Eunice Pimentel

Eunice Pimentel

n. 1975 PT PT

n. 1975-12-02

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A vida é a arte do desencontro

"A vida é a arte do desencontro". Cabe a nós, deambulantes, deslindar os nós a que nos propomos ou que o destino nos propôs. Cabe a nós, almas errantes, cortar o fio que nos conduz se assim o entendermos, para isso temos a razão: decidir: deslindar ou romper. Porém há vezes em que a razão é toldada por algo indecifrável, desgraçadamente poderoso. Estanques, em nós, por dentro, já nem o próprio pensamento controlamos e as palavras vagueiam incoerentes, soltas, libertinas (não livres, antes presas, muito presas, prisioneiras, escravas). Todo o ser se transforma, o próprio olhar muda. Brilha desmesuradamente. Cega camufladamente. O sorriso sorri impertinentemente sem motivo aparente. O pensamento descontrolado permite ao sorriso sorrir sem que tivesse perguntado à mente.

Perdidos, nesta arte de desencontros que a vida é, vivemos,  sem saber se vivemos mesmo ou se apenas projetamos nesta vida o esboço de um desenho inacabado, o tronco de uma árvore qualquer,  a asa de um corvo, a cor num pincel, uma tela em branco, vazia, um livro por folhear, desfolhar se a raiva deixar, uma canção por cantar, um poema por fazer, dizer, morrer, um filho por ter, um amor por viver, vinho por beber, mergulho por dar, vestido por vestir, grito por gritar, abafado, mudo. A vida é a arte do desencontro. Cabe a nós deambulantes, deslindar os nós a que nos propomos ou que o destino nos propôs.

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Poemas

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A vida é a arte do desencontro

"A vida é a arte do desencontro". Cabe a nós, deambulantes, deslindar os nós a que nos propomos ou que o destino nos propôs. Cabe a nós, almas errantes, cortar o fio que nos conduz se assim o entendermos, para isso temos a razão: decidir: deslindar ou romper. Porém há vezes em que a razão é toldada por algo indecifrável, desgraçadamente poderoso. Estanques, em nós, por dentro, já nem o próprio pensamento controlamos e as palavras vagueiam incoerentes, soltas, libertinas (não livres, antes presas, muito presas, prisioneiras, escravas). Todo o ser se transforma, o próprio olhar muda. Brilha desmesuradamente. Cega camufladamente. O sorriso sorri impertinentemente sem motivo aparente. O pensamento descontrolado permite ao sorriso sorrir sem que tivesse perguntado à mente.

Perdidos, nesta arte de desencontros que a vida é, vivemos,  sem saber se vivemos mesmo ou se apenas projetamos nesta vida o esboço de um desenho inacabado, o tronco de uma árvore qualquer,  a asa de um corvo, a cor num pincel, uma tela em branco, vazia, um livro por folhear, desfolhar se a raiva deixar, uma canção por cantar, um poema por fazer, dizer, morrer, um filho por ter, um amor por viver, vinho por beber, mergulho por dar, vestido por vestir, grito por gritar, abafado, mudo. A vida é a arte do desencontro. Cabe a nós deambulantes, deslindar os nós a que nos propomos ou que o destino nos propôs.

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O mundo inverte-se


Omundo inverte-se
eeu teimo em não me inverter com ele.
Otempo soa a rapidez de mil relógios
eeu teimo em pará-lo.
Agarraro ferro dos dois ponteiros
eesmagá-los nos dedos.
Sufocaro tempo nos braços
comoa um amante
quenos enterrou o corpo na alma.
772

Reencontro


Noteu olhar me encontro 
etu no meu te perdes...
Nodesencontro do nosso olhar
vivemosa esperança.
Chegade bandeja num cálice
Simples,bordado a mãos de veludo,
esculpidoa beijos.
Bebemosa esperança
Sentimo-la a arder no peito.
Embriagadosde nós
daesperança de nós, sonhamos
coma luz própria,
cintilante,
deum olhar em reencontro…
642

Amor em forma de razão


A urgência do amor isola
a imagem à qual o pensamento sorri.
A imagem ideal que esta mola,
este coração emoldura na imaginação.
A urgência do corpo
da boca.
A urgências das palavras
[sei que me entendes...
sei que me ouves...]
A urgência.
Esta urgência é fatal.
Ésta urgência não é cedência,
é inteligência.
Pensamento.
Coração.
Amor em forma de razão.





659

O amor é experiência metafísica

Oamor é experiência metafísica.
Fascínio.
Meia,total loucura.
Crença,descrença, ilusão.
Beijo.
Oamor é sorriso, gargalhada.
Dançar,cantar alto.
Rir.
Oamor é silêncio.
O amor é lágrimas no silêncio de umabraço.
Capacidade extraordinária.
De aniquilarpessoas,
transformar o mundo inteiro num só lugar
desabitado,deserto.
O amor são dois, apenas dois.
Conjunto de dois.

Oamor sou eu mais tu.


736

Homens de Corda

Fixam-nos.
Esperam-nos.
Enquantoisso, nem coração, nem mente.
Tudopára.
Aguardamnum sossego que nos desassossega o silêncio,
acalma...
Aguardamque sejam vistos.
Aguardamque sejam tocados,
nãona pele no coração.
Aguardam. 

[Aarte de aguardar é uma capacidade que fascina
maseu, eu prefiro a impaciência.] 

Aguardam.
Dá-secorda e eles vivem.
umaespécie de sub vida
umaespécie de sombra da nossa vida
Vivem-nosao segundo
porquesão de corda
esabem que a corda gira no segundo
davida que passa.
Ena lentidão do derradeiro segundo que passou
fixam-nosde novo
maisuma vez
todasas vezes até a mais um fim
eo recomeço
acorda que gira de novo
oprimeiro passo
novossegundos
devida, sub vida
sombrade vida do segundo que passa.

638

Fala de chuva e gente


Um dia perguntei à chuva o tempo
Me respondeu em gotas de pensamento
A mão, o luar e o coração.
Me pediu que lhe trouxesse a nuvem
E a coragem de lhe abraçar.
Lhe respondi que não podia
Gente não abrachuva
Nem abranuvem
E pouco pensa o tempo
Gente falama
Gente ama!
Parou num silêncio de orvalho
E em choro de quem não podia
Não podia também…
Expliquei que sim, podia
Porque na terra amor tem.


Poema escrito, em jeito de homenagem, quando Mia Couto recebeu o Prémio Camões 2013
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