PONTO DE VISTA (O SOL NASCE PRA TODOS)
O sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
do mesmo modo a chuva
molha sem distinção.
Do mesmo modo os ventos
mudam de direção
e as plantas germinam
no mais diverso chão.
Assim como o ar envolve
nosso planeta inteiro
e a lua baila no céu
com o vasto luzeiro.
Sei, o sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
embora existam almas
em plena escuridão.
Sim, eu sei, a chuva molha
sem fazer distinção,
o problema é a seca
dentro do coração...
onde as nossas sementes
morrem de inanição.
PELAS ONDAS DESTE CAMPO
Pelas ondas deste campo
navego com meu cavalo.
Procuro um ancoradouro
seguro para atracá-lo.
Deixá-lo solto pastando
e nunca mais navegar
para largar esta vida
de velho lobo do mar.
ESQUIZOFRENIA
Era quase sempre uma pessoa dócil
que trazia em sua face um sorriso de criança.
Mas haviam horas mais compridas
em que a doçura sucumbia
sob os rabiscos desenfreados de uma mente em agonia.
E uma palavra pesada,
como nuvens das mais carregada
pairava sobre as cabeças aflitas
deste coletivo chamado família.
Sílabas que unidas
podem criar noites
sobre os mais ensolarados dos dias:
ES-QUI-ZO-FRE-NI-A.
Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA".
PERDA DOS PAIS, PERDA DE UM FILHO
O maior egocentrismo de um filho
é querer morrer antes de seus pais.
Esquece ele que a vida segue um trilho
por caminhos, em geral, naturais.
Buscando se livrar de um sofrimento
este filho delirante, entretanto
transfere esse corrosivo tormento
para àqueles que afirma amar tanto.
Morrer faz parte da vida e perder
a quem se ama traz uma dor impar,
principalmente sendo nossos pais.
Mas temos, todavia, que entender,
se prematura, a vida nos deixar
eles, por certo, sofrerão ainda mais.
INSONE
Em meio à madrugada
acordo acompanhado.
Problemas do cotidiano
agitam-se ao meu lado.
Preocupações grandes,
preocupações pequenas
e preocupaçõezinhas de nada
resolveram me cobrar
soluções imediatas.
As horas congelam
e meu sono se vai.
Junta seus trapos
para dormir
no sofá da sala.
Meus pensamentos nervosos
brigam entre si.
Inutilmente, movo-me
de um lado para o outro
e tento dormir.
Levanto-me...
sirvo café para as preocupações
e sentados frente a frente
discutimos até o amanhecer.
Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
O TEMPO NÃO TEM DÓ
O tempo não tem dó
nem tem tolerância
com quem desperdiça
sua breve infância.
O tempo não tem dó
nem tem piedade
com quem joga fora
sua mocidade.
O tempo não tem dó
e não sente culpa
por quem malgastou
sua vida adulta.
O tempo não tem dó
nem se compadece
com quem se agarra
à sua velhice.
O tempo não tem dó,
passa simplesmente,
levando em seu bojo
a vida da gente.
ESTRANHO ÍMPAR
Sim! Tu és um estranho ímpar
e nada neste mundo poderá mudar esta situação!
Nem mesmo as pessoas mais amadas
e suas doses maciças de carinho.
Nem mesmo mil mãos estendidas
direcionando-te por inúmeros caminhos.
Tu és um estranho ímpar, és só!
Tão só como uma ilha
encravada no centro da cidade.
Só como uma cidade
à deriva no meio de um oceano.
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Teu idioma ninguém mais conhece,
mas é a única linguagem que tens
e é com ele que embrulhas este grito
que dia a dia se agiganta em teu peito.
Tu és um grande vazio.
Uma incógnita para si mesmo.
Um estranho ímpar!
Uma bomba em contínua contagem regressiva
e que pode explodir a qualquer momento!
Sim! Tu és um estranho ímpar!
Contudo, aqueles te amam,
moveriam montanhas
para te aliviar deste peso!
Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
O ÚLTIMO TREM
Vejo os trilhos abandonados
sobre os quais,
entre britas cansadas,
o capim cresce
sem ser incomodado.
Vejo-os perdendo-se
ao longo da paisagem
para unir com seus braços
de ferro, pregos e madeirames
estações e populações
implacavelmente distantes.
Ah, estes trilhos tristonhos
nem sequer desconfiam
de seus serviços prestados;
quantas viagens,
quanta lenha e óleo queimados,
quantas cargas transportadas,
quantos passageiros
levando consigo
lágrimas de partidas
e planos de chegadas.
Quanto atrito produzido
entre rodas e trilhos,
quantos apitos aflitos
anunciaram sua aproximação.
Quantos olhares estendidos
até aonde a vista alcançava
a espera do próximo trem,
entre tantos e tantos,
que de forma rotineira
surgiam no horizonte
até o dia fatídico,
melancólico e simbólico
da despedida do último trem.
II
Vejo esta tapera agonizante
que luta para se manter de pé
e nem de longe lembra
o seu passado
quando, orgulhosa,
ostentava uma tabuleta
com a informação: Estação...
Hoje, não há mais burburinhos,
não há mais frenesi
não há mais pessoas
vendendo e comprando.
Não há mais conversas entusiasmadas
nem cochichos e dedos, disfarçadamente, apontados.
Não há mais desfiles com a última moda de Paris,
nem pessoas humildes
com as suas "domingueiras"
guardadas para grandes ocasiões.
Não há mais mendigos
e nem crianças chorando.
Não há mais cães perdidos e famintos
vagando entre as pessoas.
Não há mais vagabundos sem rumo
e nem destinos em cada vagão.
Não há mais funcionários, bilhetes
e um chefe em cada estação.
Não há mais malas,
bolsas,
caixas e
bagagens de mão.
Há apenas uma grande saudade
embrulhada para a viagem
a espera de alguém
que em seu íntimo
ainda revive
a partida do
último trem.
AMARGO
Meu pai ao amanhecer
abancava-se solito
com o chimarrão bendito
e seu rádio companheiro.
Mateava sem parceiro,
pois, eu, como um filho ingrato
não via naquele fato
um tesouro passageiro.
Aquela cena diária
com a figura paterna
que eu julgava ser eterna
é página descartada.
Uma chance desgarrada
e perdida no passado.
Algo para ser lembrado
coa consciência pesada.
Pai, seu banquinho de cepa,
parceiro sempre ao lado,
jaz num canto abandonado.
E seu rádio companheiro
emudeceu por inteiro
no silêncio do galpão.
Cenário de tradição
do extremo sul brasileiro.
Hoje, porém, me arrependo
de não ter valorizado
este ritual sagrado
de tomar o chimarrão.
Por isso peço perdão
ao meu pai falecido
por nunca ter preenchido
sua triste solidão.
Poema publicado no livro "TCHÊ"
DIA DE BRIQUE
Domingo é dia de brique.
Troco vírus de computador
por traças de livros
e minha última palavra
por hieróglifos primitivos.
Negocio uma máquina de sonhos
precisando de reparos.
Recebo insetos na troca
de um rebanho de ácaros.
Troco uma jamanta de utopias
por um choque de realidade.
Vendo a fração ideal
que me cabe nesta cidade.
Empresto um espaço na janela
para ver uma manhã sorridente
e esperar com paciência
uma estrela cadente.
Compro e pago com versos
uma folha de papel em branco
e troco sonetos incompletos
por uma vaga de saltibamco.
Troco um mar de mentiras
por um pingo de verdade.
E aceito a solidão em troca
de uma falsa amizade.
Estudo permutas ainda
por LP's sem toca-discos,
por uma bicicleta antiga
e dois mínis obeliscos.
Vendo selos muito raros,
e gibis de coleção.
Dou um pé de bota na troca
por uma calota de caminhão.
Vendo um relógio quebrado
que marca horas passadas
e uma máquina de escrever
nunca alfabetizada.
Vendo um roteiro pro futuro
que jamais foi encenado.
Compro retalhos de esperanças
e pago o valor de mercado.
Troco o peso da idade
por um peso de papel
e um bilhete premiado
por um cão fiel.
Lembre! Aproveite! Indique!
Domingo é dia de brique.