Poemas
48Programa dos dias livres
Eu te aguardo para os sábados
Eu te aguardo nos domingos
Sempre te espero em feriados:
Tu virás no dia 1º de maio?
Ou passarás só no 7 de setembro?
Que seja em 2 de novembro!!
Em dias vagos te aguardo
(E se vem, quando vem, bem me tem?)
Pareces o papai Noel!
És meu coelhinho da Páscoa?
Rasga o teu Corpo a Paixão?
Mas não nasces no Natal,
não ressuscitas ao Domingo,
nem sequer morres na Sexta!
Te aguardo pro Ano-novo.
Te espero no Tiradentes.
Nos vemos na Aparecida.
Venha pular o Carnaval!
(Mas não vem, nunca vem, mal me tem?)
Ontem foi meu aniversário
Tomei dos vinhos mais caros
para alegrar tua chegada
Acabou que me esqueci
qual dos anos eu contava
e acordei rouco e enrugado
Ah, se eu soubesse, neném,
o dia exato da morte
certeza te aguardaria
confiante na minha sorte!
(Certo vem, sem porém, mais além...)
119
Sono de pedra
Eu tudo daria
para poder dormir
o sono da pedra
em meio ao deserto
O sono grande
sem ronco
sem intenção de acordar
Sono embalado
por um só sonho:
de luzes extintas
e fóssil esplendor
Daria tudo
daria
plantações
meus cavalos
as refeições
os retratos,
a quem quisesse
eu daria
para dormir no deserto
sob o teto negro e mudo
onde miríades de estrelas
piscam sem nem mais ser
Que
de solidão de pedra
só entende mesmo o vento
Só não pergunte
o porquê
com certeza já esqueceu
como a estrela lá piscante
que não sabe
a magnífica
que há muito
feneceu
Quero só
sono de pedra
que nunca jamais acorda
para revelar os seus sonhos
Ou não acorda jamais nunca
para não esquecer o que sonhou?
Só quero o sono de pedra
Quero sonhar não ser eu
62
Ato falho
Intrigante,
o que a cabeça faz em mim
mal eu ponho em ti meu olho
só me vem: tu, querubim!
Poderia ser o Orfeu
algum deus, Hermes, Cupido
grega estátua de um museu
talvez o Apolo esculpido
Mas me vem: tu, querubim!
Mero conceito rimado
cujo tom, significado
eu bem sei:
Te
quero
em
mim
48
Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)
De dona Adélia afirmaram
essa não faz poesia
À dona Clarice, atestaram,
falta a crua maestria
E dona Hilda, acusaram
da mais vil pornografia!
Senhora Prado
senhora Lispector
e até a senhora Hilst
se reencaixaram nos vincos
dos mobiliários domésticos
e criaram seus maridos
sem delírios manifestos
(só em caso de um apuro
financeiro ou de família
recorreram em desespero
à uma antiga bruxaria)
Agora, a dona Adília,
de quem bastou um poema
pra negarem a fantasia
enfartou logo de pronto
e foi ontem sepultada
sem discurso ou honraria
numa cova abandonada
da mais rala burguesia
(só seus versinhos
restaram
e definham em afasia
num magazine esgotado
sobre bolo & astrologia)
(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)
103
Abelha Rainha
O barraco do pedreiro
é feito todo de mel
todo dia tinha enxame
azoando o seu Miguel
Vinham tu, vinha a Maria,
vinham Joelma ou Joel
tudo que é abelha pedia
pra provar daquele mel
Na palhoça do pedreiro
amor era um carrossel
um sai-entra todo o dia
do cafofo do Miguel!
Fui pedir ao seu pedreiro
por um basta no bordel
fez zum-zum na minha orelha
e me fez provar do céu
Na maloca do pedreiro
não sou abelha infiel
eu só bebo da doçura
dos favos do rei do mel
Nem mais tu, mais nem Amélia
Nem mais Joelma ou o Joel
vão reinar nessa colmeia
pois me caso com o Miguel!
70
Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa
Queria tanto saber cantar
disse a pomba que arrulhava
catando os restos de pão
na beira de uma calçada
Já eu o que mais queria
é poder planar no ar
disse o homem que passava
varrendo o lixo da estrada
Pois não quero incomodar
disse a poeta que ouvia
debruçada na janela
do terceiro ou quarto andar
Já que a mim o que me resta
é só cantar e voar
E baixou as persianas
retornou a sua mesa
e se pôs a rabiscar
72
Terezinha
Mamãezinha quando bebe
adormece pelo chão
Papaizinho quando fuma
sente dor no coração
Meu amor quando entorpece
só desboca palavrão
E eu que sou tão miudinha
do tamanho de um fogão
carrego a mamãe pra cama
e o papai para o plantão
O bolso furou
o dinheiro escapou
você se azedou
E o amor que tu me tinhas
era pouco, muito pouco, de tão pouco
se acabou
Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...
Lá quem manda e que desmanda é o Salvador
Que ladrilha e maravilha a rua inteira
Con piedritas cristalinas, muy preciosas
Pra acalmar e acabar com toda a dor...
88
Melhor amigo
Um grito gritou prum eco:
Eco é alma penada?
E o eco todo irrequieto:
Nada, nada, nada, nada!
E o grito lançou arteiro:
Quer roubar fruta do conde?
E o eco muito parceiro:
Conde, conde, conde, conde!
O grito pediu pro eco:
Vam‘ brincar de pegar bonde?
O eco não parou quieto:
Bonde, bonde, bonde, bonde!
O grito lembrou correto:
E ele vai pra muito longe!
E o eco com todo afeto:
Longe, longe, longe, longe!
O grito pensou inquieto:
Mas vai saber até onde...
E o eco também incerto:
Onde, onde, onde, onde...
O gritou falou faceiro:
Quer brincar de esconde-esconde?
E o eco sempre ligeiro:
Esconde, esconde, esconde, esconde!
O grito soou contente:
Que brincadeira mais boa!
E o eco que nunca mente:
Boa, boa, boa, boa!
75
À Jeniffer Lopez
Jennifer Lopez
foi uma grande artista portuguesa
A internet inteira se tarjou de preto
quando a Jennifer Lopez morreu
Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres
Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas
O porta-voz do governo disse
que o Presidente da República
tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez
Até as gentes da África e das Américas
enviaram pomposas coroas de flores
- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -
Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão
Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais
(mas só se feitas à mão)
E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa
pois ninguém soube o caminho
do túmulo da Jennifer Lopez
Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo
O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez
É que na lápide doada pelo Estado francês
(O francês em si adora doar lápides)
o escultor desleixado
ou gravemente dislexado
escrevera o nome errado
Nunca se descobriu até hoje
se o túmulo da Jennifer Lopez
é o túmulo da Maria da Silva ou
o túmulo do José da Silva ou
o túmulo da Viana Fidalgo ou
o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou
o túmulo da Adília Lopes ou…
58
A Pathétique de Tchaikovski
As putas do Bukowski
apreciam um bom
Vivaldi
Seus bêbados,
seus ladrões e
os suicidas
papeiam sobre cavalos,
proseiam sobre Rimbaud
e versam sobre Van Gogh
E até seus assassinos
aumentam o volume
do rádio
quando entoa a
Pathétique!
Agora,
o meu vizinho,
— engenheiro
diplomado pelo MIT,
motorista de um Scénic,
pai de Arthur e
Laura Alice —
reclama que
ler Machado
não passa de uma chatice,
põe no zap
que o Buarque
é veado e
bolchevique,
e arregaça
o som do áudio
quando escuta um
Zé Henrique...
(Queira Deus
que no meu
rádio
jamais toque
a Pathétique!)
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