Elaine Guedes

Elaine Guedes

O LIVRO POEMAS EM CORTES PROFUNDOS FOI ESCRITO COM O POETA JOÃO AYRES, AUTOR DO TÍTULO. AQUI CONSTAM APENAS OS POEMAS DA AUTORA. Cantora, compositora, narradora em audiolivros, atualmente cursa música na UFRJ

n. 0000-03-30, Rio de Janeiro

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Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte I - 1

1

What a wonderful world

a mesa pálida e as cadeiras me olhando um olhar morto

em minha volta as coisas what a wonderful world

os porcos gostam da solidão

e posso me lambuzar sozinha

enquanto as paredes aguardam meu movimento

eu em meu canto vazio

what a wonderful world

se é amargo meu gosto ninguem vê, 

what a wonderful world

então me lambuzo e limpo as mãos no avental

os olhos estão no centro da mesa

e não me importo com a comida

sem trocas, nessa manhã cinzenta

what a wonderful world 

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Poemas

31

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte I - 15

15

E o relógio pára para mim
escolho se fruta de vez ou se fico madura na sala escura 
entre quadros degenerados que não dizem nada mas cabem bem de uma só vez na sala 
e eu também
481

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte I - 16

16

Estou só e o mundo lá fora não clama por mim 
aqui estou como estamos todos talvez numa sala vazia 
em que tudo cabe como os retratos apagados do que não existe mais 
ou a pintura apagada do que nunca existiu, 
há dentro de mim um retrato do que  há de vir
464

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte III - 3

3

as ruas barulhentas me apagam eu não ouço
agora as horas correm como dentes em bocas que gargalham
sento-me na pedra a mesma pedra
e há alguma nuvem depois do mar de carbono
Deus me aguarda sou eu
sem espelhos agora que as horas passam correndo
barulhos barulhos que ferem como pedras pontiagudas
no rosto nos lados nas pernas
eu me viro vem por todos os lados
estou aqui sentado
349

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte III - 5

5

Nada dentro talvez porque não sinto o gosto
nem meu nem em meu copo
a bebida evapora leve vai secando e são muitas horas até me livrar do medo
evaporamos numa disputa infernal
eu e o copo
355

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte II - 3

3

bombas bumbs bum tudo dentro de uma vez vem
salas vazias e buracos negros
dentro de mim mora um anjo e só ele me clama em voz surda que eu não ouço de quando em vez
e choro por mim enquanto o tempo passa eu me desmerecendo calado e desnutrido
eu choro
458

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte II - 5

5

Ló teto cobertura transponível no coito proscrito
pedaço semente cozido no escuro
olhos agudos e semicerrados
morando juntos amarrotados
lavavam as frutas em água salgada
e um calor na coluna que nasce desejo
os olhos semicerrados
a boca carne e dentes não gargalham
mordem o fruto mordem a carne mordem e cospem fel

424

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte II - 4

4

Enquanto eu clamo na sala vazia de mim não crio nós
sem mãos
só,  porque me calo enquanto um anjo se apaga no infinito eu
despedaçado lamentoso surdo eu
 
401

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte I - 11

1

falta pouco para saborear minhas entranhas
com sabor de novo
varro na casa meus pedaços
enxugo o sangue derramado com esforço algum estou novo de novo
sou  um vampiro inacabado 
 meu incômodo que nem mortadela fresca
deixa cheiro no ar quando estou faminto eu devoro  queixas com ódio
jogado e misturado
meu sangue quetichupe
sugo
440

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte I - 4

4

lembro da primeira primavera na calçada de mãos dadas com meu pai
lembro de uma rua com portas e janelas fechadas
do silêncio, me lembro 
me lembro de não ir além em passo lento,
do vestido branco e dos cabelos escorridos
nem vento 
nem mesmo o pisar nos gravetos 
não lembro
nem mesmo uma palavra, não lembro
lembro das mãos dadas
e da rua sem esquina
398

Poema do livro Poemas em Cortes Profundos Parte I - 5

 5
   Porém  me voltei  
    lembro dos olhos rastreadores 
    ainda escondido
    e o sol me lembro
    dos meus  olhos puxados,

   de me ver do lado de fora de mim
    eu era um ponto de interrogação
    por detrás das portas e janelas,

    era a esquina e a outra rua do bairro encantado
    meus olhos tinham cabos que se enveredavam
    e ninguém via não via   eu via
    tudo além do silêncio e de uma rua vazia

    Em mim  
485

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