Beijar-te até que o inefável torne-se tão lógico quanto um sonho decifrado nas linhas de um plano cartesiano: limites no infinito.
61
Trasnsmutação
Seu suspiro leve flutua ao ouvido e repousa em mim, trocando por chumbo as plumas irrequietas de mais um engano.
28
De passagem
Por praças vazias ela percorria duas luzes opostas.
Movia as pupilas como duas ilhas carregadas na noite.
Olhava o relógio e abria o estojo com dedos tão finos,
esguios a ponto de viver encontros com átomos, partículas.
Tocava o pescoço enquanto trocava de rua, andando.
Entrando na sombra, luzindo distante e sumindo de tudo.
As praças lotaram e as noites ficaram um pouco mais longas.
65
Vida adulta
As mãos do maestro seguram a semana em cadências polifônicas, guardando os metais para outros carnavais e o conjunto de cordas para outras insônias.
Primeiro, invoca os fagotes soprando o ar pesado, de rancor e de enfado, que surge entre as nuvens, cinzas e dispépticas no prelúdio operário.
Depois, dissipa a tensão com o suspiro espaçado de um piano adulado pelas mãos delgadas daquela esperança vazia, que vai sendo preenchida e se juntando aos ruídos no mesmo diapasão.
Depois, desponta a violência no encontro eufórico dos tambores do futuro com aquele contrabaixo que por vezes é dedilhado pela alegria, emotivo, e por vezes é rasgado pelo arco, sem motivo.
Depois, as cordas vibram atentas ao movimento enfático do tempo regente, vertendo sons deprimentes em uma ópera, um réquiem de quem se espera a morte com satisfação oculta.
Por fim, o ar se condensa e o silêncio se instaura no momento apoteótico em que as mãos agarram a partícula de sentido em um oceano de moléculas entrelaçadas na camada chamada "vida adulta".
64
Secura lacrimal
Os sonhos perfuram uma realidade transposta, um engordar-se cúmplice das lágrimas secas no sertão do fim previsto.
O que eu posso fazer, além de sonhar e comer, na falta de um encanto que embale aquele canto espaçado e lânguido que julguei ser do colibri, mas que era meu. Saía de mim.
Agora, o pesar evade por todos os poros, por todas as oportunidades que nunca existiram, mas que passaram a existir no momento em que a angústia ajustou nosso ponteiro.
Mais um verso desconexo. Mais uma vida cronometrada. Mais um chão a ser pisado. Mais um sonho assassinado antes mesmo de eclodir no desespero do despertar.
Para que levantar, se a gravidade ainda insiste em pressionar a cefaleia, prostrar as minhas ideais e enrugar a ousadia sem baixar-me uma gota de lágrima?
30
Caminhada
Vou cruzando aquela esquina por onde o vento pondera flores níveas, amarelas, ônix, cobalto e granada.
Qual pétala iridescente brilha assim, auspiciosa, quando a náusea se instaura?
Sigo encarando a campina, onde a geada prospera em brumas baixas e mazelas apoiadas na alvorada.
Qual cristal, impiamente, faz do gelo uma vistosa imagem do que a dor restaura?
Vou seguindo pela dúvida, ciente de que a resposta talvez esteja em outra rota.
77
Fora das sombra
Não há perfeição ou medo de errar, é tão natural quanto o palpitar, áustero e amargo, do discriminar entre velhos medos e novas coragens.
Abrace ou rejeite, virá e virá, sem tempo que vire, sem ter sabiá que encante o minuto e o faça parar sob as asas fracas de uma clemência.
Na batida franca da inexatidão, procuro escapar e ver suas mãos orquestrando as minhas, como meros vultos no vasto salão de pó imantado; polos desiguais de imperfeição.
27
Carnaval pela janela
O calor embevece a fileira de ébrios transbordando no sol,
brasileiros legítimos puxando a alegria sem variar no anzol.
Dedicados ao corpo, ao trigo deglutido sob lábios alcoólicos,
Como iconoclastas destruindo o exercício do cogitar simbólico.
Tornar-se desejado tornou-se objetivo da multidão letárgica.
Deixar-se abandonado, sem pensar no sentido, é mister do indivíduo
que negociou sua alma pela autêntica sensação de se estar completado,
sem medo do carrasco mergulhando a razão na certeza da morte.
Um medo tão quente. Quente a ponto de pular do canto do peito
e, enfim, repousar onde o calor embevece a fileira de ébrios
que caminham, sujeitos ao mesmo sol.
26
Um dia comum
Minhas preocupações ingênuas avultam-se em aves pequenas, revoam os velhos dilemas e partem para a liberdade sem saber onde encontrá-la.
Sobrevoam toda a cidade em uma nuvem bela e cética, em uma proposta asséptica de eliminar qualquer vaidade e extinguir a espécie humana.
Mas cada pássaro do bando desmancha-se ao vento indolente, traz nas penas o desencanto de quem reprime a obliquidade por verdades já poentes.
Como é triste a ingenuidade, o irromper de linhas francas em pontos ainda comedidos, preocupar-se com o possível quando o real nos desaponta.
Mesmo assim, as aves restantes percorrem o céu lavrado e encontram, estupefatas, o alvorecer da liberdade em um dia comum, cinzento.
92
Nascer da semana
A barriga aumenta na mesma proporção que as barreiras, teimosas e nevoentas, ainda que intransponíveis.
Um eterno ensaio de mentiras espinhentas, de alopecia androgênica, vertigem, desmaio e insumo para crises.
Lábios cerrados sob a serra volumosa de imagens várias, rancor populado pela falta de amor próprio.
Com certa perícia o ânimo logo entalha uma ruga de desgosto, mas não a vitalícia que é insígnia do tempo.
Aos poucos, torna-se uma a ideia hipocondríaca de faltar, aqui dentro, aquela pluma com a qual se assina