Transmutação
Minha cabeça dói.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.
Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
Natal de 23
Fogos. Fogos de Natal.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.
Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.
Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.
Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.
E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.
Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.
Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.
Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.
Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.
Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.
Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?
Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.
Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.
Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.
Sambo do dramático
Quando me olham
e me percebem
eu acendo as velas,
afasto a escuridão.
Caminho, leve,
Pois existo além
da minha própria
contravenção
em resistir,
em respirar,
em desejar
que alguém
descubra em minha imagem
uma vantagem qualquer,
um motivo simplório,
para manter-me ao lado,
vir ao meu velório.
E a insegurança
repousa aqui:
na alma de um
desajustado.
Não vou chorar,
pode ir,
já estou muito bem
acostumado.
Promessa Floral
Quase esqueço-me
de arrancar as pétalas
da última flor do lácio.
A noite é curta, e o dia
Longo o bastante para
Olvidar o jardim d'alma.
Se um dia eu esquecer
Da gota do teu orvalho,
Corto-me em teu espinho.
A causa material de um poeta
Do que é feito um poeta
senão de silêncio irresoluto.
Tenho me calado tanto
que chego a falar deveras.
Em meio às conversas banais
consagrago minha quietude.
Sim, a boca emite sons,
mas nada traduz o que me cala.
Tenho admirado-a em silêncio,
fria e constritora qual poesia.
Olho a todos com paixão
inerte, alienada e alienígena.
Esquisito
Os seguranças, em frente à porta, disseram:
- que rapaz esquisito, não? -
Ao me verem sair pela rua.
Olhavam-me sem desdém,
tampouco admiração,
como um mero detalhe torto.
Um ladrilho solto, um reflexo.
O aplauso que nunca ocorreu
pelas vias da intimidade.
Fui embora. O assunto sumiu.
Minhas pernas sumiram.
Meu braço sumiu. Olhei-me.
Meu rosto sumiu.
A memória esvaneceu.
O clima melhorou. Um pouco.
White Sunday
Se toda essa roupa branca
bastasse para clarear
as veredas da minha alucinação...
Acontece que a esperança
é uma luz pouco difusa
nos corredores da minha retina.
Terços e terças
Perder-me.
Olhar para trás
como quem jura
ter visto alguém.
Olhar para frente
como quem mente
e sorri, concorda.
Privar-se.
Enganar o sono
e viver o real
na sombra de tudo.
Ver quem manipula
atuando na cena,
sob a sombra do nada.
Incompreensível?
Morra e vá cuspir
sua praticidade
na manhã do oblívio.
06/11/2023
Por vezes me sinto
como o assum preto
de Gonzaga e Teixeira.
Voando no labirinto
onde ecoa o dueto
de flor e cegueira.
Orvalho e jasmim
percorrem os dias
na razão da primavera.
Acabou-se o festim
das aves e das vias
que a dor pondera.