Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

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Perfil
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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

59

Persona

62

Transmutação

Minha cabeça dói.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.

Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
50

Natal de 23

Fogos. Fogos de Natal.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.

Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.

Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.

Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.

E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.

Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.

Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.

Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.

Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.

Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.

Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?

Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.

Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.

Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.



73

Sambo do dramático

Quando me olham
e me percebem
eu acendo as velas,
afasto a escuridão.

Caminho, leve,
Pois existo além
da minha própria
contravenção

em resistir,
em respirar,
em desejar
que alguém

descubra em minha imagem
uma vantagem qualquer,
um motivo simplório,
para manter-me ao lado,
vir ao meu velório.

E a insegurança
repousa aqui:
na alma de um
desajustado.

Não vou chorar,
pode ir,
já estou muito bem
acostumado.
67

Promessa Floral

Quase esqueço-me 
de arrancar as pétalas
da última flor do lácio.

A noite é curta, e o dia
Longo o bastante para
Olvidar o jardim d'alma.

Se um dia eu esquecer
Da gota do teu orvalho,
Corto-me em teu espinho.
112

A causa material de um poeta

Do que é feito um poeta
senão de silêncio irresoluto. 

Tenho me calado tanto
que chego a falar deveras. 

Em meio às conversas banais
consagrago minha quietude.

Sim, a boca emite sons,
mas nada traduz o que me cala.

Tenho admirado-a em silêncio,
fria e constritora qual poesia.

Olho a todos com paixão
inerte, alienada e alienígena.
93

Esquisito

Os seguranças, em frente à porta, disseram:
- que rapaz esquisito, não? -
Ao me verem sair pela rua.

Olhavam-me sem desdém,
tampouco admiração,
como um mero detalhe torto.

Um ladrilho solto, um reflexo.
O aplauso que nunca ocorreu
pelas vias da intimidade.

Fui embora. O assunto sumiu.
Minhas pernas sumiram.
Meu braço sumiu. Olhei-me.

Meu rosto sumiu.
A memória esvaneceu.
O clima melhorou. Um pouco.
126

White Sunday

Se toda essa roupa branca
bastasse para clarear
as veredas da minha alucinação...

Acontece que a esperança
é uma luz pouco difusa
nos corredores da minha retina.
123

Terços e terças

Perder-me.
Olhar para trás
como quem jura
ter visto alguém.

Olhar para frente
como quem mente
e sorri, concorda.

Privar-se.
Enganar o sono
e viver o real
na sombra de tudo.

Ver quem manipula
atuando na cena,
sob a sombra do nada.

Incompreensível?
Morra e vá cuspir
sua praticidade
na manhã do oblívio.
139

06/11/2023

Por vezes me sinto
como o assum preto
de Gonzaga e Teixeira. 

Voando no labirinto
onde ecoa o dueto
de flor e cegueira.

Orvalho e jasmim
percorrem os dias
na razão da primavera.

Acabou-se o festim
das aves e das vias
que a dor pondera.


157

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