Poemas
48Abelha Rainha
O barraco do pedreiro
é feito todo de mel
todo dia tinha enxame
azoando o seu Miguel
Vinham tu, vinha a Maria,
vinham Joelma ou Joel
tudo que é abelha pedia
pra provar daquele mel
Na palhoça do pedreiro
amor era um carrossel
um sai-entra todo o dia
do cafofo do Miguel!
Fui pedir ao seu pedreiro
por um basta no bordel
fez zum-zum na minha orelha
e me fez provar do céu
Na maloca do pedreiro
não sou abelha infiel
eu só bebo da doçura
dos favos do rei do mel
Nem mais tu, mais nem Amélia
Nem mais Joelma ou o Joel
vão reinar nessa colmeia
pois me caso com o Miguel!
61
Mais um conto de fada
Lá nas lonjuras dos tempos
houve uma mãe
das mais severas
que de filhos
tinha três:
João, Joaquim, José, e o Adão
que era o seu marido então
Uns guris fortes que eram
bem formados, dedos grossos,
mas viviam maltratados
pela mãe, uma megera,
que adorava uma maçã,
mas odiava gente sã
Certo dia
a mãe se foi
deixando sós o marido,
o muito honrado Adão
mais José, mais Joaquim
e um outro seu irmão
Como o pai sempre fora
gente da boa, decente,
tudo aceita, nunca mente,
viveram quase felizes
o pai manso e os descendentes
até o findar dessa história
Com exceção do João
que migrou
para o tablado
pra purgar um crime à toa
de algum fruto
envenenado
87
Amor degradável
Nosso amor
tem um cheiro de comida
bem gostosa, bem cozida
temperada com primor
Só que há meses esquecida
no fundo da geladeira:
azedou, gerou bolor
Ninguém mais nega
que só serve
para fartar
a barriga da lixeira
Ou serviria
um banquete
para os germes
invisíveis
que pululam
aos milhões
as terras
de algum jardim?
38
Cada macaco no seu galho
Eu, no meu quarto
o Daniel, na cova dos leões
a Alice, no país das maravilhas
o relógio, no crocodilo
Eu, no meu quarto
o gênio, na lâmpada
o Minotauro, no labirinto
o Jonas e o Pinóquio
cada um em sua baleia
Eu, no meu quarto
o Senna, em sua Williams
o Santo Antão, no deserto
a Rapunzel e o Hölderlin
cada um em sua torre
Eu, no meu quarto
a Emily, em Amherst
a Eurídice, no Hades
o grão de feijão,
na panela de pressão
A gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo:
Eu no meu quarto
154
Quem foi que matou o poeta
Lá tá ele no meio da rua
gordo, coitado, corpanzil estirado
todo, sobre o asfalto
sirenes inda ouço
focos vermelhos
e azuis
ta ti ta ta
ta ti
tata
Seu policial,
só uma pergunta
falou o repórter
Nada a declarar disse o polícia
circulando, circulando
Não, seu doutor, desculpa aí,
foi tão do nada, né
Não vi não
assim falou seu José
De pedreiro
cheio a mão
Um milagre que o carro sobreviveu!
deu de comento a vendedora
de pé de moleque
apontando pra coisa
carnuda redonda
ceifada esfolada
estirada na rua
bloqueando o fluxo
em plena contramão
Nem sangue saia do morto
Poeta
Consternação?
Ah, isso sim,
mas sem choro
que era poeta de pouca extensão
Sabe o nome?
Não sei não, disse o ladrão
apalpando no bolso da calça
a magra carteira
surrupiada
do chão
Eu vi tu-tudo, eu vi tu-tudo
disse o moleque
que fedia a jornal
e vivia enrolado
em velha notícia
abaixo do viaduto
Teixeira Amaral
Ah, foi pouco o interesse
notícia de segunda mão
Te citou aqui foi quem?
disse o polícia
e roçou o cacetete
no coro
do sabichão
Não parece um soldado
o poeta
abatido e surpreso
em meio à batalha
por bala perdida
tombado ao chão?
Suspirou num repente
Maria da Silva e João
a dona da carrocinha
balançando na direita
churro quente
e na esquerda
pastelão
Mas só se for,
pensou o gari
no ele com ele
e os devidos botões,
bala calibre canhão
Ah era poeta o pançudo?
E de alcunha?
Hmm. Aí não sei. Nunca ouvi.
Mas todo dia morre gente aqui,
meu patrão,
é jornaleiro e jornalista
é engraxate e sapateiro
é biscateiro e professor...
E poeta?
Até hoje?
Que eu saiba
ainda não
Assim falou Mascarenhas
e entornou um martelinho
dando depois três batidas
na madeira do balcão
Mas si-sim, gritou o moleque
com catinga de notícia
que faz dois ou mais de mês
que se atirou ali da ponte
da-da-da
da-da-da
da-da-da
- A da Cruz!
berrou o povo
Isso, Cruz
aquele tal compunista
ô-ô-ô
ô-ô-ô
O Gonzaga de Jesus!
Ah, mas pra que tanta indiscrição!
Sai daí moleque gago
que ninguem te perguntô
quem que morreu
quem se matô
Circulando, circulando!
Saiu noutro dia
larga manchete
no jornal
A Sensação:
Faleceu o senhor
Felisberto dos Santos
Souza Silva
Neto e Cunha
poeta de puro nome
professor de profissão
Nome da rua
Almeida Quevedo
esquina com
a Siqueira Alemão
atropelado
ou morto
por
anônimo
caminhão
Ninguém deu muita atenção
62
Fui pro ar perdi o lugar
Não gosto de me expandir
sempre que me retorno
está faltando um pedaço:
vai ficando dia a dia
largo o rasgo, grande o espaço
onde não cabe mais nada
que se ajeitar no escasso
E, no entanto, não encontro
das proporções, a devida
que costure em leves traços
os retalhos de uma vida,
quem conserte o estilhaço
e que me lamba a ferida,
quem me contorne um abraço
e me devolva à medida
Tudo aquilo que não toco
vaga pra sempre perdido
como um desejo moído
pela pedra do cansaço
44
Panapanã
Não têm mãe, nem têm um pai
na brevidade dessa vida
que brotou já colorida
sob o morno sol do ar
Pura seda, finas pétalas
se acenam de par em par
floreiam voltas incertas
pra em nova cor repousar
Beijam flores encantadas
com o sumo deste beijo
e na fome do desejo
querem mil flores beijar
Se de pólen fecundadas
sementes vão semear
sobre folhas como fadas
perolinhas de um colar
Sete noites, sete dias
cumprem a sina de voar
belezas recém-nascidas
para um breve farfalhar
E findada a primavera
se despedem do luar
e com o todo que se altera
vão ao pó do pó voltar
75
Há versos no corpo todo
Verso morde, verso expele,
verso fede e verso sua,
versos pés e versos mãos:
um corpo se faz de versos
um verso te enruga a pele
um outro invade o pulmão
há verso que mói as costas
já outros turvam a visão
vivos versos movem pernas
versos mortos cavam chão
há versos pro corpo todo
é o verso que move a mão
o verso que ferve a veia
e o verso da indigestão
um verso sobe à cabeça
e ali planteia a ilusão
há verso que treme o corpo
e o verso só da razão
há versos por todos pelos
tais versos dão comichão
tem verso que é ronco à noite
tem versos na solidão
há versos pra todo o corpo
vêm versos do coração
Mas quando as rimas
se espalham
da cabeça até o dedão
do corpo ao meio
se apossam
mil versos de diversão
71
O orgulho da família
Meu pai fez milhões
filmando
a vida secreta
dos elfos
dos do ar e dos da terra
dos do fogo e dos do mar
Minha irmã foi a primeira
a escalar
todas as sete
montanhas
da lua
Meu irmão
gastou seus dias
estudando
provérbios gregos
extintos
Minha mãe
a mais premiada
curou males
findou guerras
pondo o rosto
na janela
e semeando
sorrisos
Agora eu
e quanto mim…
sou o único
que ainda guarda
a lembrança
disso tudo
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Ponto de fuga
Em frente à janela se estende
uma rua
lavrada de puro asfalto
ladeada de altas paredes
armadas de cimento liso
Listras de janelas
sobem
descem
abaixo
acima
No cabo da rua,
um paredão
branco
duro
põe ponto às paralelas
que bem se sabe,
noutro caso,
se cruzariam nem mesmo
no oceano
do infinito
E além dos muros?
Aí já não sei
O que sei é que
que entre eles
isso sim
se vem morrer
se vem sofrer
e se curar. É hospital
Mas às vezes
me pego na crença
que além do beco
pisca um recomeço
ou
que atrás da fria
pálpebra
da esfinge adormecida
um tenso olhar
sonha
e espreita
E não de raro
me peço
que dos confins
deste sono
a sã pergunta
decifre
todas vãs
servis respostas
que me amiúde
devoram
a graça infinda
de ver
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