MORRER DE FRENTE PRO MAR
Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.
Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
MILAGRE NO ASFALTO
Milagre!
Uma pequena flor
em seu derradeiro ato
nasceu sobre o asfalto.
Mal sabe ela
com sua beleza
que os transeuntes agradecem
pela gentileza.
TEMPOS VERBAiS
Quisera deixar no passado
o que a ele pertence
mas, o tempo de outrora
está sempre presente.
Está sempre presente
em forma de saudade
das pessoas que partiram,
da infância e mocidade.
Quisera viver o presente
esta fera a minha frente
com seus grandes olhos
e seus poderosos dentes.
Seus poderosos dentes
afiados e absolutos
que mastigam os dias
e trituram os minutos.
Quisera ter um futuro
esta coisa abstrata
este tempo sem data
sem lembrança, sem nada.
II
Ora, futuro e passado
cabem na mesma frase,
mas, não nos mesmos planos
pois, entre eles existe
o abismo dos anos.
NA PRAIA
Na praia
há pessoas na areia
e banhos de mar.
Na praia
há surfistas nas ondas
e o marulho singular.
Na praia
há o milho verde,
a agua de coco
e o sorvete
andando prá lá e prá cá...
Não há Netuno,
nem há sereias,
mas há desfiles na areia
e vendedores de peixe
recém chegados do mar.
Na praia há tatuíras,
carangueijos e gastrópodes,
gaivotas e maçaricos
entre outros seres
camuflados à beira-mar.
Pelas marés
que sobem e descem
avançam e recuam
em eterna sintonia
com o luar.
E é na praia que,
sua majestade,
o verão, repousa
antes do outono
chegar.
DIA DE BRIQUE
Domingo é dia de brique.
Troco vírus de computador
por traças de livros
e minha última palavra
por hieróglifos primitivos.
Negocio uma máquina de sonhos
precisando de reparos.
Recebo insetos na troca
de um rebanho de ácaros.
Troco uma jamanta de utopias
por um choque de realidade.
Vendo a fração ideal
que me cabe nesta cidade.
Empresto um espaço na janela
para ver uma manhã sorridente
e esperar com paciência
uma estrela cadente.
Compro e pago com versos
uma folha de papel em branco
e troco sonetos incompletos
por uma vaga de saltibamco.
Troco um mar de mentiras
por um pingo de verdade.
E aceito a solidão em troca
de uma falsa amizade.
Estudo permutas ainda
por LP's sem toca-discos,
por uma bicicleta antiga
e dois mínis obeliscos.
Vendo selos muito raros,
e gibis de coleção.
Dou um pé de bota na troca
por uma calota de caminhão.
Vendo um relógio quebrado
que marca horas passadas
e uma máquina de escrever
nunca alfabetizada.
Vendo um roteiro pro futuro
que jamais foi encenado.
Compro retalhos de esperanças
e pago o valor de mercado.
Troco o peso da idade
por um peso de papel
e um bilhete premiado
por um cão fiel.
Lembre! Aproveite! Indique!
Domingo é dia de brique.
PERDA DOS PAIS, PERDA DE UM FILHO
O maior egocentrismo de um filho
é querer morrer antes de seus pais.
Esquece ele que a vida segue um trilho
por caminhos, em geral, naturais.
Buscando se livrar de um sofrimento
este filho delirante, entretanto
transfere esse corrosivo tormento
para àqueles que afirma amar tanto.
Morrer faz parte da vida e perder
a quem se ama traz uma dor impar,
principalmente sendo nossos pais.
Mas temos, todavia, que entender,
se prematura, a vida nos deixar
eles, por certo, sofrerão ainda mais.
PELAS ONDAS DESTE CAMPO
Pelas ondas deste campo
navego com meu cavalo.
Procuro um ancoradouro
seguro para atracá-lo.
Deixá-lo solto pastando
e nunca mais navegar
para largar esta vida
de velho lobo do mar.
ESTES ANOS ACELERADOS
Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram
a vida de tanta gente.
Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.
Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.
E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
VIOLÃO
Violão calado,
jogado de lado
dentro do galpão.
O seu companheiro
grande violeiro
mudou de rincão.
Foi talvez tocar
em outro lugar
pela eternidade.
E tu violão
perdeste um "irmão"
e sentes saudade.
Soturno instrumento
este teu tormento
será abrandado,
mas nunca esquecido,
pois, um grande amigo
é um bem sagrado.
Violão campeiro
outro guitarreiro
vai surgir um dia
para te abraçar
e te dedilhar,
fazer parceria.
E uma canção
surgirá então
desta empatia
e fará do luto
um belo tributo,
uma melodia.
Publicado no livro "TCHÊ".
ESQUIZOFRENIA
Era quase sempre uma pessoa dócil
que trazia em sua face um sorriso de criança.
Mas haviam horas mais compridas
em que a doçura sucumbia
sob os rabiscos desenfreados de uma mente em agonia.
E uma palavra pesada,
como nuvens das mais carregada
pairava sobre as cabeças aflitas
deste coletivo chamado família.
Sílabas que unidas
podem criar noites
sobre os mais ensolarados dos dias:
ES-QUI-ZO-FRE-NI-A.
Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA".