Lista de Poemas
Momento derradeiro
Com qual crueldade expiramos,
puxando o ar inalcançável,
segurando o intangível
e adentrando o impensável.
Gritamos ao corpo rígido,
mas ele nada responde,
tampouco esconde o medo
que o pensar corresponde.
Ó, fagulha sacra do oblívio,
arranca-me a anestesia,
deixai-me sentir o existir
e negociamos a anistia.
Não me lance à escuridão,
nas estrelas da eternidade,
no entredevorar-se do nada
sob o signo da saudade.
Minha mente embrumada
tateia a chave da memória,
não há lembrança que escape
do decompor-se da história.
Não há mais nada, nem eu.
O estrebuchar orgânico
da engrenagem solta
em uma máquina sem mecânico.
Acabou-se a luz e o expediente,
fim do ciclo de produção,
transformou-se em mero reagente
de outra simples combustão.
puxando o ar inalcançável,
segurando o intangível
e adentrando o impensável.
Gritamos ao corpo rígido,
mas ele nada responde,
tampouco esconde o medo
que o pensar corresponde.
Ó, fagulha sacra do oblívio,
arranca-me a anestesia,
deixai-me sentir o existir
e negociamos a anistia.
Não me lance à escuridão,
nas estrelas da eternidade,
no entredevorar-se do nada
sob o signo da saudade.
Minha mente embrumada
tateia a chave da memória,
não há lembrança que escape
do decompor-se da história.
Não há mais nada, nem eu.
O estrebuchar orgânico
da engrenagem solta
em uma máquina sem mecânico.
Acabou-se a luz e o expediente,
fim do ciclo de produção,
transformou-se em mero reagente
de outra simples combustão.
210
O apelo
Atentam contra o próprio argumento
aqueles que dizem que Deus
intensifica-se na imagem da tragédia.
De um avião que sobrevoa para o abismo
há de se esperar que os ateus
estejam rezando para qualquer divindade, não é?
Primeiro: podes atestar que essa divindade
é a mesma do Santo Evangelho?
Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?
Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber
que tua fé é um frágil reflexo pueril
de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?
Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem?
Sabes o que significa amar o próximo
ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?
Julgas com a certeza de um Rei entre Reis.
Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado.
Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos.
Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos,
desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore
dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.
Excitas-te com a imagem do inferno?
Abusaste das existências mais pudicas deste planeta,
mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio!
Recortastes os versículos que convém ao teu jogo,
mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.
Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada
e explicável neste mundo absurdo,
é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.
Não servem de exemplo para nada. Mas julgam.
Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam.
Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.
Te alegras com a morte de um ateu?
Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente,
sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?
Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade
de haver um céu conforme as Escrituras.
Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?
Reflita, pelo amor ao teu dogma.
Pelo amor de Deus.
aqueles que dizem que Deus
intensifica-se na imagem da tragédia.
De um avião que sobrevoa para o abismo
há de se esperar que os ateus
estejam rezando para qualquer divindade, não é?
Primeiro: podes atestar que essa divindade
é a mesma do Santo Evangelho?
Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?
Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber
que tua fé é um frágil reflexo pueril
de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?
Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem?
Sabes o que significa amar o próximo
ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?
Julgas com a certeza de um Rei entre Reis.
Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado.
Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos.
Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos,
desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore
dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.
Excitas-te com a imagem do inferno?
Abusaste das existências mais pudicas deste planeta,
mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio!
Recortastes os versículos que convém ao teu jogo,
mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.
Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada
e explicável neste mundo absurdo,
é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.
Não servem de exemplo para nada. Mas julgam.
Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam.
Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.
Te alegras com a morte de um ateu?
Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente,
sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?
Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade
de haver um céu conforme as Escrituras.
Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?
Reflita, pelo amor ao teu dogma.
Pelo amor de Deus.
186
22/10/2023
Tenho acumulado tentativas
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.
307
Sentimentos de um bobo
No mais, me sinto sozinho.
Sinto a falta de um abraço
não dado, por desalinho.
Sei que perfaço o palhaço.
Sei que esta feição não ajuda
e que o reclame enfastia,
mas tu estavas sempre muda,
fingindo que eu não existia.
Se fingir é natural,
comprazo-me à natureza.
Deixo a vida como tal
e parto, junto à tristeza.
Sinto a falta de um abraço
não dado, por desalinho.
Sei que perfaço o palhaço.
Sei que esta feição não ajuda
e que o reclame enfastia,
mas tu estavas sempre muda,
fingindo que eu não existia.
Se fingir é natural,
comprazo-me à natureza.
Deixo a vida como tal
e parto, junto à tristeza.
192
Lancinante
Olhe nossa vida fatiada, meu amor.
A cadência desses traumas
dilaceraram nosso sorriso sincero?
As fendas em nossas almas
verteram o sonho da alegria inocente?
São os olhos que deflagram
o quanto desconfiamos de tudo e todos,
crianças ininterruptas
encarando a ausência dos pais na cama fria,
quando surgem pesadelos.
Olhe com que força me abraças, minha vida.
Como se eu fosse essa ponte
sobre o lago da sua própria ansiedade.
Acontece que me afogo
e ninguém me escuta convulsionar.
Sei bem que tu escutarias
se não fosses como eu, uma colcha retalhada
pelo tempo e pelo mundo.
E agora, meu amor, o que haverá de nós?
Pássaros sem canto algum.
Olhe para os meus olhos, doce andorinha.
A fratura em nossas asas
não apaga o traço dessa estranha verdade:
permaneces tão sozinha
quanto eu permaneço inseguro e covarde.
A cadência desses traumas
dilaceraram nosso sorriso sincero?
As fendas em nossas almas
verteram o sonho da alegria inocente?
São os olhos que deflagram
o quanto desconfiamos de tudo e todos,
crianças ininterruptas
encarando a ausência dos pais na cama fria,
quando surgem pesadelos.
Olhe com que força me abraças, minha vida.
Como se eu fosse essa ponte
sobre o lago da sua própria ansiedade.
Acontece que me afogo
e ninguém me escuta convulsionar.
Sei bem que tu escutarias
se não fosses como eu, uma colcha retalhada
pelo tempo e pelo mundo.
E agora, meu amor, o que haverá de nós?
Pássaros sem canto algum.
Olhe para os meus olhos, doce andorinha.
A fratura em nossas asas
não apaga o traço dessa estranha verdade:
permaneces tão sozinha
quanto eu permaneço inseguro e covarde.
177
O mensageiro da alegria
Há dias em que imagino
a terra colidindo com Jupiter.
Prédios, livros, mentes,
corações, mortos, vivos,
oceanos, céus, poesia,
trânsito, trabalho, ciência,
filosofia, camiseta, raios,
eu, você e nossos egos.
Toda a arrogância despedaçando-se
em uma tempestade vermelha
centenas de vezes maior
do que tudo que conhecemos.
Veja se há qualquer subjetividade
em compor o óleo sobre tela
de uma atmosfera intransponível.
Jupiter... extinguiste a mansarda
por onde olhava-se o topo do átomo
e dizia-se: ali está o universo.
E o pior de tudo, nada mudou.
"Sem ti correrá tudo sem ti".
Há outros, ainda maiores.
Há infinitas insignificâncias
em um mar de bactérias confusas.
Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me.
Já não posso suportar Jupiter
cada vez mais perto. Espante-o.
a terra colidindo com Jupiter.
Prédios, livros, mentes,
corações, mortos, vivos,
oceanos, céus, poesia,
trânsito, trabalho, ciência,
filosofia, camiseta, raios,
eu, você e nossos egos.
Toda a arrogância despedaçando-se
em uma tempestade vermelha
centenas de vezes maior
do que tudo que conhecemos.
Veja se há qualquer subjetividade
em compor o óleo sobre tela
de uma atmosfera intransponível.
Jupiter... extinguiste a mansarda
por onde olhava-se o topo do átomo
e dizia-se: ali está o universo.
E o pior de tudo, nada mudou.
"Sem ti correrá tudo sem ti".
Há outros, ainda maiores.
Há infinitas insignificâncias
em um mar de bactérias confusas.
Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me.
Já não posso suportar Jupiter
cada vez mais perto. Espante-o.
265
Trasnsmutação
Seu suspiro leve
flutua ao ouvido
e repousa em mim,
trocando por chumbo
as plumas irrequietas
de mais um engano.
flutua ao ouvido
e repousa em mim,
trocando por chumbo
as plumas irrequietas
de mais um engano.
19
Fora das sombra
Não há perfeição
ou medo de errar,
é tão natural
quanto o palpitar,
áustero e amargo,
do discriminar
entre velhos medos
e novas coragens.
Abrace ou rejeite,
virá e virá,
sem tempo que vire,
sem ter sabiá
que encante o minuto
e o faça parar
sob as asas fracas
de uma clemência.
Na batida franca
da inexatidão,
procuro escapar
e ver suas mãos
orquestrando as minhas,
como meros vultos
no vasto salão
de pó imantado;
polos desiguais
de imperfeição.
ou medo de errar,
é tão natural
quanto o palpitar,
áustero e amargo,
do discriminar
entre velhos medos
e novas coragens.
Abrace ou rejeite,
virá e virá,
sem tempo que vire,
sem ter sabiá
que encante o minuto
e o faça parar
sob as asas fracas
de uma clemência.
Na batida franca
da inexatidão,
procuro escapar
e ver suas mãos
orquestrando as minhas,
como meros vultos
no vasto salão
de pó imantado;
polos desiguais
de imperfeição.
16
Secura lacrimal
Os sonhos perfuram
uma realidade transposta,
um engordar-se cúmplice
das lágrimas secas
no sertão do fim previsto.
O que eu posso fazer,
além de sonhar e comer,
na falta de um encanto
que embale aquele canto
espaçado e lânguido
que julguei ser do colibri,
mas que era meu. Saía de mim.
Agora, o pesar evade
por todos os poros,
por todas as oportunidades
que nunca existiram,
mas que passaram a existir
no momento em que a angústia
ajustou nosso ponteiro.
Mais um verso desconexo.
Mais uma vida cronometrada.
Mais um chão a ser pisado.
Mais um sonho assassinado
antes mesmo de eclodir
no desespero do despertar.
Para que levantar,
se a gravidade ainda insiste
em pressionar a cefaleia,
prostrar as minhas ideais
e enrugar a ousadia
sem baixar-me uma gota
de lágrima?
uma realidade transposta,
um engordar-se cúmplice
das lágrimas secas
no sertão do fim previsto.
O que eu posso fazer,
além de sonhar e comer,
na falta de um encanto
que embale aquele canto
espaçado e lânguido
que julguei ser do colibri,
mas que era meu. Saía de mim.
Agora, o pesar evade
por todos os poros,
por todas as oportunidades
que nunca existiram,
mas que passaram a existir
no momento em que a angústia
ajustou nosso ponteiro.
Mais um verso desconexo.
Mais uma vida cronometrada.
Mais um chão a ser pisado.
Mais um sonho assassinado
antes mesmo de eclodir
no desespero do despertar.
Para que levantar,
se a gravidade ainda insiste
em pressionar a cefaleia,
prostrar as minhas ideais
e enrugar a ousadia
sem baixar-me uma gota
de lágrima?
20
Carnaval pela janela
O calor embevece
a fileira de ébrios
transbordando no sol,
brasileiros legítimos
puxando a alegria
sem variar no anzol.
Dedicados ao corpo,
ao trigo deglutido
sob lábios alcoólicos,
Como iconoclastas
destruindo o exercício
do cogitar simbólico.
Tornar-se desejado
tornou-se objetivo
da multidão letárgica.
Deixar-se abandonado,
sem pensar no sentido,
é mister do indivíduo
que negociou sua alma
pela autêntica sensação
de se estar completado,
sem medo do carrasco
mergulhando a razão
na certeza da morte.
Um medo tão quente.
Quente a ponto de pular
do canto do peito
e, enfim, repousar
onde o calor embevece
a fileira de ébrios
que caminham, sujeitos
ao mesmo sol.
a fileira de ébrios
transbordando no sol,
brasileiros legítimos
puxando a alegria
sem variar no anzol.
Dedicados ao corpo,
ao trigo deglutido
sob lábios alcoólicos,
Como iconoclastas
destruindo o exercício
do cogitar simbólico.
Tornar-se desejado
tornou-se objetivo
da multidão letárgica.
Deixar-se abandonado,
sem pensar no sentido,
é mister do indivíduo
que negociou sua alma
pela autêntica sensação
de se estar completado,
sem medo do carrasco
mergulhando a razão
na certeza da morte.
Um medo tão quente.
Quente a ponto de pular
do canto do peito
e, enfim, repousar
onde o calor embevece
a fileira de ébrios
que caminham, sujeitos
ao mesmo sol.
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