segunda geração romântica
Na madrugada, ela aparece com voz suave e manhosa,
dá-me um beijo gélido e funebre e diz-me 'acompanha-me'
Eu te sigo por entre uma névoa com tua mão na minha. Sinto nos pés uns pedregulhos, logo depois um capim bem aparado. Percebo que quer me levar ao próprio túmulo. Reluto, porém é mais forte que o meu medo.
Dorme comigo hoje, meu preto - ela me fala com voz maviosa nunca ouvida.
Olho-a escandalizado, sem palavras. O único gesto que faço é de me abaixar e de me envolver com meus próprios braços numa posição fetal ao que ela se aproxima por trás.
Sinto novamente a mão dela na minha nuca. Ela beija-me o rosto e diz:
Lembra-se de que você me matou naquela noite sem lua? Acho que mereço mais uma noite contigo.
Entrego-me. Nunca a senti tão quente naquele abraço ao dormirmos, nunca seu beijo foi tão excitante, nunca me senti tão compreendido e amado. Senti arrependimento e tesão.
Amanhece. Retorno à casa. Encontro minha atual esposa.
'Será que se eu matá-la, vou poder viver o regozijo do princípio? O que tem na morte que afasta os momentos ruins e que acolhe o que gerou a felicidade?'
Dou 3 machadas.
único esperançoso 1
nunca amei
vi que muitos também não
e não é fácil perceber quando se sente
não há um aviso
um alarme ou uma voz robótica dizendo:
'A-go-ra, vo-cê es-tá a-man-do'
a tecnologia do amor ainda é defeituosa
então quando se sabe?
pessoas maduras dizem ' quando estou confortável e bem ao lado da pessoa'
ou 'amor é decisão…eu decido amar'
pra mim,nada disso
e pretendo aqui expressar o que penso sobre ele
amor é construção,cujos elementos ou a ordem deles não são conhecidos
é certo que não há padrão nesse assunto
o 'eu te amo' pode muito bem surgir depois daquele sorriso tímido e espontâneo com olhos rútilos que damos quando pensamos em quem amamos em potencial
amor é um obra com mais de um construtor, às vezes com mais de dois(os ditos 'colaboradores')
não se sabe bem quem põe o primeiro tijolo
ou qual tijolo é suficiente para tornar a obra completa e pronta
(a construção acaba?)
Há quem diga que o primeiro tijolo é o 'vamos tomar algo?'
há amores que param no meio,sem teto,apenas com os alicerces…há amores que nem nascem: fica apenas o terreno,sobre o qual caminham vários andarilhos do universo romântico ou os urubus do amor,aqueles que se aproveitam da fragilidade de um sem-teto recente
há amores que são levantados na chuva de um dos construtores
importante lembrar: se não houver sol sobre os construtores, a casa não cresce
os alicerces não são suficientes
são o mínimo
e o que são eles?
confiança,respeito,transparência e responsabilidade
ai,se isso bastasse pra amar…
há algo a mais
e isso varia de casal pra casal
aqui entra a autenticidade e a personalidade de cada amor
a construção nem sempre segue uma mesma velocidade
no início, o desejo de estar perto é absoluto
tudo flui facilmente
as risadas tem o mesmo som
os olhares se encontram e conversam
há períodos,no entanto,de neblina,a obra para
nesses instantes,há de se ter coragem pra
construir em meio a trovões
a decisão e o racional devem prevalecer
só não se pode deixar tudo parado pq,senão,o demolidor,o tempo,age
em todo desabrochar do amor,o poder corrosivo do tempo está sempre presente:
amar é lutar contra o efeito natural da desconstrução
amores têm janelas
não para serem invadidas ou para um dos amantes fugir,apesar de acontecer bastante
janelas,na verdade, são feitas para contemplar o que está em volta,pra respirar,pra observar sua casa anterior,
com o fito de não ser cativo do próprio amor
um amor sem janela é uma doença asfixiante
let****
não sou mais eu e deixei de ser por você
hoje encontro-me sem rumo e a luz, que antes habitava em mim,apagou-se
inesperadamente
amar é isso não é?
um tatear no escuro,onde não se enxerga o outro e nem a si mesmo
um querer voltar à luz ainda que deseje seguir a voz que o chama com uma ternura ardilosa
um querer voltar ao que era,embora não relute em ser paradoxal
que amor não é confuso?
amar pressupõe não ser pra ter
após a escuridão,a penumbra
vejo tua silhueta
tuas curvas me convencem a ficar
morro no caminho
minha última lembrança?
teus dedos escapando dos meus
teu riso escarninho e teus pezinhos pálidos e cheirosos
beijados: beijos de adeus.
único esperançoso 2
dar um tempo é construir anexo à casa
um cantinho em cima com bastante cupim
como é de se esperar,quanto mais tempo se permite estar assim, mais corrosão se tem no todo
portanto,dar um tempo é condenar a casa à demolição lenta e trágica
importante é saber que a casa,depois de um tempo, só cresce quando outro amor nasce
não há expansão sem um terceiro amor
a expansão é extensão
e aí que as janelas e as portas devem ser aumentadas
a contemplação se torna mais constante e repetitiva,assim como a respiração(ufa!)
esse outro amor é fruto
não é segundo andar
é ampliação
porque amores não se sobrepõem
não competem
são bolhas que,ao se unirem, engrandecem
não amei
mas cada vez mais conheço sobre a engenharia do amor
espero que nós todos possamos ser melhores construtores
acredito que ainda levantaremos monumentos pra essa entidade indefinível
até lá,que nos prepararemos e que busquemos os materiais dentro de nós mesmos…dentro do nosso amor-próprio.
carta que encontrei 1
O amor platônico é aquele vivenciado à distância, porém, com a proximidade, ele se arrefece e se torna fria. Amores frios não existem. Então como algo pode ser e não ser? A resposta é que não é. Impossível, você bem sabe, que não existe algo que seja verdade e mentira. Então amores platônicos não existem? Então que nome dou a esse sentimento que intensifica meu amor por ti? Que nome dou a isso que, caindo um cheiro específico no meu olfato, desperta-se uma memória que sempre, mas sempre, gera as mesmas atitudes em mim: meu braço, como num desmaio, descola do meu corpo e, mole, cai sem que eu note; minha boca abre uma fenda, através da qual, lanço suspiros rítmicos que mais parecem um assobio melodioso; meu queixo se ergue acompanhando minha cabeça a confrontar o teto, perdida, como minha mente. Assim se segue. Acho-me depois de uns instantes, a tentar saber qual pensamento me ocupava antes de ser dominado. É ditoso ser tomado pela tua presença, mas tudo tem um limite, e preciso me concentrar.
Voltando ao que estava falando, já me perdi, olha só?! Pois então, que sentimento é esse, se o amor platônico não existe ou é paradoxal? A palavra 'saudade' vem a sua mente. Mas será mesmo? A saudade, por acaso, é prima ou irmã do amor ou existem amores sem saudades? Amores desapegados são desapegados da saudade? Ou dela são íntimos?
ósculo
ela sabe que vai beijar, mas não se espera por beijo
apenas acontece, e o inesperado o define
beijo é surpresa
forçoso é dizer que é uma conquista
porque conquista pressupõe luta
e beijo é dança
a apreensão, a dilatação pupilar, a mão nervosa e até suada sem rumo, perdendo-se nas costas, encontrando-se na nuca, tamborilando um bom pagode no corpo dela...a falta de sintonia inicial ou o encaixe perfeito, a música ao fundo emoldurando os dois,
a intimidade conquistada no beijo, aprofundada na língua e finalizada no selinho com os olhos grudados, devorando um ao outro
bukovski estava certo: o beijo, às vezes, é até melhor que s*x*
carta que encontrei 2
Digo então que é impossível amar sem saudade, porém me convenço que há saudades benéficas e saudades destrutivas. Começo pela ruim. A destrutiva é saudade do outro e o esquecimento de si. Nesse caso, o próprio amor-próprio se vê prisioneiro da saudade de outrem. É melhor pensar no outro do que pensar em si. Obviamente que essa saudade não é causa do mal, mas sim consequência. Não carece de mais explicações sobre.
Já a outra é sincera e transparente. Fala contigo, te segreda planos, aventuras, presentes, tudo com ou para a amada. Entretanto, é breve, pelo menos em relação ao instante que se inicia, porque há repetições. Ela é como um alívio do amor, e não como lamento de não estar perto. Digo isso porque saudade, se considerada como queixa ou lamúria, não teria ligação com o amor. Portanto, é alívio, alívio por me ver distante, mas saber que amo e sou amado, apesar da distância. Saber que do lado de lá, tu sente o mesmo que eu, que tu suspira, que planeja, que me sente…suspiros de alívio, sim, só podem ser… alívio por saber que esse amor só tende a crescer, porque amores não são como plantas,ou seja, dependentes sempre da presença do seu sol. Este amor nosso é fora de nós, iniciou em algum momento, e, como que em um carrossel, gira com energia inesgotável.
O que fazemos então não seria aumentar o amor, a partir de demonstrações afetivas monumentais, elogios, presentes e outros atitudes ou objetos que nos disseram que eram fermentos do amor? Ao meu ver, não. Isso tudo é adorno. O que temos que fazer é enfeitar nosso carrossel. Colocar lâmpadas bonitas e coloridas, cavalos brincalhões e divertidos, limpar de qualquer poeira ou sujeira. Dessa forma, a cada eu te amo nosso, confirmamos que nosso carrossel é deslumbrante e firme.
Quero colocar um cavalo roxo com rosa, num estilo surpreendente, então vou dizer que te quero, te quero, **** te amo, te amo, ****, e como, num mantra, desejo continuar nessa meditação por mais e mais tempo. Sinto saudades, saudades de te olhar, ranger a cama, me divertir com nossas conversas, ouvir você, observando o quão linda e inteligente é a mulher que tenho. Continuo aqui suspirando aliviado por te amar
Te vejo já já, ****