Atentam contra o próprio argumento aqueles que dizem que Deus intensifica-se na imagem da tragédia.
De um avião que sobrevoa para o abismo há de se esperar que os ateus estejam rezando para qualquer divindade, não é?
Primeiro: podes atestar que essa divindade é a mesma do Santo Evangelho? Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?
Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber que tua fé é um frágil reflexo pueril de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?
Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem? Sabes o que significa amar o próximo ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?
Julgas com a certeza de um Rei entre Reis. Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado. Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos. Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.
Excitas-te com a imagem do inferno? Abusaste das existências mais pudicas deste planeta, mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! Recortastes os versículos que convém ao teu jogo, mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.
Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada e explicável neste mundo absurdo, é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.
Não servem de exemplo para nada. Mas julgam. Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam. Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.
Te alegras com a morte de um ateu? Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente, sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?
Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade de haver um céu conforme as Escrituras. Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?
Reflita, pelo amor ao teu dogma. Pelo amor de Deus.
196
Antonio
Vento que outrora semeou a vida. Outro vento, sopro do morro santo. Brecha que antecipou sua partida Antes do ano entoar o último canto. Imagens batidas de uma criança: Xícaras, gaita, resmungo e cuidado. Imagens de um homem e sua herança: Nostalgia, afeto e amor imaculado. Honestamente, vejo-te no vento Olhando seu neto, um pouco enfadado.
193
22/10/2023
Tenho acumulado tentativas com a teimosia de um parvo. Deixado para a última hora o que já não podia esperar. Gargalhado sobre as migalhas de uma tristeza convalescente. Decifrado todos os livros pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão, como se lessem um prefácio e, atônitos, estimassem tratar-se de outro livro qualquer. Outrem. Pois saibam que nem mesmo o bruxulear da consciência alheia é capaz de emitir luz que encontre a saída para o labirinto falado em que tranquei-me, jogando fora a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem a bandeira negra do dia passado. Encarem-me, mas suspirem, como se experimentassem saudades. Assustem-se com a sombra que remete ao corpo um dia existente. Deixem-me assim, a sete palmos de todo esse fingimento protocolar. Mas quando eu chego no ofício... mas quando eu bebo o santo licor de toda essa indiferença de nuvens opacas... mas quando vejo-me na tela sem ver-me além da verossimilhança... posso jurar ser verdadeiro. Morbidamente verdadeiro.
319
Sentimentos de um bobo
No mais, me sinto sozinho. Sinto a falta de um abraço não dado, por desalinho. Sei que perfaço o palhaço.
Sei que esta feição não ajuda e que o reclame enfastia, mas tu estavas sempre muda, fingindo que eu não existia.
Se fingir é natural, comprazo-me à natureza. Deixo a vida como tal e parto, junto à tristeza.
214
Lancinante
Olhe nossa vida fatiada, meu amor. A cadência desses traumas dilaceraram nosso sorriso sincero? As fendas em nossas almas verteram o sonho da alegria inocente? São os olhos que deflagram o quanto desconfiamos de tudo e todos, crianças ininterruptas encarando a ausência dos pais na cama fria, quando surgem pesadelos.
Olhe com que força me abraças, minha vida. Como se eu fosse essa ponte sobre o lago da sua própria ansiedade. Acontece que me afogo e ninguém me escuta convulsionar. Sei bem que tu escutarias se não fosses como eu, uma colcha retalhada pelo tempo e pelo mundo. E agora, meu amor, o que haverá de nós? Pássaros sem canto algum.
Olhe para os meus olhos, doce andorinha. A fratura em nossas asas não apaga o traço dessa estranha verdade: permaneces tão sozinha quanto eu permaneço inseguro e covarde.
199
O mensageiro da alegria
Há dias em que imagino a terra colidindo com Jupiter. Prédios, livros, mentes, corações, mortos, vivos, oceanos, céus, poesia, trânsito, trabalho, ciência, filosofia, camiseta, raios, eu, você e nossos egos. Toda a arrogância despedaçando-se em uma tempestade vermelha centenas de vezes maior do que tudo que conhecemos. Veja se há qualquer subjetividade em compor o óleo sobre tela de uma atmosfera intransponível. Jupiter... extinguiste a mansarda por onde olhava-se o topo do átomo e dizia-se: ali está o universo. E o pior de tudo, nada mudou. "Sem ti correrá tudo sem ti". Há outros, ainda maiores. Há infinitas insignificâncias em um mar de bactérias confusas. Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me. Já não posso suportar Jupiter cada vez mais perto. Espante-o.
297
Trasnsmutação
Seu suspiro leve flutua ao ouvido e repousa em mim, trocando por chumbo as plumas irrequietas de mais um engano.
28
Secura lacrimal
Os sonhos perfuram uma realidade transposta, um engordar-se cúmplice das lágrimas secas no sertão do fim previsto.
O que eu posso fazer, além de sonhar e comer, na falta de um encanto que embale aquele canto espaçado e lânguido que julguei ser do colibri, mas que era meu. Saía de mim.
Agora, o pesar evade por todos os poros, por todas as oportunidades que nunca existiram, mas que passaram a existir no momento em que a angústia ajustou nosso ponteiro.
Mais um verso desconexo. Mais uma vida cronometrada. Mais um chão a ser pisado. Mais um sonho assassinado antes mesmo de eclodir no desespero do despertar.
Para que levantar, se a gravidade ainda insiste em pressionar a cefaleia, prostrar as minhas ideais e enrugar a ousadia sem baixar-me uma gota de lágrima?
30
Carnaval pela janela
O calor embevece a fileira de ébrios transbordando no sol,
brasileiros legítimos puxando a alegria sem variar no anzol.
Dedicados ao corpo, ao trigo deglutido sob lábios alcoólicos,
Como iconoclastas destruindo o exercício do cogitar simbólico.
Tornar-se desejado tornou-se objetivo da multidão letárgica.
Deixar-se abandonado, sem pensar no sentido, é mister do indivíduo
que negociou sua alma pela autêntica sensação de se estar completado,
sem medo do carrasco mergulhando a razão na certeza da morte.
Um medo tão quente. Quente a ponto de pular do canto do peito
e, enfim, repousar onde o calor embevece a fileira de ébrios
que caminham, sujeitos ao mesmo sol.
26
Fora das sombra
Não há perfeição ou medo de errar, é tão natural quanto o palpitar, áustero e amargo, do discriminar entre velhos medos e novas coragens.
Abrace ou rejeite, virá e virá, sem tempo que vire, sem ter sabiá que encante o minuto e o faça parar sob as asas fracas de uma clemência.
Na batida franca da inexatidão, procuro escapar e ver suas mãos orquestrando as minhas, como meros vultos no vasto salão de pó imantado; polos desiguais de imperfeição.