Lista de Poemas
Como parar?
Seu rosto é a seda
que se estende, irretocável,
sobre o lusco-fusco
das montanhas azuis.
Meu rosto é espinha
e tristeza.
Seu corpo é Vênus
para além de Milo, calipígea,
mármore bronzeado
pelo atravessar do coração.
Meu corpo é gordura
empilhada.
-
Em gargalhadas e sorrisos,
esqueço que existo
e sinto-me feliz
ao seu lado.
Entre olhares e silêncio,
desperto de súbito
e concebo, enfim,
nosso retrato:
és uma Helena,
e eu, um Nosferatu.
que se estende, irretocável,
sobre o lusco-fusco
das montanhas azuis.
Meu rosto é espinha
e tristeza.
Seu corpo é Vênus
para além de Milo, calipígea,
mármore bronzeado
pelo atravessar do coração.
Meu corpo é gordura
empilhada.
-
Em gargalhadas e sorrisos,
esqueço que existo
e sinto-me feliz
ao seu lado.
Entre olhares e silêncio,
desperto de súbito
e concebo, enfim,
nosso retrato:
és uma Helena,
e eu, um Nosferatu.
31
Argotanásia
Mato-me sem coragem alguma.
Lentamente. Gota a gota.
Os outros percebem, mas na vida
não há tempo para morte.
Meu rosto, ceifado pela próprio surto,
encara meu corpo disforme.
Choraria, se houvesse água no canal
já seco pelo sol da aceitação.
Lentamente. Gota a gota.
Os outros percebem, mas na vida
não há tempo para morte.
Meu rosto, ceifado pela próprio surto,
encara meu corpo disforme.
Choraria, se houvesse água no canal
já seco pelo sol da aceitação.
75
Hic et nunc
Meu coração tem percebido
a intrepidez deste covarde
que o empurra para o abismo
da própria negligência.
Minhas veias calibradas
pela pulsão da morte líquida:
hidráulico abandono de tudo
por uma esperança quase sólida.
Desmancha-se, sólida esperança.
Do pó que é feito sua materialidade
surgirão novas evidências
que justifiquem o ataque cardíaco.
Meus olhos quase fechados.
Tantas coisas que nunca olhei,
cego pela irrascibilidade comum
de quem se enlevou por um amor
inexistente.
Parei meu coração, voluntariamente.
A estupidez fulminou-me os sentidos.
Todos se voltaram para o hic et nunc
e ignoraram o corpo estirado no tempo.
a intrepidez deste covarde
que o empurra para o abismo
da própria negligência.
Minhas veias calibradas
pela pulsão da morte líquida:
hidráulico abandono de tudo
por uma esperança quase sólida.
Desmancha-se, sólida esperança.
Do pó que é feito sua materialidade
surgirão novas evidências
que justifiquem o ataque cardíaco.
Meus olhos quase fechados.
Tantas coisas que nunca olhei,
cego pela irrascibilidade comum
de quem se enlevou por um amor
inexistente.
Parei meu coração, voluntariamente.
A estupidez fulminou-me os sentidos.
Todos se voltaram para o hic et nunc
e ignoraram o corpo estirado no tempo.
68
A causa material de um poeta
Do que é feito um poeta
senão de silêncio irresoluto.
Tenho me calado tanto
que chego a falar deveras.
Em meio às conversas banais
consagrago minha quietude.
Sim, a boca emite sons,
mas nada traduz o que me cala.
Tenho admirado-a em silêncio,
fria e constritora qual poesia.
Olho a todos com paixão
inerte, alienada e alienígena.
senão de silêncio irresoluto.
Tenho me calado tanto
que chego a falar deveras.
Em meio às conversas banais
consagrago minha quietude.
Sim, a boca emite sons,
mas nada traduz o que me cala.
Tenho admirado-a em silêncio,
fria e constritora qual poesia.
Olho a todos com paixão
inerte, alienada e alienígena.
81
White Sunday
Se toda essa roupa branca
bastasse para clarear
as veredas da minha alucinação...
Acontece que a esperança
é uma luz pouco difusa
nos corredores da minha retina.
bastasse para clarear
as veredas da minha alucinação...
Acontece que a esperança
é uma luz pouco difusa
nos corredores da minha retina.
109
Promessa Floral
Quase esqueço-me
de arrancar as pétalas
da última flor do lácio.
A noite é curta, e o dia
Longo o bastante para
Olvidar o jardim d'alma.
Se um dia eu esquecer
Da gota do teu orvalho,
Corto-me em teu espinho.
de arrancar as pétalas
da última flor do lácio.
A noite é curta, e o dia
Longo o bastante para
Olvidar o jardim d'alma.
Se um dia eu esquecer
Da gota do teu orvalho,
Corto-me em teu espinho.
99
Terços e terças
Perder-me.
Olhar para trás
como quem jura
ter visto alguém.
Olhar para frente
como quem mente
e sorri, concorda.
Privar-se.
Enganar o sono
e viver o real
na sombra de tudo.
Ver quem manipula
atuando na cena,
sob a sombra do nada.
Incompreensível?
Morra e vá cuspir
sua praticidade
na manhã do oblívio.
Olhar para trás
como quem jura
ter visto alguém.
Olhar para frente
como quem mente
e sorri, concorda.
Privar-se.
Enganar o sono
e viver o real
na sombra de tudo.
Ver quem manipula
atuando na cena,
sob a sombra do nada.
Incompreensível?
Morra e vá cuspir
sua praticidade
na manhã do oblívio.
123
Esquisito
Os seguranças, em frente à porta, disseram:
- que rapaz esquisito, não? -
Ao me verem sair pela rua.
Olhavam-me sem desdém,
tampouco admiração,
como um mero detalhe torto.
Um ladrilho solto, um reflexo.
O aplauso que nunca ocorreu
pelas vias da intimidade.
Fui embora. O assunto sumiu.
Minhas pernas sumiram.
Meu braço sumiu. Olhei-me.
Meu rosto sumiu.
A memória esvaneceu.
O clima melhorou. Um pouco.
- que rapaz esquisito, não? -
Ao me verem sair pela rua.
Olhavam-me sem desdém,
tampouco admiração,
como um mero detalhe torto.
Um ladrilho solto, um reflexo.
O aplauso que nunca ocorreu
pelas vias da intimidade.
Fui embora. O assunto sumiu.
Minhas pernas sumiram.
Meu braço sumiu. Olhei-me.
Meu rosto sumiu.
A memória esvaneceu.
O clima melhorou. Um pouco.
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