Lista de Poemas

MORRER DE FRENTE PRO MAR


Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.

Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
30

MORTE NO CAMPO

I

Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.

Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.

 II

Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.

III

Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais 
nada!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
37

ESTES ANOS ACELERADOS


Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram 
a vida de tanta gente.

Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.

Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.

E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
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PERDA DOS PAIS, PERDA DE UM FILHO

O maior egocentrismo de um filho
é querer morrer antes de seus pais.
Esquece ele que a vida segue um trilho
por caminhos, em geral, naturais.

Buscando se livrar de um sofrimento
este filho delirante, entretanto
transfere esse corrosivo tormento
para àqueles que afirma amar tanto.

Morrer faz parte da vida e perder
a quem se ama traz uma dor impar,
principalmente sendo nossos pais.

Mas temos, todavia, que entender,
se prematura, a vida nos deixar
eles, por certo, sofrerão ainda mais.
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ESQUIZOFRENIA


Era quase sempre uma pessoa dócil
que trazia em sua face um sorriso de criança.
Mas haviam horas mais compridas
em que a doçura sucumbia
sob os rabiscos desenfreados de uma mente em agonia.

E uma palavra pesada,
como nuvens das mais carregada
pairava sobre as cabeças aflitas
deste coletivo chamado família.

Sílabas que unidas
podem criar noites
sobre os mais ensolarados dos dias:
ES-QUI-ZO-FRE-NI-A.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA".
26

VIOLÃO

Violão calado,
jogado de lado
dentro do galpão. 
O seu companheiro
grande violeiro
mudou de rincão.

Foi talvez tocar
em outro lugar
pela eternidade.
E tu violão
perdeste um "irmão"
e sentes saudade.

Soturno instrumento
este teu tormento
será abrandado,
mas nunca esquecido,
pois, um grande amigo
é um bem sagrado.

Violão campeiro
outro guitarreiro
vai surgir um dia
para te  abraçar
e te dedilhar,
fazer parceria.

E uma canção
surgirá então
desta empatia
e fará do luto
um belo tributo,
uma melodia.


Publicado no livro "TCHÊ".
29

INSONE

Em meio à madrugada
acordo acompanhado.
Problemas do cotidiano
agitam-se ao meu lado.
 
Preocupações grandes,
preocupações pequenas
e preocupaçõezinhas de nada
resolveram me cobrar
soluções imediatas.

As horas congelam
e meu sono se vai.
Junta seus trapos
para dormir 
no sofá da sala.

Meus pensamentos nervosos
brigam entre si.
Inutilmente, movo-me 
de um lado para o outro
e tento dormir.

Levanto-me...
sirvo café para as preocupações
e sentados frente a frente
discutimos até o amanhecer.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
33

PONTO DE VISTA (O SOL NASCE PRA TODOS)

O sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
do mesmo modo a chuva 
molha sem distinção.

Do mesmo modo os ventos
mudam de direção
e as plantas germinam
no mais diverso chão.
 
Assim como o ar envolve
nosso planeta inteiro
e a lua baila no céu
com o vasto luzeiro.

Sei, o sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
embora existam almas
em plena escuridão.

Sim, eu sei, a chuva molha
sem fazer distinção,
o problema é a seca
dentro do coração...

onde as nossas sementes
morrem de inanição.
58

ESTRANHO ÍMPAR

Sim! Tu és um estranho ímpar
e nada neste mundo poderá mudar esta situação!
Nem mesmo as pessoas mais amadas
e suas doses maciças de carinho.
Nem mesmo mil mãos estendidas
direcionando-te por inúmeros caminhos.
Tu és um estranho ímpar, és só!
Tão só como uma ilha
encravada no centro da cidade.
Só como uma cidade
à deriva no meio de um oceano.
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Teu idioma ninguém mais conhece,
mas é a única linguagem que tens
e é com ele que embrulhas este grito
que dia a dia se agiganta em teu peito.
Tu és um grande vazio.
Uma incógnita para si mesmo.
Um estranho ímpar!
Uma bomba em contínua contagem regressiva
e que pode explodir a qualquer momento!
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Contudo, aqueles te amam,
moveriam montanhas
para te aliviar deste peso!


Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
42

PELAS ONDAS DESTE CAMPO

Pelas ondas deste campo
navego com meu cavalo.
Procuro um ancoradouro
seguro para atracá-lo.

Deixá-lo solto pastando
e nunca mais navegar
para largar esta vida
de velho lobo do mar.
27

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