Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

3

Desejo racional

Beijar-te
até que o inefável
torne-se tão lógico
quanto um sonho
decifrado nas linhas
de um plano cartesiano:
limites no infinito.
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Trasnsmutação

Seu suspiro leve
flutua ao ouvido
e repousa em mim,
trocando por chumbo
as plumas irrequietas
de mais um engano.
28

De passagem

Por praças vazias
ela percorria
duas luzes opostas.

Movia as pupilas
como duas ilhas
carregadas na noite. 

Olhava o relógio
e abria o estojo
com dedos tão finos,

esguios a ponto
de viver encontros
com átomos, partículas. 

Tocava o pescoço
enquanto trocava
de rua, andando.

Entrando na sombra,
luzindo distante
e sumindo de tudo.

As praças lotaram
e as noites ficaram
um pouco mais longas.
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