Lista de Poemas

Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
246

De passagem

Por praças vazias
ela percorria
duas luzes opostas.

Movia as pupilas
como duas ilhas
carregadas na noite. 

Olhava o relógio
e abria o estojo
com dedos tão finos,

esguios a ponto
de viver encontros
com átomos, partículas. 

Tocava o pescoço
enquanto trocava
de rua, andando.

Entrando na sombra,
luzindo distante
e sumindo de tudo.

As praças lotaram
e as noites ficaram
um pouco mais longas.
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Vida adulta

As mãos do maestro
seguram a semana
em cadências polifônicas,
guardando os metais
para outros carnavais
e o conjunto de cordas
para outras insônias.

Primeiro, invoca os fagotes
soprando o ar pesado,
de rancor e de enfado,
que surge entre as nuvens,
cinzas e dispépticas
no prelúdio operário.

Depois, dissipa a tensão
com o suspiro espaçado
de um piano adulado
pelas mãos delgadas
daquela esperança vazia,
que vai sendo preenchida
e se juntando aos ruídos
no mesmo diapasão.

Depois, desponta a violência
no encontro eufórico
dos tambores do futuro
com aquele contrabaixo
que por vezes é dedilhado
pela alegria, emotivo,
e por vezes é rasgado
pelo arco, sem motivo.

Depois, as cordas vibram
atentas ao movimento
enfático do tempo regente,
vertendo sons deprimentes
em uma ópera, um réquiem
de quem se espera a morte
com satisfação oculta.

Por fim, o ar se condensa
e o silêncio se instaura
no momento apoteótico
em que as mãos agarram
a partícula de sentido
em um oceano de moléculas
entrelaçadas na camada
chamada "vida adulta".
50

Desejo racional

Beijar-te
até que o inefável
torne-se tão lógico
quanto um sonho
decifrado nas linhas
de um plano cartesiano:
limites no infinito.
47

Caminhada

Vou cruzando aquela esquina
por onde o vento pondera
flores níveas, amarelas,
ônix, cobalto e granada.

Qual pétala iridescente
brilha assim, auspiciosa,
quando a náusea se instaura?

Sigo encarando a campina,
onde a geada prospera
em brumas baixas e mazelas
apoiadas na alvorada.

Qual cristal, impiamente,
faz do gelo uma vistosa
imagem do que a dor restaura?

Vou seguindo pela dúvida,
ciente de que a resposta
talvez esteja em outra rota.
64

Nascer da semana

A barriga aumenta
na mesma proporção
que as barreiras,
teimosas e nevoentas,
ainda que intransponíveis.

Um eterno ensaio
de mentiras espinhentas,
de alopecia androgênica,
vertigem, desmaio
e insumo para crises.

Lábios cerrados
sob a serra volumosa
de imagens várias,
rancor populado
pela falta de amor próprio.

Com certa perícia
o ânimo logo entalha
uma ruga de desgosto,
mas não a vitalícia
que é insígnia do tempo.

Aos poucos, torna-se uma
a ideia hipocondríaca
de faltar, aqui dentro,
aquela pluma
com a qual se assina

o próprio contentamento.
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Um dia comum

Minhas preocupações ingênuas
avultam-se em aves pequenas,
revoam os velhos dilemas
e partem para a liberdade
sem saber onde encontrá-la.

Sobrevoam toda a cidade
em uma nuvem bela e cética,
em uma proposta asséptica
de eliminar qualquer vaidade
e extinguir a espécie humana.

Mas cada pássaro do bando
desmancha-se ao vento indolente,
traz nas penas o desencanto
de quem reprime a obliquidade
por verdades já poentes.

Como é triste a ingenuidade,
o irromper de linhas francas
em pontos ainda comedidos,
preocupar-se com o possível
quando o real nos desaponta.

Mesmo assim, as aves restantes
percorrem o céu lavrado
e encontram, estupefatas,
o alvorecer da liberdade
em um dia comum, cinzento.
78

Suspiros de amor

Ceifa-me a vitalidade.
Suas flores cacheadas
embalam-me na paisagem
de alpendres adornados
com frases tocantes,
retiradas de túmulos. 

Seus beijos assombram
o canto mais iluminado
de uma alma avultada
pela constrição do abraço,
pela oxidação do afeto,
suspenso em camadas
agudas de necessidade.

E o seu andar vacilante
compensa a rigidez
de um amor agarrado,
de um ímpeto animalesco
denominado "amor"
apenas pela falta
de um termo adequado
ao tom vernacular.

Sua voz é o cutelo
que corta e separa
qualquer liberdade.
Seu choro é a agulha
penetrando meus olhos
e drenando a pupila.
Suas palavras são dores
organizadas em verso
no poema-navalha
dedicado ao pescoço.

Mesmo sua súplica
tem algo de pecado.
Mesmo seu gemido
tem algo de mártir.
E quando olho o relógio
já é hora de partir,
mas você não parte.
Nós permanecemos,
como sombras teimosas
imitando uma pessoa
que nunca existiu
sob o espectro óptico.
111

As teclas do piano

As teclas do piano sussurram,
demandam o inclinar da cabeça
para que se ouça em pleno tom
as verdades da alma sustenida.
Esse acorde, repetido ad nauseam,
é exatamente o som da tua vida.
Uma garoa, simples e sentimental,
retorcida entre as nuvens cheias.
O branco da neblina e o negro
dos olhos secos que observam...

As teclas do piano sussurram
e vertem lágrimas da harmonia,
cuspindo cifras melodiosas
em um refrão de covardias.
Seus dedos cansados arrastam
uma música feita para acabar,
uma súbita vontade de ouvir
aquilo que ninguém sabe entoar.
Muito menos você, bem menos.
Sua música é mera excrescência
de uma garganta secundária
por onde é impossível se comunicar.

As teclas do piano sussurram,
brancas e pretas na madeira.
Contam sua história inteira
e não deixam sequer uma dúvida
para mantê-la viva no segundo.
Ninguém irá ler sua partitura,
muito menos entender o símbolo
que representa sua clave.
As palavras não foram feitas
para você, instrumento humano.
Serás sempre incompreensível
como o ruído quase inaudível
que deduzem ser do piano.
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Por outras memórias

Por outras memórias
eu aniquilo a história
para nutrir a fantasia.

Por outras memórias
eu preparo a lâmina
e cogito um seppuku.

Por outras memórias
eu abandono o desejo
para tornar-me objeto.

Por outras memórias
eu embarco no vento
e escoo o céu azul.

Por outras memórias
eu performo Midas
e amputo as mãos.

Por outras memórias
eu invento um órgão
que circule esperança.

Por outras memórias
eu aquieto a batida
da própria obsessão.

Por outras memórias
eu troco o imaculado
em prol das sardas.

Por outras memórias
eu vejo crisântemos
no sorriso mais vil.

Por outras memórias
eu torno-me asceta
e castro os sentidos.

Por outras memórias
eu deixo meu corpo
olvidar a precedência.

Por outras memórias
eu aceito o inexistir,
como se fosse exorável.
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