Lista de Poemas

a partir de um direct

sento no muro da frente da minha cara, me encosto na parede do vizinho e sinto o frio do cimento nos pés descalços, em poucos instantes, vou me conectar com pessoas desconhecidas, ah, as pessoas desconhecidas
de fato, nem preciso conhecer
às vezes sentir é suficiente
sabemos a progressão de perguntas, onde cada uma leva, são sempre óbvias, a intimidade precisa vencer o tédio do script, muitas vezes, de conhecer e procurar por isso
é mais fácil investir naquilo que já é me dado
contemplo o que está em volta: as velhinhas falam sobre a novela e joãozinho, que se formou em jornalismo e agora trabalha na globo, 'me lembro dele ainda pequeno brincando aqui em frente, aurora'
senhor joão descasca uma laranja, reclinado no respaldar acolchoado da sua cadeira artesanal, refletindo sobre os gomos, absorto naquilo, nem atende ao chamado de alexandrino, que vem entabular conversa todo santo dia, ao que velho joão reponde monossilábico, 'o que tá fazendo, jão?'
sinto o cheiro de cozido da minha mãe invadir a rua, rio quando alguém passa a frente e inspira com força o ar em volta, arfando de uma fome criada.

certo, esse é o momento, observo a lua, observo aquela estrela que menos brilha, dou-lhe um nome, que hoje não me recordo, entro em transe. não sou solitário e, só pelo fato, de afirmar isso, você irá reputar-me como um, porém a contemplação é a mais sociável das atividades humanas.
quando se contempla, contempla-se a si, concorda? talvez nesse ponto estejamos confirmando uma solitude, mas, se assim for, em um festa tumultuada, nos voltamos para nós mesmos, extravasando o que somos, estando presente, portanto, a solidão. na contemplação como essa minha agora da lua, me conecto com todos, todos que contemplam também, e, como haverá sempre alguém contemplando, nunca estarei só. 
quero dizer que me conecto com a moça, no interior, que desenvolve um romance na cabeça, encostada à janela, com o atendente da lojinha do centro; com o velhinho, munido de um rádio, em sua cadeira de balanço, ouvindo bregas, pensando na amélia, amor do passado que ganha mais beleza na própria mente, e tentando se convencer que a verá em outro plano; com a mãe solitária, em uma relação abusiva, que chora, fazendo as lágrimas desviarem as rugas e os sulcos do rosto já envelhecido, ao lembrar do filho que fugiu do pai por ser gay; com o marinheiro, em alto mar, avaliando se realmente tudo valia a pena; com o suicida, que planeja formas de morrer para acabar a dor, essa dor que ele não compreende, que não tem contornos nem forma, que não mais faz chorar, que o torna esquálido, porém é medroso, tem medo de se cortar, tem medo do julgamento da própria morte, não, ele não quer morrer, mas pensa, pensa bastante, porque pensar já é uma espécie de morte, a simulação da morte é a mais próxima daquilo que a alma dele anseia, o satisfaz naqueles instantes, e é disso que ele precisa, precisa sentir a morte todo dia, uma hora ela acontece, pelo menos, é o que acredita, agora ele pega no celular, o psicólogo disse para ele ligar para o número 188 quando se sentisse mal, ele liga, é trigésimo sétimo da lista de espera, desliga o celular, e torna a contemplar a lua, tamborilando os dedos em uma madeira qualquer; com o  amante vivendo seu primeiro amor, o desabrochar, ele pensou em surpreender a amada com flores, analisa se está sendo precipitado, ocorre de pensar em pedir conselhos aos amigos, porém os amigos não entenderiam o que ele sente, ririam dele, então ele decidi fazer algo por conta própria, aquilo lhe causa arrepios, sente-se vivo.

conecto-me com esses e com muitos, sou curioso, vejo alguém e quero saber como ela alimenta alma, quais são suas músicas, o que a faz chorar, há pessoas que me intrigam: são felizes demais, sorriem o tempo inteiro, a felicidade é, de certa forma, uma ofensa, em todo instante, há mais tristeza do que felicidade, a felicidade constrange e não pense que euforia, nos teus momentos sociais, é felicidade, a euforia está mais próxima da tristeza do que você pensa, a euforia é escape e todo escape não é feliz, uma vez que a felicidade pressupõe encarar-se, olhar-se no espelho e despir-me, mostrar os pelos pubianos, olhar para a flacidez do corpo, aquela incorreção que tanto te preocupa, aquele frizz no cabelo, a desproporcionalidade de alguma parte no corpo, a comparação com a tua colega que tu finge simpatia.
me conecto, repito. a lua está bela mesmo, faz sentido a frase daquelas pessoas 'já viu a lua hoje?', apesar de olharem por apenas 2 seg e recomendaram. sinto a energia, tudo conflui para um ponto no universo, essas impressões todas passam e vagueiam procurando receptores capazes de entender, não as entendo, perco-as, continuo tentando, é difícil, alexandrino se despede do velho joão, as velhas arrumam as cadeiras, paulo chega do trabalho cansado e me cumprimenta, meneio a cabeça, me despeço de todos.


'vem jantar, eduarda'

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.. ... . . ............?

vou em direção à cozinha, na sala, eu paro, atônito, por que toda essa inconstância? apesar de tudo, do que faço, dos meus hábitos, da minha tendência ao flerte obsessivo, quereria eu ser um homem de uma só mulher, viver para uma mulher só, o que pensou vinícius? o que pensou Augusto de A moreninha? o que pensaram todos os inconstantes no amor? a psicologia me aconselha a resignificação, encontrar causas ocultas como, se o psicólogo for freudiano, a de natureza sexual, se não for, provavelmente isso advém da observação daqueles modeladores da sociedade: os pais, que também não têm culpa. vi traições, sim, eu te amos ditos na pressa, abraços frígidos, beijos hipócritas. a inconstância, tida na periferia como traição, e, na elite, como liberdade, só pode ser natural. o homem nasceu pro instável, ele nasce, cresce e todos os verbos seguintes para os quais trabalham a filosofia e os bêbados de uma sábado à noite ou os melancólicos de um domingo macilento. destarte, por que me preocupo em ser o que minha natureza não permite que eu seja? em uma hora, todos os amores acabam? é difícil pra qualquer ser humano chegar a essa conclusão, por isso falam que amor é decisão? que decisão é essa que vai de encontro à minha vontade?

paro, olho para parede, um quadro com duas figuras impassíveis, com pele lisa de uma amarelado diarréico, sem brilho algum, um paletó azul que encontrou a oportunidade rara de se mostrar, um colar e brincos dourados petulantes em dar brilho ao esmaecido cenário, lábios cerrados, não tenciono discorrer sobre interpretações da linguagem corporal, que, à primeira vista, mostra uma mulher contida, retida, vítima de seu tempo, um homem contido, também vítima do seu tempo, não se engane. ele se curva para longe da mulher, ali há o retrato dos meus bisavós, sim, eles que são exemplos da longevidade de uma relação romântica. eles, que nao me sorriem, que me encaram, buscando, na minha alma, fragilidades, e encontrando, é óbvio. não se saciam só com isso, buscam jogar-me na parede, vasculhar meus pensamentos, invadir meus fetiches e minhas idiossincrasias no amor. o que querem? falem! o que buscam em mim? viveram bem, estão imortalizados, num quadro que não representa, na verdade, vocês, não, nada, esse quadro não diz nada sobre vocês, mas diz sobre nós, nós, nós, porque não só sou eu, você, leitor, também é e se preocupa, luta contra isso, seja na vida profissional ou sejam nos focos pessoais e íntimos, se escandaliza com um quadro desses porque é o que você não é, nunca será constante, você amará, se convencerá que é aquela pessoa, se justificará dizendo que sim, mentirá para si mesmo por conveniência, ah, 'é possível se amar com constância', 'cada caso é um caso', ou qualquer cartilha aprendida com gurus de relacionamentos de redes sociais, blogs pobres de conteúdo de valor ou mesmo a partir de um espírito introspectivo e opiniático que pensa que é capaz de analisar o homem, a partir de uma observação acurada . não falo isso com pedantismo, apesar de aparentar ou com a intenção de humilhar, falo como ser humano, contenho em mim a mesma matéria prima que você, certo é que depois te moldaram o você e o não-você a partir daí, mas não muda tanto, há mudanças de humor, pode ser mais extrovertido do que eu, mas continua inconstante e busca,  com livros de auto-ajuda, com textos de feed, livros banais com palavras difíceis, ou se enclausura em si msm e fica cheio de si msm, como se fosse importante e detentor de alguma verdade que não seja a mediocridade. eu não sou tudo isso por acusar quem eu não conheço? sou, isso invalida tudo que disse? isso demove a verdade? tem mais semelhanças do que diferenças, leitor(a).
portanto, eu execro esse quadro, cuspo-o, afasto-me do que ele representa, entrego ao q sou.
meu bisavô morreu 10 anos antes da minha avó que morreu de velhice, esquecendo-se de mim, gerados dessa relação: 10 filhos, dentro os quais, três morreram de mortes naturais, uma se tornou freira, outra tem alzheimer e o restante se perdeu.
por que essa crescente adoção de relacionamentos abertos, menáges e outras práticas sexuais que antes eram vistas como imorais? ah, você se convenceu de que é possível ser saudável e amar desde que se faça em comum acordo e não haja nenhuma insegurança de ambas as partes, porém não veem que essa é a sintomatologia de nós. liquidez, inconstância, 'é o fim dos tempo', pouco me importa o nome atribuído, vai amar na esquina e, na outra deixar de amar, e a vida não é reta e só tem três quarteirões, o resto são voltas e voltas, há também, em cada esquina, quadros do passado, quadros do seus bisavós, eles vão te acusar, suporte-o e siga ou quebre o quadro.

eu quebro, tomo cuidado para não me cortar com os cacos, sigo pra cozinha, me olho no espelho, início um monólogo insignificante, desses que não fazem sentido, mas preenchem o silêncio, mudei bastante, bastante.
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ósculo

ela sabe que vai beijar, mas não se espera por beijo
apenas acontece, e o inesperado o define
beijo é surpresa
forçoso é dizer que é uma conquista
porque conquista pressupõe luta 
e beijo é dança
a apreensão, a dilatação pupilar, a mão nervosa e até suada sem rumo, perdendo-se nas costas, encontrando-se na nuca, tamborilando um bom pagode no corpo dela...a falta de sintonia inicial ou o encaixe perfeito, a música ao fundo emoldurando os dois,
a intimidade conquistada no beijo, aprofundada na língua e finalizada no selinho com os olhos grudados, devorando um ao outro
bukovski estava certo: o beijo, às vezes, é até melhor que s*x*
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carta que encontrei 2

Digo então que é impossível amar sem saudade, porém me convenço que há saudades benéficas e saudades destrutivas. Começo pela ruim. A destrutiva é saudade do outro e o esquecimento de si. Nesse caso, o próprio amor-próprio se vê prisioneiro da saudade de outrem. É melhor pensar no outro do que pensar em si. Obviamente que essa saudade não é causa do mal, mas sim consequência. Não carece de mais explicações sobre. 
Já a outra é sincera e transparente. Fala contigo, te segreda planos, aventuras, presentes, tudo com ou para a amada. Entretanto, é breve, pelo menos em relação ao instante que se inicia, porque há repetições. Ela é como um alívio do amor, e não como lamento de não estar perto. Digo isso porque saudade, se considerada como queixa ou lamúria, não teria ligação com o amor. Portanto, é alívio, alívio por me ver distante, mas saber que amo e sou amado, apesar da distância. Saber que do lado de lá, tu sente o mesmo que eu, que tu suspira, que planeja, que me sente…suspiros de alívio, sim, só podem ser… alívio por saber que esse amor só tende a crescer, porque amores não são como plantas,ou seja, dependentes sempre da presença do seu sol. Este amor nosso é fora de nós, iniciou em algum momento, e, como que em um carrossel, gira com energia inesgotável.
O que fazemos então não seria aumentar o amor, a partir de demonstrações afetivas monumentais, elogios, presentes e outros atitudes ou objetos que nos disseram que eram fermentos do amor? Ao meu ver, não. Isso tudo é adorno. O que temos que fazer é enfeitar nosso carrossel. Colocar lâmpadas bonitas e coloridas, cavalos brincalhões e divertidos, limpar de qualquer poeira ou sujeira. Dessa forma, a cada eu te amo nosso, confirmamos que nosso carrossel é deslumbrante e firme. 
Quero colocar um cavalo roxo com rosa, num estilo surpreendente, então vou dizer que te quero, te quero, **** te amo, te amo, ****, e como, num mantra, desejo continuar nessa meditação por mais e mais tempo. Sinto saudades, saudades de te olhar, ranger a cama, me divertir com nossas conversas, ouvir você, observando o quão linda e inteligente é a mulher que tenho. Continuo aqui suspirando aliviado por te amar

 Te vejo já já, ****
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à melancolia

visto-me,dia a dia,da melancolia
é minha roupa
minha bebida gelada que bebo sedento
ela não é luz nem escuridão
mas só penumbra
e é na penumbra em que ocorrem as melhores coisas:
a leitura gostosa e sôfrega de um bom livro,a qual se arrasta noite à dentro, e o balbuciar silente dos corações amantes
na meia luz,o luar resplandece,caído em paixões,fazemo-nos homens,mulheres,2,3 e até 4,talvez,num desejo maciço e perene.
sem dúvidas,as delicias da vida se aninham no colo melancólico da penumbra, o qual gozo como animal esbaforido
103

único esperançoso 1

nunca amei
vi que muitos também não
e não é fácil perceber quando se sente
não há um aviso
um alarme ou uma voz robótica dizendo:
'A-go-ra, vo-cê es-tá a-man-do'
a tecnologia do amor ainda é defeituosa
então quando se sabe?
pessoas maduras dizem ' quando estou confortável e bem ao lado da pessoa'
 ou 'amor é decisão…eu decido amar'

pra mim,nada disso
e pretendo aqui expressar o que penso sobre ele

amor é construção,cujos elementos ou a ordem deles não são conhecidos
é certo que não há padrão nesse assunto
o 'eu te amo' pode muito bem surgir depois daquele sorriso tímido e espontâneo com olhos rútilos que damos quando pensamos em quem amamos em potencial


amor é um obra com mais de um construtor, às vezes com mais de dois(os ditos 'colaboradores')
não se sabe bem quem põe o primeiro tijolo
ou qual tijolo é suficiente para tornar a obra completa e pronta
(a construção acaba?)
Há quem diga que o primeiro tijolo é o 'vamos tomar algo?' 

há amores que param no meio,sem teto,apenas com os alicerces…há amores que nem nascem: fica apenas o terreno,sobre o qual caminham vários andarilhos do universo romântico ou os urubus do amor,aqueles que se aproveitam da fragilidade de um sem-teto recente 

há amores que são levantados na chuva de um dos construtores
importante lembrar: se não houver sol sobre os construtores, a casa não cresce

os alicerces não são suficientes
são o mínimo
e o que são eles?
confiança,respeito,transparência e responsabilidade
ai,se isso bastasse pra amar…
há algo a mais
e isso varia de casal pra casal
aqui entra a autenticidade e a personalidade de cada amor

a construção nem sempre segue uma mesma velocidade
no início, o desejo de estar perto é absoluto
tudo flui facilmente
as risadas tem o mesmo som
os olhares se encontram e conversam
há períodos,no entanto,de neblina,a obra para
nesses instantes,há de se ter coragem pra
construir em meio a trovões
a decisão e o racional devem prevalecer
só não se pode deixar tudo parado pq,senão,o demolidor,o tempo,age

em todo desabrochar do amor,o poder corrosivo do tempo está sempre presente:
amar é lutar contra o efeito natural da desconstrução

amores têm janelas
não para serem invadidas ou para um dos amantes fugir,apesar de acontecer bastante
janelas,na verdade, são feitas para contemplar o que está em volta,pra respirar,pra observar sua casa anterior,
com o fito de não ser cativo do próprio amor

um amor sem janela é uma doença asfixiante
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único esperançoso 2

dar um tempo é construir anexo à casa
um cantinho em cima com bastante cupim
como é de se esperar,quanto mais tempo se permite estar assim, mais corrosão se tem no todo
portanto,dar um tempo é condenar a casa à demolição lenta e trágica

importante é saber que a casa,depois de um tempo, só cresce quando outro amor nasce
não há expansão sem um terceiro amor
a expansão é extensão
e aí que as janelas e as portas devem ser aumentadas
a contemplação se torna mais constante e repetitiva,assim como a respiração(ufa!)
esse outro amor é fruto
não é segundo andar
é ampliação
porque amores não se sobrepõem
não competem
são bolhas que,ao se unirem, engrandecem


não amei
mas cada vez mais conheço sobre a engenharia do amor
espero que nós todos possamos ser melhores construtores
acredito que ainda levantaremos monumentos pra essa entidade indefinível
até lá,que nos prepararemos e que busquemos os materiais dentro de nós mesmos…dentro do nosso amor-próprio.
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