Cris Campos

Cris Campos

❝Para entender nós temos dois caminhos:o da sensibilidade que é o entendimento do corpo; e o da inteligência que é o entendimento do espírito. Eu escrevo com o corpo. Poesia não é para compreender, mas para incorporar. Entender é parede; procure ser árvore. ❞ Manoel de Barros

n. , Brasília

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há de ser...


há de ser profundamente acolhido o riso
imerso outrora no abandono

há de ser que o tempo líquido
escorrido sobre fissuras
repare as desordens inscritas
a ferro e fogo na malha da realidade

tão intenso quanto inexplicável será
o sol que nasce e não aquece
o lugar das coisas que não mais existem 

tão bonito quanto triste será
o voo alçado no espelho
o bolso pesado de dores.
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Poemas

11

existências...

no passo à frente
das incertezas

nos entalhes delicados
à espera da peça

na inflexão do arco
na trajetória da flecha

no dorso tatuado do dia
e em tudo que nele arrebenta

na anatomia do verso
na fratura exposta no poema

no silêncio mais íntimo do sexo
na palavra escondida na carne

na saliva quente da boca
que lambe e sara as feridas

na espinha do vento
que entorta os trigais

existo

e durmo todos os dias
atravessando instintos.
1 573

lágrimas...

zarparam
dos mares
de dentro

-à primeira vista
normais e serenos-

duas lágrimas
salobras, em favor
dos oceanos.
1 757

ritual...

como água em planta

pra não morrer

cumpro ritos

choro
uma vez por dia.
1 724

insensatez...

sem qualquer sensatez
meus dedos arremessam
sobre as fragas do poema

a pedra bruta
da minha natureza

de longe se vê
espatifadas e já sem vida
extensas confissões.
1 744

perto...

não falta muito

logo ali adiante
saberemos o peso
desse voo-pássaro
sobre o que não há

tomaremos dos pés
o chão
dos olhos escuros da noite
as estrelas

bastaremos.
1 736

sombra...

porque pende
da flor
uma pétala

passo meus dedos
em tua sombra
sempre que te sinto
rés a mim.
1 699

nada...

não há indícios
de corpos
quando a lua
cheia mingua

nem registro
de sobreviventes
ao corte dos uivos

entre concretos aparentes
nem luas nem lobos.
1 728

travessia...

não dei pela falta
do chão e do ar
quando atravessei
a dureza da pedra

nem pela tênue diferença
das coisas semelhantes
quando comparadas

só soube do calor do sol
ao reinventar o corpo
na maciez da palavra.
1 671

teu silêncio...

teu silêncio movendo o meu
e o filete que nos une
a um passo de romper-se

estrangula

desencorajadas 
as palavras flutuam
nas pequenas e insustentáveis

possibilidades.
1 749

segredos...

só sei que
cheiro terras
bebo rios
e como

só não conto onde
o quanto
quando
e como

é segredo.
1 749

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CORASSIS

Gostei do seu jeito de poetizar Parabéns