VELHO SOBRADO
Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e com ele todos os sorrisos
que um dia iluminaram suas janelas.
Sim, aquele velho sobrado será demolido...
levando consigo toda a vida
que um dia pulsou
em suas entranhas de pedra.
Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e com ele todos os segredos
revelados entre suas paredes
de ouvidos atentos.
Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e na poeira
se perderão todos os sonhos
humanamente sonhados
em noites frias e chuvosas
sob a sua proteção.
Sim, sim,
apressem-se com as despedidas
pois, hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e logo, outro
e depois outro, outro
e outro, extinguindo toda uma nobre geração.
Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e amanhã
toneladas de história
poderão ser catadas
em migalhas,
em migalhas
no chão!
Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
MORTE NO CAMPO
I
Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.
Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.
II
Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.
III
Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais
nada!
Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
O ÚLTIMO TREM
Vejo os trilhos abandonados
sobre os quais,
entre britas cansadas,
o capim cresce
sem ser incomodado.
Vejo-os perdendo-se
ao longo da paisagem
para unir com seus braços
de ferro, pregos e madeirames
estações e populações
implacavelmente distantes.
Ah, estes trilhos tristonhos
nem sequer desconfiam
de seus serviços prestados;
quantas viagens,
quanta lenha e óleo queimados,
quantas cargas transportadas,
quantos passageiros
levando consigo
lágrimas de partidas
e planos de chegadas.
Quanto atrito produzido
entre rodas e trilhos,
quantos apitos aflitos
anunciaram sua aproximação.
Quantos olhares estendidos
até aonde a vista alcançava
a espera do próximo trem,
entre tantos e tantos,
que de forma rotineira
surgiam no horizonte
até o dia fatídico,
melancólico e simbólico
da despedida do último trem.
II
Vejo esta tapera agonizante
que luta para se manter de pé
e nem de longe lembra
o seu passado
quando, orgulhosa,
ostentava uma tabuleta
com a informação: Estação...
Hoje, não há mais burburinhos,
não há mais frenesi
não há mais pessoas
vendendo e comprando.
Não há mais conversas entusiasmadas
nem cochichos e dedos, disfarçadamente, apontados.
Não há mais desfiles com a última moda de Paris,
nem pessoas humildes
com as suas "domingueiras"
guardadas para grandes ocasiões.
Não há mais mendigos
e nem crianças chorando.
Não há mais cães perdidos e famintos
vagando entre as pessoas.
Não há mais vagabundos sem rumo
e nem destinos em cada vagão.
Não há mais funcionários, bilhetes
e um chefe em cada estação.
Não há mais malas,
bolsas,
caixas e
bagagens de mão.
Há apenas uma grande saudade
embrulhada para a viagem
a espera de alguém
que em seu íntimo
ainda revive
a partida do
último trem.
VANDALISMO
I
Arranquei uma pedra
um tanto polida
da base dos planos
que fiz para a vida.
II
Atirei-a por pirraça
- logo que a noite chegou -
contra uma frágil vidraça,
porém, ela se quebrou.
HAIKAI'S
A folha sem pressa
escolhe no cair dengoso
o lugar do pouso.
***
O mar chega e vai
em ondas, recua e avança
o mar não descansa.
***
A sombra do pássaro
que voa na imensidão
se arrasta no chão.
***
Os pingos da chuva
afagam fraternalmente
a pobre semente.
PONTO DE VISTA (O SOL NASCE PRA TODOS)
O sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
do mesmo modo a chuva
molha sem distinção.
Do mesmo modo os ventos
mudam de direção
e as plantas germinam
no mais diverso chão.
Assim como o ar envolve
nosso planeta inteiro
e a lua baila no céu
com o vasto luzeiro.
Sei, o sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
embora existam almas
em plena escuridão.
Sim, eu sei, a chuva molha
sem fazer distinção,
o problema é a seca
dentro do coração...
onde as nossas sementes
morrem de inanição.
SANTO DE CASA
Santo de casa
não faz milagres.
Todavia, se os faz
todos fingem não ver.
— Onde já se viu
este santo de casa
está querendo aparecer.
O CORTEJO
Hoje na hora do almoço
passei por um cortejo fúnebre
que poderia ser o meu
ou de alguém do meu clã...
pois estar vivo
neste momento
não garante
meu amanhã.
Porquanto, neste instante
uma trama pode estar
ocorrendo em silêncio
no interior deste meu
corpo humano!
Ou, uma fatalidade externa
pode estar se formando
e estará a minha espera
para concretizar o seu plano!
E agora,
enquanto a família
e os amigos
choram e observam
o túmulo sendo preenchido
pelo morto em seu caixão.
Estou aqui
almoçando
com um aflitivo
dilema: será esta
a minha última refeição?
AMARGO
Meu pai ao amanhecer
abancava-se solito
com o chimarrão bendito
e seu rádio companheiro.
Mateava sem parceiro,
pois, eu, como um filho ingrato
não via naquele fato
um tesouro passageiro.
Aquela cena diária
com a figura paterna
que eu julgava ser eterna
é página descartada.
Uma chance desgarrada
e perdida no passado.
Algo para ser lembrado
coa consciência pesada.
Pai, seu banquinho de cepa,
parceiro sempre ao lado,
jaz num canto abandonado.
E seu rádio companheiro
emudeceu por inteiro
no silêncio do galpão.
Cenário de tradição
do extremo sul brasileiro.
Hoje, porém, me arrependo
de não ter valorizado
este ritual sagrado
de tomar o chimarrão.
Por isso peço perdão
ao meu pai falecido
por nunca ter preenchido
sua triste solidão.
Poema publicado no livro "TCHÊ"
ESTRANHO ÍMPAR
Sim! Tu és um estranho ímpar
e nada neste mundo poderá mudar esta situação!
Nem mesmo as pessoas mais amadas
e suas doses maciças de carinho.
Nem mesmo mil mãos estendidas
direcionando-te por inúmeros caminhos.
Tu és um estranho ímpar, és só!
Tão só como uma ilha
encravada no centro da cidade.
Só como uma cidade
à deriva no meio de um oceano.
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Teu idioma ninguém mais conhece,
mas é a única linguagem que tens
e é com ele que embrulhas este grito
que dia a dia se agiganta em teu peito.
Tu és um grande vazio.
Uma incógnita para si mesmo.
Um estranho ímpar!
Uma bomba em contínua contagem regressiva
e que pode explodir a qualquer momento!
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Contudo, aqueles te amam,
moveriam montanhas
para te aliviar deste peso!
Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"