Encara-me com tua presunção e deixe-me contorná-la. Acenos de cabeça e cordas amarradas no cotidiano. Sinto tudo enquanto sonho, como a morte de um inseto esmagado pelos dedos de outras presunções. Deixe-me no sarcófago, conjecturando sobre a fumaça que carrega toda essa gente, apressada para sabe-se o que, cegas para tudo que há por vir. Devir. Deixar. Derrapar e capotar na ribanceira. Antes de cair e morrer, relembrar aquelas vozes que afirmavam: "burro, burro, burro". Olhem para este burro, vejam se não é um belíssimo exemplar do espécime. Confuso, cansado, corrompido pelas agruras do toque entre lábios nunca desejados. Não há mais tempo algum, e isso é maravilhoso. A pelugem da morte em epiderme... espalha meus pensamentos sobre a lataria amassada e o diesel, serpenteado, pelo chão.
241
O mensageiro da alegria
Há dias em que imagino a terra colidindo com Jupiter. Prédios, livros, mentes, corações, mortos, vivos, oceanos, céus, poesia, trânsito, trabalho, ciência, filosofia, camiseta, raios, eu, você e nossos egos. Toda a arrogância despedaçando-se em uma tempestade vermelha centenas de vezes maior do que tudo que conhecemos. Veja se há qualquer subjetividade em compor o óleo sobre tela de uma atmosfera intransponível. Jupiter... extinguiste a mansarda por onde olhava-se o topo do átomo e dizia-se: ali está o universo. E o pior de tudo, nada mudou. "Sem ti correrá tudo sem ti". Há outros, ainda maiores. Há infinitas insignificâncias em um mar de bactérias confusas. Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me. Já não posso suportar Jupiter cada vez mais perto. Espante-o.
297
Gramática
As casas. Deixar a casa arrumada e o mundo submerso em caos. Os sonhos. Esquartejar o delírio para vivê-lo parceladamente. As mulheres. Amar como quem verte o sangue da própria hemorragia. Os homens. Ver a infantilidade deteriorando as bordas da gravata. Os sábados. Cronometrar a alegria que nunca foi, de fato, alegria As segundas. Beijar a imagem santa no templo da previsibilidade. Os olhares. Escolher algum desejo no burocrático catálogo da volúpia. Calipígia. Grito. Vulto. Pedras. Sol. Azul. Verde. Culpa. Morte. Peito. Tum, tum, tum. Carros. Tum, tum, tum. Tiros. Tum, tum, tum. Aplausos. Tum, tum...
252
22/10/2023
Tenho acumulado tentativas com a teimosia de um parvo. Deixado para a última hora o que já não podia esperar. Gargalhado sobre as migalhas de uma tristeza convalescente. Decifrado todos os livros pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão, como se lessem um prefácio e, atônitos, estimassem tratar-se de outro livro qualquer. Outrem. Pois saibam que nem mesmo o bruxulear da consciência alheia é capaz de emitir luz que encontre a saída para o labirinto falado em que tranquei-me, jogando fora a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem a bandeira negra do dia passado. Encarem-me, mas suspirem, como se experimentassem saudades. Assustem-se com a sombra que remete ao corpo um dia existente. Deixem-me assim, a sete palmos de todo esse fingimento protocolar. Mas quando eu chego no ofício... mas quando eu bebo o santo licor de toda essa indiferença de nuvens opacas... mas quando vejo-me na tela sem ver-me além da verossimilhança... posso jurar ser verdadeiro. Morbidamente verdadeiro.