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MORRER DE FRENTE PRO MAR


Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.

Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
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Poemas

25

SANTO DE CASA

Santo de casa
não faz milagres.

Todavia, se os faz
todos fingem não ver.

— Onde já se viu
este santo de casa
está querendo aparecer.
59

O TEMPO NÃO TEM DÓ

O tempo não tem dó
nem tem tolerância
com quem desperdiça
sua breve infância.

O tempo não tem dó
nem tem piedade
com quem joga fora
sua mocidade.

O tempo não tem dó
e não sente culpa
por quem malgastou
sua vida adulta.

O tempo não tem dó
nem se compadece
com quem se agarra
à sua velhice.

O tempo não tem dó,
passa simplesmente,
levando em seu bojo
a vida da gente.
50

PONTO DE VISTA (O SOL NASCE PRA TODOS)

O sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
do mesmo modo a chuva 
molha sem distinção.

Do mesmo modo os ventos
mudam de direção
e as plantas germinam
no mais diverso chão.
 
Assim como o ar envolve
nosso planeta inteiro
e a lua baila no céu
com o vasto luzeiro.

Sei, o sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
embora existam almas
em plena escuridão.

Sim, eu sei, a chuva molha
sem fazer distinção,
o problema é a seca
dentro do coração...

onde as nossas sementes
morrem de inanição.
72

ESTES ANOS ACELERADOS


Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram 
a vida de tanta gente.

Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.

Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.

E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
56

O ÚLTIMO TREM

Vejo os trilhos abandonados
sobre os quais,
entre britas cansadas,
o capim cresce
sem ser incomodado.

Vejo-os perdendo-se
ao longo da paisagem
para unir com seus braços
de ferro, pregos e madeirames
estações e populações
implacavelmente distantes.

Ah, estes trilhos tristonhos
nem sequer desconfiam
de seus serviços prestados;
quantas viagens,
quanta lenha e óleo queimados,
quantas cargas transportadas,
quantos passageiros
levando consigo
lágrimas de partidas
e planos de chegadas.

Quanto atrito produzido
entre rodas e trilhos,
quantos apitos aflitos
anunciaram sua aproximação.
Quantos olhares estendidos
até aonde a vista alcançava
a espera do próximo trem,
entre tantos e tantos,
que de forma rotineira
surgiam no horizonte
até o dia fatídico,
melancólico e simbólico
da despedida do último trem.

 II

Vejo esta tapera agonizante
que luta para se manter de pé
e nem de longe lembra
o seu passado
quando, orgulhosa,
ostentava uma tabuleta
com a informação: Estação...

Hoje, não há mais burburinhos,
não há mais frenesi
não há mais pessoas
vendendo e comprando.
Não há mais conversas entusiasmadas
nem cochichos e dedos, disfarçadamente, apontados.
Não há mais desfiles com a última moda de Paris,
nem pessoas humildes
com as suas "domingueiras"
guardadas para grandes ocasiões.

Não há mais mendigos
e nem crianças chorando.
Não há mais cães perdidos e famintos
vagando entre as pessoas.
Não há mais vagabundos sem rumo
e nem destinos em cada vagão.
Não há mais funcionários, bilhetes
e um chefe em cada estação.
Não há mais malas,
bolsas,
caixas e
bagagens de mão.

Há apenas uma grande saudade
embrulhada para a viagem
a espera de alguém
que em seu íntimo
ainda revive
a partida do
último trem.
56

NA PRAIA

Na praia
há pessoas na areia
e banhos de mar.
Na praia
há surfistas nas ondas
e o marulho singular.

Na praia
há o milho verde,
a agua de coco
e o sorvete
andando prá lá e prá cá...

Não há Netuno,
nem há sereias,
mas há desfiles na areia
e vendedores de peixe
recém chegados do mar.

Na praia há tatuíras,
carangueijos e gastrópodes,
gaivotas e maçaricos
entre outros seres
camuflados à beira-mar.

Pelas marés
que sobem e descem
avançam e recuam 
em eterna sintonia
com o luar.

E é na praia que,
sua majestade,
o verão, repousa
antes do outono
chegar.

52

O CORTEJO

Hoje na hora do almoço
passei por um cortejo fúnebre
que poderia ser o meu
ou de alguém do meu clã...

pois estar vivo
neste momento
não garante 
meu amanhã.

Porquanto, neste instante
uma trama pode estar 
ocorrendo em silêncio
no interior deste meu
corpo humano!
 
Ou, uma fatalidade externa
pode estar se formando
e estará a minha espera
para concretizar o seu plano!

E agora, 
enquanto a família
e os amigos
choram e observam
o túmulo sendo preenchido
pelo morto em seu caixão.

Estou aqui
almoçando
com um aflitivo
dilema: será esta
a minha última refeição?



60

ESQUIZOFRENIA


Era quase sempre uma pessoa dócil
que trazia em sua face um sorriso de criança.
Mas haviam horas mais compridas
em que a doçura sucumbia
sob os rabiscos desenfreados de uma mente em agonia.

E uma palavra pesada,
como nuvens das mais carregada
pairava sobre as cabeças aflitas
deste coletivo chamado família.

Sílabas que unidas
podem criar noites
sobre os mais ensolarados dos dias:
ES-QUI-ZO-FRE-NI-A.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA".
44

INSONE

Em meio à madrugada
acordo acompanhado.
Problemas do cotidiano
agitam-se ao meu lado.
 
Preocupações grandes,
preocupações pequenas
e preocupaçõezinhas de nada
resolveram me cobrar
soluções imediatas.

As horas congelam
e meu sono se vai.
Junta seus trapos
para dormir 
no sofá da sala.

Meus pensamentos nervosos
brigam entre si.
Inutilmente, movo-me 
de um lado para o outro
e tento dormir.

Levanto-me...
sirvo café para as preocupações
e sentados frente a frente
discutimos até o amanhecer.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
49

HAIKAI'S


A folha sem pressa
escolhe no cair dengoso
o lugar do pouso.

***

O mar chega e vai
em ondas, recua e avança
o mar não descansa.

***

A sombra do pássaro
que voa na imensidão
se arrasta no chão.

***

Os pingos da chuva
afagam fraternalmente
a pobre semente.
40

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