Poemas
48Panapanã
Não têm mãe, nem têm um pai
na brevidade dessa vida
que brotou já colorida
sob o morno sol do ar
Pura seda, finas pétalas
se acenam de par em par
floreiam voltas incertas
pra em nova cor repousar
Beijam flores encantadas
com o sumo deste beijo
e na fome do desejo
querem mil flores beijar
Se de pólen fecundadas
sementes vão semear
sobre folhas como fadas
perolinhas de um colar
Sete noites, sete dias
cumprem a sina de voar
belezas recém-nascidas
para um breve farfalhar
E findada a primavera
se despedem do luar
e com o todo que se altera
vão ao pó do pó voltar
79
Cada macaco no seu galho
Eu, no meu quarto
o Daniel, na cova dos leões
a Alice, no país das maravilhas
o relógio, no crocodilo
Eu, no meu quarto
o gênio, na lâmpada
o Minotauro, no labirinto
o Jonas e o Pinóquio
cada um em sua baleia
Eu, no meu quarto
o Senna, em sua Williams
o Santo Antão, no deserto
a Rapunzel e o Hölderlin
cada um em sua torre
Eu, no meu quarto
a Emily, em Amherst
a Eurídice, no Hades
o grão de feijão,
na panela de pressão
A gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo:
Eu no meu quarto
156
Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa
Queria tanto saber cantar
disse a pomba que arrulhava
catando os restos de pão
na beira de uma calçada
Já eu o que mais queria
é poder planar no ar
disse o homem que passava
varrendo o lixo da estrada
Pois não quero incomodar
disse a poeta que ouvia
debruçada na janela
do terceiro ou quarto andar
Já que a mim o que me resta
é só cantar e voar
E baixou as persianas
retornou a sua mesa
e se pôs a rabiscar
70
O Jasmim ressuscitado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar sagrado
um copo na cabeceira
zolpidem dormindo ao lado
Na casa da minha amiga
reina um ar empoeirado
não se areja lá faz tempo
nunca passa um namorado
Na casa da minha amiga
reina um ar meio encantado
tudo tem seu pouso certo
e o tempo corre arrastado
Na casa da minha amiga
há cortinas com plissado
me arrepio quando o vento
vem ondear o cortinado
Na casa da minha amiga
toda a mesa tem rendado
e no vaso verde em vidro
um jasmim sonha o passado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar honrado
não se troca não se tira
nem se mexe no estofado
Certo dia a minha amiga
me pregou susto danado
se piscando qual mocinha
com o olhinho rebocado
Na casa dessa minha amiga
já não vou nem correntado
se desfez das tralharias
tomou dinheiro emprestado
e comprou roupa e cortina
em tom vermelho encarnado!
68
Aviões
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre nuvens
Os aprecio minúsculos
pairando quase no azul
Aprecio-os de ficar tonto
e sentir que voo ao chão
Um avião traçou no céu
longas linhas retas
por onde Deus rabiscou
uns textos breves e turvos
Aviões são aves humanas
que sempre insistem em pousar
Embora eu saiba de pássaros que
jamais cessam seu voo
justamente
por não terem
mais pernas em que confiar
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre estrelas
Os aprecio minúsculos
a se piscar no negrume
Aprecio-os de ficar zonzo
e cair em sono fundo
101
Saudades da minha Terra
Hoje sonhei
que tinha ido morar na Lua
Não a Lua dos poetas,
não a Lua das toadas,
sempre cheia e iluminada,
despertando amor febril
Não.
Era uma terra habitada
por casinhas e ruelas
por nuvens e nevoeiros
em sombras de eterno frio
E sonhei que tu moravas
numa casa ali comigo
Mas o amor era pouco,
de tão pouco, não bastou
pra esfriar essa saudade
de uma Terra ensolarada
bola branca e azulada
que pairava na distância
entre um céu negro e hostil
64
Ladainha do Coração Desmesurado
Terça
Ah fosse eu dona Maria
lavava roupa em tua pia
Se eu fosse o Seu João
te tratava a arroz-feijão
Fosse eu irmão do Zé
te passava um bom café
E se fosse a banda Eva
te compunha moda brega
Quarta
E se me dera ser duque
não aceitava retruque
E se me dera ser princesa
te prendia ao pé da mesa
E se me dera ser eu rei
tu me casavas por lei
E se me dera imperatriz
te imputava um fim feliz
Quinta
Ai quem dera eu fosse ele
te pescava com esta rede
Ai quem dera eu fosse ela
só te amava à luz de vela
Ai quem dera eu fosse tu
me chamava meu chuchu
Sexta
Virasse eu um boteco
transbordava o teu caneco
Virasse eu bar de esquina
eu seria a tua ruína
Virasse eu um bordel
tu tinhas puta fiel
Virasse eu Casa Branca
te anunciava zona franca
Sábado
Ah se eu fosse um relés padre
eras mais que só compadre
Ah, se eu fosse um sábio bispo
te ergueria a altar de Cristo
Ah, se eu fosse um cardeal
te elevava a santo Graal
Mas se eu fosse santo papa
eras o herói da Vulgata
Domingo
E fosse eu um beato
veneravas meu retrato
E fosse eu algum santo
tu beijavas o meu manto
E fosse eu um arcanjo
te tocava harpa e banjo
E se no céu fosse eu Zeus
me idolatravas qual Deus
Segunda
Ah se eu fosse mesmo eu
não negavas quanto és meu!
96
Aizinhos
Ah, meu amigo,
minhas dores
são sem sal
Não sabem o nome
da rosa
nem colhem as flores
do mal
São dorzinhas
pequeninhas,
imaginárias
reais,
sobem descem
pela espinha
queimando febres
locais
Essas dores,
meu amigo,
tem caráter
intestinal
não enxergam
além do umbigo
nem acusam
o mal social
Bem quisera
as minhas dores
fossem mágoas
mais morais
que abraçassem
o mundo inteiro
me irmanassem
aos marginais
Ou quem dera
a dor, amigo,
não fosse
apenas carnal
e esta mera
dor de ouvido
me elevasse
ao celestial
Me dói tanto,
caro amigo,
doer dores
tão banais
essas penas
chinfrinzinhas
puramente
corporais
Tantas vezes
fantasio
sofrer moléstia
abissal
ou tormento
tão pungente
que me turve
a luz da mente
e me ascenda
ao surreal!
Chega o dia,
mano velho,
que algum achaque
fatal
(talvez desgosto
mais sério)
me traga a cura
afinal
soprando o pó
do mistério
dessa indolência
animal
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Ponto de fuga
Em frente à janela se estende
uma rua
lavrada de puro asfalto
ladeada de altas paredes
armadas de cimento liso
Listras de janelas
sobem
descem
abaixo
acima
No cabo da rua,
um paredão
branco
duro
põe ponto às paralelas
que bem se sabe,
noutro caso,
se cruzariam nem mesmo
no oceano
do infinito
E além dos muros?
Aí já não sei
O que sei é que
que entre eles
isso sim
se vem morrer
se vem sofrer
e se curar. É hospital
Mas às vezes
me pego na crença
que além do beco
pisca um recomeço
ou
que atrás da fria
pálpebra
da esfinge adormecida
um tenso olhar
sonha
e espreita
E não de raro
me peço
que dos confins
deste sono
a sã pergunta
decifre
todas vãs
servis respostas
que me amiúde
devoram
a graça infinda
de ver
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Auto de amor e traição na granja do pai João
Cena I
A galinha bateu asa
e pediu cocoricó?!
O galo crispou a crista
e berrou cocorocó!!
Coitadinha da galinha
tá tristinha de dar dó
pois o galo, o safadinho,
tá cantando a carijó!
Coro:
Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha
revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!
Cena II
Um pintinho pequeninho
deu um peido amarelinho
e cantou sou um baita galo!
Piu piu piu piava o pinto
olha o cheiro que eu exalo!
Coro:
Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento
regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!
Cena III
Noite o galo e uma galinha
foram ao baile da raposa
o seu galo bebeu todas
e flertou com a mariposa
Sá galinha por vingança
dançou já com a tropa toda
e o galinho descornado
foi dormir só co’a esposa
Coro:
Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza
viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!
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