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MORTE NO CAMPO

I

Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.

Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.

 II

Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.

III

Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais 
nada!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
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Poemas

25

AMARGO

Meu pai ao amanhecer
abancava-se solito
com o chimarrão bendito
e seu rádio companheiro.
Mateava sem parceiro,
pois, eu, como um filho ingrato
não via naquele fato
um tesouro passageiro.

Aquela cena diária
com a figura paterna 
que eu julgava ser eterna
é página descartada.
Uma chance desgarrada
e perdida no passado.
Algo para ser lembrado
coa consciência pesada.

Pai, seu banquinho de cepa,
parceiro sempre ao lado,
jaz num canto abandonado.
E seu rádio companheiro
emudeceu por inteiro
no silêncio do galpão.
Cenário de tradição
do extremo sul brasileiro.

Hoje, porém, me arrependo
de não ter valorizado
este ritual sagrado
de tomar o chimarrão.
Por isso peço perdão
ao meu pai falecido
por nunca ter preenchido
sua triste solidão.

Poema publicado no livro "TCHÊ"
41

TEMPOS VERBAiS


Quisera deixar no passado
o que a ele pertence
mas, o tempo de outrora
está sempre presente.

Está sempre presente
em forma de saudade
das pessoas que partiram,
da infância e mocidade.

Quisera viver o presente
esta fera a minha frente
com seus grandes olhos
e seus poderosos dentes.

Seus poderosos dentes
afiados e absolutos
que mastigam os dias
e trituram os minutos.

Quisera ter um futuro
esta coisa abstrata
este tempo sem data
sem lembrança, sem nada.

II

Ora, futuro e passado
cabem na mesma frase,
mas, não nos mesmos planos
pois, entre eles existe
o abismo dos anos.
41

A BIFURCAÇÃO


Os anos rapidamente
vão nos puxando pra frente 
por este caminho de ida 
que apelidamos de vida.

Levamos como bagagem 
nesta singular viagem 
nossas escolhas, rascunho
de um último testemunho.

Quando a estrada a nossa frente 
abrir assim de repente 
uma derradeira opção 
ante uma bifurcação.
43

ESTES ANOS ACELERADOS


Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram 
a vida de tanta gente.

Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.

Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.

E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
54

HAIKAI'S


A folha sem pressa
escolhe no cair dengoso
o lugar do pouso.

***

O mar chega e vai
em ondas, recua e avança
o mar não descansa.

***

A sombra do pássaro
que voa na imensidão
se arrasta no chão.

***

Os pingos da chuva
afagam fraternalmente
a pobre semente.
38

SANTO DE CASA

Santo de casa
não faz milagres.

Todavia, se os faz
todos fingem não ver.

— Onde já se viu
este santo de casa
está querendo aparecer.
54

VANDALISMO


I

Arranquei uma pedra
um tanto polida
da base dos planos
que fiz para a vida.

II

Atirei-a por pirraça
- logo que a noite chegou -
contra uma frágil vidraça,
porém, ela se quebrou.
49

MEDO



Medo de seguir
medo de ficar
medo de partir
medo de voltar.

Medo de descer
medo de subir
medo de morrer
medo de existir.

Medo de ganhar
medo de perder
medo de lembrar
medo de esquecer.

Medo de chorar
medo de sorrir
medo de acordar
medo de dormir.

Medo de insistir
medo de ceder
medo de expandir
medo de conter.

Medo de dizer
medo de calar
medo de não ver
medo de avistar.

Medo de se abrir
medo de segredo
medo de reagir
medo de ter medo.
46

NA PRAIA

Na praia
há pessoas na areia
e banhos de mar.
Na praia
há surfistas nas ondas
e o marulho singular.

Na praia
há o milho verde,
a agua de coco
e o sorvete
andando prá lá e prá cá...

Não há Netuno,
nem há sereias,
mas há desfiles na areia
e vendedores de peixe
recém chegados do mar.

Na praia há tatuíras,
carangueijos e gastrópodes,
gaivotas e maçaricos
entre outros seres
camuflados à beira-mar.

Pelas marés
que sobem e descem
avançam e recuam 
em eterna sintonia
com o luar.

E é na praia que,
sua majestade,
o verão, repousa
antes do outono
chegar.

49

CEMITÉRIO ESQUECIDO


Ah, cemitério esquecido
e morto como seus mortos
no meio de uma coxilha
longe de todos os olhos.

Foi em tuas proximidades 
que o campo virou mortalha
ao fim de uma batalha
da grande revolução. 

Quantos de teus habitantes
lutaram sem ideal
e agora repousam longe
da sua terra natal?

Ah, cemitério esquecido
nem um mapa te registra,
nem estrada te visita
e não há cerca ou marcação.

Só o vento te cochicha
um punhado de segredos
recolhidos no degredo
sina de todos os ventos.

Ah, cemitério esquecido
com cruzes enferrujadas
e nomes já apagados
de lápides desgastadas.

Hoje o mato nasce e morre
sobre tuas sepulturas
e as raízes se forjam
a tua velha estrutura.

És a imagem do abandono,
da desconsideração
com tantos homens valentes
que repousam neste chão.

Ah, cemitério esquecido
tua localização
só a noite denuncia
através da combustão

Do fogo-fátuo que assombra 
o xirú desinformado
que imagina estar diante 
de um cemitério assombrado.
45

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