Se for apenas seus dedos sinceros tamborilando na mesa e em minha alma, assino o armistício, advogo pela calma. Acontece é que os olhos são severos.
Para mim, sua boca guarda esmeros que só o desejo irrestrito espalma, capaz de fazer-me suar a palma e sussurrar-te o nome em exageros.
E ao olhar-me, busca flechas na algibeira, varando-me com tua face doce, ainda que Ártemis, forte e estonteante.
Assim, fazes meu peito de fogueira e não há, em mim, fumaça que não esboce a vontade de possuir-te a todo instante.
273
Desejo racional
Beijar-te até que o inefável torne-se tão lógico quanto um sonho decifrado nas linhas de um plano cartesiano: limites no infinito.
61
De passagem
Por praças vazias ela percorria duas luzes opostas.
Movia as pupilas como duas ilhas carregadas na noite.
Olhava o relógio e abria o estojo com dedos tão finos,
esguios a ponto de viver encontros com átomos, partículas.
Tocava o pescoço enquanto trocava de rua, andando.
Entrando na sombra, luzindo distante e sumindo de tudo.
As praças lotaram e as noites ficaram um pouco mais longas.
66
Vida adulta
As mãos do maestro seguram a semana em cadências polifônicas, guardando os metais para outros carnavais e o conjunto de cordas para outras insônias.
Primeiro, invoca os fagotes soprando o ar pesado, de rancor e de enfado, que surge entre as nuvens, cinzas e dispépticas no prelúdio operário.
Depois, dissipa a tensão com o suspiro espaçado de um piano adulado pelas mãos delgadas daquela esperança vazia, que vai sendo preenchida e se juntando aos ruídos no mesmo diapasão.
Depois, desponta a violência no encontro eufórico dos tambores do futuro com aquele contrabaixo que por vezes é dedilhado pela alegria, emotivo, e por vezes é rasgado pelo arco, sem motivo.
Depois, as cordas vibram atentas ao movimento enfático do tempo regente, vertendo sons deprimentes em uma ópera, um réquiem de quem se espera a morte com satisfação oculta.
Por fim, o ar se condensa e o silêncio se instaura no momento apoteótico em que as mãos agarram a partícula de sentido em um oceano de moléculas entrelaçadas na camada chamada "vida adulta".
65
Caminhada
Vou cruzando aquela esquina por onde o vento pondera flores níveas, amarelas, ônix, cobalto e granada.
Qual pétala iridescente brilha assim, auspiciosa, quando a náusea se instaura?
Sigo encarando a campina, onde a geada prospera em brumas baixas e mazelas apoiadas na alvorada.
Qual cristal, impiamente, faz do gelo uma vistosa imagem do que a dor restaura?
Vou seguindo pela dúvida, ciente de que a resposta talvez esteja em outra rota.
79
Nascer da semana
A barriga aumenta na mesma proporção que as barreiras, teimosas e nevoentas, ainda que intransponíveis.
Um eterno ensaio de mentiras espinhentas, de alopecia androgênica, vertigem, desmaio e insumo para crises.
Lábios cerrados sob a serra volumosa de imagens várias, rancor populado pela falta de amor próprio.
Com certa perícia o ânimo logo entalha uma ruga de desgosto, mas não a vitalícia que é insígnia do tempo.
Aos poucos, torna-se uma a ideia hipocondríaca de faltar, aqui dentro, aquela pluma com a qual se assina
o próprio contentamento.
103
Um dia comum
Minhas preocupações ingênuas avultam-se em aves pequenas, revoam os velhos dilemas e partem para a liberdade sem saber onde encontrá-la.
Sobrevoam toda a cidade em uma nuvem bela e cética, em uma proposta asséptica de eliminar qualquer vaidade e extinguir a espécie humana.
Mas cada pássaro do bando desmancha-se ao vento indolente, traz nas penas o desencanto de quem reprime a obliquidade por verdades já poentes.
Como é triste a ingenuidade, o irromper de linhas francas em pontos ainda comedidos, preocupar-se com o possível quando o real nos desaponta.
Mesmo assim, as aves restantes percorrem o céu lavrado e encontram, estupefatas, o alvorecer da liberdade em um dia comum, cinzento.
96
Esperança
Encarar o papel em branco, a luz que trespassa a cortina, o sábado em máximo avanço por sobre semanas infindas.
A aranha tecendo, no canto, uma teia não resolvida, capturando o passar das horas e sorvendo frutos da míngua.
Humano, aranha e flagelo. O que mais guardar nas retinas? Um mundo que nada nos guarda além do que a mente germina.
121
As teclas do piano
As teclas do piano sussurram, demandam o inclinar da cabeça para que se ouça em pleno tom as verdades da alma sustenida. Esse acorde, repetido ad nauseam, é exatamente o som da tua vida. Uma garoa, simples e sentimental, retorcida entre as nuvens cheias. O branco da neblina e o negro dos olhos secos que observam...
As teclas do piano sussurram e vertem lágrimas da harmonia, cuspindo cifras melodiosas em um refrão de covardias. Seus dedos cansados arrastam uma música feita para acabar, uma súbita vontade de ouvir aquilo que ninguém sabe entoar. Muito menos você, bem menos. Sua música é mera excrescência de uma garganta secundária por onde é impossível se comunicar.
As teclas do piano sussurram, brancas e pretas na madeira. Contam sua história inteira e não deixam sequer uma dúvida para mantê-la viva no segundo. Ninguém irá ler sua partitura, muito menos entender o símbolo que representa sua clave. As palavras não foram feitas para você, instrumento humano. Serás sempre incompreensível como o ruído quase inaudível que deduzem ser do piano.
113
Por outras memórias
Por outras memórias eu aniquilo a história para nutrir a fantasia.
Por outras memórias eu preparo a lâmina e cogito um seppuku.
Por outras memórias eu abandono o desejo para tornar-me objeto.
Por outras memórias eu embarco no vento e escoo o céu azul.
Por outras memórias eu performo Midas e amputo as mãos.
Por outras memórias eu invento um órgão que circule esperança.
Por outras memórias eu aquieto a batida da própria obsessão.
Por outras memórias eu troco o imaculado em prol das sardas.
Por outras memórias eu vejo crisântemos no sorriso mais vil.
Por outras memórias eu torno-me asceta e castro os sentidos.
Por outras memórias eu deixo meu corpo olvidar a precedência.
Por outras memórias eu aceito o inexistir, como se fosse exorável.