A PEDRA É DURA E DURA
A pedra é dura e dura, se diz de rapadura que quebra mordedura, depois o doce não será a cura. Com a alma ferida e os traços expostos, transita nas ruas e submete os rostos a desviarem os olhos. Leva no corpo entulhos do passado, marcas de carimbos para gado. Muitos meneiam a cabeça como sinal de reprovação na figura pálida cheia de interrogação, que se segue impávida. O mundo foi a escola, ao invés de estudar jogava bola, sem mais tardar já pedia esmola, trabalhar não rola quando da ociosidade não se descola. A pedra é dura e dura, a vida louca é escura, dia doce de amargura. Quem te viu, quem te vê, quem sumiu, cadê você? Vagabundeando a mercê, hoje os dias são para aquele que tudo crê. A pedra é dura e dura, esmiúça a dentadura, e sem dentes a boca jura ou mostra desenvoltura para não confessar a arquitetura, que se tornou em impostura.
Erimar Lopes.
CONTINUE ME ESPERANDO
É tarde e eu preciso ir embora amor
Te deixo o meu coração
Não posso mais sentir a dor
De deixá-la triste na solidão.
Em teus olhos azuis brilhantes
Tuas lágrimas me comovem
Nos meus são tão abundantes
Feito paixão no meu peito correm.
Pelo caminho a saudade
Já vai me matando
Sei que a distância é maldade
Quando se está amando.
Que vontade dos teus beijos
Que me tiram o sono
É tão injusto sem regozijos
Dois amores no abandono.
Mas tudo vai passar
Continue me esperando
Breve voltarei para te buscar
E contigo no altar estarei casando.
Erimar Lopes.
OBRIGATÓRIO QUERER AMAR
Eu preciso ir, necessito ser útil,
Nada importa agora neste momento,
É mister reorganizar,
A dura labuta no matrimônio,
Necessário é encontrar uma porta,
Um vão, uma janela em que entre luz,
Uma pequena fresta onde se possa respirar,
Falta ar, e me vejo atolando,
A instituição mais antiga,
Não pode naufragar.
Não é uma questão de escolha,
Ou de raciocínio lógico,
Mas de obrigação de querer amar.
QUANDO OS ESPINHOS NÃO TE FEREM MAIS
Quando os espinhos não te ferem mais, é porque a dor já foi traspassada e o coração endurecido por tantas cicatrizes curadas. É quando o corpo por tanto sofrer física violência chega a um estágio em que o espírito a sustenta como se estivesse anestesiado.
O VÍCIO QUE O ABORDA
À beira do colapso a mente gira, num pequeno lapso o corpo conjura, e os olhos se confundem entre o real e o imaginário. Salário de sangue nas mãos, enlouquecido em questões sem sentido. Os gritos são de pânico e horror, o cenário causa torpor, tem que ser ilusório. Dá gargalhadas sinistras, dança, corre e pula, em fragmentos de memórias sua insanidade estimula. Está livre de culpa quando se acorda, o coração acelera quando se recorda, mas está preso no vicio que o aborda, que o leva ao sonho inquietante, que transforma a irrealidade em cena chocante nos confins do mundo da surrealidade. Tem tics acordado, parece que vive do outro lado, fala sem nexo sem muito cuidado, o vício que o aborda já o tem dominado.
PERPÉTUO
Eu quis te dar carinho e proteção, tudo o que estava ao alcance das minhas mãos, sempre sonhei poder te ofertar todo o meu amor com sinceridade, firmado nos princípios da fidelidade, respeito e bondade.
Então você viu em mim capacidade, me acolhendo em seus braços e coração, se debruçando em meus ombros, se entregando por amor e emoção. Eu a recebi como um presente mais raro e fortaleci nossa relação.
Me entreguei, me doei, te amei sem precedente, te fiz feliz e recebi todo o amor correspondente, éramos nós naquelas cenas de romance, eram fortes, contundentes, marcantes, para autenticar nossa união vibrante.
Tocar-te e te sentir, te abraçar e transferir todos os sentimentos bons, ter seus beijos e reciprocamente os seus maravilhosos dons. Os nossos planos de cuidarmos um do outro e envelhecermos juntos, naquele juramento mútuo.
Mas você partiu tão de repente não me deixando esperanças, foi tirada de mim em um instante quando eu me sentia tão completo, você se foi, expirou em meus braços, de lembranças vivo repleto e ninguém mais pôde desfazer os nossos eternos laços.
FUI MENINO, RAPAZ, HOJE SOU VELHO
Dói, mas irá passar, dói, mas não irá me matar. É somente questão de tempo para a ferida cicatrizar, depois um pouco de tempo para eu me levantar e seguir o meu caminho no qual devo andar.
Eu já pus os pés na estrada, estou levando a minha bagagem, devido a minha linhagem ela é um pouco pesada, mas eu a suporto com fé e muita coragem, seguindo adiante nesta jornada.
Deixei muitas coisas para trás, o rancor, o ódio e o sentimento de vingança, pesei mesmo foi com amor e esperança a minha bagagem, para poder resistir e não sucumbir nesta longa viagem.
Fui menino, rapaz, hoje sou velho, já no fim da estrada, meus olhos escurecidos, da geração dos meus pais não tenho mais nada, a ferida foi esquecida durante a jornada e por Deus justificada.
Agora resta para a minha alma o descanso, quanto mais dias passam para ele avanço, cumpri minha missão, deixo minha geração e antes da minha morte lhes outorgo boa sorte e eterna redenção.
ÁRVORE EXCELENTE
Uma árvore plantada e crescida, os seus ramos reverdecentes, o seu tronco robusto e os seus galhos proeminentes, as suas flores sorridentes por causa de tantos besouros e abelhas que as fecundam continuamente. É ano bom, o Senhor tem abençoado, nesta árvore as melodias dos pássaros te fazem esquecer o triste passado. Pela alegria das flores, haverão muitos frutos que atrairão muitos amores em virtude do aroma e da beleza destas flores. Esta árvore tem os frutos perenais, suculentos, saborosos e perfumados, e ademais são gratuitos porque o dono dela é o Que tudo fez e tudo faz. Eles são excelentes em todo tempo, saciam a fome da alma, te mantêm revigorado plenamente e o teu espírito acalma.
SEM SABER POR QUE
Passou por mim e me ignorou,
Corri atrás e parei diante dela,
Olhou-me nos olhos e me esnobou,
Fiquei sem saber o que fiz a ela.
Sem dizer uma simples palavra,
Fez o meu mundo desabar,
Terra nova que não se desbrava,
Ela se tornou ao me deixar.
Se ontem estávamos tão bem,
O que houve para agir assim,
Com meu coração a mais de cem,
Negou todo o seu amor por mim.
Não me deu tempo para nada,
Não fiz nada para a desmerecer,
Ó meu Deus que derrocada,
Traz de volta o meu bem querer.
Não tenho notícias do meu amor,
A procuro e não a encontro,
Em meu coração é forte a dor,
Sem a certeza de um reencontro.
Fazia-me ver como é linda a vida,
Em um perfeito sonho de amor,
Numa história tão bela e vivida,
Mas de repente se foi sem temor.
Ipatinga, 02 de julho de 2020.
Erimar Lopes.
ANUNCIAÇÃO
Olha eu falo, escrevo e descrevo
Da face cansada e esbofeteada
Dos olhos chorosos dum servo
Da língua dobrada, espada afiada.
Da boca faminta e ranger de dentes
Dos falsos amigos e lisonjeiros
Dos pés ligeiros para os dementes
Dos laços armados aos tocaieiros.
Da paz infinita dia a dia buscada
Da Graça Bendita gratuitamente
Das boas novas tão ignorada
Do eu mortal, ser impenitente.
Dos dias de luz e das trevas
Dos prantos aos olhos cegos
Da noite infinita sem tréguas
Dos horrores na cruz e pregos.