Lista de Poemas

Tio

A ingrata da Raimunda
Veio buscar meu parente
Seu corpo hoje está frio
Quando ontem estava quente
Quebrando um tênue fio
Raimunda levou meu tio
Pra longe da nossa gente...


Em memória à meu tio João Paulo que desencarnou na noite de 31 de outubro de 2018.


Diones Batista




381

Cigarro da Saudade

A lágrima que hoje corre
Fez-se em rio no meu rosto
Só não morri de desgosto
Porque de amor não se morre
Pra esquecer tomei um porre
Para as mágoas afogar
Malditas sabem nadar
E na lembrança me vem ela
Menina mulher tão bela
Eu te amo de verdade
To fumando o cigarro da saudade
E a fumaça escrevendo o nome dela

Já sentia a chegada do calvário
E apenas com uma ligação tudo acabou
Mas uma vez sozinho agora estou
Nas estradas da vida solitário
O cigarro no dedo incendiário
Me pergunto o que vou fazer sem ela
Por dentro me corrói essa mazela
E de viver perdi toda a vontade
To fumando o cigarro da saudade
E a fumaça escrevendo o nome dela

Com um banho lavo o corpo
Com as lágrimas lavo a alma!


Mote: Autor Desconhecido
Glosa: Diones Batista

643

Primeiro Amor

O primeiro amor é inesquecível
É um sentimento forte e duradouro
Como hospedeiro se aloja no peito
Esperando outro possível vindouro

É uma tatuagem no vão coração
Que mesmo com o tempo nunca se apaga
Mesmo tendo outro sempre está ali
E as suas lembranças é o que nos afaga

A qualquer momento ele se emerge
Quando o pensamento tão em si converge
Olhando as memórias que estão na saudade

Mas o ser tão tolo morrendo de orgulho
Faz do coração um simples pedregulho
Para não ferí-lo com a sua vaidade...



Diones Batista
261

Raimunda, a morte

Lembrando dos maravilhosos escritos do ilustre e saudoso Ariano Suassuna, que nomeu a dama da morte de Caetana, eu analisei e achei muito pertinente nomear a morte. Creio que assim ela parece menos assustadora já que sabemos que um dia estaremos frente a frente com ela. Uns mais cedo e outros mais tarde, mas sem falta ele visitará a todos nós. Mas não acho que o nome de Caetana faça jus ao trabalho da dona morte, na minha concepção Raimunda é um nome que combina mais com ela. Raimunda é um nome de origem germânica formado por duas palavras: - Ragin, que significa "conselho" e mund, que quer dizer "protetora". Segundo histórias antigas, na hora final, o ser ainda vivo reluta até não poder mais para não se desapegar do seu corpo ao qual já está tão acostumado. Diferentemente do que pensamos, dona morte a qual nomeei de Raimunda, não arranca a vida do corpo e a leva para o além. Ela chega de mansinho e com seu abraço carinhoso e suas palavras de afago no subconsciente do indivíduo o convence e avisa que já é hora de partir para o infinito e que sua missão já está cumprida fazendo-se necessário voltar a seu lar. E assim que o ser percebe e deixa-se ouvir entende que é chegada a hora de deixar aquilo que conhecia e ir agora aprender com o infinito criador de todas as coisas. Ao desapegar-se do corpo, dona Raimunda o guia e proteje pelo caminhos das sombras até a casa do pai de todos nós. E diferente do que muitos dizem, a morte é apenas o começo. Lembrando ainda dos escritos de Suassuna, sábias foram as palavras do personagem Chicó d'O Auto da Compadecida que disse que quando o ser morre "cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre."



Diones Batista

Referências:
SUASSUNA, A. O Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Livraria AGIR Editora. 1975.
305

Amor de ilusão

Lembrando dos beijos que um dia me destes
Fico aqui pensando se deixou-me a sorte
De me dar resposta tu se abstivestes
Pra o sofrimento deu-me um passaporte

Nosso amor de ilusão tu adormecestes
Hoje o peito sangra com um profundo corte
O coração de pedra tu amolecestes
Depois o entregastes a dama da morte

Hoje vivo triste, só e amargurado
Como um andarilho que é abandonado
Nas estradas secas da desilusão

Vou fazer agora um abaixo-assinado
Pra aceitar de novo eu ser seu amado
Me arrancando assim desta solidão


Diones Batista
630

Irmãos

Nesse momento morreu mais um preto na favela
Filho de Dandara, filho de Mandela
Fiho de Zumbi, filho de Marighella
Passa só como mais um caído na viela
E de repente surge um grito no alarido:
- Aaahhhhh... Se não fosse bandido não tinha morrido!
Mas era só mais um pedreiro
Que trabalhou o dia inteiro
Pra poder juntar dinheiro
Pra sua família ter
O alimento pra comer...
E a furadeira foi confudida com pistola
E hoje seu filho no sinal pede esmola
E a cor da pele foi o julgamento inicial
Que em mais uma vida pôs um ponto final.


Diones Batista
286

Solidão

No meio de tanta gente
E ainda me sinto só
Ao lembrar-me dos teus beijos 
Na garganta dá um nó
Desmorona os sentimentos 
Transformando tudo em pó


Diones Batista
235

Luta

Estava no escuro e com frio
Estava sem saber pra onde ir, desnorteado!
Estava sem saber o que fazer, estagnado!
Estava perdido na perdição da perda!
Estava sem saber qual foi minha perda
Até que ao longe vejo uma chama
Que me aquece e me ilumina
Que me mostra a minha sina
Que me mostra o caminho
E como que da água pra o vinho
Descubro agora o que sou
De onde vim e pra onde vou
E essa chama se chama luta
Que de longe o grito se escuta!


Diones Batista
591

Paixão

A paixão quando acomete
A vida de um sujeito
Se encarna  no coração
Se entranha dentro do peito
Se espalhando pela alma
De um jeito que não tem jeito


Diones Batista
384

Exílio

Milhões de irmãos e irmãs
A força foram trazidos
Da Mãe África arrancados
Nessa terra exauridos
E até mesmo nossas crenças 
Delas somos proibidos


Diones Batista
660

Comentários (3)

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wilson1970

Caro poeta , você e a PATATIVA da bela Paraíba

dasilva

coisa mais delícia de ser ler guri, grata.

aunntt

Lindíssimo!

Sou natural de Livramento no Cariri Paraibano. Jovem Camponêns e Amante da Literatura!