Claudio de Jesus

Claudio de Jesus

n. 1971 BR BR

n. 1971-06-24, Novo Hamburgo

Perfil
2 899 Visualizações

As nuvens de agosto


Lambi a nuvem

pendida

fofa inocente no céu

Quem diria

nada doce

nenhum gostinho 

de mel:

 

Nuvens pairam no horizonte

como espumas do passado

quem provou da sua fonte

sabe o que é sabor salgado

 

O meu amor

me dizia

Nuvem é qual

algodão doce...

 

Bem desconfiei que não fosse!

Que era branquinha

é de sal

 

Pois a nuvem, sim senhor

nuvem é feita de vapor

não de mar, de rio, de lago

mas de lágrimas de dor:

 

...chuva chora

lava o rosto

cai ao chão

e se evapora...

 

E lá se vai todo desgosto

flutuando céu afora

formar as nuvens de agosto

com nossos prantos de agora

Ler poema completo

Poemas

48

Panapanã

 

Não têm mãe, nem têm um pai

na brevidade dessa vida

que brotou já colorida

sob o morno sol do ar

 

Pura seda, finas pétalas

se acenam de par em par 

floreiam voltas incertas

pra em nova cor repousar

 

Beijam flores encantadas

com o sumo deste beijo

e na fome do desejo

querem mil flores beijar

 

Se de pólen fecundadas

sementes vão semear

sobre folhas como fadas

perolinhas de um colar

 

Sete noites, sete dias

cumprem a sina de voar

belezas recém-nascidas

para um breve farfalhar

 

E findada a primavera

se despedem do luar

e com o todo que se altera

vão ao pó do pó voltar

79

Cada macaco no seu galho

 

Eu, no meu quarto

o Daniel, na cova dos leões

a Alice, no país das maravilhas

o relógio, no crocodilo

 

Eu, no meu quarto

o gênio, na lâmpada

o Minotauro, no labirinto

o Jonas e o Pinóquio

cada um em sua baleia

 

Eu, no meu quarto

o Senna, em sua Williams

o Santo Antão, no deserto

a Rapunzel e o Hölderlin

cada um em sua torre

 

Eu, no meu quarto

a Emily, em Amherst

a Eurídice, no Hades 

o grão de feijão, 

na panela de pressão

 

A gente é fraco

cai no buraco

o buraco é fundo

acabou-se o mundo:

Eu no meu quarto

156

Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa


Queria tanto saber cantar

disse a pomba que arrulhava

catando os restos de pão

na beira de uma calçada

 

Já eu o que mais queria

é poder planar no ar

disse o homem que passava

varrendo o lixo da estrada

 

Pois não quero incomodar

disse a poeta que ouvia

debruçada na janela

do terceiro ou quarto andar

Já que a mim o que me resta

é só cantar e voar

 

E baixou as persianas

retornou a sua mesa

e se pôs a rabiscar

70

O Jasmim ressuscitado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar sagrado

um copo na cabeceira

zolpidem dormindo ao lado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar empoeirado

não se areja lá faz tempo

nunca passa um namorado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar meio encantado

tudo tem seu pouso certo

e o tempo corre arrastado

 

Na casa da minha amiga

há cortinas com plissado

me arrepio quando o vento

vem ondear o cortinado

 

Na casa da minha amiga

toda a mesa tem rendado

e no vaso verde em vidro

um jasmim sonha o passado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar honrado

não se troca não se tira

nem se mexe no estofado

 

Certo dia a minha amiga 

me pregou susto danado

se piscando qual mocinha

com o olhinho rebocado

 

Na casa dessa minha amiga

já não vou nem correntado

se desfez das tralharias

tomou dinheiro emprestado

e comprou roupa e cortina

em tom vermelho encarnado!

68

Aviões

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre nuvens

Os aprecio minúsculos 

pairando quase no azul

Aprecio-os de ficar tonto

e sentir que voo ao chão

 

Um avião traçou no céu

longas linhas retas

por onde Deus rabiscou

uns textos breves e turvos

 

Aviões são aves humanas

que sempre insistem em pousar

Embora eu saiba de pássaros que 

jamais cessam seu voo

justamente

por não terem 

mais pernas em que confiar

 

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre estrelas

Os aprecio minúsculos 

a se piscar no negrume

Aprecio-os de ficar zonzo

e cair em sono fundo

101

Saudades da minha Terra

 

Hoje sonhei

que tinha ido morar na Lua

Não a Lua dos poetas,

não a Lua das toadas,

sempre cheia e iluminada,

despertando amor febril

Não.

Era uma terra habitada

por casinhas e ruelas

por nuvens e nevoeiros

em sombras de eterno frio

E sonhei que tu moravas

numa casa ali comigo

Mas o amor era pouco,

de tão pouco, não bastou

pra esfriar essa saudade

de uma Terra ensolarada

bola branca e azulada

que pairava na distância

entre um céu negro e hostil

64

Ladainha do Coração Desmesurado

 

Terça

Ah fosse eu dona Maria

lavava roupa em tua pia

Se eu fosse o Seu João

te tratava a arroz-feijão

Fosse eu irmão do Zé

te passava um bom café 

E se fosse a banda Eva

te compunha moda brega

 

Quarta

E se me dera ser duque

não aceitava retruque

E se me dera ser princesa

te prendia ao pé da mesa 

E se me dera ser eu rei

tu me casavas por lei

E se me dera imperatriz

te imputava um fim feliz

 

Quinta

Ai quem dera eu fosse ele

te pescava com esta rede

Ai quem dera eu fosse ela

só te amava à luz de vela

Ai quem dera eu fosse tu

me chamava meu chuchu

 

Sexta

Virasse eu um boteco

transbordava o teu caneco

Virasse eu bar de esquina

eu seria a tua ruína

Virasse eu um bordel

tu tinhas puta fiel

Virasse eu Casa Branca

te anunciava zona franca

 

Sábado

Ah se eu fosse um relés padre

eras mais que só compadre

Ah, se eu fosse um sábio bispo

te ergueria a altar de Cristo

Ah, se eu fosse um cardeal

te elevava a santo Graal

Mas se eu fosse santo papa

eras o herói da Vulgata

 

Domingo

E fosse eu um beato

veneravas meu retrato

E fosse eu algum santo

tu beijavas o meu manto

E fosse eu um arcanjo

te tocava harpa e banjo

E se no céu fosse eu Zeus

me idolatravas qual Deus

 

Segunda

Ah se eu fosse mesmo eu

não negavas quanto és meu!

96

Aizinhos

 

Ah, meu amigo,

minhas dores

são sem sal

Não sabem o nome

da rosa

nem colhem as flores

do mal

 

São dorzinhas

pequeninhas,

imaginárias

reais,

sobem descem

pela espinha

queimando febres 

locais

 

Essas dores,

meu amigo,

tem caráter

intestinal

não enxergam

além do umbigo

nem acusam

o mal social

 

Bem quisera

as minhas dores

fossem mágoas

mais morais

que abraçassem

o mundo inteiro

me irmanassem

aos marginais

 

Ou quem dera

a dor, amigo,

não fosse

apenas carnal

e esta mera

dor de ouvido

me elevasse

ao celestial

 

Me dói tanto,

caro amigo,

doer dores

tão banais

essas penas

chinfrinzinhas

puramente

corporais

 

Tantas vezes

fantasio

sofrer moléstia 

abissal

ou tormento

tão pungente

que me turve

a luz da mente

e me ascenda

ao surreal!

 

Chega o dia, 

mano velho,

que algum achaque 

fatal

(talvez desgosto

mais sério)

me traga a cura

afinal

soprando o pó

do mistério

dessa indolência 

animal

61

Ponto de fuga

 

Em frente à janela se estende 

uma rua 

lavrada de puro asfalto

ladeada de altas paredes 

armadas de cimento liso

Listras de janelas

sobem

descem

abaixo

acima

 

No cabo da rua, 

um paredão 

branco 

duro

põe ponto às paralelas

que bem se sabe,

noutro caso,

se cruzariam nem mesmo 

no oceano 

do infinito

 

E além dos muros?

Aí já não sei

O que sei é que

que entre eles 

isso sim

se vem morrer

se vem sofrer

e se curar. É hospital

 

Mas às vezes 

me pego na crença

que além do beco

pisca um recomeço 

ou

que atrás da fria

pálpebra

da esfinge adormecida

um tenso olhar

sonha

e espreita

 

E não de raro

me peço

que dos confins

deste sono

a sã pergunta

decifre

todas vãs

servis respostas

que me amiúde

devoram

a graça infinda

de ver

69

Auto de amor e traição na granja do pai João

 

Cena I

 

A galinha bateu asa

e pediu cocoricó?!

O galo crispou a crista

e berrou cocorocó!!

Coitadinha da galinha

tá tristinha de dar dó

pois o galo, o safadinho,

tá cantando a carijó!

 

Coro:

Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha 

revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!

 

Cena II

 

Um pintinho pequeninho

deu um peido amarelinho

e cantou sou um baita galo!

Piu piu piu piava o pinto

olha o cheiro que eu exalo!

 

Coro:

Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento 

regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!

 

Cena III

 

Noite o galo e uma galinha

foram ao baile da raposa

o seu galo bebeu todas

e flertou com a mariposa

Sá galinha por vingança

dançou já com a tropa toda

e o galinho descornado

foi dormir só co’a esposa

 

Coro:

Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza

viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!

67

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.