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MORTE NO CAMPO

I

Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.

Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.

 II

Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.

III

Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais 
nada!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
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Poemas

25

O CORTEJO

Hoje na hora do almoço
passei por um cortejo fúnebre
que poderia ser o meu
ou de alguém do meu clã...

pois estar vivo
neste momento
não garante 
meu amanhã.

Porquanto, neste instante
uma trama pode estar 
ocorrendo em silêncio
no interior deste meu
corpo humano!
 
Ou, uma fatalidade externa
pode estar se formando
e estará a minha espera
para concretizar o seu plano!

E agora, 
enquanto a família
e os amigos
choram e observam
o túmulo sendo preenchido
pelo morto em seu caixão.

Estou aqui
almoçando
com um aflitivo
dilema: será esta
a minha última refeição?



55

PONTO DE VISTA (O SOL NASCE PRA TODOS)

O sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
do mesmo modo a chuva 
molha sem distinção.

Do mesmo modo os ventos
mudam de direção
e as plantas germinam
no mais diverso chão.
 
Assim como o ar envolve
nosso planeta inteiro
e a lua baila no céu
com o vasto luzeiro.

Sei, o sol nasce pra todos
pro rei e para o peão
embora existam almas
em plena escuridão.

Sim, eu sei, a chuva molha
sem fazer distinção,
o problema é a seca
dentro do coração...

onde as nossas sementes
morrem de inanição.
70

O ÚLTIMO TREM

Vejo os trilhos abandonados
sobre os quais,
entre britas cansadas,
o capim cresce
sem ser incomodado.

Vejo-os perdendo-se
ao longo da paisagem
para unir com seus braços
de ferro, pregos e madeirames
estações e populações
implacavelmente distantes.

Ah, estes trilhos tristonhos
nem sequer desconfiam
de seus serviços prestados;
quantas viagens,
quanta lenha e óleo queimados,
quantas cargas transportadas,
quantos passageiros
levando consigo
lágrimas de partidas
e planos de chegadas.

Quanto atrito produzido
entre rodas e trilhos,
quantos apitos aflitos
anunciaram sua aproximação.
Quantos olhares estendidos
até aonde a vista alcançava
a espera do próximo trem,
entre tantos e tantos,
que de forma rotineira
surgiam no horizonte
até o dia fatídico,
melancólico e simbólico
da despedida do último trem.

 II

Vejo esta tapera agonizante
que luta para se manter de pé
e nem de longe lembra
o seu passado
quando, orgulhosa,
ostentava uma tabuleta
com a informação: Estação...

Hoje, não há mais burburinhos,
não há mais frenesi
não há mais pessoas
vendendo e comprando.
Não há mais conversas entusiasmadas
nem cochichos e dedos, disfarçadamente, apontados.
Não há mais desfiles com a última moda de Paris,
nem pessoas humildes
com as suas "domingueiras"
guardadas para grandes ocasiões.

Não há mais mendigos
e nem crianças chorando.
Não há mais cães perdidos e famintos
vagando entre as pessoas.
Não há mais vagabundos sem rumo
e nem destinos em cada vagão.
Não há mais funcionários, bilhetes
e um chefe em cada estação.
Não há mais malas,
bolsas,
caixas e
bagagens de mão.

Há apenas uma grande saudade
embrulhada para a viagem
a espera de alguém
que em seu íntimo
ainda revive
a partida do
último trem.
51

PELAS ONDAS DESTE CAMPO

Pelas ondas deste campo
navego com meu cavalo.
Procuro um ancoradouro
seguro para atracá-lo.

Deixá-lo solto pastando
e nunca mais navegar
para largar esta vida
de velho lobo do mar.
41

DIA DE BRIQUE


Domingo é dia de brique.
Troco vírus de computador 
por traças de livros
e minha última palavra
por hieróglifos primitivos.
Negocio uma máquina de sonhos
precisando de reparos.
Recebo insetos na troca
de um rebanho de ácaros.
Troco uma jamanta de utopias
por um choque de realidade.
Vendo a fração ideal
que me cabe nesta cidade.
Empresto um espaço na janela
para ver uma manhã sorridente
e esperar com paciência 
uma estrela cadente.
Compro e pago com versos
uma folha de papel em branco
e troco sonetos incompletos
por uma vaga de saltibamco.
Troco um mar de mentiras
por um pingo de verdade.
E aceito a solidão em troca
de uma falsa amizade.
Estudo permutas ainda
por LP's sem toca-discos,
por uma bicicleta antiga
e dois mínis obeliscos.
Vendo selos muito raros,
e gibis de coleção.
Dou um pé de bota na troca
por uma calota de caminhão.
Vendo um relógio quebrado
que marca horas passadas
e uma máquina de escrever
nunca alfabetizada.
Vendo um roteiro pro futuro
que jamais foi encenado.
Compro retalhos de esperanças 
e pago o valor de mercado.
Troco o peso da idade
por um peso de papel
e um bilhete premiado
por um cão fiel.
Lembre! Aproveite! Indique!
Domingo é dia de brique.
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