dpesteves

dpesteves

Perfil
1 282 Visualizações

Nem tento

Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
Ler poema completo

Poemas

15

Nem tento

Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
122

Tu e sidio

Perdi tanto tempo morrendo
que já não sei viver
empurro-me para fora da sombra
mas o sol não chega para todos
e os outros
parecem conhecer a fórmula
a alquimia esquecida
de viver
e até gostar de viver
mantendo-o em segredo
entre eles
para eles
assim sendo
serei só eu que odeio isto?
101

Testamento do naufrago

Observo o mar através de um copo
vazio
constantemente vazio
na ausência do oceano
postulado ao longe
num oásis impossível
através do copo
vazio
assim me sinto
desfeito e vazio
atiro com o copo
borda fora
sem matar a sede
sem matar quem me mata
pois nada resta para o encher
nem copo
nem a sede
apenas ânsia
revolta 
a vontade de tudo o que não volta
e jogo-me ao mar
103

Seringas de água benta

As costas arqueadas
ao balcão de um bar
esperando a benção
em meditação transtornada
ponderando a maçada
de não ser ninguém
e até a música
torna-se demasiado alta
ou impercetível
na memória fula
pecaminosa
se Deus não fosse estrábico
teria abortado a humanidade
ao quinto dia
evitando a desgraça
de cravar uma e outra vez os braços
na jornada prolixa do desassossego
de quem sonhou
e agora transpira e contorce 
só a solidão me dá tempo
pois nem os garrotes me calam as veias
essas que tão mal escolhem as palavras
dói-me as costas
a barriga
a parte debaixo da alma
dói-me o passado
dói-me outra dose vazia
dói-me o esquecimento e a pele esticada
às vezes esqueço a que sabe a dor
outras vezes é de noite
e tudo me dói!





122

Calunia

Ser poeta é uma forma opulenta
de ser pobre
é ser louco por diagnosticar
alguns dizem ser arte
mas a arte não doí tanto.
Ser poeta é fome e  sede
em banquete
é arrancar cabelos
próprios e alheios
é a receita perfeita 
de solidão insípida
é sangrar tinta 
e escrever com sangue
é não ter tempo
nem para morrer
ser poeta é a pior forma de poesia.
152

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.