Lista de Poemas
Manhã Fria
A manhã amanheceu fria.
Aquele frio que não assusta,
mas que apenas acalma a alma.
Aquele frio que refresca,
que aquece o coração,
que anima o poeta,
que é temporada para o melancólico.
Aquecido com café forte e quente,
vou imaginando novos sonhos,
novos textos,
novas histórias.
Ansioso pelo futuro,
mas preocupado com quem está presente,
com quem ama,
com quem quer.
A manhã está fria,
mas o coração está quente.
Everson Francisco da Hora Silva
A Esperança
A esperança é regida pela mudança.
Exige atitude,
revela confiança,
apaga o medo
e segue na expectativa.
A esperança da paz,
a espera do futuro,
o esperançoso do amor
encontram sua força
no âmago da subjetividade.
Muitas vezes,
a esperança precisa ser só a dois
e em Deus,
pois muitas são as torcidas contrárias.
Só tem esperança
aquele que sabe esperar com paciência.
Esperança é contrária ao acelerar.
Esperançar é o oposto da pressa
e semelhante ao contemplar.
Por que esperança?
Não sei o que significa para você,
mas, para mim,
esperança supõe sonhos,
percorrendo caminhos
em cada sensação do concreto sensível.
Espero porque amo,
e amo porque espero.
Esperança,
porque meu refúgio é seguro.
Esperança, na verdade,
porque sempre é necessária uma atitude.
A atitude, às vezes, causa medo,
descompassa o coração;
mas, quando tomada,
a resposta logo retorna.
Então, vêm os encontros,
as esperanças.
Esperanças porque querem,
mesmo que digam para não esperançar,
pois pode vir a frustração.
Entretanto, a frustração demonstra
que o ser agiu,
não escondeu seus sentimentos,
quebrou a barreira do gelo
e adentrou o fogo,
ardendo sem se ver.
Esperança é amor.
É sentir sem parar ou guardar.
É poesia de vida
que desvela o oculto
em palavras existentes —
palavras de esperança.
Everson Francisco da Hora Silva
Às águas, sempre às águas
Às águas, sempre às águas!
Elas lavam a alma,
são frescor.
Escorrem dos olhos
como lágrimas de tristeza
ou de felicidade.
Ecoam sonoras
nas cachoeiras,
mas seu canto não inquieta o íntimo:
apenas repousa a alma cansada
pelo peso da urbanização árida,
sem cor
e sem respiro.
As águas estão por toda parte.
Contudo, aquelas que habitam as cachoeiras,
que se ocultam nas entranhas das matas —
ah, essas! —
exigem caminhos longos,
passos persistentes,
quilômetros percorridos
para serem encontradas.
Às águas, sempre às águas!
Outrora riachos,
hoje geradoras de vida,
elas umedecem o agreste sofrido
do coração humano.
Às águas, sempre às águas!
Mas o que seriam sem a sombra?
Sem as árvores que as velam,
que as guardam
e protegem?
Às águas, sempre às águas.
Pois elas nos ensinam
que, ainda que ricas em si mesmas,
sozinhas
não sobrevivem.
Everson Francisco da Hora Silva
A Angústia da Decisão
Sabe quando o coração parece dividido?
Onde me encontro é bom,
é confortável,
é estável,
mas arranca pedaços:
é exigente,
é cansativo.
Ao mesmo tempo em que as multidões aplaudem
ao término da presença,
depois,
a solidão existente,
sem um presente,
escurece toda e qualquer iluminação.
O tempo,
ao mesmo tempo em que parece rápido,
revela sua crueldade:
a distância,
a demora sem esperança.
Então,
quero ser um outro,
mas ambos contêm incertezas.
Assim,
a alma fica angustiada:
para onde vou?
Àquilo que me deixa distante —
ao que é grande, pesado
e que priva —
ou àquilo que pode me deixar próximo,
embora seja trabalhoso?
Pois, perto deste segundo,
a alma encontra
seu repouso na terra.
Everson Francisco da Hora Silva
Comentário sobre Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski
Infeliz do homem que levanta da sua solidão, arranca seu coração em sangue e o entrega a uma flor artificial que não o ama verdadeiramente, que o quer, somente, por momentos de ilusão, enquanto a flor se destina a um outro.
Infeliz do homem que se desfaz, que volta coercivamente para sua escuridão, enquanto a mulher que tanta amara, se escorre, sem dizer adeus, feito cachoeira, ferindo o limite da sua visão.
Para esse homem, o que resta, afinal? Perdoar? Recomeçar? Tentar de novo? Não, não, não....
O que resta é a solidão e o fim de ser, ou seja, a morte de sentido.
Everson Francisco da Hora Silva
Entre Começos e Fins: a Beleza do que Somos
O fim de algo sempre nos faz recordar o caminho percorrido —
os passos dados, as pontes atravessadas, as pedras que nos fizeram parar.
Alguns chegam inteiros, outros, com as marcas do trajeto.
Há sempre um sussurro no coração: poderia ter sido melhor... poderia ter feito melhor.
Mas o que foi vivido já é motivo de louvor.
Olhar o passado com gratidão é aprender a agradecer pelo bem recebido
e, nas feridas, reconhecer que somos apenas humanos.
Não precisamos ser tudo, nem saber tudo —
muito menos correr atrás daquilo que não preenche a alma,
só porque brilha fora de nós.
É belo lembrar o antes do começo
e perceber o quanto já somos em cada sorriso presente,
em cada abraço escolhido,
enfim, em cada um de nós — seres únicos,
nem grandes nem pequenos, apenas singulares e complexos;
alguém vivendo sem medo de deixar o tempo passar,
saboreando cada segundo de paz,
cada encontro inesperado,
cada destino que ainda será traçado.
Everson Francisco da Hora Silva
Identidade Perdida
Ao querer ser tudo e todos, se constrói - se forma - alguém que não sabe quem é.
Everson Francisco da Hora Silva
Ela Vem Sem Avisar
A angústia me visita e, muitas vezes,
não tenho forças nem ânimo para enfrentá-la.
Nesse momento, sinto falta de alguém,
de um abraço quente,
de um porto seguro para ficar.
Temos sentimentos —
alguns bons, felizes —
e outros que nos destroem:
o amor não correspondido,
o futuro incerto,
o medo de nunca encontrar um sentido
pelo qual lutar
e, até mesmo, a sensação de estar perdido,
seguindo sem saber o porquê do meu caminho.
Até posso saber,
mas falta-me coragem
para acreditar e confiar.
Não sei...
A angústia é algo que não se entende;
ela apenas aparece sem avisar
e afeta tanto...
É tristeza,
é choro,
parece que até o oxigênio tem medo dela.
Como disse,
o remédio é apenas um abraço —
de alguém que está longe
ou que já se foi,
de um lugar que não mais existe
e de um tempo que nunca mais voltará.
Ah!
Como dói ser,
viver
e continuar
quando a angústia vem nos visitar.
Everson Francisco da Hora Silva
Hoje Choveu
Hoje choveu,
e eu lembrei de quando era criança,
no sítio da minha vó, na serra,
cercado de mata.
Tudo era fantástico.
Quando a chuva chegava,
já buscávamos a roupa de frio.
Eu me deitava na rede,
perto da janela,
observando os pingos caírem ao chão,
formando poças d’água.
Pela janela entrava
aquele frescor divino
que trazia paz.
Depois, o frio,
mas o cobertor me aquecia.
Como não lembrar também
do cafezinho quente,
do pão caseiro,
nesse tempo de chuva?
Naquele frescor divino
eu me sentia vivo.
Era tudo tão lindo,
e só queria ali permanecer.
Para mim, todos os dias
deveriam ser nublados,
com chuva
e até trovões.
Minha vó dizia
que o trovão era
“Deus ralhando com o mundo”.
Tão simples,
mas sempre falando de Deus.
Depois compreendi
que era apenas um fenômeno natural:
sonoro,
imponente,
e bonito também.
Enfim, não sei vocês,
mas a chuva sempre me recorda
vida e paz.
Ela é fresca,
mas me traz calor —
não o do corpo,
mas o da alma.
Ah, como amo a chuva!
Ela faz as cores mais vivas,
a alma mais leve.
Certo que é obra de Deus:
quão maravilhoso é ver chover
no jardim,
no mundo,
em casa,
em mim.
Lembro ainda:
quando chovia,
eu corria para sentir
seus primeiros pingos.
Era tão bom!
Depois voltava para casa
e já entrava no banho,
sem que minha mãe percebesse.
As roupas molhadas?
Colocava na máquina
em segredo.
Essa é a chuva para mim:
um recomeço de memórias,
uma criança sonhante
que hoje sorri sem perceber,
quando sente novamente a chuva
penetrar na alma
e a tornar feliz.
Everson Francisco da Hora Silva
Comentários (0)
NoComments