Por outras memórias eu aniquilo a história para nutrir a fantasia.
Por outras memórias eu preparo a lâmina e cogito um seppuku.
Por outras memórias eu abandono o desejo para tornar-me objeto.
Por outras memórias eu embarco no vento e escoo o céu azul.
Por outras memórias eu performo Midas e amputo as mãos.
Por outras memórias eu invento um órgão que circule esperança.
Por outras memórias eu aquieto a batida da própria obsessão.
Por outras memórias eu troco o imaculado em prol das sardas.
Por outras memórias eu vejo crisântemos no sorriso mais vil.
Por outras memórias eu torno-me asceta e castro os sentidos.
Por outras memórias eu deixo meu corpo olvidar a precedência.
Por outras memórias eu aceito o inexistir, como se fosse exorável.
119
Um animal com dor no peito
Algo se ascende, inquebrantável, no fundo das minhas pálpebras. É uma luz opaca de coisa alguma, um ventre nutrindo o ápeiron em pleno parto de recordações que não são minhas. O que será?
O que será que causa a dor que ordena as nuvens do peito em uma escala tão vespertina, apenas para que aquele avião siga rasgando um véu de sonhos ainda não desvelados? O que será?
Talvez mero princípio do estouro direcionado para a aorta, detalhe objetivo da existência que sopra, em um segundo, aquilo que sobra quando insistimos em dividir o que nos resta.
E esse algo permanece, irredutível, no fundo de todo horizonte. Eclodindo tal qual uma tempestade cujos ventos ameaçam edifícios em uma intenção de Bastilha - Ainda que inócua, meramente visual.
E eu, que encaro de dentro, fujo. Percorro o cansaço como um cão que lambe a mão do dono que o agrediu. Perco-me naquilo que surge do vácuo e produzo cinismo e apatia entre o abrir e fechar das pálpebras.
127
O Flâneur tropical
Vou decompondo pela rua.
Rogando a beleza do verbo, deixando no corpo a feiura. Rasgando a ametista do verso, extraindo uma rima inconclusa.
Safira nos olhos da moça, brilho opaco de quem comunga. Topázio nas mechas da rosa, bela boêmia da alma imunda.
Caminho, sem jeito ou remorso.
Apoiando-me na face alva do pássaro bicando o asfalto. Descobrindo que a tarde assalta o gosto de qualquer assunto.
Extirparam o aço da lua, revestindo o fio do machado, suspendendo o desejo humano no corte limpo de algum carrasco.
E eu? Vou compondo ao declínio.
Colocando o ouvido no peito, na parede da controvérsia. Será que a vida me deu tato para entender o que tanto dissertam?
159
Treze de janeiro, 2024
E você, que amei por tanto tempo, aparece para lembrar dos acordos que quebrei por insuficiência, por covardia nua e vergonha vestida.
Me encara e vê nos dentes tortos uma razão para a partida, um motivo para tentar uma última vez reanimar o coração que palpita através de gestos mimetizados.
Foi embora, conforme sugeri no início. Não me deu mais sequer a calma de saber que está em casa, triste comigo e nada mais. Apenas comigo.
Chorou um choro distante, rítmico. Um grito que não é de garganta, mas de tambor na marcha da culpa, atingindo o canto mais inaudível das vielas numa tarde de sábado.
E eu, criatura hedionda e apática, reservo minha angústia ao verso. Balbucio em metáforas e abstrações o que é concreto, claro e retilíneo: estragastes o que te era imprescindível.
E olhe para ti, aliviado ao confirmar que ela está em casa, ainda que lânguida. Respirastes ao saber que não foste causa de um desastre de marca maior, mas de um pequeno acidente desses que matam uma ou duas pessoas ao invés de dizimar um grupo vasto.
Expulsa, expulsa essa mulher para um lugar que não reserve um melancólico, covarde, esquisito, egoísta, cínico e desmerecedor de tudo. Afasta-me de qualquer vida que não seja a que findará no reflexo do espelho.
151
Oito de janeiro, 2024
No branco do azulejo desfiro um soco para ver no punho oco qual osso desloca com maior facilidade.
Na fenda do mesmo osso encontro quimeras feitas de sangue e coágulo. Sou eu, corpo frágil, invólucro do abstrato.
149
Um dia e um sol
Manhã, apanho o sol invicto até que a luz escorra fraca pelas planícies do fracasso, onde não existe quem desfaça
essa ilusão de cristal sujo, essa marca de sol algum, a festa de pássaro branco onde porto o assum preto.
E por andar no fim do fio, despenco em alucinações, tão frágeis quanto o sol anil que colore minha visão.
Antes de findar a inércia, a tarde acossa os resultados, vai buscando extrair da pedra uma certeza que não seja
fruto de um dia calcinado, expressão aguda do calcário jogado no solo-crepúsculo onde irrompe a flor minguante
da noite. O breu celestial esconde outra futilidade sob o lado escuro da lua: seja concreto, nada mais.
De nada vale a poesia, retrato no último quarto que figura no amplo salão da cabeça volúvel humana,
olha bem o que fazes agora... quebra de ritmo, verso abaulado e fugas da realidade que não se importa se vives
ou se apodreces em teu quarto -poesia. Uma lua cheia esperando que a luz cansada ceife o rufião das palavras.
Tendes coragem para ver que tudo se encerra na pálpebra, na certeza incerta de um dia e um sol a ser apanhado.
183
Selvagens
Pólvora em cada gotícula, em cada fala explosiva onde a mente perfurada sangra emoção desejosa.
E os seus lábios contraídos tangem o contrariado, enrijecem poesia e beijam o às da prosa.
Sua mão estendida ao léu, estátua da revolta, agarra a fera incontida como a chispa que se empolga
e ruge, tão absoluta quanto o ágil palpitar de um coração corrompido pelo aceno da lascívia.
Quero-te assim, volumétrica em qualquer desvelamento daquilo que somos: bichos em um cárcere de asfalto.
149
Feito Frase
O fusco do lusco-fusco ofusca a face fútil da fera afunilada.
Feito força fraca, feito faca forte, feito fúria fagocitada.
Feito feito afeiçoado, feito fino feixe, feito fim fadado.
Feito enfado, feito ficha, feito finado.
Fato desfeito.
Fita?
Fado.
176
Biarticulado
O ônibus vai e eles ficam. Por onde anda quem não vi mais passar aqui?
Por onde anda a noite cálida, sombra da vida?
Por onde anda o verso triste, imagens de mim?
O ônibus vai e leva junto toda a cidade. Curitiba foi diluída no vestido preto de uma passageira.
O que há além de ônibus correndo na veia da alegria anêmica? Sinceramente, não sei.
Ouço tudo lá fora. Aqui dentro é um silêncio. O coração bate no compasso do ônibus que vai, mas nós ficamos.
181
Momento derradeiro
Com qual crueldade expiramos, puxando o ar inalcançável, segurando o intangível e adentrando o impensável.
Gritamos ao corpo rígido, mas ele nada responde, tampouco esconde o medo que o pensar corresponde.
Ó, fagulha sacra do oblívio, arranca-me a anestesia, deixai-me sentir o existir e negociamos a anistia.
Não me lance à escuridão, nas estrelas da eternidade, no entredevorar-se do nada sob o signo da saudade.
Minha mente embrumada tateia a chave da memória, não há lembrança que escape do decompor-se da história.
Não há mais nada, nem eu. O estrebuchar orgânico da engrenagem solta em uma máquina sem mecânico.
Acabou-se a luz e o expediente, fim do ciclo de produção, transformou-se em mero reagente de outra simples combustão.