307 - PARTÍCULA
De cima do que só se arrasa e rui,
Numa camada deste pó que sai
De cada pedra solta quando cai,
Partícula invisível sou e fui.
Não era o que na lama se dilui,
Se adere às superfícies e se extrai
De atritos e a mercê das ondas vai
E vem porque jamais se distribui.
Ao sol o vento já me faz transpor
Fronteira ao longe enquanto livre for,
Sabendo dos escombros de onde vim.
Talvez eu me tornasse enfim maior
Se me apegasse a tudo ao meu redor
Ou tudo se prendesse então a mim.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 16/11/2020)
305 - Ó SENHOR, MEU PASTOR
Senhor, eu dediquei-me a ti. Também
Cem cânticos bonitos te entoei.
Forcei meu coração na boa lei.
Já pulo de alegria: a vida vem!
O cão que treme de ódio e de desdém
Uiva e lança-se ao meu pescoço, eu sei.
Das línguas ásperas, ó Deus, meu rei,
Cura a pele e contente vou além.
Pastor, por ti espero sim com fé.
Ó, dá-me a mão e põe-me enfim de pé
Para que com fraqueza não me vençam.
Mantém-me, no rebanho, Jeová,
Guarda-me envolto na esperança lá
Concede-me o favor no chão da bênção.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA)
306 - O BARCO
Que nas tormentas eu me torne o barco
Que singra o mar de lágrimas e leve
Ao porto a carga que pesada deve
Pôr a perder o suprimento parco.
Quando com sangue e com suor encharco
Os meus porões e lá ninguém se atreve
A ver da vida a travessia breve,
O sol da fé descreve bem seu arco.
Meu ser naufraga numa vaga e logo
Os sonhos passageiros que eu afogo
Serão pra sempre em frustrações imersos.
Eu nestas fossas abissais afundo.
Ó, quem me dera houvesse neste mundo
Alguém que ao menos me salvasse os versos!
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 08/11/2020)
304 - A CAÇADORA, EU E A FERA
Eu cambaleio sim com estas pernas.
Há setas traspassando cada coxa.
Embora a pele esteja inchada e roxa,
Minhas piores chagas são internas.
Oculto nestas covas onde hibernas
Chorei de dor: ferida desabrocha,
No corte meu lateja como a tocha
E deve despertar-te nas cavernas.
E nestas sendas que com sangue encharco
A vida ainda tem nas mãos um arco,
E vem ao meu encalço mais severa.
Mas tu, Tristeza, não me dás abrigo
Porque me atacas quando estou contigo:
Devoras quem serei, quem sou, quem era.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 05/11/2020)
303 - A FORMA MAIS BONITA DE POEMA
É forma mais bonita de poema
A que já não se assenta por escrito;
A que jamais escuto nem recito;
A que não vem com emoção extrema;
A que não tem estrofe, verso e tema;
A que não narra a bênção do infinito;
A que não fala sobre o mal que evito;
A que não se liberta nem se algema.
Mais belas formas são de poesia
As coisas tão banais de cada dia
Expressas com palavras tão pequenas:
São as que te direi se formos sábios:
Mas só com três sussurros destes lábios
Ou mesmo então com um olhar apenas.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito para a minha esposa Ingrid da Rosa Rodrigues Oliveira em 02/11/2020)
302 - DIA QUENTE
Há anos já vivemos nestas casas
Que se assemelham aos antigos fornos.
Se tão somente fossem lares mornos
Ou se no piso houvesse poças rasas.
Como se nos deitássemos em brasas
Das chamas há nas camas os contornos:
Mais cedo ao sol a aurora veio expor-nos.
Ó, noite fresca, mas por que te atrasas?
Mormaço penetrou a carne e os ossos:
Com pingos grossos, nos telhados nossos,
A chuva de verão mais alto rufa.
Ó, dia quente, ainda nos destróis
Expondo-nos aos teus severos sóis,
Fazendo desta vida grande estufa.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 01/11/2020)
302 - VOZ TÃO BOA
Qualquer silêncio à noite até me espanta
Porque maiores são os meus temores
E os meus gemidos mais assustadores
Embora estejam presos na garganta.
E quando a minha angústia já é tanta,
Na escuridão, depois de enfim me expores
A pura boca, aonde quer que fores,
Tu levarás o canto que me encanta.
Enquanto da existência levo a carga
E o pranto meu te embarga a voz tão boa,
Até palavra que soa tão amarga
Nos lábios secos de qualquer pessoa,
Nos teus, mas só nos teus enfim se alarga
E docemente neste peito ecoa.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito para a minha esposa Ingrid da Rosa Rodrigues Oliveira em 10/10/2020)
301 - A VOZ INTERIOR
A voz interior somente escuto
Enquanto for tão baixo o que me fala,
Os outros não puderem escutá-la,
E andarmos todos lânguidos, de luto.
Tal voz entendo só no meu reduto
Onde o refém que sou enfim se cala
Porque comum se torna a sua vala
Em que terá o espaço diminuto.
Agora eu em mim mesmo não mais entro
Já que os silêncios meus são emitidos
Só quando neles nunca me concentro.
Não ouço já que ainda tenho ouvidos
Que apenas captam sons aqui por dentro:
Obtuso estou ou eles, entupidos.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 08/10/2020)
300 - O IMIGRANTE
Quem me dera poder viver um dia
Na terra deste meu antepassado
Que com coragem veio ao outro lado
Dum oceano d'água brava e fria.
Que lá consiga mais sabedoria
Por aprender de todos de bom grado.
Que, enfim, eu já durante o aprendizado
Veja a vida melhor, não como a via.
Desta gente de vinhas e olivais,
Por fim, farei amigos com os quais
Rirei se alguém me perguntar: "Tu ris?
De lá não tens saudade? Quando vais?"
Direi: "Ó, sim! Mas lá não vivo mais
Porque meu lar é onde sou feliz!"
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 07/10/2020)
299 - VEM, ALEGRIA
Vê, Alegria, quem dançando está;
Ouve, aprecia quem brincando ri;
Mostra-te guia a quem perdido eu vi;
Segue-o na via aonde quer que vá;
Vai, Alegria, aonde a vida é má;
Vem arredia e permanece aqui;
Dá euforia a quem se encheu de ti;
Leva agonia para longe já!
Tira, Alegria, o perdedor do pó;
Traz companhia a quem se sente só;
Faz menos fria a mão no peito nu;
Põe neste dia o sofredor de pé;
Dá valentia ao fraco, força e fé;
Torna, Alegria, todos como tu!
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 07/10/2020)