Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

https://www.escritas.org/pt/n/eduardo-becher

n. 0000-00-00

Perfil
6 808 Visualizações

Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
Ler poema completo

Poemas

59

Feito Frase

O fusco do lusco-fusco
ofusca a face fútil 
da fera afunilada.

Feito força fraca,
feito faca forte,
feito fúria fagocitada.

Feito feito afeiçoado,
feito fino feixe,
feito fim fadado.

Feito enfado,
feito ficha,
feito finado.

Fato desfeito.

Fita?

Fado.
181

O apelo

Atentam contra o próprio argumento
aqueles que dizem que Deus
intensifica-se na imagem da tragédia.

De um avião que sobrevoa para o abismo
há de se esperar que os ateus
estejam rezando para qualquer divindade, não é?

Primeiro: podes atestar que essa divindade
é a mesma do Santo Evangelho?
Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?

Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber
que tua fé é um frágil reflexo pueril
de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?

Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem?
Sabes o que significa amar o próximo
ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?

Julgas com a certeza de um Rei entre Reis.
Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado.
Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos.
Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, 
desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore
dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.

Excitas-te com a imagem do inferno?
Abusaste das existências mais pudicas deste planeta,
mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! 
Recortastes os versículos que convém ao teu jogo,
mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.

Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada
e explicável neste mundo absurdo,
é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.

Não servem de exemplo para nada. Mas julgam.
Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam.
Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.

Te alegras com a morte de um ateu?
Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente,
sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?

Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade
de haver um céu conforme as Escrituras.
Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?

Reflita, pelo amor ao teu dogma.
Pelo amor de Deus.
203

22/10/2023

Tenho acumulado tentativas
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.

Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.

Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.


324

Sentimentos de um bobo

No mais, me sinto sozinho.
Sinto a falta de um abraço
não dado, por desalinho.
Sei que perfaço o palhaço.

Sei que esta feição não ajuda
e que o reclame enfastia,
mas tu estavas sempre muda,
fingindo que eu não existia.

Se fingir é natural,
comprazo-me à natureza.
Deixo a vida como tal
e parto, junto à tristeza.
219

Lancinante

Olhe nossa vida fatiada, meu amor. 
A cadência desses traumas
dilaceraram nosso sorriso sincero?
As fendas em nossas almas
verteram o sonho da alegria inocente?
São os olhos que deflagram 
o quanto desconfiamos de tudo e todos,
crianças ininterruptas
encarando a ausência dos pais na cama fria,
quando surgem pesadelos.

Olhe com que força me abraças, minha vida.
Como se eu fosse essa ponte
sobre o lago da sua própria ansiedade.
Acontece que me afogo
e ninguém me escuta convulsionar.
Sei bem que tu escutarias
se não fosses como eu, uma colcha retalhada
pelo tempo e pelo mundo.
E agora, meu amor, o que haverá de nós?
Pássaros sem canto algum.

Olhe para os meus olhos, doce andorinha.
A fratura em nossas asas
não apaga o traço dessa estranha verdade:
permaneces tão sozinha
quanto eu permaneço inseguro e covarde.





201

O mensageiro da alegria

Há dias em que imagino
a terra colidindo com Jupiter.
Prédios, livros, mentes,
corações, mortos, vivos,
oceanos, céus, poesia,
trânsito, trabalho, ciência,
filosofia, camiseta, raios,
eu, você e nossos egos.
Toda a arrogância despedaçando-se
em uma tempestade vermelha
centenas de vezes maior
do que tudo que conhecemos. 
Veja se há qualquer subjetividade
em compor o óleo sobre tela
de uma atmosfera intransponível.
Jupiter... extinguiste a mansarda
por onde olhava-se o topo do átomo
e dizia-se: ali está o universo.
E o pior de tudo, nada mudou.
"Sem ti correrá tudo sem ti".
Há outros, ainda maiores.
Há infinitas insignificâncias 
em um mar de bactérias confusas.
Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me.
Já não posso suportar Jupiter
cada vez mais perto. Espante-o.
302

Trasnsmutação

Seu suspiro leve
flutua ao ouvido
e repousa em mim,
trocando por chumbo
as plumas irrequietas
de mais um engano.
31

Secura lacrimal

Os sonhos perfuram
uma realidade transposta,
um engordar-se cúmplice
das lágrimas secas
no sertão do fim previsto.

O que eu posso fazer,
além de sonhar e comer,
na falta de um encanto
que embale aquele canto
espaçado e lânguido
que julguei ser do colibri,
mas que era meu. Saía de mim.

Agora, o pesar evade
por todos os poros,
por todas as oportunidades
que nunca existiram,
mas que passaram a existir
no momento em que a angústia
ajustou nosso ponteiro.

Mais um verso desconexo.
Mais uma vida cronometrada.
Mais um chão a ser pisado.
Mais um sonho assassinado
antes mesmo de eclodir
no desespero do despertar.

Para que levantar,
se a gravidade ainda insiste
em pressionar a cefaleia,
prostrar as minhas ideais
e enrugar a ousadia
sem baixar-me uma gota
de lágrima?
39

Carnaval pela janela

O calor embevece
a fileira de ébrios
transbordando no sol,

brasileiros legítimos
puxando a alegria
sem variar no anzol.

Dedicados ao corpo,
ao trigo deglutido
sob lábios alcoólicos,

Como iconoclastas
destruindo o exercício
do cogitar simbólico.

Tornar-se desejado
tornou-se objetivo
da multidão letárgica.

Deixar-se abandonado,
sem pensar no sentido,
é mister do indivíduo

que negociou sua alma
pela autêntica sensação
de se estar completado,

sem medo do carrasco
mergulhando a razão
na certeza da morte.

Um medo tão quente.
Quente a ponto de pular
do canto do peito

e, enfim, repousar
onde o calor embevece
a fileira de ébrios

que caminham, sujeitos
ao mesmo sol.
30

Fora das sombra

Não há perfeição
ou medo de errar,
é tão natural
quanto o palpitar,
áustero e amargo,
do discriminar
entre velhos medos
e novas coragens.

Abrace ou rejeite,
virá e virá,
sem tempo que vire,
sem ter sabiá
que encante o minuto
e o faça parar
sob as asas fracas
de uma clemência.

Na batida franca
da inexatidão,
procuro escapar
e ver suas mãos
orquestrando as minhas,
como meros vultos
no vasto salão
de pó imantado;
polos desiguais
de imperfeição.
31

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.