Lista de Poemas
Esperança
Encarar o papel em branco,
a luz que trespassa a cortina,
o sábado em máximo avanço
por sobre semanas infindas.
A aranha tecendo, no canto,
uma teia não resolvida,
capturando o passar das horas
e sorvendo frutos da míngua.
Humano, aranha e flagelo.
O que mais guardar nas retinas?
Um mundo que nada nos guarda
além do que a mente germina.
a luz que trespassa a cortina,
o sábado em máximo avanço
por sobre semanas infindas.
A aranha tecendo, no canto,
uma teia não resolvida,
capturando o passar das horas
e sorvendo frutos da míngua.
Humano, aranha e flagelo.
O que mais guardar nas retinas?
Um mundo que nada nos guarda
além do que a mente germina.
110
Um animal com dor no peito
Algo se ascende, inquebrantável,
no fundo das minhas pálpebras.
É uma luz opaca de coisa alguma,
um ventre nutrindo o ápeiron
em pleno parto de recordações
que não são minhas. O que será?
O que será que causa a dor
que ordena as nuvens do peito
em uma escala tão vespertina,
apenas para que aquele avião
siga rasgando um véu de sonhos
ainda não desvelados? O que será?
Talvez mero princípio do estouro
direcionado para a aorta,
detalhe objetivo da existência
que sopra, em um segundo, aquilo
que sobra quando insistimos
em dividir o que nos resta.
E esse algo permanece, irredutível,
no fundo de todo horizonte.
Eclodindo tal qual uma tempestade
cujos ventos ameaçam edifícios
em uma intenção de Bastilha
- Ainda que inócua, meramente visual.
E eu, que encaro de dentro, fujo.
Percorro o cansaço como um cão
que lambe a mão do dono que o agrediu.
Perco-me naquilo que surge do vácuo
e produzo cinismo e apatia
entre o abrir e fechar das pálpebras.
no fundo das minhas pálpebras.
É uma luz opaca de coisa alguma,
um ventre nutrindo o ápeiron
em pleno parto de recordações
que não são minhas. O que será?
O que será que causa a dor
que ordena as nuvens do peito
em uma escala tão vespertina,
apenas para que aquele avião
siga rasgando um véu de sonhos
ainda não desvelados? O que será?
Talvez mero princípio do estouro
direcionado para a aorta,
detalhe objetivo da existência
que sopra, em um segundo, aquilo
que sobra quando insistimos
em dividir o que nos resta.
E esse algo permanece, irredutível,
no fundo de todo horizonte.
Eclodindo tal qual uma tempestade
cujos ventos ameaçam edifícios
em uma intenção de Bastilha
- Ainda que inócua, meramente visual.
E eu, que encaro de dentro, fujo.
Percorro o cansaço como um cão
que lambe a mão do dono que o agrediu.
Perco-me naquilo que surge do vácuo
e produzo cinismo e apatia
entre o abrir e fechar das pálpebras.
117
Oito de janeiro, 2024
No branco do azulejo
desfiro um soco
para ver no punho oco
qual osso desloca
com maior facilidade.
Na fenda do mesmo osso
encontro quimeras
feitas de sangue e coágulo.
Sou eu, corpo frágil,
invólucro do abstrato.
desfiro um soco
para ver no punho oco
qual osso desloca
com maior facilidade.
Na fenda do mesmo osso
encontro quimeras
feitas de sangue e coágulo.
Sou eu, corpo frágil,
invólucro do abstrato.
139
O Flâneur tropical
Vou decompondo pela rua.
Rogando a beleza do verbo,
deixando no corpo a feiura.
Rasgando a ametista do verso,
extraindo uma rima inconclusa.
Safira nos olhos da moça,
brilho opaco de quem comunga.
Topázio nas mechas da rosa,
bela boêmia da alma imunda.
Caminho, sem jeito ou remorso.
Apoiando-me na face alva
do pássaro bicando o asfalto.
Descobrindo que a tarde assalta
o gosto de qualquer assunto.
Extirparam o aço da lua,
revestindo o fio do machado,
suspendendo o desejo humano
no corte limpo de algum carrasco.
E eu? Vou compondo ao declínio.
Colocando o ouvido no peito,
na parede da controvérsia.
Será que a vida me deu tato
para entender o que tanto dissertam?
Rogando a beleza do verbo,
deixando no corpo a feiura.
Rasgando a ametista do verso,
extraindo uma rima inconclusa.
Safira nos olhos da moça,
brilho opaco de quem comunga.
Topázio nas mechas da rosa,
bela boêmia da alma imunda.
Caminho, sem jeito ou remorso.
Apoiando-me na face alva
do pássaro bicando o asfalto.
Descobrindo que a tarde assalta
o gosto de qualquer assunto.
Extirparam o aço da lua,
revestindo o fio do machado,
suspendendo o desejo humano
no corte limpo de algum carrasco.
E eu? Vou compondo ao declínio.
Colocando o ouvido no peito,
na parede da controvérsia.
Será que a vida me deu tato
para entender o que tanto dissertam?
150
Um dia e um sol
Manhã, apanho o sol invicto
até que a luz escorra fraca
pelas planícies do fracasso,
onde não existe quem desfaça
essa ilusão de cristal sujo,
essa marca de sol algum,
a festa de pássaro branco
onde porto o assum preto.
E por andar no fim do fio,
despenco em alucinações,
tão frágeis quanto o sol anil
que colore minha visão.
Antes de findar a inércia,
a tarde acossa os resultados,
vai buscando extrair da pedra
uma certeza que não seja
fruto de um dia calcinado,
expressão aguda do calcário
jogado no solo-crepúsculo
onde irrompe a flor minguante
da noite. O breu celestial
esconde outra futilidade
sob o lado escuro da lua:
seja concreto, nada mais.
De nada vale a poesia,
retrato no último quarto
que figura no amplo salão
da cabeça volúvel humana,
olha bem o que fazes agora...
quebra de ritmo, verso abaulado
e fugas da realidade
que não se importa se vives
ou se apodreces em teu quarto
-poesia. Uma lua cheia
esperando que a luz cansada
ceife o rufião das palavras.
Tendes coragem para ver
que tudo se encerra na pálpebra,
na certeza incerta de um dia
e um sol a ser apanhado.
até que a luz escorra fraca
pelas planícies do fracasso,
onde não existe quem desfaça
essa ilusão de cristal sujo,
essa marca de sol algum,
a festa de pássaro branco
onde porto o assum preto.
E por andar no fim do fio,
despenco em alucinações,
tão frágeis quanto o sol anil
que colore minha visão.
Antes de findar a inércia,
a tarde acossa os resultados,
vai buscando extrair da pedra
uma certeza que não seja
fruto de um dia calcinado,
expressão aguda do calcário
jogado no solo-crepúsculo
onde irrompe a flor minguante
da noite. O breu celestial
esconde outra futilidade
sob o lado escuro da lua:
seja concreto, nada mais.
De nada vale a poesia,
retrato no último quarto
que figura no amplo salão
da cabeça volúvel humana,
olha bem o que fazes agora...
quebra de ritmo, verso abaulado
e fugas da realidade
que não se importa se vives
ou se apodreces em teu quarto
-poesia. Uma lua cheia
esperando que a luz cansada
ceife o rufião das palavras.
Tendes coragem para ver
que tudo se encerra na pálpebra,
na certeza incerta de um dia
e um sol a ser apanhado.
171
Treze de janeiro, 2024
E você, que amei por tanto tempo,
aparece para lembrar dos acordos
que quebrei por insuficiência,
por covardia nua e vergonha vestida.
Me encara e vê nos dentes tortos
uma razão para a partida,
um motivo para tentar uma última vez
reanimar o coração que palpita
através de gestos mimetizados.
Foi embora, conforme sugeri no início.
Não me deu mais sequer a calma
de saber que está em casa, triste
comigo e nada mais. Apenas comigo.
Chorou um choro distante, rítmico.
Um grito que não é de garganta,
mas de tambor na marcha da culpa,
atingindo o canto mais inaudível
das vielas numa tarde de sábado.
E eu, criatura hedionda e apática,
reservo minha angústia ao verso.
Balbucio em metáforas e abstrações
o que é concreto, claro e retilíneo:
estragastes o que te era imprescindível.
E olhe para ti, aliviado ao confirmar
que ela está em casa, ainda que lânguida.
Respirastes ao saber que não foste
causa de um desastre de marca maior,
mas de um pequeno acidente desses
que matam uma ou duas pessoas
ao invés de dizimar um grupo vasto.
Expulsa, expulsa essa mulher para
um lugar que não reserve um melancólico,
covarde, esquisito, egoísta, cínico
e desmerecedor de tudo. Afasta-me
de qualquer vida que não seja
a que findará no reflexo do espelho.
aparece para lembrar dos acordos
que quebrei por insuficiência,
por covardia nua e vergonha vestida.
Me encara e vê nos dentes tortos
uma razão para a partida,
um motivo para tentar uma última vez
reanimar o coração que palpita
através de gestos mimetizados.
Foi embora, conforme sugeri no início.
Não me deu mais sequer a calma
de saber que está em casa, triste
comigo e nada mais. Apenas comigo.
Chorou um choro distante, rítmico.
Um grito que não é de garganta,
mas de tambor na marcha da culpa,
atingindo o canto mais inaudível
das vielas numa tarde de sábado.
E eu, criatura hedionda e apática,
reservo minha angústia ao verso.
Balbucio em metáforas e abstrações
o que é concreto, claro e retilíneo:
estragastes o que te era imprescindível.
E olhe para ti, aliviado ao confirmar
que ela está em casa, ainda que lânguida.
Respirastes ao saber que não foste
causa de um desastre de marca maior,
mas de um pequeno acidente desses
que matam uma ou duas pessoas
ao invés de dizimar um grupo vasto.
Expulsa, expulsa essa mulher para
um lugar que não reserve um melancólico,
covarde, esquisito, egoísta, cínico
e desmerecedor de tudo. Afasta-me
de qualquer vida que não seja
a que findará no reflexo do espelho.
140
Feito Frase
O fusco do lusco-fusco
ofusca a face fútil
da fera afunilada.
Feito força fraca,
feito faca forte,
feito fúria fagocitada.
Feito feito afeiçoado,
feito fino feixe,
feito fim fadado.
Feito enfado,
feito ficha,
feito finado.
Fato desfeito.
Fita?
Fado.
ofusca a face fútil
da fera afunilada.
Feito força fraca,
feito faca forte,
feito fúria fagocitada.
Feito feito afeiçoado,
feito fino feixe,
feito fim fadado.
Feito enfado,
feito ficha,
feito finado.
Fato desfeito.
Fita?
Fado.
166
Biarticulado
O ônibus vai
e eles ficam.
Por onde anda
quem não vi
mais passar aqui?
Por onde anda
a noite cálida,
sombra da vida?
Por onde anda
o verso triste,
imagens de mim?
O ônibus vai
e leva junto
toda a cidade.
Curitiba foi diluída
no vestido preto
de uma passageira.
O que há
além de ônibus
correndo na veia
da alegria anêmica?
Sinceramente, não sei.
Ouço tudo lá
fora. Aqui dentro
é um silêncio.
O coração bate
no compasso do
ônibus que vai,
mas nós ficamos.
e eles ficam.
Por onde anda
quem não vi
mais passar aqui?
Por onde anda
a noite cálida,
sombra da vida?
Por onde anda
o verso triste,
imagens de mim?
O ônibus vai
e leva junto
toda a cidade.
Curitiba foi diluída
no vestido preto
de uma passageira.
O que há
além de ônibus
correndo na veia
da alegria anêmica?
Sinceramente, não sei.
Ouço tudo lá
fora. Aqui dentro
é um silêncio.
O coração bate
no compasso do
ônibus que vai,
mas nós ficamos.
171
Selvagens
Pólvora em cada gotícula,
em cada fala explosiva
onde a mente perfurada
sangra emoção desejosa.
E os seus lábios contraídos
tangem o contrariado,
enrijecem poesia
e beijam o às da prosa.
Sua mão estendida ao léu,
estátua da revolta,
agarra a fera incontida
como a chispa que se empolga
e ruge, tão absoluta
quanto o ágil palpitar
de um coração corrompido
pelo aceno da lascívia.
Quero-te assim, volumétrica
em qualquer desvelamento
daquilo que somos: bichos
em um cárcere de asfalto.
em cada fala explosiva
onde a mente perfurada
sangra emoção desejosa.
E os seus lábios contraídos
tangem o contrariado,
enrijecem poesia
e beijam o às da prosa.
Sua mão estendida ao léu,
estátua da revolta,
agarra a fera incontida
como a chispa que se empolga
e ruge, tão absoluta
quanto o ágil palpitar
de um coração corrompido
pelo aceno da lascívia.
Quero-te assim, volumétrica
em qualquer desvelamento
daquilo que somos: bichos
em um cárcere de asfalto.
138
Antonio
Vento que outrora semeou a vida.
Outro vento, sopro do morro santo.
Brecha que antecipou sua partida
Antes do ano entoar o último canto.
Imagens batidas de uma criança:
Xícaras, gaita, resmungo e cuidado.
Imagens de um homem e sua herança:
Nostalgia, afeto e amor imaculado.
Honestamente, vejo-te no vento
Olhando seu neto, um pouco enfadado.
Outro vento, sopro do morro santo.
Brecha que antecipou sua partida
Antes do ano entoar o último canto.
Imagens batidas de uma criança:
Xícaras, gaita, resmungo e cuidado.
Imagens de um homem e sua herança:
Nostalgia, afeto e amor imaculado.
Honestamente, vejo-te no vento
Olhando seu neto, um pouco enfadado.
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