Poemas
48Quem foi que matou o poeta
Lá tá ele no meio da rua
gordo, coitado, corpanzil estirado
todo, sobre o asfalto
sirenes inda ouço
focos vermelhos
e azuis
ta ti ta ta
ta ti
tata
Seu policial,
só uma pergunta
falou o repórter
Nada a declarar disse o polícia
circulando, circulando
Não, seu doutor, desculpa aí,
foi tão do nada, né
Não vi não
assim falou seu José
De pedreiro
cheio a mão
Um milagre que o carro sobreviveu!
deu de comento a vendedora
de pé de moleque
apontando pra coisa
carnuda redonda
ceifada esfolada
estirada na rua
bloqueando o fluxo
em plena contramão
Nem sangue saia do morto
Poeta
Consternação?
Ah, isso sim,
mas sem choro
que era poeta de pouca extensão
Sabe o nome?
Não sei não, disse o ladrão
apalpando no bolso da calça
a magra carteira
surrupiada
do chão
Eu vi tu-tudo, eu vi tu-tudo
disse o moleque
que fedia a jornal
e vivia enrolado
em velha notícia
abaixo do viaduto
Teixeira Amaral
Ah, foi pouco o interesse
notícia de segunda mão
Te citou aqui foi quem?
disse o polícia
e roçou o cacetete
no coro
do sabichão
Não parece um soldado
o poeta
abatido e surpreso
em meio à batalha
por bala perdida
tombado ao chão?
Suspirou num repente
Maria da Silva e João
a dona da carrocinha
balançando na direita
churro quente
e na esquerda
pastelão
Mas só se for,
pensou o gari
no ele com ele
e os devidos botões,
bala calibre canhão
Ah era poeta o pançudo?
E de alcunha?
Hmm. Aí não sei. Nunca ouvi.
Mas todo dia morre gente aqui,
meu patrão,
é jornaleiro e jornalista
é engraxate e sapateiro
é biscateiro e professor...
E poeta?
Até hoje?
Que eu saiba
ainda não
Assim falou Mascarenhas
e entornou um martelinho
dando depois três batidas
na madeira do balcão
Mas si-sim, gritou o moleque
com catinga de notícia
que faz dois ou mais de mês
que se atirou ali da ponte
da-da-da
da-da-da
da-da-da
- A da Cruz!
berrou o povo
Isso, Cruz
aquele tal compunista
ô-ô-ô
ô-ô-ô
O Gonzaga de Jesus!
Ah, mas pra que tanta indiscrição!
Sai daí moleque gago
que ninguem te perguntô
quem que morreu
quem se matô
Circulando, circulando!
Saiu noutro dia
larga manchete
no jornal
A Sensação:
Faleceu o senhor
Felisberto dos Santos
Souza Silva
Neto e Cunha
poeta de puro nome
professor de profissão
Nome da rua
Almeida Quevedo
esquina com
a Siqueira Alemão
atropelado
ou morto
por
anônimo
caminhão
Ninguém deu muita atenção
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Há versos no corpo todo
Verso morde, verso expele,
verso fede e verso sua,
versos pés e versos mãos:
um corpo se faz de versos
um verso te enruga a pele
um outro invade o pulmão
há verso que mói as costas
já outros turvam a visão
vivos versos movem pernas
versos mortos cavam chão
há versos pro corpo todo
é o verso que move a mão
o verso que ferve a veia
e o verso da indigestão
um verso sobe à cabeça
e ali planteia a ilusão
há verso que treme o corpo
e o verso só da razão
há versos por todos pelos
tais versos dão comichão
tem verso que é ronco à noite
tem versos na solidão
há versos pra todo o corpo
vêm versos do coração
Mas quando as rimas
se espalham
da cabeça até o dedão
do corpo ao meio
se apossam
mil versos de diversão
73
Ladainha do Coração Desmesurado
Terça
Ah fosse eu dona Maria
lavava roupa em tua pia
Se eu fosse o Seu João
te tratava a arroz-feijão
Fosse eu irmão do Zé
te passava um bom café
E se fosse a banda Eva
te compunha moda brega
Quarta
E se me dera ser duque
não aceitava retruque
E se me dera ser princesa
te prendia ao pé da mesa
E se me dera ser eu rei
tu me casavas por lei
E se me dera imperatriz
te imputava um fim feliz
Quinta
Ai quem dera eu fosse ele
te pescava com esta rede
Ai quem dera eu fosse ela
só te amava à luz de vela
Ai quem dera eu fosse tu
me chamava meu chuchu
Sexta
Virasse eu um boteco
transbordava o teu caneco
Virasse eu bar de esquina
eu seria a tua ruína
Virasse eu um bordel
tu tinhas puta fiel
Virasse eu Casa Branca
te anunciava zona franca
Sábado
Ah se eu fosse um relés padre
eras mais que só compadre
Ah, se eu fosse um sábio bispo
te ergueria a altar de Cristo
Ah, se eu fosse um cardeal
te elevava a santo Graal
Mas se eu fosse santo papa
eras o herói da Vulgata
Domingo
E fosse eu um beato
veneravas meu retrato
E fosse eu algum santo
tu beijavas o meu manto
E fosse eu um arcanjo
te tocava harpa e banjo
E se no céu fosse eu Zeus
me idolatravas qual Deus
Segunda
Ah se eu fosse mesmo eu
não negavas quanto és meu!
100
Solitude
Aqui há
pessoas sepultadas
em tumbas amplas
abastadas
que ninguém
jamais visita
Não trazem flores
nem prantos
não há
notas de pesar:
De lembrança
só a lápide
à campainha da porta
traz o nome
de um corpo
que a gente toda esqueceu
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Mais um conto de fada
Lá nas lonjuras dos tempos
houve uma mãe
das mais severas
que de filhos
tinha três:
João, Joaquim, José, e o Adão
que era o seu marido então
Uns guris fortes que eram
bem formados, dedos grossos,
mas viviam maltratados
pela mãe, uma megera,
que adorava uma maçã,
mas odiava gente sã
Certo dia
a mãe se foi
deixando sós o marido,
o muito honrado Adão
mais José, mais Joaquim
e um outro seu irmão
Como o pai sempre fora
gente da boa, decente,
tudo aceita, nunca mente,
viveram quase felizes
o pai manso e os descendentes
até o findar dessa história
Com exceção do João
que migrou
para o tablado
pra purgar um crime à toa
de algum fruto
envenenado
91
O orgulho da família
Meu pai fez milhões
filmando
a vida secreta
dos elfos
dos do ar e dos da terra
dos do fogo e dos do mar
Minha irmã foi a primeira
a escalar
todas as sete
montanhas
da lua
Meu irmão
gastou seus dias
estudando
provérbios gregos
extintos
Minha mãe
a mais premiada
curou males
findou guerras
pondo o rosto
na janela
e semeando
sorrisos
Agora eu
e quanto mim…
sou o único
que ainda guarda
a lembrança
disso tudo
96
papel pega mosca
minha boca
tem ternuras
que se ditas
geram cores,
toldam vistas
com cândura,
ressuscitam
secas flores.
pena minha
estarem presas
em papel
de luz diodo,
como moscas
iludidas
por um doce
feromônio:
viram
múmias
ressequidas
grudadas
no estéril
hormônio.
95
Sonho de uma noite de verão
Noite nua
lua em prata
fui à rua
das acácia
de bermuda
e de regata
pra afogar
minha ressaca
(meu jesus me dai cachaça!)
Joguei carta
ri à toa
abracei
todas comparsa
e gritei
a vida é boa
cara cheia
as bunda farta
(essa rodada é pras parça!)
Comi
linguiça e batata
tirei
um choro de lata
e fiz samba
pra mulata
com remolejo
de gata
(já tinha dona, a sapata!)
Me engracei
c‘uma coroa
tinha pinta
de patroa
eu pensei
a velha é boa
a noitada
hoje
é de graça
(cheirei um pó co‘a ricaça!)
Só não sei
me deu nas teia
um rebuliço
escangalho
chamei a velha
de feia
e mandei
ir pro
caralho
(virou poeira a velhaca!)
Me ferveu
sangue nas veia
tomei
golão
de gargalo
virei
chave de cadeia
e xinguei
tudo
de otário
(que vão à merda as bruaca!)
E passei já
pro sopapo
chutei mesa
quebrei prato
quando
bebo
viro macho
faço
as muié
de capacho
(me tiraram ali nos tapa!)
Fui pra praça
paulo arruda
e catei uma polaca
era gostosa
a bunduda
uns peito grande
qual jaca
(mas tinha um pinto, a desgraça!)
Sai fazendo
arruaça
atirei pedra
em vidraça
e mijei
até na estátua
da
santa
rita de cássia
(todas muié são devassa!)
Um milico
me bateu
me jogou
atrás de grade
infernizei
fiz alarde:
tu é
corno
seu covarde
(ainda acabo co‘a tua raça!)
Quando foi
amanheceu
vi meu corpo
na valeta
boca cheia
terra preta
com
dois tiro
na cabeça
(e os urubu na carcaça!)
Acordei
toda moída
co‘a cachola
dolorida
boca aberta
ressequida
de cigarro
e de bebida
(senti um bafão de cloaca!)
Credo em cruz
ave maria
pomba gira
e bom jesus
deus me livre
dessa sina
sete vez
sinal da cruz
(eita vidinha sem graça!)
Virgem mãe
aparecida
pela luz
de tua graça
eu te juro
mudo a vida
nunca mais
tomo cachaça
(me aperdoe a carne fraca!)
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