existências...
no passo à frente das incertezas nos entalhes delicados à espera da peça na inflexão do arco na trajetória da flecha no dorso tatuado do dia e em tudo que nele arrebenta na anatomia do verso na fratura exposta no poema no silêncio mais íntimo do sexo na palavra escondida na carne na saliva quente da boca que lambe e sara as feridas na espinha do vento que entorta os trigais existo e durmo todos os dias atravessando instintos.
lágrimas...
zarparam dos mares de dentro -à primeira vista normais e serenos- duas lágrimas salobras, em favor dos oceanos.
ritual...
como água em planta pra não morrercumpro ritos choro uma vez por dia.
insensatez...
sem qualquer sensatez meus dedos arremessam sobre as fragas do poema a pedra bruta da minha natureza de longe se vê espatifadas e já sem vida extensas confissões.
perto...
não falta muito logo ali adiante saberemos o peso desse voo-pássaro sobre o que não há tomaremos dos pés o chão dos olhos escuros da noite as estrelas bastaremos.
sombra...
porque pende da flor uma pétala passo meus dedos em tua sombra sempre que te sinto rés a mim.
nada...
não há indícios de corpos quando a lua cheia mingua nem registro de sobreviventes ao corte dos uivos entre concretos aparentes nem luas nem lobos.
travessia...
não dei pela falta do chão e do ar quando atravessei a dureza da pedra nem pela tênue diferença das coisas semelhantes quando comparadas só soube do calor do sol ao reinventar o corpo na maciez da palavra.
teu silêncio...
teu silêncio movendo o meu e o filete que nos une a um passo de romper-se estrangula desencorajadas as palavras flutuam nas pequenas e insustentáveis possibilidades.
segredos...
só sei que cheiro terras bebo rios e como só não conto onde o quanto quando e como é segredo.