Lista de Poemas
Constipação
As narinas abertas
haurem o espaço ocluso
com sofreguidão,
não há perspectiva
ou certeza que alente
a desobstrução
da paz enviesada,
da empresa que aliena
por furtar o tempo.
O problema é simples:
não há tempo livre
para se prender,
não há o cacho imaculado
da ninfa inspiradora
roçando-lhe a tez,
muito menos a adaga
da expressão inquisidora
arrepiando o pescoço.
Para onde foi a metáfora?
Só existem metas
e o resto está fora.
Para onde foi o pensar?
Só existe o agir
e todo tempo verbal
se reduz ao presente,
embalado e endereçado
às ilusões futuras.
Respira.
Mais um pouco.
Respira.
Está quase.
É questão de tempo.
Já está saindo.
As horas passam
e nada. Sequer vestígio
daquele dejeto
expelido, geralmente,
no fulcro da rotina
do poeta evanescente.
haurem o espaço ocluso
com sofreguidão,
não há perspectiva
ou certeza que alente
a desobstrução
da paz enviesada,
da empresa que aliena
por furtar o tempo.
O problema é simples:
não há tempo livre
para se prender,
não há o cacho imaculado
da ninfa inspiradora
roçando-lhe a tez,
muito menos a adaga
da expressão inquisidora
arrepiando o pescoço.
Para onde foi a metáfora?
Só existem metas
e o resto está fora.
Para onde foi o pensar?
Só existe o agir
e todo tempo verbal
se reduz ao presente,
embalado e endereçado
às ilusões futuras.
Respira.
Mais um pouco.
Respira.
Está quase.
É questão de tempo.
Já está saindo.
As horas passam
e nada. Sequer vestígio
daquele dejeto
expelido, geralmente,
no fulcro da rotina
do poeta evanescente.
27
Vida Perdida
Uma vida perdida
sob horários passados,
sob o ponto sem vírgula
em um itinerário.
Um atraso espontâneo
sob a rua deserta,
sob a morte oásis
por tudo encoberta.
O grito da ave,
o grito de ave,
o resgate do império
no vício atávico.
A moça que ri,
a moça que chora,
o enlaço que amarra
e pelo qual se implora.
A parte da vida
que parte o humano,
o partir dos andróginos
sem pano ou remendo.
o pender da coragem,
o pendor à insônia,
o distrair-se à vontade
para perder as chaves
dos dias, do cofre,
do sentir, da porta
que se escancara
ao esperar que um dia
A vida pródiga
retorne.
sob horários passados,
sob o ponto sem vírgula
em um itinerário.
Um atraso espontâneo
sob a rua deserta,
sob a morte oásis
por tudo encoberta.
O grito da ave,
o grito de ave,
o resgate do império
no vício atávico.
A moça que ri,
a moça que chora,
o enlaço que amarra
e pelo qual se implora.
A parte da vida
que parte o humano,
o partir dos andróginos
sem pano ou remendo.
o pender da coragem,
o pendor à insônia,
o distrair-se à vontade
para perder as chaves
dos dias, do cofre,
do sentir, da porta
que se escancara
ao esperar que um dia
A vida pródiga
retorne.
23
Tempo e Clima
As gotas da chuva
calam o sal da lágrima.
Quando o sol da sua doçura
evaporará o silêncio?
Não há problema, céu.
Suporto qualquer clima
desde que eu permaneça
sob a sua atmosfera.
calam o sal da lágrima.
Quando o sol da sua doçura
evaporará o silêncio?
Não há problema, céu.
Suporto qualquer clima
desde que eu permaneça
sob a sua atmosfera.
22
Lapso existencial
Perto.
Perto de tudo,
mas nunca próximo
o bastante para
estar dentro.
O que é?
Eu não sei.
Não poderia saber.
Só o que resta
é dançar a valsa
da santa ignorância.
E se é santa,
sinto-me abençoado:
anistiado do beijo
- mas também do bafo,
expulso da festa
- mas também do fim,
sem quem me ame
- mas também invicto,
sem quem veja
- mas também infiltrado,
sem existir
- mas também eterno.
Perto de ser poeta,
mas longe do ritmo.
Perto da bicicleta,
mas longe do pedal.
Perto da alma abjeta,
mas longe da espécie.
Do que é que estou
perto, afinal?
Da figura no espelho
é que estou
mais distante.
Estou no estar da estante?
No andar em Andaluzia?
No sol do mirante?
No fundo do oceano?
Uma linha no plano?
O rosto ameno?
O casal fumegante?
O cinza da quadra
quando a bola passa
na luz do poste?
A viga da ponte?
Mentir é mais fácil:
Sou pai de fulano,
filho de ciclano
e um trabalhador
amante do sucesso
e da família.
Alheio ao protesto
incessante
da consciência,
do absurdo
rastejando no neocórtex
da cabeça animal.
Gânglios basais?
Hábitos transversais?
É tudo cérebro
e eu não tenho
a mais ínfima noção
do que é
essa massa
cinzenta
chamada
esperança
- que resiste
ao constatar
que estamos
perto.
De que?
Eu não sei.
Mas sigo.
Perto de tudo,
mas nunca próximo
o bastante para
estar dentro.
O que é?
Eu não sei.
Não poderia saber.
Só o que resta
é dançar a valsa
da santa ignorância.
E se é santa,
sinto-me abençoado:
anistiado do beijo
- mas também do bafo,
expulso da festa
- mas também do fim,
sem quem me ame
- mas também invicto,
sem quem veja
- mas também infiltrado,
sem existir
- mas também eterno.
Perto de ser poeta,
mas longe do ritmo.
Perto da bicicleta,
mas longe do pedal.
Perto da alma abjeta,
mas longe da espécie.
Do que é que estou
perto, afinal?
Da figura no espelho
é que estou
mais distante.
Estou no estar da estante?
No andar em Andaluzia?
No sol do mirante?
No fundo do oceano?
Uma linha no plano?
O rosto ameno?
O casal fumegante?
O cinza da quadra
quando a bola passa
na luz do poste?
A viga da ponte?
Mentir é mais fácil:
Sou pai de fulano,
filho de ciclano
e um trabalhador
amante do sucesso
e da família.
Alheio ao protesto
incessante
da consciência,
do absurdo
rastejando no neocórtex
da cabeça animal.
Gânglios basais?
Hábitos transversais?
É tudo cérebro
e eu não tenho
a mais ínfima noção
do que é
essa massa
cinzenta
chamada
esperança
- que resiste
ao constatar
que estamos
perto.
De que?
Eu não sei.
Mas sigo.
33
Procura-se
Me olhas como se estivesses
tão perdida quanto eu,
acontece que no labirinto
és meu fio de Ariadne
e eu fortuitamente encontro
a saída em teu gesto,
guiando-me pela bússola
das tuas ruminações.
Acontece que também estás
tão perdida quanto eu,
fui eu quem matei a lógica
e enterrei-a em nosso caos,
deixando-lhe somente dúvida,
corroendo toda a magia
que há na vontade súbita
de encontrar-se na certeza.
Em mim, não há nada certo.
Mimetizo e tropeço,
como um velho decrépito,
nas verdades do peito.
(quantas confissões cabem
entre os lábios daqueles
que pisaram em falso
no dia do pleito?)
Em ti, sinto algo vital,
transbordando ciência,
aniquilando poesia
sob o veto dos afetos,
enfileirados e avulsos
em um códice só teu,
nunca inteiramente livre
do que pulsa no mundo.
Sei que te deixei perdida,
mas é porque sou perdido,
por mais que me encontre
exatamente ao seu lado.
Por mais que me procures
por trás dos dentes tortos,
estarei em outro lugar
entre morte e fábula.
E se me achares, por aí,
saiba que o fio foi cortado
e estaremos isolados
no cartaz de procura-se.
tão perdida quanto eu,
acontece que no labirinto
és meu fio de Ariadne
e eu fortuitamente encontro
a saída em teu gesto,
guiando-me pela bússola
das tuas ruminações.
Acontece que também estás
tão perdida quanto eu,
fui eu quem matei a lógica
e enterrei-a em nosso caos,
deixando-lhe somente dúvida,
corroendo toda a magia
que há na vontade súbita
de encontrar-se na certeza.
Em mim, não há nada certo.
Mimetizo e tropeço,
como um velho decrépito,
nas verdades do peito.
(quantas confissões cabem
entre os lábios daqueles
que pisaram em falso
no dia do pleito?)
Em ti, sinto algo vital,
transbordando ciência,
aniquilando poesia
sob o veto dos afetos,
enfileirados e avulsos
em um códice só teu,
nunca inteiramente livre
do que pulsa no mundo.
Sei que te deixei perdida,
mas é porque sou perdido,
por mais que me encontre
exatamente ao seu lado.
Por mais que me procures
por trás dos dentes tortos,
estarei em outro lugar
entre morte e fábula.
E se me achares, por aí,
saiba que o fio foi cortado
e estaremos isolados
no cartaz de procura-se.
28
Natal de 23
Fogos. Fogos de Natal.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.
Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.
Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.
Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.
E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.
Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.
Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.
Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.
Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.
Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.
Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?
Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.
Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.
Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.
Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.
Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.
Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.
E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.
Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.
Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.
Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.
Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.
Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.
Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?
Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.
Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.
Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.
59
Transmutação
Minha cabeça dói.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.
Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.
Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
37
Sambo do dramático
Quando me olham
e me percebem
eu acendo as velas,
afasto a escuridão.
Caminho, leve,
Pois existo além
da minha própria
contravenção
em resistir,
em respirar,
em desejar
que alguém
descubra em minha imagem
uma vantagem qualquer,
um motivo simplório,
para manter-me ao lado,
vir ao meu velório.
E a insegurança
repousa aqui:
na alma de um
desajustado.
Não vou chorar,
pode ir,
já estou muito bem
acostumado.
e me percebem
eu acendo as velas,
afasto a escuridão.
Caminho, leve,
Pois existo além
da minha própria
contravenção
em resistir,
em respirar,
em desejar
que alguém
descubra em minha imagem
uma vantagem qualquer,
um motivo simplório,
para manter-me ao lado,
vir ao meu velório.
E a insegurança
repousa aqui:
na alma de um
desajustado.
Não vou chorar,
pode ir,
já estou muito bem
acostumado.
54
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