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MORRER DE FRENTE PRO MAR


Ah! Se eu pudesse escolher
escolheria morrer...
morrer de frente pro mar.

Esta lágrima de Deus
sobre a qual eu deixaria
a minha alma navegar.
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Poemas

25

A BIFURCAÇÃO


Os anos rapidamente
vão nos puxando pra frente 
por este caminho de ida 
que apelidamos de vida.

Levamos como bagagem 
nesta singular viagem 
nossas escolhas, rascunho
de um último testemunho.

Quando a estrada a nossa frente 
abrir assim de repente 
uma derradeira opção 
ante uma bifurcação.
41

HAIKAI'S


A folha sem pressa
escolhe no cair dengoso
o lugar do pouso.

***

O mar chega e vai
em ondas, recua e avança
o mar não descansa.

***

A sombra do pássaro
que voa na imensidão
se arrasta no chão.

***

Os pingos da chuva
afagam fraternalmente
a pobre semente.
37

CEMITÉRIO ESQUECIDO


Ah, cemitério esquecido
e morto como seus mortos
no meio de uma coxilha
longe de todos os olhos.

Foi em tuas proximidades 
que o campo virou mortalha
ao fim de uma batalha
da grande revolução. 

Quantos de teus habitantes
lutaram sem ideal
e agora repousam longe
da sua terra natal?

Ah, cemitério esquecido
nem um mapa te registra,
nem estrada te visita
e não há cerca ou marcação.

Só o vento te cochicha
um punhado de segredos
recolhidos no degredo
sina de todos os ventos.

Ah, cemitério esquecido
com cruzes enferrujadas
e nomes já apagados
de lápides desgastadas.

Hoje o mato nasce e morre
sobre tuas sepulturas
e as raízes se forjam
a tua velha estrutura.

És a imagem do abandono,
da desconsideração
com tantos homens valentes
que repousam neste chão.

Ah, cemitério esquecido
tua localização
só a noite denuncia
através da combustão

Do fogo-fátuo que assombra 
o xirú desinformado
que imagina estar diante 
de um cemitério assombrado.
43

DIA DE BRIQUE


Domingo é dia de brique.
Troco vírus de computador 
por traças de livros
e minha última palavra
por hieróglifos primitivos.
Negocio uma máquina de sonhos
precisando de reparos.
Recebo insetos na troca
de um rebanho de ácaros.
Troco uma jamanta de utopias
por um choque de realidade.
Vendo a fração ideal
que me cabe nesta cidade.
Empresto um espaço na janela
para ver uma manhã sorridente
e esperar com paciência 
uma estrela cadente.
Compro e pago com versos
uma folha de papel em branco
e troco sonetos incompletos
por uma vaga de saltibamco.
Troco um mar de mentiras
por um pingo de verdade.
E aceito a solidão em troca
de uma falsa amizade.
Estudo permutas ainda
por LP's sem toca-discos,
por uma bicicleta antiga
e dois mínis obeliscos.
Vendo selos muito raros,
e gibis de coleção.
Dou um pé de bota na troca
por uma calota de caminhão.
Vendo um relógio quebrado
que marca horas passadas
e uma máquina de escrever
nunca alfabetizada.
Vendo um roteiro pro futuro
que jamais foi encenado.
Compro retalhos de esperanças 
e pago o valor de mercado.
Troco o peso da idade
por um peso de papel
e um bilhete premiado
por um cão fiel.
Lembre! Aproveite! Indique!
Domingo é dia de brique.
42

MEDO



Medo de seguir
medo de ficar
medo de partir
medo de voltar.

Medo de descer
medo de subir
medo de morrer
medo de existir.

Medo de ganhar
medo de perder
medo de lembrar
medo de esquecer.

Medo de chorar
medo de sorrir
medo de acordar
medo de dormir.

Medo de insistir
medo de ceder
medo de expandir
medo de conter.

Medo de dizer
medo de calar
medo de não ver
medo de avistar.

Medo de se abrir
medo de segredo
medo de reagir
medo de ter medo.
44

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