Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

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31/10/2023

Encara-me com tua presunção
e deixe-me contorná-la.
Acenos de cabeça e cordas
amarradas no cotidiano.
Sinto tudo enquanto sonho,
como a morte de um inseto
esmagado pelos dedos
de outras presunções.
Deixe-me no sarcófago,
conjecturando sobre a fumaça
que carrega toda essa gente,
apressada para sabe-se o que,
cegas para tudo que há por vir.
Devir. Deixar. Derrapar
e capotar na ribanceira.
Antes de cair e morrer, relembrar
aquelas vozes que afirmavam:
"burro, burro, burro".
Olhem para este burro, vejam se não é
um belíssimo exemplar do espécime.
Confuso, cansado, corrompido
pelas agruras do toque 
entre lábios nunca desejados.
Não há mais tempo algum,
e isso é maravilhoso.
A pelugem da morte em epiderme...
espalha meus pensamentos
sobre a lataria amassada
e o diesel, serpenteado, pelo chão.
241

O mensageiro da alegria

Há dias em que imagino
a terra colidindo com Jupiter.
Prédios, livros, mentes,
corações, mortos, vivos,
oceanos, céus, poesia,
trânsito, trabalho, ciência,
filosofia, camiseta, raios,
eu, você e nossos egos.
Toda a arrogância despedaçando-se
em uma tempestade vermelha
centenas de vezes maior
do que tudo que conhecemos. 
Veja se há qualquer subjetividade
em compor o óleo sobre tela
de uma atmosfera intransponível.
Jupiter... extinguiste a mansarda
por onde olhava-se o topo do átomo
e dizia-se: ali está o universo.
E o pior de tudo, nada mudou.
"Sem ti correrá tudo sem ti".
Há outros, ainda maiores.
Há infinitas insignificâncias 
em um mar de bactérias confusas.
Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me.
Já não posso suportar Jupiter
cada vez mais perto. Espante-o.
297

Gramática

As casas.
Deixar a casa arrumada
e o mundo submerso em caos.
Os sonhos.
Esquartejar o delírio
para vivê-lo parceladamente.
As mulheres.
Amar como quem verte
o sangue da própria hemorragia.
Os homens.
Ver a infantilidade
deteriorando as bordas da gravata.
Os sábados.
Cronometrar a alegria
que nunca foi, de fato, alegria
As segundas.
Beijar a imagem santa
no templo da previsibilidade. 
Os olhares.
Escolher algum desejo
no burocrático catálogo da volúpia.
Calipígia.
Grito.
Vulto.
Pedras.
Sol.
Azul.
Verde.
Culpa.
Morte.
Peito.
Tum, tum, tum.
Carros.
Tum, tum, tum.
Tiros.
Tum, tum, tum.
Aplausos.
Tum, tum...
252

22/10/2023

Tenho acumulado tentativas
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.

Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.

Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.


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