Argotanásia
Mato-me sem coragem alguma.
Lentamente. Gota a gota.
Os outros percebem, mas na vida
não há tempo para morte.
Meu rosto, ceifado pela próprio surto,
encara meu corpo disforme.
Choraria, se houvesse água no canal
já seco pelo sol da aceitação.
Transmutação
Minha cabeça dói.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.
Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
Hic et nunc
Meu coração tem percebido
a intrepidez deste covarde
que o empurra para o abismo
da própria negligência.
Minhas veias calibradas
pela pulsão da morte líquida:
hidráulico abandono de tudo
por uma esperança quase sólida.
Desmancha-se, sólida esperança.
Do pó que é feito sua materialidade
surgirão novas evidências
que justifiquem o ataque cardíaco.
Meus olhos quase fechados.
Tantas coisas que nunca olhei,
cego pela irrascibilidade comum
de quem se enlevou por um amor
inexistente.
Parei meu coração, voluntariamente.
A estupidez fulminou-me os sentidos.
Todos se voltaram para o hic et nunc
e ignoraram o corpo estirado no tempo.
Natal de 23
Fogos. Fogos de Natal.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.
Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.
Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.
Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.
E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.
Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.
Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.
Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.
Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.
Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.
Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?
Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.
Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.
Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.
Promessa Floral
Quase esqueço-me
de arrancar as pétalas
da última flor do lácio.
A noite é curta, e o dia
Longo o bastante para
Olvidar o jardim d'alma.
Se um dia eu esquecer
Da gota do teu orvalho,
Corto-me em teu espinho.
A causa material de um poeta
Do que é feito um poeta
senão de silêncio irresoluto.
Tenho me calado tanto
que chego a falar deveras.
Em meio às conversas banais
consagrago minha quietude.
Sim, a boca emite sons,
mas nada traduz o que me cala.
Tenho admirado-a em silêncio,
fria e constritora qual poesia.
Olho a todos com paixão
inerte, alienada e alienígena.
White Sunday
Se toda essa roupa branca
bastasse para clarear
as veredas da minha alucinação...
Acontece que a esperança
é uma luz pouco difusa
nos corredores da minha retina.
Esquisito
Os seguranças, em frente à porta, disseram:
- que rapaz esquisito, não? -
Ao me verem sair pela rua.
Olhavam-me sem desdém,
tampouco admiração,
como um mero detalhe torto.
Um ladrilho solto, um reflexo.
O aplauso que nunca ocorreu
pelas vias da intimidade.
Fui embora. O assunto sumiu.
Minhas pernas sumiram.
Meu braço sumiu. Olhei-me.
Meu rosto sumiu.
A memória esvaneceu.
O clima melhorou. Um pouco.
Terços e terças
Perder-me.
Olhar para trás
como quem jura
ter visto alguém.
Olhar para frente
como quem mente
e sorri, concorda.
Privar-se.
Enganar o sono
e viver o real
na sombra de tudo.
Ver quem manipula
atuando na cena,
sob a sombra do nada.
Incompreensível?
Morra e vá cuspir
sua praticidade
na manhã do oblívio.
07/11/2023
Você.
Você que afina meus sentimentos
como as cordas de um violino
estendidas sobre o meu coração.
Dorme. Guardo-te sonhos benquistos.
Réplicas. Não há nada que se equipare.
Minha. Tenho rogado aos panteões.
Fácil. Desbrava-me em suas sinfonias.
Sol. Tornar-me-ia regicida para coroar sua lua.
Lado. Dai-me guerra para que eu me alie ao seu.
Sinta. O meu amor desafinando ao vento...
Quando eu chegar até você.
Você.