperatriz
te imputava um fim feliz
Quinta
Ai quem dera eu fosse ele
te pescava com esta rede
Ai quem dera eu fosse ela
só te amava à luz de vela
Ai quem dera eu fosse tu
me chamava meu chuchu
Sexta
Virasse eu um boteco
transbordava o teu caneco
Virasse eu bar de esquina
eu seria a tua ruína
Virasse eu um bordel
tu tinhas puta fiel
Virasse eu Casa Branca
te anunciava zona franca
Sábado
Ah se eu fosse um relés padre
eras mais que só compadre
Ah, se eu fosse um sábio bispo
te ergueria a altar de Cristo
Ah, se eu fosse um cardeal
te elevava a santo Graal
Mas se eu fosse santo papa
eras o herói da Vulgata
Domingo
E fosse eu um beato
veneravas meu retrato
E fosse eu algum santo
tu beijavas o meu manto
E fosse eu um arcanjo
te tocava harpa e banjo
E se no céu fosse eu Zeus
me idolatravas qual Deus
Segunda
Ah se eu fosse mesmo eu
não negavas quanto és meu!
93
Auto de amor e traição na granja do pai João
Cena I
A galinha bateu asa
e pediu cocoricó?!
O galo crispou a crista
e berrou cocorocó!!
Coitadinha da galinha
tá tristinha de dar dó
pois o galo, o safadinho,
tá cantando a carijó!
Coro:
Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha
revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!
Cena II
Um pintinho pequeninho
deu um peido amarelinho
e cantou sou um baita galo!
Piu piu piu piava o pinto
olha o cheiro que eu exalo!
Coro:
Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento
regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!
Cena III
Noite o galo e uma galinha
foram ao baile da raposa
o seu galo bebeu todas
e flertou com a mariposa
Sá galinha por vingança
dançou já com a tropa toda
e o galinho descornado
foi dormir só co’a esposa
Coro:
Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza
viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!
65
Rilkean heart
Eu, o que mais gosto
é de coraçãozinho assado
Dizem que Rilke comia
só coração cru
Eu não, só como assado
Talvez eu não seja
um bom gourmet
Talvez eu deva aprender
a comer coração cru
(mas é que adoro a farofa!)
Rilke que me perdoe
mas sou velho demais
pra comer coração cru
Minha mãe sempre dizia:
Coração descompassado
só se aquieta no grelhado
62
papel pega mosca
minha boca
tem ternuras
que se ditas
geram cores,
toldam vistas
com cândura,
ressuscitam
secas flores.
pena minha
estarem presas
em papel
de luz diodo,
como moscas
iludidas
por um doce
feromônio:
viram
múmias
ressequidas
grudadas
no estéril
hormônio.
90
Onda de frio
A queda da bolsa de valores
me deixa frio
As pernas do Cristiano Ronaldo
me deixam frio
Os 200 reféns do grupo terrorista
me deixam frio
A nevasca em Nebrasca
me deixa frio
A ressurreição do Tiranossauro rex
me deixa frio
Os cartazes com a Gisele semi-nua
me deixam frio
A prisão do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho
me deixa frio
Os 828 metros do Burj Khalifa
me deixam frio
O aquecimento global
me deixa frio
Até a alta da bolsa de valores
me deixa frio
Meu Deus!
Alguém podia chamar um
eletricista para consertar
a porra desse aquecedor?
58
Aizinhos
Ah, meu amigo,
minhas dores
são sem sal
Não sabem o nome
da rosa
nem colhem as flores
do mal
São dorzinhas
pequeninhas,
imaginárias
reais,
sobem descem
pela espinha
queimando febres
locais
Essas dores,
meu amigo,
tem caráter
intestinal
não enxergam
além do umbigo
nem acusam
o mal social
Bem quisera
as minhas dores
fossem mágoas
mais morais
que abraçassem
o mundo inteiro
me irmanassem
aos marginais
Ou quem dera
a dor, amigo,
não fosse
apenas carnal
e esta mera
dor de ouvido
me elevasse
ao celestial
Me dói tanto,
caro amigo,
doer dores
tão banais
essas penas
chinfrinzinhas
puramente
corporais
Tantas vezes
fantasio
sofrer moléstia
abissal
ou tormento
tão pungente
que me turve
a luz da mente
e me ascenda
ao surreal!
Chega o dia,
mano velho,
que algum achaque
fatal
(talvez desgosto
mais sério)
me traga a cura
afinal
soprando o pó
do mistério
dessa indolência
animal
59
Aviões
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre nuvens
Os aprecio minúsculos
pairando quase no azul
Aprecio-os de ficar tonto
e sentir que voo ao chão
Um avião traçou no céu
longas linhas retas
por onde Deus rabiscou
uns textos breves e turvos
Aviões são aves humanas
que sempre insistem em pousar
Embora eu saiba de pássaros que
jamais cessam seu voo
justamente
por não terem
mais pernas em que confiar
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre estrelas
Os aprecio minúsculos
a se piscar no negrume
Aprecio-os de ficar zonzo
e cair em sono fundo
99
A Pathétique de Tchaikovski
As putas do Bukowski
apreciam um bom
Vivaldi
Seus bêbados,
seus ladrões e
os suicidas
papeiam sobre cavalos,
proseiam sobre Rimbaud
e versam sobre Van Gogh
E até seus assassinos
aumentam o volume
do rádio
quando entoa a
Pathétique!
Agora,
o meu vizinho,
— engenheiro
diplomado pelo MIT,
motorista de um Scénic,
pai de Arthur e
Laura Alice —
reclama que
ler Machado
não passa de uma chatice,
põe no zap
que o Buarque
é veado e
bolchevique,
e arregaça
o som do áudio
quando escuta um
Zé Henrique...
(Queira Deus
que no meu
rádio
jamais toque
a Pathétique!)
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