Poemas
48Narciso
Agora é assim:
mal eu ponho o pé no parque
que o coral de mil narcisos
rosto radiante em sorrisos
já me entoa um oi sonoro
Muito obrigado, digo, amigos,
me inclino em vênias e coro
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Sorte do cão
as pernas na Paraíso
só tem gosto de sabão
todo mundo aposta em bicho
Macaco, Porco ou Leão
Por que não?
Por que não?
eu tinha a maior ciumeira
das canelas do Rufião
dia foi ganhei um chute
com cheirinho de sabão
Por que não?
Por que não?
a gurizada da vila
só vive na aperreação
quando brincam de esconder
todo mundo passa a mão
Por que não?
Por que não?
tua mãe é lavadeira
nem pisou nunca em avião!
mas mamãe tem geladeira
do sorteio do Faustão!
Por que não?
Por que não?
dona Mercedez ganhou
três vezes com o Pavão
e quase morreu um dia
de ataque do coração
(se eu botasse fé no bicho
apostava era no Cão!)
Por que não?
Por que não?
lá na vila Paraíso
só se lava roupa à mão
e a cachorra da Mercedez
era a amiga do Rufião
(ainda trago nas ventas
seu cheirinho de sabão)
Por que não?
Por que não?
um dia o Rufião se foi
trepado num caminhão
a Mercedez fez chacota
é melhor que em camburão
(se eu botasse fé no bicho
te levava é de avião!)
Por que não?
Por que não?
me toquei correndo atrás
latindo com emoção
e as rodas da Mercedes
faziam um baita poeirão
(dia vem me acabo embaixo
dos pneus dum caminhão!)
Por que não?
Por que não?
se eu botasse fé no bicho
ia embora com o Rufião
me enroscava em sua canela
com cheirinho de sabão
Por que não?
Porque não?
66
O touro de Minos
Este mundo, um labirinto,
em que, desnudo, percorro
mil corredores, faminto
Essas grossas amplas veias
pulsam o sangue da nobreza
inflamado por centelhas
de vaidade e de tristeza
Deixo pegadas de homem
sob o jugo de um instinto
e em cadência meus passos
ressoam sem som distinto
Bifurcam-se galerias
e espelham-se encruzilhadas
curvadas paredes frias
se giram entorno de um nada
Nos becos deste recinto
ouço o eco de sussurros
sei que há mais labirintos
por detrás dos altos muros
Persigo a linha da vida
que se enovela a um centro
onde a morte, uma saída,
retoma o fio do tormento
Todo o fogo que devoro
não renova o meu vigor
tanto mais devoro o fogo
mais flameja a minha dor
Passam sóis e passam luas,
nuvens tornam o céu finito
sobre a pele nua e crua
pesa o pó de um gasto mito
Só o fim desta quimera
quiçá me salve da sina
vencido por outra fera
mais ardilosa e assassina
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Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)
De dona Adélia afirmaram
essa não faz poesia
À dona Clarice, atestaram,
falta a crua maestria
E dona Hilda, acusaram
da mais vil pornografia!
Senhora Prado
senhora Lispector
e até a senhora Hilst
se reencaixaram nos vincos
dos mobiliários domésticos
e criaram seus maridos
sem delírios manifestos
(só em caso de um apuro
financeiro ou de família
recorreram em desespero
à uma antiga bruxaria)
Agora, a dona Adília,
de quem bastou um poema
pra negarem a fantasia
enfartou logo de pronto
e foi ontem sepultada
sem discurso ou honraria
numa cova abandonada
da mais rala burguesia
(só seus versinhos
restaram
e definham em afasia
num magazine esgotado
sobre bolo & astrologia)
(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)
100
Saudades da minha Terra
Hoje sonhei
que tinha ido morar na Lua
Não a Lua dos poetas,
não a Lua das toadas,
sempre cheia e iluminada,
despertando amor febril
Não.
Era uma terra habitada
por casinhas e ruelas
por nuvens e nevoeiros
em sombras de eterno frio
E sonhei que tu moravas
numa casa ali comigo
Mas o amor era pouco,
de tão pouco, não bastou
pra esfriar essa saudade
de uma Terra ensolarada
bola branca e azulada
que pairava na distância
entre um céu negro e hostil
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Solitude
Aqui há
pessoas sepultadas
em tumbas amplas
abastadas
que ninguém
jamais visita
Não trazem flores
nem prantos
não há
notas de pesar:
De lembrança
só a lápide
à campainha da porta
traz o nome
de um corpo
que a gente toda esqueceu
70
O quê da coisa
Nem todo o poema
é Sistina
Nem todo o verso
um Titã
Nem toda a rima
é Alpina
Nem todo o poeta
um Rodin
Só a poesia
essa sina
é sempre Febre Terçã
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Quarta-Feira de Sangue
Duas coisas me restaram
do ensaio de uma vida:
que o sabão Piraquitiba
tudo lava, tudo enxagua,
e, conforme a voz no rádio,
Até mancha de sangue ele apaga!
E também que só o sábio,
o sabido, o verdadeiro,
é quem sabe o que é perdão
...essa eu colhi, se me lembro,
de um novo samba-canção...
Só de sábia eu tive é nada,
muito pouco de sabida,
e desfilei de madrugada
meu rancor pela avenida
camisa e saia manchadas
com os respingos da tua vida
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