escritas.org desde 1996
Daniel Smuler

Daniel Smuler

Daniel Smuler foi/é um poeta de Porto Alegre, Brasil, onde sempre morou. É autor de dois livros ("Asilo e Anonimato", de 2020, e "De agora em diante musgo", 2025), ambos editados de forma independente. Também é autor de outro livro, ainda não concluído; e até é possível, por que não?, que se torne autor de outros mais.

n. 0000-00-00

Perfil
1 517 Visualizações

Maciço facial ósseo

Alucino. Me transito.

Me transmigro, impossível:

às cegas sorrateiro,

sombriamente ao sol,

tangendo o violão do inútil.

 

O crânio assomando e sumindo,

e de novo assomando (lúdico?)

nas janelas da razão, 

sem qualquer serventia nem dó. 

Alucino, sim. Me transmito

a intratáveis jogos e mitos.

Tosco e perdido, eu grito –

e sou faísca e goma e pó. 

 

Assim só, de litro em litro,

com um pé na masmorra

e o outro no delito. 

Me transfiguro, improvável:

ao céu sem deus,

relampejante sob tetos,

caçando o coelho da contradição.

 

Alucino. Me desfaço 

em hino, em faca,

quietude barata ou estrondo. 

Traço o quadrado redondo. 

O crânio, ainda, piscando

no breu mais longo,

e eu andando e andando.

 

Acordo. Me transmito,

a mim mesmo ou a outro bicho,

não sei, mas impossível: 

batendo nas teclas dum piano invisível.

Ler poema completo

Poemas

5

Maciço facial ósseo

Alucino. Me transito.

Me transmigro, impossível:

às cegas sorrateiro,

sombriamente ao sol,

tangendo o violão do inútil.

 

O crânio assomando e sumindo,

e de novo assomando (lúdico?)

nas janelas da razão, 

sem qualquer serventia nem dó. 

Alucino, sim. Me transmito

a intratáveis jogos e mitos.

Tosco e perdido, eu grito –

e sou faísca e goma e pó. 

 

Assim só, de litro em litro,

com um pé na masmorra

e o outro no delito. 

Me transfiguro, improvável:

ao céu sem deus,

relampejante sob tetos,

caçando o coelho da contradição.

 

Alucino. Me desfaço 

em hino, em faca,

quietude barata ou estrondo. 

Traço o quadrado redondo. 

O crânio, ainda, piscando

no breu mais longo,

e eu andando e andando.

 

Acordo. Me transmito,

a mim mesmo ou a outro bicho,

não sei, mas impossível: 

batendo nas teclas dum piano invisível.

268

Roubos

Quando somos crianças

os adultos nos roubam o nariz.


Quando somos adultos

as crianças nos roubam os ouvidos.

 

Quando somos muito velhos,

uns e outros nos roubam a boca.

 

E quando enfim somos mortos,

todos eles nos roubam o corpo todo.

193

A eles, os animais (poema 661 de Asilo e Anonimato)

É um cachalote dormindo
verticalmente. É um ínfimo besouro
carregando as fezes que o alimentam.
É um fantasmal cardume de peixes
fazendo seu gesto hipnótico.
É um urso gigantesco
que se roça na árvore centenária
como se dançasse no infinito.
É o cachorro que pergunta,
é a formiga que trabalha,
é a lesma que, embora não pareça,
vive tão veloz. É o uivo
do lobo ecoando no ermo.
É o ronco do búfalo na confusão
da savana. É o vagaroso esgar
da preguiça entre a beleza do verde.
É a família de elefantes
destruindo e criando. É o sangue
na bocarra da leoa. É o coito
barulhento dos gatos.
É um pinguim que caminha
como que bêbado. Ou uma morsa
que acorda com mais bondades
que qualquer religião.
Ou a dor de dente do gorila,
ou o parto da canguru,
ou a girafa bebendo água
na sua arte ininteligível.
É a ópera dos mosquitos,
é a sábia cegueira das toupeiras,
é o instante preciso em que a onça
se decide a atacar. É a presa
morrendo: suas tripas dançando no chão.
É o pássaro, talvez um sabiá,
cantando sem medo na cidade.
É a águia altaneira, implacável,
caçando seu alimento ambulante.
É um cachalote de trinta
ou quarenta toneladas
dormindo verticalmente,
no oceano absurdo,
como se o Universo não existisse.

206

sem título

Era como se me cagassem em cima.
Era como se um tubarão agonizasse
por cima de mim e eu,
por correspondência solidária,
agonizasse sob seu volume oceânico.
Era como se me retirassem o chão,
como se me roubassem o próprio
pisar o solo, a inteira gravidade.

Era como se um deus me cagasse em cima,
ou como se me cagassem em cima um deus.

193

Poema 166 – Asilo e Anonimato

O que se aprende com os defuntos
não é estar mudo nem imóvel –
é estar íntegro, acabado, dócil
mas de uma doçura de rocha.

O que se aprende com os defuntos
é estar presente, corpo inteiro,
isolado e ineficazmente colossal,
submerso em um frio tectônico.

Não, o que se aprende com eles
não é a arte da inércia, o nada –
é outro grito do ser, a fissura
que se abre em cada talvez.

190

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.