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MORRER DE FRENTE PRO MAR


Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.

Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
Ler poema completo

Poemas

22

PERDA DOS PAIS, PERDA DE UM FILHO

O maior egocentrismo de um filho
é querer morrer antes de seus pais.
Esquece ele que a vida segue um trilho
por caminhos, em geral, naturais.

Buscando se livrar de um sofrimento
este filho delirante, entretanto
transfere esse corrosivo tormento
para àqueles que afirma amar tanto.

Morrer faz parte da vida e perder
a quem se ama traz uma dor impar,
principalmente sendo nossos pais.

Mas temos, todavia, que entender,
se prematura, a vida nos deixar
eles, por certo, sofrerão ainda mais.
46

ESQUIZOFRENIA


Era quase sempre uma pessoa dócil
que trazia em sua face um sorriso de criança.
Mas haviam horas mais compridas
em que a doçura sucumbia
sob os rabiscos desenfreados de uma mente em agonia.

E uma palavra pesada,
como nuvens das mais carregada
pairava sobre as cabeças aflitas
deste coletivo chamado família.

Sílabas que unidas
podem criar noites
sobre os mais ensolarados dos dias:
ES-QUI-ZO-FRE-NI-A.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA".
38

VELHO SOBRADO


Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e com ele todos os sorrisos
que um dia iluminaram suas janelas.

Sim, aquele velho sobrado será demolido...
levando consigo toda a vida
que um dia pulsou
em suas entranhas de pedra.

Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e com ele todos os segredos
revelados entre suas paredes
de ouvidos atentos.

Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e na poeira
se perderão todos os sonhos
humanamente sonhados
em noites frias e chuvosas
sob a sua proteção.

Sim, sim,
apressem-se com as despedidas
pois, hoje demolirão
aquele velho sobrado... 
e logo, outro
e depois outro, outro
e outro, extinguindo toda uma nobre geração.

Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e amanhã
toneladas de história
poderão ser catadas
em migalhas,
em migalhas
no chão!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
45

MORTE NO CAMPO

I

Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.

Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.

 II

Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.

III

Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais 
nada!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
49

ESTRANHO ÍMPAR

Sim! Tu és um estranho ímpar
e nada neste mundo poderá mudar esta situação!
Nem mesmo as pessoas mais amadas
e suas doses maciças de carinho.
Nem mesmo mil mãos estendidas
direcionando-te por inúmeros caminhos.
Tu és um estranho ímpar, és só!
Tão só como uma ilha
encravada no centro da cidade.
Só como uma cidade
à deriva no meio de um oceano.
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Teu idioma ninguém mais conhece,
mas é a única linguagem que tens
e é com ele que embrulhas este grito
que dia a dia se agiganta em teu peito.
Tu és um grande vazio.
Uma incógnita para si mesmo.
Um estranho ímpar!
Uma bomba em contínua contagem regressiva
e que pode explodir a qualquer momento!
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Contudo, aqueles te amam,
moveriam montanhas
para te aliviar deste peso!


Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
53

INSONE

Em meio à madrugada
acordo acompanhado.
Problemas do cotidiano
agitam-se ao meu lado.
 
Preocupações grandes,
preocupações pequenas
e preocupaçõezinhas de nada
resolveram me cobrar
soluções imediatas.

As horas congelam
e meu sono se vai.
Junta seus trapos
para dormir 
no sofá da sala.

Meus pensamentos nervosos
brigam entre si.
Inutilmente, movo-me 
de um lado para o outro
e tento dormir.

Levanto-me...
sirvo café para as preocupações
e sentados frente a frente
discutimos até o amanhecer.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
45

VIOLÃO

Violão calado,
jogado de lado
dentro do galpão. 
O seu companheiro
grande violeiro
mudou de rincão.

Foi talvez tocar
em outro lugar
pela eternidade.
E tu violão
perdeste um "irmão"
e sentes saudade.

Soturno instrumento
este teu tormento
será abrandado,
mas nunca esquecido,
pois, um grande amigo
é um bem sagrado.

Violão campeiro
outro guitarreiro
vai surgir um dia
para te  abraçar
e te dedilhar,
fazer parceria.

E uma canção
surgirá então
desta empatia
e fará do luto
um belo tributo,
uma melodia.


Publicado no livro "TCHÊ".
40

AMARGO

Meu pai ao amanhecer
abancava-se solito
com o chimarrão bendito
e seu rádio companheiro.
Mateava sem parceiro,
pois, eu, como um filho ingrato
não via naquele fato
um tesouro passageiro.

Aquela cena diária
com a figura paterna 
que eu julgava ser eterna
é página descartada.
Uma chance desgarrada
e perdida no passado.
Algo para ser lembrado
coa consciência pesada.

Pai, seu banquinho de cepa,
parceiro sempre ao lado,
jaz num canto abandonado.
E seu rádio companheiro
emudeceu por inteiro
no silêncio do galpão.
Cenário de tradição
do extremo sul brasileiro.

Hoje, porém, me arrependo
de não ter valorizado
este ritual sagrado
de tomar o chimarrão.
Por isso peço perdão
ao meu pai falecido
por nunca ter preenchido
sua triste solidão.

Poema publicado no livro "TCHÊ"
39

O TEMPO NÃO TEM DÓ

O tempo não tem dó
nem tem tolerância
com quem desperdiça
sua breve infância.

O tempo não tem dó
nem tem piedade
com quem joga fora
sua mocidade.

O tempo não tem dó
e não sente culpa
por quem malgastou
sua vida adulta.

O tempo não tem dó
nem se compadece
com quem se agarra
à sua velhice.

O tempo não tem dó,
passa simplesmente,
levando em seu bojo
a vida da gente.
46

ESTES ANOS ACELERADOS


Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram 
a vida de tanta gente.

Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.

Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.

E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
53

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