Lista de Poemas

Escrito

É hoje que sotarei brados
Pois, dir-te-ei sem enganos
Quero-nos fieis namorados
Quero-te nos meus planos

Eu tão bem quero-te hoje
Ainda amanhã querer-te-ei
Nem que o coração poje
Para sempre te amarei
304

Vida

ah "Vita"
com a sua fita
esquisita
Só a poesia bem dita
para fazê-la bonita
E, a poesia tão egoista
ausenta o artista
por meio de sua escrita.
294

E Se Não Fosses MINHA?

Pois, se não fosses minha
roubaria-te numa bola de cristal
Jamais, deixar-te-ei sozinha
Estarei aqui, sempre, Sra. Amaral

Bem sei que, achar-te-ei
numa cartomancia
Nunca esquecer-te-ei
nem com amnesia

Se, por acaso, eu perder-te
Descubrirei a bússola
Para navegar seu coração

Ainda voltarei a ver-te
Pode parecer exdrúxula
Mas, terei a tua direção
275

BASSULA

A chuva não cai
e, quem gosta de cair ?
mas, não pelo "ai"
é por dor de sentir

não cai por vergonha
vergonha da cadência
água também sonha
sonha com eminência

Porquanto, não cai
- odeia tombar
Se, cair o mundo vai
o mundo vai zombar

Então, prefere não cair
execra o chão
no chão é p'ra se erigir
mas, a chuva é um lerchão

a chuva não chove
pejoa-se da queda
a queda que o move
e, deixa-lhe seda

Então, pode o sol sorrir
pode ele brilhar
nada lhe pode aborrir
a chuva não vai trilhar

Com tanta ousadia
assim dizia um pescador
para roubar a galhardia
e a vontade de um lavrador
328

VELHA

Minha geradora, generadora
Minha mãe, minha senhora

Ainda da minha utopia
arrancaste-me a quimera
Meu clarão na luz do "Dia"
minha deusa, minha Hemera

Minha protetora, projenitora
Minha mãe, Minha senhora

barafusta-me de fúria
não planha de depressão
A nossa casa fica incúria
quando não há nela sua mão

Minha geradora, generadora
Minha mãe, minha senhora
308

Amor e Ódio


 Achando-se sabedor
De muito bom humor
Um ser admoestador
Assim clamava o amor:

Eis a condescendência
A tão grande simpleza
Eis a mãe da prudência
O senhorio da afouteza

Vendo o lindo episódio
Tornou-se furibundo
Exasperado e iracundo
Logo, proferiu o Ódio:

Enxerga-te! Ridiculez!
Não viva nesta agnosia
Liberta-te da teimosia
Repara a tua vaziez

E, com seu primor
Respondeu o Amor:

Então, diz-me quem es
Bem sei que não sabes
Eis o conhecimento à rés
Para que não te aldrabes

Es a extrema penúria
Opróbio para a natureza
A disnorme absurdeza
Desde a primeira sentúria

O Ódio ouvindo, gracejou
Pois, conjeturava deboche
Projetava extinguir, forcejou
Designando-o por fantoche

Nada es sem mim
Não passas de pilhérias
Meu pobre culumim
Anda, deixa-se de lérias

Sou eu a força melânia
Do mal afrouxando a luz
Olhe a vecalharia de truz
Sensatez que traz insânia

Eis o fidalgo da brejeirice
De um mundo amoral
Ascendência da chocarrice
Eis a degeneração moral

Amor ouvindo aquilo
Sentiu-se destroçado
Restitui-se tranquilo
Ordenando o seu recado:

Sem receio te digo
Para ti meu amigo

Já desde tenra idade
Está o Amor ao pódio
Como amigo da verdade
Digo eu, não existe ódio

— Não existe ódio, existem pessoas que amam fazer o mal.
305

APENAS “nada”

De mim... Levem tudo

Levem a minha existência
que desistiu num dia
a minha persistência
a tamanha galhardia

Levem os passos largos
o peso no dorso
os doces, os amargos
levem o remorso

Levem as minhas vestes
meus pobres pertences
a calmaria e a peste
os meus interesses

Levem os beijos
os amaços
os meus desejos
e os laços

Levem os abraços
a força do trabalho
o incansável cansaço
a seca e o orvalho

Tudo! Sem nada sobrar
Nada! sem ar de resto
Logo... Sem tempo cobrar
sem gás, nem pretexto

Óh! Porquê sois teimosos
Não deem-me mais tempo
não sejais vagarosos
aproveiteis este retempo

O meu opróbio
a minha fortitude
o meu lado sóbrio
a minha atitude

Levem-me o riso
a lágrima do rosto
o meu paraíso
e o meu desgosto

Levem-me a loucura
a minha sanidade
a minha postura
a minha diversidade

a vontade
toda minha fé
a idoneidade
o meu olho que vê

Levem!... Sem nada esquecer
a minha amnesia
Levem o saber
e a minha agnosia

Todo meu amor
Levem sem esquema
o riso e a dor
Todo esse problema

A minha luz
a minha noite de breu
a minha cruz
a terra, o céu

A inópia constante
a degradação social
o meu mais importante
o meu sobrenatural

O meu nome
a minha idade
o pão, a fome
a longevidade

Levem a minha origem:
minha pátria, minha terra
a minha coragem
minha paz, minha guerra

Levem o meu destino
o meu lindo findar
levem o meu tino
a alegria ao brindar

A família
Os amigos
a minha trilha
os meus perigos

Levem o meu olfato
o tacto também
todo meu aparato
levem o meu além

A minha apologia
o meu tédio
a nostalgia
o meu remédio

Levem... Sim!
Eu permito
anunciem o meu fim
Levem... Repito.

Ah! Odeio vocês
Levem-me Já
arrestem os meus pés
Suplico! Em nome de Jah

Jah? Quem é este?
Não. Também não sei
Então, porquê o disseste
Opa! decerto, errei

Viram? Sou louco
disso estou certo
Penso tão pouco
para tanto excremento

A minha pachorra
Sim. A minha calma
a insónia, a modorra
a minha alma

Mas, porquê a minha alma?
Porquê ela?
Ah! Que trauma!
Ah! Que sequela!

Mas, se não sabia
Saiba agora, cachopo
Não há fobia
Não há nada no meu corpo

E sobre o corpo
Levem o meu também
o levem no sopro
que a natureza tem

E sobre a natureza,
Levem também a minha
a minha tristeza
a solidão e companhia

Levem-me tudo
O meu orgulho
a espada e o escudo
o silêncio, o meu barulho

Levem os becos
as ruelas antigas
os gritos, os ecos
Lealdades e intrigas

Levem a minha rua
o meu berço de lata
a minha realidade crua
a vida má, que me mata

Levem a minha grandeza
grandeza de ser pequeno
Levem a Minha afoiteza
matem o meu lado eterno

Levem mesmo
meu azar, minha sorte
meu andar a esmo
minha vida, minha morte

Digo agora
De mim, tudo levaram
o olho não chora
mas, sente os que calaram

a minha serenidade
a minha força
a minha seriedade
toda minha troça

do supremo ao ínfimo
levem-me a deidade
levem-me o íntimo
levem a opacidade

o caminho mais longíquo
levem-me o olhar
o lugar propínquo
a chuva, o molhar

Sem solução
Bem, dei para torto
Levaram-me o coração
Mataram-me bem morto

De mim... Levaram tudo!

Mas...,
Ainda há algo profundo
ainda algo incita
Todavia, não foi-se tudo
ficou a arte da escrita

Como esqueceram
mesmo de apagar
a lâmpada que deram
antes de me afagar

Vós sois falhados
Sois indignos
sois atordoados
sois malignos

Quero que estes jazem
Pois, não gostam trabalhar
Nada fazem...
até falham falhar

Levaram-me tudo
Tudo sem a 'poesia'?
Estou vivo, sobretudo
Quão grande é a cortesia.

- Porquanto, não perdoou-vos!
301

N'VULA

De repente...

bradava a  avó
Óh dibanda, óh dibanda
Só...
numa tarde de Luanda

com quase um segre
acreditar custa
o seu gesto alegre
que quase assusta

Óh que gritaria!
Mama, amor wassaluka?
Tanta alegria
que vejo, que vi nunca

Não é engano
Parece-me loucura
Com o seu pano
amarrado à cintura

óh... minha mamã
mama ya Nzambi
sei que és sã
e solta como diambe

Não sei o que falta
se não está sozinha
salta, salta e salta
é minha avozinha

seu ente
algo esquisito
De repente...
Grito!...

— Nvula !...
— Nvula weza kia..

Ãh!.. sabia!
sem mais curva
sobre a tua alegria
sabe a CHUVA!...
373

NUMA ROCHA PINTADA

Aqui, ali, acolá
Lá, põe-se em brados
aos amados, um olá
Oxalá, que finda os fardos

despida no pé
Fé não lhe falta
alta; é luz de axé
crê, colhe o que planta

Às vezes esquisita
bonita, seu jeito natural
fenomenal e infinita
bendita, sem igual

E de repente
o pente passa
massa inconsistente
presente nessa abadalassa

Pouco dura
ou perdura a alegria
que de dia é escura
e impura a sua energia

Senhora; mãe e tia
com simpatia e pureza
firmeza; sua garantia
da empatia na sua acoiteza

Tantas tentativas tentadas
coetada; findou na luta
astuta, nunca derrotada
amada pela sua labuta

Rápido evapora
estoira a alegria alegre
que é jegre e caipora
a toda hora, quase um segre

agora está lá estendida
Já perdida. E o que aconteceu?
Meu! de morte morrida
a sofrida morreu

Uma estranha morte
sem sorte matou-lhe feio
no meio de luta forte
suporte falhou por receio

- E quem foi?

Foi ele, o abutre
Futre; nada sente
decrescente; nada nutre
deslustre; é indiferente

é um flagelo
nada belo; abutre é quiconha
Não sonha; é o 'pesadelo'
faz o elo com a vida tristonha

dono de ochas
Pochas! tanta tinta
que finta entre rochas
E na ROCHA pinta

Pintou na Rocha
meteu á brocha, a dona alheia
arreia, apagou-lhe a tocha
com a trocha na areia

o abutre não tem alma?
calma, ele não falha
baralha com drama
e trauma a gente que batalha

o abutre é um vírus
vampiros - criado pelo sistema
sem emblema, não há Cirus
Pois, a tiros faz o problema

É gente azulada
com nada, se não arma
seu carma, sua morada
é granada que tudo alarma

Quantas JULIANAs
anganas há de tirar
o seu ar, aissana?
danas, sim todo lar

E pelo 'KAFRIQUE'
um arrepique se fez
Talvez, fique
em sua psique a lucidez

E o que vejo?
mil pejo despejado
o bocado de desejo
ao beijo deitado

E do seu homem?
Somem as vontades
vaidades não comem
dormem todas idades

E o que vejo?

Nada cor de rosa
sem esposa, só viúvo
Vivo, na estrada espinhosa
desastrosa, sem mais adjectivo

Está em rochedos
Três segredos deixados
descuidados, medos
de bruxedos, acompanhados

segredos são três filhos
sem brilhos, de olhos secos
dos becos de seus trilhos
e sarilhos sem ecos

O que vejo?

Um novo czar no paço
com bagaço da ralé
Pois é, é um lerdaço
e palhaço quem nada vê

Mais um com escolta
que solta juras
Impuras por nota
Agiota de ideias duras

Hoje o 'João' Baptista
avista um baptizado
Hipnotizado, que conquista
a pista após lesado

Viúvo com emprego
é cego, mas o que escolher?
o que colher? Um patego
sem ego e sem mulher

Sim, a promessa
é essa; de empregar
é pegar a tua princessa
espessa e a apagar

- 12 - 03 - 019
~ Em memória à Juliana Kafrique.
327

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Pan-africano, afrocrata, afrocentrista, ativista cívico, rapper, poeta e escritor eclético angolano, nascido em Luanda, no município da Samba aos 19 de Abril de 1994.