Anti-Poesia
Não sou poesia
nem prosa
não tenho rima
nem métrica
ou sequer
um poeta que me escreva
nem virgulas
nem a letra Z
não sou nada disso
não sou poesia
que sou?
um sussurro de tinta
de letras ordenadas
sem mensagem
num lugar manchado
com a capacidade de chegar a ti
mas não tenho estilo
nem nome
nem categoria
nem companhia
tenho erro de ortogrefia
só sei
que não sou poesia
o suicídio de Deus
depois pagas do outro lado!
em muitos casos
pagas primeiro
e voltas a gastar
o acumulado em lágrimas
aqui não
mas quem diria que Deus também sofre ao entrar aqui?
quem diria tal blasfémia
quem diria que a cura do sofrimento é a morte
essa que nunca chega a tempo
ou vem tarde demais
ou cedo
e dá medo pensar que vem
primeiro mata o amor
carrega-nos de dor no peito
de dor nas costas
de dor
eu pago do outro lado
tudo em moedas de carvão
ao Serafim sorridente
esse sacristão conduzindo-nos em rebanho
ajoelhados entre o fogo-fátuo
com uma vela velando os antigos vivos
num velório de núpcias
grito ao tempo
quem diz que o amor não morreu?
quem?
Meu Minho Místico
Águas cruas do Minho
com restos a aurora tardia
galgais os rochedos do vinho
de famintas dinastias do mar
com repuxo do refluxo espumante
ao reflexo do céu
espelho meu
são águas escuras de ontem
enroscando a agonia no passado
da eternidade
rasgas o canhão das meigas
dos irmãos entre hermanas
e desvaneces no estreito da ampulheta
enquanto o coração se me aperta
ao largo do chicote na desembocadura
a batela do contrabandista
escala as ondas
com os remos de quem foi
aí te vais!
a água fez-se adulta
de nascente a oceano
nostálgica
uma serpente liquida
ovalando um universo.
Coluvião
Quem são eles?
carregados de erres nas palavras
de efes nas matrículas
garridos nas vestes e no cabelo
e fome
muita fome
Quem são eles?
a conduzir protótipos de outros
brilhando como as Médulas no auge
em sorrisos apáticos de lábios púrpura
e crianças chatas
muito chatas
Quem são elas?
esculturais donzelas com ar de Nise
igual a muita gente boa
plastificadas de dentro para fora
mergulhadas em azeite
muito azeite
e quem são eles?
cosmopolitas rurais loucos por bijuteria
feiras de gado e concertina
compram tudo com dinheiro caro
à custa da solidão
muita solidão
Quem são eles?
uma tribo de cruzes da ordem do futebol
por cinco escudos velada
é então a cara de Amália e Eusébio
para esta gente
muita gente
E Monção?
Necessárias multidões emprestadas ao desperdício
Sentam no estrado do privilégio
da autoridade gruim
sobre liocéfalos flutuando à margem
lambuzados do plasma lismoso
da desembocadura noturna
em dias de nénia
eles fumam e bebem
excretam fumo e bebem fumo
bando de patos fosforizado
junto à fosga de urina
bebericam
e fumam
indutados à margem
como corvos tanecos
rapinas mortas
mordiscando o próprio cadáver
no cadilho da alcateia mais uma ronda
vizires do pó sangrando do nariz
vazando suor pelas rugas
e como se chama aquilo que estão a mastigar?
amizade
isso
disso não tenho
penetra o toque do telefone
será acidente?
necessito algo para reviçar
ou mato patos
passa a serpente popelina desdentada
rumo ao cume do ocelote
nu
procura redenção lemática
exuma-se e gira ao redor do mundo
repleta de desilusão e estupor
outro tanto peso na alma
nua
as viagens fazem-se eternas
só assim desquicia o real
sem vaidade
nem debilidade
nem coroa
esvaída no tesouro
em frente ao Olimpo horrífico
de portões fechados e espalha-se o naipe.
duvida
Vida?
eu respondo
limitado conjunto de serões
genuflectindo cada manhã à escuridão deposta
pela regra imposta de ferida exposta
sangrando tempo
difícil de estancar
entre o garrote da saudade
chicoteando as gerações
numa cadência abrupta
ininterrupta
fervilhando significados
e definições como na ausência
rebentando nas mãos
a cumplicidade do desejo efebofilico
entre o nada espiritual
e o fim.
Amanhã é uma tumba demasiado apertada
o futuro do povo nada de concreto tem
único lugar-comum a morte
e por mais forte que voe o corvo
os filhos abandonarão o colostro pela aguardente
sublimando o amor em prol de deuses estetas
terminando assim por rebentar o crânio com uma bala barata
vendida na escola pública, pagina cinco
onde uma cruz continua a dar poder ao ditador
para eles tornarem a medicação mais castanha
e tu mulher, já não és digna de reclamar pela violação
tens um, dois, três amantes
com trombas de elefantes nas ilhargas
caninos sanguinários sugando-te a jugular
e procrias num mundo dentro da caixa de Pandora
onde só falta a esperança para cobrir
as tumbas a céu aberto, enormes jardins botânicos
perto das chapas finas crepitando ao sol
onde elas abortam como quem serve um jantar
mas eles voltam a meter crianças lá dentro
metem e metem até deixar de respirar
até a bola azul derreter para vermelho
e este futuro apodrece para aquele passado de fata morgana
num adeus límbico, um final cíclico
a morte!
o cansaço dos pinguins
fleuma é o meu estado natural
já nada mexe o coração
nem a coreografia do sangue
abala a mole apoplética
igual a uma hipopatologia congénita
estreita nas artérias
morta de saúde
essa fleuma é o lingoteiro dos poemas
cada estrofe um lingote
e peteco-lhe letras
onde não devia
quando não devia
dopando as palavras de sentido hiperbólico
doravante as fífias passarão no crivo
direto ao lixo ou à história
pois quando sujeito a caneta
rumo a esmo
por linhas e linhas sem fim
entre verbos adormecidos
beijando-me o rosto
daqueles que odeiam a existência
por não ser vegetariana.
Sou o interior do frasco de veneno
Corre a tinta
descrevendo espelhos no mar
ou
as lanças acutilantes do sol
ou
o voou em picado das borboletas
e mais um saco cheio de nada
só nenhum poeta
embarca na estrofe
desenhando a cascata de pus
de uma borbulha esmagada
ou
o amarelo de um escarro
ou
o vapor envolvente da urina
tão lírico
ou
os pelos chuvosos do sovaco
ou das virilhas
ou
a cor azulada das tripas
do cão atropelado
ou
a coleção de dentes pelo asfalto
ou
o sigilo do final do coito
entre o padre e o acólito
ou
entre pai e filho
avó e neto
ou
a calma de um caixão branco
de meio metro
ou
o sabor das lágrimas
Quem gasta letras com isso?
os poetas?
não
esses são rebanhos
com medo do lobo
acreditando serem o lobo
quanto a mim
Represento o ofício
de envenenador saturado
encaixando o pescoço entre os barrotes
e vivendo cabisbaixo
anulado
escrevo discursos para mudos
e teço vendas para cegos
pressionando as veias até estoirarem
com o peso das letras
esse é o meu eu poeta
pobre do mundo
que me tem como cancro
então
restam-me as leituras
e espero ser verdade
isso de que
cedo ou tarde
os grandes poetas
acabam se parecendo!
pequeno almoço
São curiosas as vidas dos demais
parecem-me rampas
obstáculos
com que facilidade enxotam os pombos
e acendem um cigarro
e cospem para o chão
se colocam de frente para o sol
vestem calças vermelhas
sapatos sem meias
ou saias horrendas
uma categoria de estilo
fabricado em braile
existem até os menires
falando alto
como se a sua opinião contasse
ou interessasse
o certo
é que de manhã
o odor a torrada propaga-e
unido ao perfume barato e vazio
criando uma nebulosidade morna
que ocupa todos os espaços
e permite às comadres discutirem de
ex-maridos
unhas mal pintadas
faturas por pagar
sem pagar
ou o fulano de bigode com sopa
pensar na adolescente
que lhe come o dinheiro
e lhe rouba a razão
tem uma unha encravada
deve ir ao mecânico
e a mim, cheira-me a torrada
a calçada é trilho
para loiras de cabelo lambido
são de puta ou de juíza
a lei funciona com essa liberdade
livres para a tal mania da roupa justa
em corpo de dinossauro
e como pode tão cedo esse tipo palitar os dentes?
a senhora tem os pés inchados
tantos mosquitos na vitrine
e mesmo assim,
a galega dá uma nata ao filho
também
parece desnatado
e cheira a lota
vou comer a torrada.