O fusco do lusco-fusco ofusca a face fútil da fera afunilada.
Feito força fraca, feito faca forte, feito fúria fagocitada.
Feito feito afeiçoado, feito fino feixe, feito fim fadado.
Feito enfado, feito ficha, feito finado.
Fato desfeito.
Fita?
Fado.
181
O apelo
Atentam contra o próprio argumento aqueles que dizem que Deus intensifica-se na imagem da tragédia.
De um avião que sobrevoa para o abismo há de se esperar que os ateus estejam rezando para qualquer divindade, não é?
Primeiro: podes atestar que essa divindade é a mesma do Santo Evangelho? Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?
Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber que tua fé é um frágil reflexo pueril de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?
Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem? Sabes o que significa amar o próximo ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?
Julgas com a certeza de um Rei entre Reis. Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado. Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos. Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.
Excitas-te com a imagem do inferno? Abusaste das existências mais pudicas deste planeta, mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! Recortastes os versículos que convém ao teu jogo, mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.
Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada e explicável neste mundo absurdo, é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.
Não servem de exemplo para nada. Mas julgam. Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam. Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.
Te alegras com a morte de um ateu? Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente, sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?
Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade de haver um céu conforme as Escrituras. Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?
Reflita, pelo amor ao teu dogma. Pelo amor de Deus.
203
22/10/2023
Tenho acumulado tentativas com a teimosia de um parvo. Deixado para a última hora o que já não podia esperar. Gargalhado sobre as migalhas de uma tristeza convalescente. Decifrado todos os livros pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão, como se lessem um prefácio e, atônitos, estimassem tratar-se de outro livro qualquer. Outrem. Pois saibam que nem mesmo o bruxulear da consciência alheia é capaz de emitir luz que encontre a saída para o labirinto falado em que tranquei-me, jogando fora a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem a bandeira negra do dia passado. Encarem-me, mas suspirem, como se experimentassem saudades. Assustem-se com a sombra que remete ao corpo um dia existente. Deixem-me assim, a sete palmos de todo esse fingimento protocolar. Mas quando eu chego no ofício... mas quando eu bebo o santo licor de toda essa indiferença de nuvens opacas... mas quando vejo-me na tela sem ver-me além da verossimilhança... posso jurar ser verdadeiro. Morbidamente verdadeiro.
324
Sentimentos de um bobo
No mais, me sinto sozinho. Sinto a falta de um abraço não dado, por desalinho. Sei que perfaço o palhaço.
Sei que esta feição não ajuda e que o reclame enfastia, mas tu estavas sempre muda, fingindo que eu não existia.
Se fingir é natural, comprazo-me à natureza. Deixo a vida como tal e parto, junto à tristeza.
219
Lancinante
Olhe nossa vida fatiada, meu amor. A cadência desses traumas dilaceraram nosso sorriso sincero? As fendas em nossas almas verteram o sonho da alegria inocente? São os olhos que deflagram o quanto desconfiamos de tudo e todos, crianças ininterruptas encarando a ausência dos pais na cama fria, quando surgem pesadelos.
Olhe com que força me abraças, minha vida. Como se eu fosse essa ponte sobre o lago da sua própria ansiedade. Acontece que me afogo e ninguém me escuta convulsionar. Sei bem que tu escutarias se não fosses como eu, uma colcha retalhada pelo tempo e pelo mundo. E agora, meu amor, o que haverá de nós? Pássaros sem canto algum.
Olhe para os meus olhos, doce andorinha. A fratura em nossas asas não apaga o traço dessa estranha verdade: permaneces tão sozinha quanto eu permaneço inseguro e covarde.
201
O mensageiro da alegria
Há dias em que imagino a terra colidindo com Jupiter. Prédios, livros, mentes, corações, mortos, vivos, oceanos, céus, poesia, trânsito, trabalho, ciência, filosofia, camiseta, raios, eu, você e nossos egos. Toda a arrogância despedaçando-se em uma tempestade vermelha centenas de vezes maior do que tudo que conhecemos. Veja se há qualquer subjetividade em compor o óleo sobre tela de uma atmosfera intransponível. Jupiter... extinguiste a mansarda por onde olhava-se o topo do átomo e dizia-se: ali está o universo. E o pior de tudo, nada mudou. "Sem ti correrá tudo sem ti". Há outros, ainda maiores. Há infinitas insignificâncias em um mar de bactérias confusas. Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me. Já não posso suportar Jupiter cada vez mais perto. Espante-o.
302
Trasnsmutação
Seu suspiro leve flutua ao ouvido e repousa em mim, trocando por chumbo as plumas irrequietas de mais um engano.
31
Secura lacrimal
Os sonhos perfuram uma realidade transposta, um engordar-se cúmplice das lágrimas secas no sertão do fim previsto.
O que eu posso fazer, além de sonhar e comer, na falta de um encanto que embale aquele canto espaçado e lânguido que julguei ser do colibri, mas que era meu. Saía de mim.
Agora, o pesar evade por todos os poros, por todas as oportunidades que nunca existiram, mas que passaram a existir no momento em que a angústia ajustou nosso ponteiro.
Mais um verso desconexo. Mais uma vida cronometrada. Mais um chão a ser pisado. Mais um sonho assassinado antes mesmo de eclodir no desespero do despertar.
Para que levantar, se a gravidade ainda insiste em pressionar a cefaleia, prostrar as minhas ideais e enrugar a ousadia sem baixar-me uma gota de lágrima?
39
Carnaval pela janela
O calor embevece a fileira de ébrios transbordando no sol,
brasileiros legítimos puxando a alegria sem variar no anzol.
Dedicados ao corpo, ao trigo deglutido sob lábios alcoólicos,
Como iconoclastas destruindo o exercício do cogitar simbólico.
Tornar-se desejado tornou-se objetivo da multidão letárgica.
Deixar-se abandonado, sem pensar no sentido, é mister do indivíduo
que negociou sua alma pela autêntica sensação de se estar completado,
sem medo do carrasco mergulhando a razão na certeza da morte.
Um medo tão quente. Quente a ponto de pular do canto do peito
e, enfim, repousar onde o calor embevece a fileira de ébrios
que caminham, sujeitos ao mesmo sol.
30
Fora das sombra
Não há perfeição ou medo de errar, é tão natural quanto o palpitar, áustero e amargo, do discriminar entre velhos medos e novas coragens.
Abrace ou rejeite, virá e virá, sem tempo que vire, sem ter sabiá que encante o minuto e o faça parar sob as asas fracas de uma clemência.
Na batida franca da inexatidão, procuro escapar e ver suas mãos orquestrando as minhas, como meros vultos no vasto salão de pó imantado; polos desiguais de imperfeição.