Lista de Poemas

Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)

 

De dona Adélia afirmaram

essa não faz poesia

À dona Clarice, atestaram,

falta a crua maestria

E dona Hilda, acusaram

da mais vil pornografia!

Senhora Prado

senhora Lispector

e até a senhora Hilst

se reencaixaram nos vincos

dos mobiliários domésticos

e criaram seus maridos

sem delírios manifestos

(só em caso de um apuro 

financeiro ou de família

recorreram em desespero

à uma antiga bruxaria)

Agora, a dona Adília,

de quem bastou um poema

pra negarem a fantasia

enfartou logo de pronto

e foi ontem sepultada

sem discurso ou honraria

numa cova abandonada

da mais rala burguesia

(só seus versinhos

restaram

e definham em afasia

num magazine esgotado

sobre bolo & astrologia)

 

 

(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)

89

Ponto de fuga

 

Em frente à janela se estende 

uma rua 

lavrada de puro asfalto

ladeada de altas paredes 

armadas de cimento liso

Listras de janelas

sobem

descem

abaixo

acima

 

No cabo da rua, 

um paredão 

branco 

duro

põe ponto às paralelas

que bem se sabe,

noutro caso,

se cruzariam nem mesmo 

no oceano 

do infinito

 

E além dos muros?

Aí já não sei

O que sei é que

que entre eles 

isso sim

se vem morrer

se vem sofrer

e se curar. É hospital

 

Mas às vezes 

me pego na crença

que além do beco

pisca um recomeço 

ou

que atrás da fria

pálpebra

da esfinge adormecida

um tenso olhar

sonha

e espreita

 

E não de raro

me peço

que dos confins

deste sono

a sã pergunta

decifre

todas vãs

servis respostas

que me amiúde

devoram

a graça infinda

de ver

55

Ladainha do Coração Desmesurado

 

Terça

Ah fosse eu dona Maria

lavava roupa em tua pia

Se eu fosse o Seu João

te tratava a arroz-feijão

Fosse eu irmão do Zé

te passava um bom café 

E se fosse a banda Eva

te compunha moda brega

 

Quarta

E se me dera ser duque

não aceitava retruque

E se me dera ser princesa

te prendia ao pé da mesa 

E se me dera ser eu rei

tu me casavas por lei

E se me dera imperatriz

te imputava um fim feliz

 

Quinta

Ai quem dera eu fosse ele

te pescava com esta rede

Ai quem dera eu fosse ela

só te amava à luz de vela

Ai quem dera eu fosse tu

me chamava meu chuchu

 

Sexta

Virasse eu um boteco

transbordava o teu caneco

Virasse eu bar de esquina

eu seria a tua ruína

Virasse eu um bordel

tu tinhas puta fiel

Virasse eu Casa Branca

te anunciava zona franca

 

Sábado

Ah se eu fosse um relés padre

eras mais que só compadre

Ah, se eu fosse um sábio bispo

te ergueria a altar de Cristo

Ah, se eu fosse um cardeal

te elevava a santo Graal

Mas se eu fosse santo papa

eras o herói da Vulgata

 

Domingo

E fosse eu um beato

veneravas meu retrato

E fosse eu algum santo

tu beijavas o meu manto

E fosse eu um arcanjo

te tocava harpa e banjo

E se no céu fosse eu Zeus

me idolatravas qual Deus

 

Segunda

Ah se eu fosse mesmo eu

não negavas quanto és meu!

83

Fui pro ar perdi o lugar

 

Não gosto de me expandir

sempre que me retorno

está faltando um pedaço:

vai ficando dia a dia

largo o rasgo, grande o espaço

onde não cabe mais nada

que se ajeitar no escasso

 

E, no entanto, não encontro

das proporções, a devida

que costure em leves traços

os retalhos de uma vida,

 

quem conserte o estilhaço

e que me lamba a ferida,

quem me contorne um abraço

e me devolva à medida

 

Tudo aquilo que não toco

vaga pra sempre perdido

como um desejo moído

pela pedra do cansaço

32

São Flores de Sangue & Osso

 

Flores brotam de mim

as flores de sangue e osso

 

Nem sempre,

às vezes só de sangue

às vezes só de osso

 

As flores de osso

eu sirvo aos cachorros

ou fervo sopas

que ofereço a convidados

 

As flores de sangue

essas seco com papel

e as escondo 

entre as folhas de um livro

aquele com o título:

Dos Perigos ao Regar Flores de Sangue & Osso

 

(ou as uso para escrever

cartas a Deus, mas isso

não conta, isso é segredo)

 

Já a flor de osso e sangue

essa vendo, essa doo, essa exponho no meu vaso

 

Flores brotam de mim

não só quando me corto

mas também

quando entro num cinema

ou viajo com o ônibus Nº 7

catando de canto a canto

meus cachos pela cidade

 

Não suporto mais 

flor no pé

flor na mão

flores no rosto e pescoço

(e a cara dos passageiros

fingindo desinteresse

como se fosse a coisa mais

natural desse mundo

um homem brotar flores de sangue e osso 

dentro de um ônibus)

 

Vão dizer 

a culpa é minha:

És que te adubas demais!

40

Abelha Rainha

 

O barraco do pedreiro

é feito todo de mel

todo dia tinha enxame

azoando o seu Miguel

Vinham tu, vinha a Maria,

vinham Joelma ou Joel

tudo que é abelha pedia

pra provar daquele mel

Na palhoça do pedreiro

amor era um carrossel

um sai-entra todo o dia

do cafofo do Miguel!

Fui pedir ao seu pedreiro

por um basta no bordel

fez zum-zum na minha orelha

e me fez provar do céu

Na maloca do pedreiro

não sou abelha infiel

eu só bebo da doçura

dos favos do rei do mel

Nem mais tu, mais nem Amélia

Nem mais Joelma ou o Joel

vão reinar nessa colmeia 

pois me caso com o Miguel!

50

O touro de Minos

 

Este mundo, um labirinto,

em que, desnudo, percorro

mil corredores, faminto

 

Essas grossas amplas veias

pulsam o sangue da nobreza 

inflamado por centelhas

de vaidade e de tristeza

 

Deixo pegadas de homem

sob o jugo de um instinto

e em cadência meus passos

ressoam sem som distinto

 

Bifurcam-se galerias

e espelham-se encruzilhadas

curvadas paredes frias

se giram entorno de um nada

 

Nos becos deste recinto

ouço o eco de sussurros

sei que há mais labirintos

por detrás dos altos muros

 

Persigo a linha da vida

que se enovela a um centro

onde a morte, uma saída,

retoma o fio do tormento

 

Todo o fogo que devoro

não renova o meu vigor

tanto mais devoro o fogo

mais flameja a minha dor

 

Passam sóis e passam luas, 

nuvens tornam o céu finito

sobre a pele nua e crua

pesa o pó de um gasto mito

 

Só o fim desta quimera

quiçá me salve da sina 

vencido por outra fera 

mais ardilosa e assassina

57

Aviões

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre nuvens

Os aprecio minúsculos 

pairando quase no azul

Aprecio-os de ficar tonto

e sentir que voo ao chão

 

Um avião traçou no céu

longas linhas retas

por onde Deus rabiscou

uns textos breves e turvos

 

Aviões são aves humanas

que sempre insistem em pousar

Embora eu saiba de pássaros que 

jamais cessam seu voo

justamente

por não terem 

mais pernas em que confiar

 

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre estrelas

Os aprecio minúsculos 

a se piscar no negrume

Aprecio-os de ficar zonzo

e cair em sono fundo

87

Solitude

 

Aqui há

pessoas sepultadas 

em tumbas amplas

abastadas

que ninguém 

jamais visita

Não trazem flores

nem prantos

não há

notas de pesar:

De lembrança

só a lápide

à campainha da porta

traz o nome

de um corpo

que a gente toda esqueceu

58

Ao toque do anoitecer

 

Os meus amores não passam 

de lembranças prematuras

uns toques toscos

tonturas

que esvanecem ao sol nascer 

 

Meus desejos são assim

não ardem poros

orifícios

não me elevam a

precipícios

ou me engasgam de prazer

 

São imagens desbotadas

de raras cenas

sustadas

que me embotam 

os pensamentos 

antes de eu adormecer

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