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MORRER DE FRENTE PRO MAR


Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.

Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
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Poemas

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MORRER DE FRENTE PRO MAR


Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.

Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
43

MORTE NO CAMPO

I

Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.

Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.

 II

Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.

III

Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais 
nada!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
49

VIOLÃO

Violão calado,
jogado de lado
dentro do galpão. 
O seu companheiro
grande violeiro
mudou de rincão.

Foi talvez tocar
em outro lugar
pela eternidade.
E tu violão
perdeste um "irmão"
e sentes saudade.

Soturno instrumento
este teu tormento
será abrandado,
mas nunca esquecido,
pois, um grande amigo
é um bem sagrado.

Violão campeiro
outro guitarreiro
vai surgir um dia
para te  abraçar
e te dedilhar,
fazer parceria.

E uma canção
surgirá então
desta empatia
e fará do luto
um belo tributo,
uma melodia.


Publicado no livro "TCHÊ".
40

TEMPOS VERBAiS


Quisera deixar no passado
o que a ele pertence
mas, o tempo de outrora
está sempre presente.

Está sempre presente
em forma de saudade
das pessoas que partiram,
da infância e mocidade.

Quisera viver o presente
esta fera a minha frente
com seus grandes olhos
e seus poderosos dentes.

Seus poderosos dentes
afiados e absolutos
que mastigam os dias
e trituram os minutos.

Quisera ter um futuro
esta coisa abstrata
este tempo sem data
sem lembrança, sem nada.

II

Ora, futuro e passado
cabem na mesma frase,
mas, não nos mesmos planos
pois, entre eles existe
o abismo dos anos.
40

SANTO DE CASA

Santo de casa
não faz milagres.

Todavia, se os faz
todos fingem não ver.

— Onde já se viu
este santo de casa
está querendo aparecer.
53

MILAGRE NO ASFALTO


Milagre! 
Uma pequena flor
em seu derradeiro ato
nasceu sobre o asfalto.

Mal sabe ela
com sua beleza
que os transeuntes agradecem
pela gentileza.
42

O CORTEJO

Hoje na hora do almoço
passei por um cortejo fúnebre
que poderia ser o meu
ou de alguém do meu clã...

pois estar vivo
neste momento
não garante 
meu amanhã.

Porquanto, neste instante
uma trama pode estar 
ocorrendo em silêncio
no interior deste meu
corpo humano!
 
Ou, uma fatalidade externa
pode estar se formando
e estará a minha espera
para concretizar o seu plano!

E agora, 
enquanto a família
e os amigos
choram e observam
o túmulo sendo preenchido
pelo morto em seu caixão.

Estou aqui
almoçando
com um aflitivo
dilema: será esta
a minha última refeição?



53

NA PRAIA

Na praia
há pessoas na areia
e banhos de mar.
Na praia
há surfistas nas ondas
e o marulho singular.

Na praia
há o milho verde,
a agua de coco
e o sorvete
andando prá lá e prá cá...

Não há Netuno,
nem há sereias,
mas há desfiles na areia
e vendedores de peixe
recém chegados do mar.

Na praia há tatuíras,
carangueijos e gastrópodes,
gaivotas e maçaricos
entre outros seres
camuflados à beira-mar.

Pelas marés
que sobem e descem
avançam e recuam 
em eterna sintonia
com o luar.

E é na praia que,
sua majestade,
o verão, repousa
antes do outono
chegar.

45

ESTES ANOS ACELERADOS


Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram 
a vida de tanta gente.

Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.

Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.

E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
53

VELHO SOBRADO


Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e com ele todos os sorrisos
que um dia iluminaram suas janelas.

Sim, aquele velho sobrado será demolido...
levando consigo toda a vida
que um dia pulsou
em suas entranhas de pedra.

Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e com ele todos os segredos
revelados entre suas paredes
de ouvidos atentos.

Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e na poeira
se perderão todos os sonhos
humanamente sonhados
em noites frias e chuvosas
sob a sua proteção.

Sim, sim,
apressem-se com as despedidas
pois, hoje demolirão
aquele velho sobrado... 
e logo, outro
e depois outro, outro
e outro, extinguindo toda uma nobre geração.

Hoje demolirão
aquele velho sobrado...
e amanhã
toneladas de história
poderão ser catadas
em migalhas,
em migalhas
no chão!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
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